Cultura

Teto e Mirante, a crônica de Mariana Ianelli em “Dia de amar a casa”. E três crônicas. | Alexandre Brandão, Mariana Ianelli

*Prefácio ao livro “Dia de amar a casa”, de Mariana Ianelli, ed. Ardotempo)

«Dia de amar a casa”,de Mariana Ianelli Ed. Ardotempo, 2020. Lançamento Brasileiro.

 

Começo contando o que aconteceu entre o convite recebido para prefaciar este livro e o recebimento do original. Por ser assíduo leitor de Mariana Ianelli, durante a espera, comecei a forçar a memória e, sem me lembrar especificamente de uma crônica, agarrei-me à palavra “casa” como síntese de minhas leituras. Logo depois, chega o material, e Mariana me explica ter demorado um pouco a enviá-lo por ter mexido em alguma coisa e mudado o título. O escolhido, aí está, anuncia o dia de amar a casa. A casa. 

 

O que há na crônica que nomeia o livro? A afirmação de que a casa pode abarcar o mundo. Decerto Mariana está falando com sua pequena Yolanda, dizendo-lhe que o fato de não ir à rua — naquele momento, não por conta da quarentena — não restringe o espaço em que estão e que, em certos dias, da casa deve-se “gozar dos seus recantos mal percebidos”. E emenda: “É quando a sala deixa de ser sala e vira um barco a vela, uma cidadezinha, um hangar para aviões bebês.”

 

A casa de Mariana é o espaço para onde convergem tanto histórias antigas, íntimas e familiares — em especial as da avó —, quanto novas — com destaque para a relação da escritora com a filha —, mas é também, a despeito de seus tijolos e vergalhões, de suas chaves e cômodos, o espaço que se move e acompanha a cronista aonde quer que ela vá. Se muitos escritores fazem da rua a sua casa, a autora deste livro carrega para a rua a sua casa. 

 

A casa em que se está e a que se leva, duas, mas uma só, são sustentadas pelo amor e pelo conhecimento, portanto uma visão amorosa e erudita é o que se oferece ao leitor. O amor não impede, aliás, motiva a autora a se posicionar vigorosamente contra os desmandos do mundo, em particular o que toma conta de nosso país. Passagens bíblicas, referências a santas, santos ou a um provérbio africano, artistas plásticos, escritores e tantos outros fatos, obras e pessoas citados nunca são ilustrações cosméticas, exibição à toa, longe disso, são a luz que clareia, na voz de Ianelli, seus espantos, alegrias, admirações, dúvidas, frustrações, revoltas, anseios, enfim, o que ela sente e reparte.

 

Mariana enfrenta os nós do período conturbado que se estende de 2017, véspera de um ano eleitoral a ser estudado, a 2020, ano da pandemia. Anuncia a tragédia atual até mesmo para Yolanda, um bebê em 2017, com quatro anos em 2020. “Vou esconder da minha filha a guerra desses tempos?”, pergunta-se em A peste e o monstro. E responde: “Não escondo.” 

 

Não esconde da pequena a cara feia do mundo, mas não fica nisso de jeito nenhum. Mariana nos permite acompanhar sua maternidade, feita de brincadeiras, de leituras, pinturas, de sustos e alumbramentos da mãe da única filha. Na convivência entre as duas, lê-se uma aventura, e, na aventura, a mãe será tantas, desde a que nunca acha a menina escondida atrás da cortina até a que, armada de “presas fortes e reluzentes”, espanta a noite — “noite minha”, como faz questão de chamá-la — do caminho da filha. Sendo tantas, não deixará de ser o colo e a preocupação com o futuro, que, preparado hoje pela coragem de jovens como Greta Thunberg, Ahed Tamimi, Yeonmi Park e, em especial, Malala Yousafzai, poderá não ser tão sombrio. Dessa esperança se alimenta Mariana e, com essa esperança, ela alimenta Yolanda. 

 

Em Dia de amar a casa, nos deparamos também com reflexões sobre a amizade; nos encantamos com a “infância dos caminhos” do avô de Mariana, de Picasso e de outros artistas; observamos como a dor, seja de Kafka, Simenon ou Artaud, seja das crianças de Beslan, reverbera na mulher sempre sensível ao sofrimento; ouvimos uma história quase terrível de Lobo Antunes e outra sublime do mesmo Lobo Antunes, que nos são contadas como uma espécie de sondagem sobre os limites da escrita; nos deliciamos com o possível acontecimento por trás de uma foto de Doisneau; nos revoltamos contra aqueles que, durante a pandemia, se preocupam apenas com as cotações da moeda e da Bolsa; acompanhamos atentos uma ou outra meditação sobre o ofício. 

 

Encontramos, ainda, Mariana às voltas consigo mesma; no aniversário, fazendo balanço de tudo e, numa noite de insônia, preocupando-se com quem vai pela escuridão, um bêbado que chuta lata, e com o que parece ter sumido, os morcegos. A cronista alerta que “ouvir morcegos é da ordem da amizade, uma amizade mutuamente azul e discreta” e, noutro momento, que é possível dialogar com as árvores. Estamos diante de “gente que trama vínculos”, uma raridade nestes dias carrancudos. 

 

A porta se abriu, é preciso entrar e, uma vez dentro, deixar-se envolver pelas histórias grudadas nos cômodos e móveis. Também é aconselhável aceitar o convite de Mariana Ianelli para, acolhido pela casa, olhar para a rua — a minha, a sua ou mesmo a daquela criança que, presa numa fronteira ao fugir de seu país, deixa de ter uma rua. 

 

Esta casa é teto e mirante.

 

Três Crônicas do livro “Dia de amar a casa”:

 

A Hora do Gato

 

Todo dia tem sua hora clandestina, dessas que roubamos à transparência e à claridade. Momentos em que a mente vagamundeia, passando a fronteira das nossas horas cheias de propósito. Por fora a fuga quase não se nota (não nos traíssem, quase sempre, os olhos). Estamos aqui e não estamos. Estamos aqui e em outra parte. As circunstâncias mais banais fazem a ponte. Poder ser, por exemplo, o tempo de um café, o tempo de um banho, ou picando tomates. Aproveitamos o oportuno da hora e soltamos os gatos dos nossos pressentimentos, dos nossos desejos cegos, das nossas saudades. Vamos com eles errando por aí, errando com gosto de errar. Monologamos, cantamos baixo, rimos sem razão aparente, fechamos a cara, também sem razão aparente, como que transtornados. Sobrerrondamos ontens e amanhãs. Lembramos de alguém e essa lembrança não necessariamente nos comove, às vezes apenas passa por nós, como que se vingando do nosso desprezo, assim, por se fazer lembrar. Deixada à própria sorte, a mente é esse gato sem raça definida, meio de casa, meio das ruas, em ziguezague pelos telhados, sobre os muros, por caminhos que vão riscando o ar num louco emaranhado invisível, e pode até calhar que um gato passeie com outros gatos, e eles se enrosquem, e troquem cheiros e carinhos telepáticos, enquanto seus respectivos donos, em suas respectivas casas, parecem agir normalmente, três colheres cheias de pó de café no coador, o vapor quente da água nublando o banheiro, e aqueles olhos vidrados, mirando nada, de tão longe.

 

Icarus ou a crônica assombrada

 

A crônica está doente de realidade, quase alucinando. Em que século estamos? Agora é todo dia um ta-ta-tá de helicópteros sobre a cidade. Quem é essa gente que comemora banqueteando, brindando com pompa no meio da peste? Vem de uma cena de Nosferatu? Vem de um capricho de Goya? A crônica está como um galo dos ventos no alto da tempestade. Esquecemos a morte do poeta ou apenas continuamos pasmados? Vamos chamar as crianças que lá vem a história. Era uma vez uma santa na Amazônia que tirava a paz dos latifundiários. Era uma vez o último rinoceronte branco do Norte. Era uma vez uma juíza de mãos dadas com um general. A crônica está doente, tão doente dos fatos, que só faz perguntas sem reposta, como uma inocência assombrada. Escrever é uma perturbação que não deixa as notícias passarem em branco, escrever também é não digerir a simples existência de certas coisas. De onde veio a lama que matou o rio? Quem matou o rio? Quem matou a mulher que era multidão? Ponham na conta da alucinação que o sobrenatural se intrometa nessa crônica, só para dizer que há almas que Deus não captura, mas que lhe são enfiadas goela abaixo. Quem é essa gente tão decente que anda armada? E quem são esses com os bolsos cheios de palavras? Ponham na conta de um cansaço da malícia esse assombro como um resquício de criança que não se cansa de perguntar. Era uma vez Icarus, a estrela mais distante já observada, a estrela azul mais limpa de humanidade já registrada pelo Hubble. Era uma vez um bicho forte feito fraco em festivais de lenta angústia. Era uma vez um poeta que desertou do mundo.

 

Minha avõ e François Mauriac

 

Não era vistosa a biblioteca de minha avó. Ficava na sala, à esquerda de quem entrava, e não atraía propriamente visitantes. Ficava assimilada à casa, assentada ali, camuflada na sombra, de frente para o velho piano. Uma discreta biblioteca de livros lidos, cheirando as mãos de quem os folheou. Entre os autores de maior incidência, um dia percebi, estava François Mauriac em muitos diferentes títulos, que depois vieram para minha biblioteca e que eu agora leio como quem investiga, como quem sonda onde alguém uma vez esteve, por onde passou seu pensamento, onde se guardaram as coisas não ditas que eram somente suas. Terá minha avó concordado mentalmente quando leu, lá pela página sessenta de um dos livros, que “as mulheres não se lembram do que não sentem”? Ou que “a morte é o sal do amor”? Os “humores acerbos”, que vêm de pressentimentos, também ela os tinha, sem dúvida. Mas será que alguma vez, como uma das personagens de frieza ou cólera inconfessável, também ela em pensamento “se desfez da sua ninhada”? Qual era a ferida secreta da avó? Quais os demônios dela? Se cada personagem de François Mauriac tem os seus… Haveria nela um silêncio capaz de transbordar para a sala, e da sala para a casa, da casa para o mundo? Será que aprendeu com Mauriac a gerir torvelinhos de alma e decisões tomadas na surdina ou apenas viu espelhadas nos livros essas coisas já muito sabidas das famílias? Ilhas de segredos, olhos de lobo, olhos das fechaduras, tecidos de intrigas. Passo por essas páginas herdadas de uma muito discreta biblioteca (agora assimilada por outra) como se penetrasse o tempo mais velado da vida da avó e espreitasse seu prazer pelas perdições mentais, corrupções e redenções invisíveis. Não há nada que se revele a partir dessa leitura e, no entanto, sim: está tudo ali.

 

Mariana Ianelli, autora brasileira, nasceu em São Paulo em 1979. Em 2016, tornou-se mãe de Yolanda. É autora de catorze livros de poesia, entre eles a antologia “Manuscrito do fogo” (2019), que marca vinte anos de poesia, e “América – um poema de amor” (2021). Tem três livros de crônicas (“Breves anotações sobre um tigre”, “Entre imagens para guardar” e “Dia de amar a casa”) e dois livros infantis (“Bichos da noite” – selo altamente recomendável FNLIJ 2019 –  e “Dia no ateliê”). Recebeu o Prêmio Fundação Bunge de Literatura (Juventude) em 2008, menção honrosa no prêmio Casa de las Américas (Cuba) em 2011 (livro “Treva alvorada”) e foi quatro vezes finalista do Jabuti em poesia (livros “Fazer silêncio”, “Almádena”, “O amor e depois” e “Tempo de voltar”). Em 2021 obteve o Prêmio Minuano de Literatura, na categoria Crônica, com o livro “Dia de amar a casa” (2020), e menção honrosa no Prêmio Alceu Amoro Lima – Poesia e Liberdade. Desde agosto de 2018 edita a página Poesia Brasileira no jornal literário Rascunho. Escreve crônicas aos sábados na revista digital Rubem e no site do jornal Rascunho.

 

Alexandre Brandão, escritor brasileiro nascido em Minas Gerais e que vive no Rio de Janeiro, é autor de livros de contos, crônicas e poesia. Seus livros mais recentes são “O bichano experimental” (crônica), “Uns e outros mais dois ou três” (conto) e “Nenhuma poesia: uma antologia” (poesia), todos editados pela Editora Patuá. Alexandre escreve quinzenalmente aos domingos na revista Rubem (rubem.wordpress.com) e mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com).

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