Cultura

Só um mundo novo nós queremos: resistência e vida em “Cada homem é uma raça” de Mia Couto | Nuno Brito

Tudo o que não invento é falso.

      Manoel de Barros    

       

         Espero que todos se divirtam – não há muito   

                                   mais a fazer neste mundo.

   Paulo  Leminski  

 

No seu livro: Literatura e Resistência (2002), Alfredo Bosi afirmava:

“A resistência é um movimento interno ao foco narrativo, uma luz que ilumina o nó inextricável que ata o sujeito ao seu contexto social e histórico. Momento negativo de um processo dialético no qual o sujeito em vez de reproduzir mecanicamente o esquema das interações onde se insere dá um salto para uma posição de distância e, deste ângulo se vê a si mesmo e reconhece e põe em crise os laços apertados que o prendem à teia das instituições” (Bosi 134).

 

Diante desta aceção, interessa-nos, definitivamente este pôr em crise, que segundo Alfredo Bosi é um processo inerente à própria escrita, imanente da própria escrita. Interessa ver as particularidades. A literatura resiste enquanto estremecimento do inabalável, enquanto gesto empático em contextos de ódio, enquanto preenchimento em momentos de vazio, enquanto silêncio em tempos de ruído, enquanto desaceleração em tempo de velocidade, enquanto profundidade em tempos superficiais, e enquanto diferença (e celebração da diferença) em tempos de homogeneização e nivelamento superficial. A literatura resiste enquanto força que impõe vários sentidos face ao perigo do unidirecional,  enquanto força que celebra o contraste, a dúvida e a nuance face à verdade categórica, a literatura resiste contra o vazio e contra o ódio e contra a morte,  enquanto força e potência que celebra vários centros, que impõe vários centros .Se o preconceito procura excluir e colocar fora de um espaço a diferença, a literatura afirma que tudo é centro, e que a ele confluem todas as marginalidades, todos os opostos e polaridades se celebram. Porque como dirá o escritor Moçambicano Mia Couto em: Cada homem é uma raça:

“História de um homem é sempre mal contada. Porque a pessoa é, em todo o tempo, ainda nascente. Ninguém segue uma única vida, todos se multiplicam em diversos e transmutáveis homens” (Couto, 29)

 

Primeira resistência, face à hipersimplificação e ao preconceito. Face ao julgamento rápido – face a uma mentira, Mia Couto reivindica um ajuste necessário com a verdade, com a fluidez e com a vida. Mia Couto avisa-nos continuamente, ao longo da sua obra, para o perigo da hipersimplificação e para a urgência de que as histórias que nos compõe sejam bem contadas; que se deve lê-las lentamente, nas diferentes camadas que as compõem, que esse é um compromisso com a dignidade humana e um respeito com a própria pluralidade da vida.

 

A transmutação é um tema recorrente da criação literária de Mia Couto, em Cada Homem é uma raça” as personagens figuram-se dotadas de um grande poder revitalizador que liberta a narrativa de qualquer leitura maniqueísta e superficial. Ao leitor é exigido estar atento, ir um pouco mais ao fundo, descobrir, certamente que ele não existe. Essa é urgência necessária que o texto nos impõe: contra o preconceito, o desprezo e o ódio, há uma concordância que tem de ser imposta. Ao longo do conjunto de contos, as personagens resistem a ter uma só história, a história nega-se a ser singular. Sobre esta conceção de história e narrativa Mia Couto estabelece em diversos momentos da sua obra um ativo diálogo reflexivo intratextual que atravessa os diferentes géneros: o conto, o romance e o ensaio, criando uma rede constante que se afirma como nuclear na sua criação.  É de salientar aquilo que nos afirma no conjunto de ensaios de 2019, O universo num grão de areia.

A humanidade nasceu em África. Mas podemos também dizer que a humanidade nasceu da capacidade de produzirmos e contarmos histórias. Somos humanos exatamente porque não somos apenas uma entidade biológica. Somos feitos de histórias tanto como somos compostos de células. As histórias são também um lugar onde nos inventamos eternos e encantados”.

 

Para o escritor moçambicano a redignificação do humano passa pela própria atenção às suas histórias: cabe ao escritor contar a pluralidade das histórias que nos compõem, multiplicar os ângulos de observação de cada uma, penetrar nas  suas diferentes camadas, tecendo-as mais densamente, complexificando-as, mostrando as dobras, as curvas, os nós,  (as nuances, as delineações e as manchas), num gesto que é também o de iluminar, mostrar, dar a ver claramente, dar-nos a ver a nós próprios como seres compostos de histórias, de sangue, de células. Ato de diálogo e de resistência contra qualquer visão parcial e estanque, o texto impõe a imagem e a reflexão em movimento. Impõe o silêncio e a atenção.

Em Cada Homem é uma raça, como em outros momentos da reflexão ensaística, novelística e contista, Mia Couto complexifica a dicotomia Individual e coletivo. A epigrafe inicial de “Cada homem é uma raça” dialoga com o quarto conto desta antologia: “O embondeiro que sonhava pássaros”, da epígrafe faz parte um extrato da declaração do vendedor de pássaros, (o passarinheiro), personagem principal do conto. O conto trata de um vendedor de pássaros numa zona urbana do Moçambique colonial, anterior à independência do domínio português em 1975, depois de uma guerra colonial que demorou mais de uma década. Na cidade moçambicana, o vendedor de pássaros percorria as ruas com os seus pés descalços vendendo pássaros num bairro maioritariamente branco. “Todas as manhãs ele passava nos bairros dos brancos carregando suas enormes gaiolas. Ele mesmo fabricava aquelas jaulas, de tão leve material que nem pareciam servir de prisão. Pareciam gaiolas aladas, voláteis. Dentro delas, os pássaros esvoavam suas cores repentinas. À volta do vendedeiro, era uma nuvem de pios, tantos que faziam mexer as janelas: – Mãe olha o homem dos passarinheiros!” (p. 63).  O vendedor de pássaros “não tinha sequer o abrigo de um nome” (p. 63), e constituía para os colonos uma fonte de desconfiança e reprovação. “Por trás das cortinas, os colonos reprovavam aqueles abusos. Ensinavam suspeitas aos seus pequenos filhos – aquele preto quem era? Alguém conhecia recomendações dele? Quem autorizara aqueles pés descalços a sujarem o bairro?”. O passarinheiro começa a ser seguido pelas crianças e sobretudo por uma delas, Tiago que começa a visitá-lo frequentemente na sua morada, o interior de um embondeiro:

“O passarinheiro foi virando assunto no bairro do cimento. Sua presença foi enchendo durações, insuspeitos vazios. Conforme dele se comprava, as casas mais se repletavam de doces cantos. Aquela música se estranhava nos moradores, mostrando que aquele bairro não pertencia àquela terra. Afinal os pássaros desautenticavam os residentes, estrangeirando-lhes? Ou culpado seria aquele negro, sacana, que se arrogava a existir, ignorante dos seus deveres de raça? O comerciante devia saber que seus passos descalços não cabiam naquelas ruas. Os brancos se inquietavam com aquela desobediência, acusando o tempo. Sentiam ciúmes do passado, a arrumação das criaturas pela sua aparência”. (p. 66)

 

Insurgindo-se contra o passarinheiro, alguns dos colonos liderados pelo pai de Tiago decidem atacá-lo fisicamente, indo procurá-lo no embondeiro. No entanto Tiago dando-se conta da situação decide avisá-lo correndo primeiro ao embondeiro e contando-o da ameaça que corria. No entanto o passarinheiro decide não fugir e esperar os colonos, vestindo um fato especial, que considera necessário para receber as visitas. É então confrontado pelos colonos, atacado brutalmente e levado para a esquadra para prestar declarações. Surge então, como um exosqueleto da narrativa, a epigrafe do livro:

– A minha raça sou eu, João Passarinheiro.

Convidado a explicar-se, acrescentou:

– Minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.

A epígrafe confugira-se como central e dialogante com os diversos aspetos da obra de Mia Couto. Contra a “arrumação das criaturas pela sua aparência” e a sua simplificação estéril, Mia Couto impõe a reflexão, e a intensidade densa de uma leitura lenta. Contra qualquer visão parcial, o autor moçambicano impõe uma configuração de unidade que une individualmente e coletivamente cada um dos seres humanos, é a própria dicotomia individual – coletivo que o autor destabiliza, estabelecendo uma nova dignificação humana que é em si uma cosmificação. As personagens de Mia Couto configuram-se lentas, requerem tempo e profundidade, ganhando definitivamente novas visualizações a cada leitura. A releitura do texto de Mia Couto ganha consideravelmente em sugestões imagéticas. Resistência à rapidez e, que é por si um atrito de desaceleração; face a uma visão de cima para baixo, o texto de Mia Couto valoriza o olhar frontal, da personagem à personagem, dos olhos da personagem aos nossos próprios olhos: vemos, intensamente, pelos olhos das personagens, e essa é em si uma visão nova, vemos, no intercalar das histórias, o tecer da nossa própria condição, enquanto a sua própria ultrapassagem e enquanto libertação de qualquer estrutura. É nesse sentido que a obra ficcional de Mia Couto transcende a vida real, não só pela constante presença do mitológico ou pela criação constante de uma nova linguagem, ou nas próprias palavras do autor, brincação com as palavras, mas pela própria descoberta ou libertação da vida verdadeira, resistência no sentido mais profundo da palavra, que dialoga uma vez mais com Alfredo Bosi:

É nesse sentido que se pode dizer que a narrativa descobre a vida verdadeira, e que esta abraça e transcende a vida real. A literatura, com ser ficção resiste à mentira. É nesse horizonte que o espaço da literatura, considerado em geral como o lugar da fantasia, pode ser o lugar da verdade mais exigente.(Bosi 135)

Doutra forma diria Novalis: “Quanto mais poético mais verdadeiro”, aforismo que impõe uma nova visão do real, só a valorização mítica do real poderá refletir o seu próprio espelho, ou em contacto com Mia Couto, só mostrando que uma vida tem muitas vidas, as podemos respeitar; ou de uma outra forma: para falar da vida nenhuma delas poderá ser deixada de fora, e para corresponder à verdade mais exigente é necessário o intercalar do poético em todas as esferas da realidade, é necessário, como mostra o texto de Mia Couto a interseção de diferentes linguagens e vozes mostrando-nos, como Clarice Lispector, que “a vida é sobrenatural” e cabe respeitá-la como uma coisa plural, e que esse respeito é uma obrigação para connosco e para com os outros:  Para não cair numa mentira, para não ficar para trás, o texto terá de ser forçosamente líquido, esponjoso, absorver tudo, num gesto híbrido, – Resistir à arrumação das coisas pela sua aparência, ao preconceito, ao dogma e ao sentido único, nesse ponto, como diria o escritor Gonçalo M. Tavares: “a pureza na linguagem é artificial. “Não existe a acção de tornar híbrido um texto. Um texto é naturalmente híbrido. A linguagem mistura espontaneamente. Ficção é ensaio, ensaio é ficção. Apenas existe o acto de impedir o híbrido na linguagem. A pureza na linguagem é artificial.” (Tavares 43). Para corresponder definitivamente à realidade, para nos aproximarmos o que seja dela, o texto tem de resistir a um preconceito de pureza e de homogeneização, tem de impor a delineação, a mancha e o desigual. Para isso, a criação incessante de palavras, de mundos, de reflexões e de unidades, a criação de uma confluência. Desse modo, a ficção de Cada homem é uma raça funcionaria como um modo de resistência a um pensamento hegemónico e opressor. Desde logo o colonial, questionando a sua dominação. Mas também mostrando como um olhar atento sobre nós próprios é já um olhar atento sobre o outro, é a própria atenção, enquanto espaço criativo e não mera perceção do exterior que é valorizado. O olhar sobre o outro, diz-nos continuamente Mia Couto, é um olhar profundo sobre nós próprios, dessa forma, há uma pequena passagem do livro El Hacedor de Jorge Luis Borges que dialoga fortemente com esta aceção:

Un hombre se propone la tarea de dibujar el mundo. A lo largo de los años puebla un espácio con imágenes de províncias, de reinos, de montañas, de bahias, de naves, de islas, de peces, de habitaciones, de instrumentos, de astros, de caballos y de personas. Poco antes de morir, descubre que ese paciente laberinto de líneas traza la imagen de su cara. (Borges 9)

 

Ou doutra forma, uma vida tem muitas vidas, e para falar delas nada pode ser excluído, nenhuma vida pode ser excluída. O olhar de Mia Couto é nesse sentido um olhar intenso, que reivindica o encontro do ser humano consigo mesmo, com a sua pluralidade e unidade, onde resistência e vida se entrelaçam no contar de cada história, afirmando continuamente que “Só um mundo novo nós queremos”, mas que esse mundo novo é parte da nossa obrigação como seres individuais e coletivos, como um ato de justiça, e de dignificação do humano. Traçando um desenho da nossa visão do mundo traçamos o nosso próprio retrato, ganhamos forma enquanto configuração e unidade, somos, em suma, plurais, feitos das histórias dos que nos antecederem e dos nossos contemporâneos, da mesma forma que as gerações futuras trarão as nossas histórias no sangue. Se queremos um mundo novo teremos de traçar um retrato novo. Talvez por isso há uma unidade a ser reposta: contra o preconceito de cor e de classe, o ódio, a hipersimplificação e a arrumação de cada ser pela sua aparência, o texto resiste, desmonta, destrói e dá chão, ao mesmo tempo que confere balanço e equilibro, e nisso ele é já um exercício de justiça, que coloca as coisas à nossa medida, mas que por ver na nossa medida algo maior nos exige tudo, absolutamente tudo. 

Para que não se volte a dizer a uma outra pessoa  que ela volte ao seu devido lugar, para que cada lugar sobre a terra seja de cada ser sobre a terra, para que ocupemos o nosso próprio centro, por uma verdade mais exigente – A literatura resiste e é, por isso mesmo, um retrato essencial de nós mesmos continuamente redesenhado e revitalizado, essa é uma das muitas lições da obra de Mia Couto, a de uma conceção da humanidade enquanto verbo, que ultrapassa qualquer condição estanque, da humanidade enquanto caminho de aperfeiçoamento, que tem de redesenhar continuamente, para não ficar para trás, uma concordância com a verdade, redesenhando-se a si própria, estabelecendo de um compromisso com a descoberta e criação da vida verdadeira. Tornando-se assim o espaço da literatura o lugar da verdade mais exigente. 

 

 

REFERÊNCIAS:

BORGES, Jorge Luis. El hacedor. Madrid: Alianza: 1997.

BOSI, Alfredo. Literatura e resistência. Companhia das Letras, 2002.

COUTO, Mia. Cada homem é uma raça. Lisboa: Caminho, 2002.

COUTO, Mia. O universo num grão de areia. Caminho, 2019.

NOVALIS, Friedrich. Pólen, fragmentos, diálogos, monólogo. São Paulo: Iluminuras, 1988.

TAVARES, Gonçalo M. Breves notas sobre Literatura-Bloom. Lisboa: Relógio D’Água, 2018.

 

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981.  É autor dos livros de poesia: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015) e O Desenhador de Sóis (2017).

É leitor do Instituto Camões na Universidade da Califórnia em Santa Barbara onde vive desde 2015 e onde obteve o Doutoramento em Literaturas Brasileiras e Portuguesas, foi professor de Literatura Portuguesa na Universidade Nacional Autónoma do México onde viveu entre 2012 e 2014. 

Foi editor da revista literária Cràse e publicou em diversas antologias de poesia em Portugal, Espanha, México e Grécia, entre as quais a Antologia da Jovem Poesia Portuguesa (Atenas, Valkixon, 2021), a Antologia Lluvia Oblicua: Poesía Portuguesa Actual. (México: Círculo de Poesía, 2018), O Binómino de Newton e a Vénus de Milo: Poesia e Ciência na Literatura Portuguesa, organização de Vasco Graça Moura e Maria Maria Bochicchio (Lisboa: Aletheia, 2011) e Antologia Jovens Escritores 2008 (Lisboa, Clube Português de Artes e Ideia). Foi distinguido por duas vezes com o Prémio da Associação de estudantes da Faculdade de Letras do Porto na categoria de Poesia e Conto e foi selecionado para a Mostra Jovens Criadores (Literatura) 2008 em Lisboa.   É coordenador editorial juntamente com Maria Bochicchio da colecção Novíssima da editora Exclamação. 

Ode Menina é o seu quarto livro publicado pela editora Exclamação e reúne textos escritos entre 2018 e 2021, assim como alguns textos publicados anteriormente em livro.

             

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