Cultura

Quando a romancista é ativista pelos direitos humanos e feminismo: Sarah Beirão e suas protagonistas | Aldinida Medeiros

Dedico este artigo à Professora e Pesquisadora Constância Lima Duarte, que me possibilitou navegar pelas águas dos Estudos de Gênero.

 

É recorrente, entre estudiosos do período da primeira República em Portugal, a importância do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas (CNPM1). Criado pelas médicas republicanas Adelaide Cabette e Ana de Castro Osório, o Conselho atuou em várias frentes e foi, também, um dos espaços de ativismo das lutas feministas, o quão possíveis eram estas, naquele período. Logo, considerando a atuação de um grupo de senhoras ativistas das causas de direitos e igualdade para a mulher, este breve ensaio tem o foco direcionado para uma de suas Presidentes, a jornalista e escritora Sarah Beirão. 

 

Nascida a 30 de julho de 1880, na região da Beira que àquela época se chamava Província da Beira alta, em seu registro de batismo consta: “filha legítima de Francisco de Vasconcelos e Carvalho Beirão, proprietário, natural do lugar da Casa Nova, freguesia e concelho de S. João de Areias, e de Maria José da Costa Matias, proprietária, natural de Sevilha” (NEVES, s/d, p. 11). Viveu a maior parte de sua vida em Tábua. Faleceu em 1974, deixando uma vida e obra que são não apenas motivos de orgulho para os tabuenses, mas também exemplo de uma extensa luta de valores em prol dos ideais republicanos, da igualdade de gênero, da cidadania, e pela paz mundial.

 

Não intentamos, por agora, uma explanação detalhada de sua trajetória, pois há estudos que disto já dão conta, todavia, é importante referirmos que sua militância se reflete em sua obra, embora não sejam seus romances permeados por um feminismo panfletário. Detivemo-nos a apontar excertos de alguns dos romances desta notável escritora beirã, a fim de evidenciarmos nestes os ideais de sua luta por uma sociedade mais justa e por um Portugal em que cidadania e igualdade de gênero não fossem temas tratados com indiferença, escárnio ou como perigosos, tal como ainda era, àquela época.

 

Da Jornalista nasce a romancista: visão feminista e luta por direitos humanos

 

Visto que se trata de um pequeno estudo, o intento neste ensaio não é o de abarcar a obra romanesca integral da autora. Não era comum, àquela época, mulheres terem acesso ao acervo intelectual e cultural que a formação familiar proporcionou a Sarah Beirão. Fato que consideramos importante no desenrolar de sua vida e atuação nos jornais e obras literárias.

 

Um estudo sobre seu pai, da autoria de António Neves, Francisco Beirão e Sara Beirão: pai e filha (s/d), nos dá a conhecer que já vem deste a quebra de algumas convenções: continua a estudar, mesmo após o casamento e, aos 40 anos, apresenta à Escola Médico Cirúrgica do Porto a monografia Gravidez Ectópica. O pesquisador mostra que, entre as dedicatórias do médico, uma é para as mulheres da família: “Ponho completamente de parte os narizes de cera da estafada retórica nacional, para vos dizer simplesmente que este trabalho foi feito por consideração às da minha família. Nada mais.” (BEIRÃO apud NEVES, s/d, p. 15). O excerto comprova o quanto era de visão evoluída e progressista o pai da nossa romancista.

 

Educada em meio a visão de estudioso e cientista de seu pai e, mais tarde, aos 18 anos iniciando sua incursão na escrita literária, Sarah Beirão, ao retornar do colégio interno que frequentara no Porto, desenvolveu uma trajetória de colaboração em vários jornais e revistas da época. António Neves destaca como um acontecimento importante para ela “o início da publicação em 1900, em Tábua, da revista literária ‘Nova Aurora’.” (s/d, p. 20; grifo do autor). Leitora assídua dos jornais que o pai assinava, Sarah logo passa a escrever.

 

Abrimos nesta sequência de relatos mais biográficos um espaço para dizer que terão sido trazidas, por meio destas importantes leituras, presentes na vida de Sarah, Beirão e que se refletem na elaboração de algumas das suas personagens:

 

Nas grandes crises é que se vê quem tem resistência e força de vontade. Repara apenas nisto: há muito menos mulheres suicidas do que homens. 

 

– Estás muito conhecedora de estatísticas, Luísa…

– É a minha Literatura, sr.a D. Constança. Isto é apenas uma questão de ler os jornais…  

– Os suicidas não vêm nas gazetas…

– Mas vêm nas revistas médicas e o sr. doutor bem sabe quanto me interessa essa leitura. (PROMETIDA2, s/d, p. 102).

 

Este exemplo, do romance Prometida, traz a história de uma mãe solteira.

 

Em várias passagens do enredo há falas das personagens sobre o quanto a mulher é oprimida pela sociedade e pelas leis que validam esta opressão, visto que beneficiam apenas os homens. Detivemo-nos apenas em um fragmento, pois sua citação tem apenas uma intenção demonstrativa. Em outro ensaio, ainda no prelo voltamo-nos para uma análise literária mais detalhada deste romance.

 

Em uma das edições de Amores no Campo, a nota biográfica informa que “Aos 18 anos, Sarah Beirão escrevia para os jornais O Tabuense e Beira Alta e para a revista Humanidade, sob o pseudônimo de Álvaro de Vasconcelos.” (s/d, p. 247).

 

Em Triunfo, romance publicado em 1952, encontramos entre as várias assertivas da personagem Ana, em suas conversas com o Padre Alexandre, uma defesa veemente da condição de vida da mulher campesina:

 

– O senhor Vigário não concorda comigo?

– Estou sempre de acordo contigo… És um anjo de ideias novas e avançadas.

– Anjo sem asas, que pensa, reflecte e acha que o mundo não está muito bem…

[]

– Não era só para mim que queria direitos, era para metade da humanidade sofredora que atravessa a existência deprimida e escorraçada…

[]

A vida do campo é dura…

Especialmente para a mulher, a vítima escolhida sobre a qual came sem dó nem piedade todas as diabruras do destino… (TRIUNFO, 1983, p. 67; grifos meus).

 

Ana e o Padre, neste excerto, estão a falar sobre Rita, uma jovem viúva e trabalhadora do campo, que, desamparada, necessita criar o filho pequeno.

 

Semelhantes diálogos abordam outros problemas como o casamento, a orfandade feminina, a pobreza nas comunidades rurais e, notadamente, os direitos humanos em sociedade. Nos enredos de seus romances, encontramos de quando em vez uma ou outra fala em defesa da mulher, conforme os parâmetros da época. É visível, com base na leitura dessas obras, que a vivência e experiência paralelas como jornalista, forneceu a Sara Beirão muitas ideias e material para estes enredos romanescos.

 

Pela bibliografia lida sobre a escritora, até esta data, é evidente a intensa participação da família Beirão nos movimentos em prol da República, a ponto de afirmarmos que eram eles uma força motriz para os ideais republicanos na região da Beira. Os acontecimentos, sobretudo aqueles noticiados pelos jornais tabuenses e de arredores da época registram esta intensa participação. António Costa Neves marca duas datas que tomamos como importantes para exemplificar: a primeira é a 23 de Agosto de 1908, quando o Jornal O Progresso3 noticia a inauguração de “um Centro Republicano Tabuense, que contava na altura com cerca de 200 sócios.” (p. 27; grifos do autor); a segunda notícia, conforme Neves, datada de Abril de 1909, diz respeito a um comício republicano que se realizaria em 2 de Maio daquele ano.

 

Contra capa da revista Alma Feminina, No. 16, Maio de 1946, contendo anúncio dos romances de Sarah Beirão; 2. Texto introdutório de Sarah Beirão, nesta mesma revista apresentando a solicitação feita por 113 mulheres para a criação de uma delegação do CNMP naquela cidade.

 

O Conselho Nacional de Mulheres Portuguesas e um provável projeto literário

 

A participação de Sarah Beirão no CNMP foi intensa e profícua, esteve em congressos, também em comissões de formação de novas delegações, como a de Coimbra, assim como se pode ver na figura 2, acima exposta. Conforme Fátima Pais (2012), integrou, além do quadro de escritora em vários jornais, a Liga Portuguesa Feminina para a Paz, e foi Presidente da Direção da Liga Nacional da Defesa dos Animais. Sua participação na Conferência Pela Paz deixou como marca o seu discurso em defesa da construção de um mundo com mais direitos para os oprimidos e para a mulher, assim como seu desejo de um mundo mais igualitário em justiça social.

 

Capa da edição da Conferência pela Paz. Vide referências.

 

No romance, seus pensamentos voltados para estes temas estão espalhados ao longos de várias falas, a maioria delas das personagens femininas. Uma assertiva direta e objetiva está, por exemplo, bem representada na obra Um divórcio, na voz de D. Isabel, avó da protagonista Ofélia, moça de decisões muito próprias e que impõe ao pai casar-se sob a condição de se divorciar, caso seu antigo amor julgado desaparecido ou morto pela família, voltasse a Portugal:

 

–  Lá por isso a rapariga também podia ser médica.

–  A D. Isabel é uma feminista?

– Se desejar a igualdade de direitos dos dois sexos é ser feminista, confesso que o sou visto não haver razão para menosprezar um indivíduo pelo simples facto de pertencer a um determinado sexo. Se me tivessem preparado convenientemente para a luta, eu não teria sofrido o que sofri. (UM DIVÓRCIO, 1950, p. 155).

 

A conversa acontece entre as avós materna e paterna de Ofélia. A personagem em questão, D. Isabel, rememora, em diversas passagens do enredo, o quanto seu casamento realizado em função dos ditames sociais foi-lhe pesaroso, pois o marido não apenas dilapidou o que ela trouxera da família, como a deixara sozinha e sem qualquer condição financeira para criar o único filho desta união.

 

Outra situação em que uma de suas personagens femininas defende os direitos da mulher, mostrando o quanto ainda estava longe de se obter um mínimo de igualdade, é na obra A Luta, cuja publicação data de 1972. Neste romance, o nascimento de uma neta suscita uma discussão sobre o tema:

 

  1. Gabriela mostrava-se radiante e dizendo:

– Oxalá, quando for mulher a deixem respirar o ar puro da independência.

– Parece que somos todos uns tiranos – respondeu-lhe o marido.

– Há de tudo, como sabes; mas aquela sadia e sólida camaradagem, está longe de ser um facto.

– Não fazes tudo o que queres?

– Sim; mas o que quero eu?!… A tua vontade… Fujo de discordar para não te contrariar.. E quase todas as mulheres são assim. (A LUTA, 1976, p. 76).

Ora, vejamos bem: mudam os enredos de cada romance, mudam os casais protagonistas, mudam as ações, mas as discussões em torno dos direitos da mulher continuam presentes e, frise-se isto, os diálogos vão se tornando mais assertivos por parte das mulheres tanto quanto mais avançam as datas das publicações de cada obra. 

 

Não é, portanto, uma simples suposição quando afirmo – neste ínterim assumo a primeira pessoa do singular, por ser uma hipótese minha – que, à medida em que aumentavam as experiências de Sarah Beirão como jornalista e sua efetiva participação no CNMP, aumentava o tom da discussão de modo a trazer para os romances, em momentos estratégicos – como o nascimento de bebês do gênero feminino – as ideias de direitos e liberdade disseminadas pelo feminismo.

 

À guisa de considerações finais, justificamos aqui nossa percepção de que a romancista, ao passo que ia, cada vez mais, assumindo compromissos jornalísticos e aumentando também sua militância política, em paralelo, construía um projeto literário que resultou em uma obra engajada sem ser panfletária, comprometida sem ser doutrinária. Ademais, aqui levantamos uma hipótese ainda a comprovar, pensamos que provavelmente, por pensar sobre a condição da maioria de leitores com pouco nível de escolaridade, soube utilizar-se de enredos aparentemente simples, mas lançando aqui e ali, em enredos suaves, ideias que (permitiam) permitem, até os dias atuais, grandes reflexões sobre injustiças sociais.

 

 

***

Notas

 

1 Doravante, referido apenas como CNPM ou o Conselho.

 

2 Optamos por citar o título dos romances nas referências das citações, em vez do sobrenome da autora, como é a norma corrente, por se tratar de citações de três obras diferentes Em uma das edições de Amores no campo, a nota biográfica informa que “Aos 18 anos, Sarah Beirão escrevia para os jornais O Tabuense e Beira Alta e para a revista Humanidade, sob o pseudônimo de Álvaro de Vasconcelos.” (s/d, p. 247).

 

3 O jornal passa a ser cognominado como “Órgão do partido progressista de Tábua”, o que acentua intensificação do movimento republicano naqueles anos. (p. 27).

 

 

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Referências

 

Alma Feminina, No. 16, Maio de 1946, Ano XXIX Disponível em http://www.cd25a.uc.pt/media/pdf/Biblioteca%20digital/PPs/Alma%20Feminina%20NReg3721N15_1946net.pdf. Acesso em Junho de 2021.

 

BEIRÃO, Sarah. Amores no Campo. 14. ed. Nota biobibliográfica atribuída à Editora Mazu Press. Disponível em >https://repositorio.ul.pt/bitstream/10451/45482/1/2020%20NotaBiog%20SBEIRAO_Amores_Campo_.pdf> Acesso em Outubro de 2021.

 

BEIRÃO, Sarah, A Luta. 2 ed. Porto: Porto Editora, 1976.

 

____ Prometida. Porto Editora, 1944.

 

____ Triunfo. 12 ed. Porto Editora, 1983.

 

NEVES, António. Francisco Beirão e Sara Beirão: pai e filha. (s/d ). Disponível em https://webcache.googleusercontent.com/search?q=cache:6bqFKxEOvU8J:https://www.academia.edu/38908633/FRANCISCO_BEIR%25C3%2583O_e_SARA_BEIR%25C3%2583O_PAI_e_FILHA_Ideais_Republicanos_e_Luta_pelos_Direitos_da_Mulher_+&cd=4&hl=pt-BR&ct=clnk&gl=br. Acesso em Julho de 2021. 

 

PAIS, Fátima. Sarah Beirão: um exemplo de vida (e para a vida) na modernidade. Revista Arganília, III série, n. 25, Tábua, Coimbra, 2012.

 

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Páginas das Figuras

 

Figuras  1 e 2: http://www.cd25a.uc.pt/media/pdf/Biblioteca%20digital/PPs/Alma%20Feminina%20NReg3721N15_1946net.pdf

 

Figura  3: 

https://memoriadarepublica.blogspot.com/2015/11/pela-paz-conferencia-pronunciada-no.html?m=1

 

 

Aldinida Medeiros: Doutorado em Literatura Comparada, pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Professora Permanente e orientadora no Programa de Pós-graduação em Literatura e Interculturalidade (PPGLI), da Universidade Estadual da Paraíba. Professora Associada I nesta mesma universidade. Pesquisadora no Centro Interdisciplinar de Ciências Sociais (CICS.NOVA) da Universidade de Nova de Lisboa desde 2018. Realizou Pós doutorado na Universidade de Coimbra (2014) com bolsa Capes de 6 meses. Pós doutorado na Universidade de Évora (2018). Coordena o Grupo Interdisciplinar de Estudos Literários Lusófonos (GIELLus) cadastrado no DGP/CNPq. Atua nas linhas de pesquisa: Literatura e Estudos de Gênero; Estudos socioculturais pela Literatura; Literatura, História e Memória; Releituras em prosa do período medieval.

 

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