Cultura

Viagens na nossa terra: Leça da Palmeira e os “Meninos do Leça” | Maria Estela Guedes

Basta descer as escadas e sair à rua para surgir uma boa oportunidade de foto e por isso de viagem. Não é a distância nem o avião, o Maria Fumaça, o Expresso do Oriente ou o navio hotel que determinam o sucesso de uma viagem. A viagem, se não for interior, pouco ou nada enriquece, resulta apenas em perda de tempo e dinheiro. Já fiz viagens ao estrangeiro de que nada de relevante sobrou. Não vale dar exemplos porque, justamente, o que determina o sucesso ou o insucesso é a nossa disposição, a capacidade de tudo podermos transformar numa descoberta, em fonte de alegria e conhecimento. Uma manhã tranquila no nosso bairro pode fornecer imagens surpreendentes; de uma semana num navio de luxo sobram às vezes marés de enjoos.

 

Foi assim, numa tarde bem disposta, que saí um dia destes com uma amiga para o nosso jornadear semanal de autocarro. Pretexto para uma caminhada emagrecente, enfim, nem tudo são calorias, às vezes a caminhada parece ficar mais elegante do que nós. Apanhamos o primeiro autocarro que aparecer? Sim, apanhámos, ia para Leça, muito bem, vamos para a praia de Leça da Palmeira fazer uma caminhada à beira-mar.

 

Muito vento, ainda Maio ia no seu dealbar, o mar não ajudou, ao vento acrescentou-se o frio, de modo que o passeio, em vez de ser pela beira-mar, entrou para o interior da povoação. E logo aí começaram as descobertas e interrogações, ao ver as placas de identificação das ruas: Rua António Nobre, Rua dos Dois Amigos, Travessa dos Dois Amigos, a efígie do poeta numa casa branca, alta, que decerto já existia no seu tempo, poucos anos antes do da morte, 1900, e onde é possível que tenha passado férias.

 

António Nobre morreu muito novo, da doença que então levou tantos jovens talentosos como ele – a tuberculose. Não é porém António Nobre o único menino do Leça, eram vários, entre eles, o irmão, Augusto Nobre, político, professor universitário, um dos pioneiros da Biologia Marítima em Portugal, Alberto de Oliveira, poeta, e Francisco Newton, naturalista, figura que conheço bastante bem, de o ler e de muitos estudos na área da História Natural. Existe de resto um livro na Internet (Triplov) sobre as suas andanças, assinado por mim e com colaboração de Alexandra Escudeiro (do Jardim Botânico de Lisboa) e Andrés Galera (do CSIC / Consejo Superior de Investigaciones Científicas, Madrid). Cartas da Nova Atlântida é o seu título. 

 

Os jovens passavam férias juntos, divertindo-se nas tropelias que lhes granjearam o nome de “Meninos do Leça”. Hoje a praia do rio Leça foi engolida pelo porto de Leixões, de que guardo memórias de infância: manhãs nubladas, frígidas, de embarque no Alfredo da Silva com destino à Guiné, uma das “possessões” portuguesas do Ultramar. Gosto sempre de recapitular os rótulos: no tempo dos naturalistas brasileiros, último quartel do século XVIII, saídos da Universidade Reformada, das colónias dizia-se “conquistas”; no século seguinte passaram a “possessões”; no tempo em que vivi na Guiné, século XX, classificavam-se como “províncias ultramarinas”. Eram estes os identificadores patentes nos documentos oficiais. Não creio que “colónias” tenha sido designação administrativa. Em suma, os meninos do Leça pertencem à geração das possessões, em especial Francisco Newton (e o seu pai, Isaac Newton, botânico), que coligiu nelas espécimes dos três reinos, e Augusto Nobre, que os estudava no laboratório. Aliás, na metrópole, Augusto Nobre também se dedicou a trabalhos de campo, ou não sejam as memórias dos moluscos terrestres e dulciaquícolas de Portugal a sua coroa de glória como cientista.

 

A Guiné foi uma das províncias exploradas por Francisco Newton para abastecimento dos museus de História Natural, nacionais e estrangeiros, mas sobretudo Museu da Escola Politécnica de Lisboa, onde pontificava um colega de Augusto Nobre, J.V. Barboza du Bocage, a quem escreveu a maior parte das cartas recolhidas no aludido livro sobre a sua atuação nas possessões portuguesas do Ultramar, Cartas da Nova Atlântida. Em teoria, Newton esteve em todas as nossas colónias, mesmo naquelas em que nada nos garante ter procedido a explorações (a não ser um “Newton” perdido no meio de um catálogo de espécies da possessão), caso de Moçambique, e noutras já as fontes garantem ter estado em regime de ubiquidade, como Timor e São Tomé, algo distantes para uma exploração simultânea. A este incansável viajante e coletor dedicou António Nobre um poema, no seu livro . Infelizmente, jamais vi por Matosinhos, sua cidade natal (em princípio), uma placa, uma efígie, um busto em jardim a recordar-lhe os feitos, e nem nos escritórios competentes nos deram nova data exata da sua morte e local único de enterramento, em teoria tão ubíquo como a vida de trabalho, pois se regista nos autos para Porto e Matosinhos. Deve ser ainda hoje figura incómoda para as governações, sempre muito chegadas à racionalidade prática. Enfim, o amigo António celebrou-o em versos que o leitor vai certamente negar ter lido no . Verifique e analise, vale a pena descobri-lo, saber que vício o acompanhou desde os amores por Miss Ale até à cova. 

 

MISS ALE

A Francisco Newton

 

Loira cerveja! amada minha!

Que mal te fiz, estàs zangada?

Estalas, feroz, endiabrada,

Perdes o tom, perdes a linha!

 

A gente, aqui ao pè, visinha,

Recùa, toda apavorada…

Loira cerveja! amada minha!

Que mal te fiz, estàs zangada?

 

Meu coração não adivinha

Pelo que estejas amuada

D’esses teus modos, “Inglesinha”!

Vamos! Socega, minha amada,

Loira cerveja! amada minha!

Maria Estela Guedes (1947) é uma dramaturga, poeta e ensaísta portuguesa. Licenciada pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Tem vários títulos de poesia publicados, dos quais se mencionam os mais recentes: Clitóris Clítoris, Pontevedra e São Paulo, Urutau, 2019; Esta noite dormimos em Tânger, Pontevedra e São Paulo, Urutau, 2020; e Clítoris Clítoris, trilingue, com tradução para espanhol de Berta Lucía Estrada, São Paulo e Fortaleza, Cintra e Arc editoras, 2020. As suas obras de referência são Herberto Helder, Poeta Obscuro  (Lisboa, Moraes Editores, 1979) e A obra ao rubro de Herberto Helder (São Paulo, Escrituras, 2010). Dirige o site Triplov.

 

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