Cultura

Seis Poemas | Moreno

“Sobre o amor e outras traições”, Carmen Moreno. Editora Patuá, 2021

 

SEPARAÇÃO

 

Na cama, aparentemente vazia, 

a morte sobre a colcha de casal estendida,

em cores de retalhos – florida.

Da alma dos travesseiros, dor e libertação.

Ninguém mais mora no quarto,

desde que a amargura subjugou o sonho.

Limpam-se as nódoas dos tacos e a poeira dos móveis 

para nenhum visitador.

Tudo parece permanecer, mas nas veias das paredes 

já não circula o sangue do amor.

O quarto, intacto.

Frio, feito o do filho morto.

Nada virá de ontem trazendo a ressurreição.

Nova comunhão de corpos fecundará,

no mesmo colchão, outra história de fim:

o quarto espera, com sua janela trancada 

e seu mofo de jasmim.

***

MORTE EM VIDA

 

O amor morre todo dia. 

Começa a morrer broto ainda,

na parição da terra que o enterrará. 

No olhar primeiro começa a morrer, 

no roçar dos rostos, 

na umidade das mãos entrelaçadas, 

o mofo do fim.

Sob a fervura da alegria – águas frias.

Nasce se despedindo, o amor,

na ascensão do querer.

Morre, de transbordar e carecer.

No gemido do gozo, 

a dor inaudível do padecer.

O amor morre todo dia,

na comunhão ácida das salivas, 

no silêncio eloquente dos corpos,

na saturação dos sons, 

na separação das sílabas. 

***

O TEMPO DO AMOR

 

Não tenho âncora no passado,

nem como pão requentado na mesa do amanhã.

As fotografias não doem.

Esvaziadas todas as palavras prometidas ao eterno. 

O tempo lava os ponteiros dos segundos,

atualiza dores, desejos, e desbota mágoas.

Aportam-se e partem tantos personagens

no cais do amor!

Ninguém preso aos meus passos,

sob meus pés, pisoteando meu prumo.

Passado não tem fôlego para seguir alegria:

É terra dos mortos.

***

SOBRE A DOR

                                                          para José Inácio Vieira de Melo

 

A noite comeu, de repente, 

uns pedaços do meu caminho.

De forma que tremi as pernas e travei os passos.

Depois, jogou em mim um barro bom de fé, 

que tapou os buracos das encruzilhadas.

Acordei novo, surpreso de sol,

feito quem volta da morte 

e pede para ser beliscado, de tão vivo!

A noite tem dentes pontiagudos, 

mas traz na saliva uma luz

que sutura qualquer peito esfarrapado.

Nasceu para maturar o coração: não fere em vão.

A noite não dói tanto depois que passa,

só na hora que o minuto (de eterno) asfixia e mata.

Quando sossega de espernear seu absurdo,

Deixa, na nossa pele, vigorosas estrelas, 

nutridas de Deus.

Não é má, nem morte, nem sina:

É mar, marcha – ensina.

***

ENSAIO SOBRE AS MANHÃS

 

A porta do fim dá num beco inusitado, 

repleto de recomeços.

Ninguém descobre o frescor do chão desabitado,

enquanto o medo jura seus infernos!

Mas se a vida chama e o sujeito mete a cara, 

não há terror que o aterre em jardim morto.

Movem-se as horas de infinito e novidades, 

que não cabem nas compotas das certezas.

O vento descabela de improviso as folhas,

forrando de beleza o caminhar,

(e há dor na rebentação dos ramos).

Os dias são bichos indomados, 

sem nome e classificação:

ninguém se socorre do sofrer por adivinhação,

nem pondo tranca nos abraços.

A vida entra em qualquer gruta, 

e cata o ente debaixo de pedra,

quando cisma de ensinar pelo padecer.

Também o sol invade o olho agoniado,

devolve o infeliz ao sonho, 

e transforma em liquidez seu sangue coagulado.

O certo é que nunca se sabe o que a manhã assina:

e a sorte é o não saber!

 

***

 

SUSTO I                                                              

para Dalmo Saraiva (em memória)

 

Ninguém sabe do último abraço.

Ou a última chance de abraçar,

dizer, desdizer, serenar a língua 

desalinhada. 

O toque último dos dedos, 

no apartar das mãos,

a sílaba final da última palavra,

no átimo do último olhar,

antes de o rosto virar, e o corpo, 

por último, dobrar a esquina. 

Antes de o amigo sumir de cena, 

acenar da janela, cerrar as pálpebras, 

trancar a porta, entrar no mar.

A aurora não espera o desperdício da hora.

Como fosse o derradeiro início, afoguear os laços,

louvar a leveza, buscar o perdão ou concedê-lo, 

sanar a separação das sílabas.

Que a morte vai saltear os desavisados.

Quando chega assim, sem indício, 

meu peito é incompletude: 

este fardo de fim sem prefácio. 

Carmen Moreno – Poeta e ficcionista brasileira, carioca, membro do PEN Clube do Brasil. Bacharel em Artes Cênicas e Licenciada em Educação Artística (UNIRIO). Publicou: Diário de Luas (romance), Rocco; Sutilezas do Grito (contos), Rocco; O Primeiro Crime (romance policial), Rocco; O Estranho (contos), Five Star; De Cama e Cortes (poesia), UERJ; Loja de Amores Usados (poesia), Multifoco; Para Fabricar Asas (poesia), Ibis Libris e Sobre o amor e outras traições (poesia), Patuá. Integra cerca de 40 coletâneas, entre elas, edições bilíngue. Sua obra foi tema de dissertação de Mestrado pela Universidade Federal do Rio Grande/RS. Algumas premiações: Prêmio Casa da América Latina: Concurso de Contos Guimarães Rosa, Rádio França Internacional/Paris; Bolsa de Incentivo ao Escritor Brasileiro (poesia), MINC/BN, e Prêmio de Desenvolvimento de Roteiros Cinematográficos (MINC).

 

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