Cultura

Quando a dor acabar | Solange Firmino

 

Quando a dor acabar – Solange Firmino escreveu um livro que festeja o tempo na tensão entre esperança e desolação, fluidez e permanência. Em Quando a dor acabar acontece a apropriação da ambiguidade na necessária constatação pelo imaterial. Muitas são as questões que seu trabalho levanta, mas talvez a espinha dorsal da presente trama imagética seja a solidão engasgada na garganta poemática da poeta, dando aos versos a longitude imprecisa que impede qualquer alusão à absoluta estabilidade. É uma solidão atravessada por muitas dimensões, e o permanente está no que muda, assim como a mudança só acontece porque perdura, como aponta o verso “sou permanente / mas estou de passagem”. Há aqui o rearranjo de alguns lugares que seriam comuns se não passassem pela leitura da autora: “o poema vai morrer em frases comuns / como as gotas que compõem as chuvas / e as geografias dos desertos”. Engana-se quem se restringe a perceber nesses versos a trivialidade do fim, pois a questão que se levanta é a da unidade (o “tudo é um” de Heráclito). Ainda na trilha dos rearranjos, lemos “assim, desisto do texto original” e é possível dizer que não há abandono pela desistência, mas a assunção da impossibilidade de se firmar um lugar, pois o texto original é este que a cada instante se oculta no que tentamos enxergar. Este livro é um exercício diário de existência, da percepção do fim como princípio, da morte como tensão (não restrita à extinção material), bem como nos diz o poema Sépia: “faz um silêncio tão grande / quanto as mãos num copo vazio”.

 

Fábio Pessanha – Poeta, doutor em Teoria Literária e mestre em Poética

***

Quando a dor acabar

 

O vento passa ligeiro mas se detém 

no anti-horário girassol

o silêncio no horizonte eterniza a aurora 

ávida de futuro

 

poetas inventam itinerários para os sonhos 

na noite que grita a solidão dos homens

é cada vez mais difícil renascer com esperança 

todas as manhãs

 

mas o vigor da vida

nos espera em algum canto

para quando pudermos nos abraçar

***

 

Gênese das ondas

 

Soletro na margem a palavra rio

e o voo na curva do céu

onde surgem pássaros

assopro de leve

e se faz correnteza

mas o rio escapa e não volta

 

não basta adiar o destino do rio fazendo desvios

a água sempre deseja voltar à fonte

dor de tudo atravessar até voltar ao mar

***

 

Cárcere

 

A palavra se manifesta

rasgando o brilho da noite 

nos movimentos efêmeros 

porém fecundos

 

o poeta se desnuda em cada poema 

e sente o descompasso do tempo 

quase musical

sussurrando

que não é mais livre

***

Pulsante

 

Nunca me preparo para viver mais um dia 

digo sim a tudo o que acontece

com assombrosa certeza

meus silêncios comungam 

com a estranheza desse tempo

meus sonhos tensos amanhecem do avesso 

alheios à luz da aurora

 

 

Solange Firmino nasceu e vive no Rio de Janeiro, Brasil. É graduada em Português e Literatura. Já venceu dois grandes prêmios de literatura, sendo o último em 2021, com o 2º lugar na Biblioteca Pública do Paraná, na categoria Literatura Infantil. Possui 7 livros de poesia publicados.

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