Cultura

“Poematéria: Arquitetura da Palavra”, de João Diniz e entrevista a Myrian Naves | Myrian Naves, João Diniz

Arquiteto João Diniz, fotos da exposição na Grande Galeria do Centro Cultural UFMG.

A exposição “Poematéria: Arquitetura da Palavra”, do arquiteto brasileiro João Diniz, acontece no período de 19 de maio a 26 de agosto de 2022, em Belo Horizonte, explorando as possibilidades da união entre as artes visuais e o texto poético, buscando superar e propor novas possibilidades para o suporte preferencial da escrita: a folha de papel. 

 

João Diniz é arquiteto e possui escritório em Belo Horizonte, onde realiza projetos e obras nas áreas de urbanismo, arquitetura, design, cenografia e artes visuais. É professor na Universidade Fumec e palestrante em instituições acadêmicas e profissionais do Brasil e exterior. É mestre em Construção Metálica pela Ufop e doutorando pela UFMG. Recentemente apresentou as exposições individuais ‘Trama e Typos Extraños’, na Asa de Papel Café & Arte (2019 e 2020); ‘Híbrido’, na Dominox Arte e Design (2019); ‘Teia’, no Espaço Corda, no Mercado Novo de BH (2019) e ‘Vetor Vivo’ no MM Guerdau – Museu das Minas e do Metal, no Circuito Cultural Praça da Liberdade, em BH. Publicou os livros ‘João Diniz Arquiteturas’ (2002), ‘Depoimento: Circuito Atelier’ (2007), ‘Steel Life: arquiteturas em aço’ (2010), ‘Ábaco’ (2011), ‘Aforismos Experimentais’ (2014), ‘O Livro das Linhas’ (2020) e ‘Futurografia’ (2021); além de outras edições experimentais ou livros únicos sob demanda. Paralelamente, participa de edições físicas e digitais de CDs e DVDs, exposições e apresentações individuais e coletivas voltadas à arquitetura, fotografia, poesia, vídeo, artes visuais, design e música. Alguns desses trabalhos são executados com o projeto colaborativo Pterodata, de sua criação, dedicado às ações interdisciplinares em diferentes áreas da cultura.

Manusgritos, por João Diniz.

 

O trabalho do artista em exposição

 

Exemplos de séries, ou blocos temáticos, definem a interdisciplinaridade que permeia o trabalho de João Diniz, que traz o texto escrito materializado em objetos experienciáveis como um eixo conceitual permanente.

 

Obras como os ‘prismas líricos’ em aço unem escultura, texto e design; os desenhos e pinturas da série ‘manusgritos’ exploram as possibilidades da caligrafia; as pinturas com spray da série ‘typos extraños’ trabalham tipologias gráficas existentes e inventadas; a série ‘decifráveis’ propõe uma espécie de hieróglifo contemporâneo e convida a uma leitura quase arqueológica, instigando o público à sua decifração.

Decifrável, por João Diniz

 

Instalações

As duas grandes salas da galeria são dedicadas aos desdobramentos de trabalhos anteriores, realizados em parceria com a também arquiteta Bel Diniz. A sala ‘tipogramas’ reúne composições textuais e pinturas a partir das grandes letras em aço presentes na instalação ‘cuboesia e jardim de aço’, montada nos jardins do Palácio das Mangabeiras, em Belo Horizonte, no ano de 2019. A outra sala reinterpreta a instalação ‘poéticas leituras’, ação de arte urbana apresentada na Festa da Luz de BH, em 2021.

 

No centro da galeria, em uma espécie de local de convívio, peças de design e mobiliário concebidas pelo arquiteto incorporam a presença das tipologias e do texto, possibilitando uma área de permanência para visualização de vídeos de sua autoria, incluindo manipulação de poema-objetos, performances e ‘cineclipes’. Junto a esse setor da mostra, mesas expositoras exibem ‘poemobjetos’, ‘livros de artistas’, edições únicas, cds, dvds, ‘poemas tácteis’ e edições, todos assinados por João Diniz.

 

Curadoria

 

A exposição conta com uma curadoria compartilhada entre a historiadora, crítica de arte (ABCA), escritora e professora (UFMG) Marília Andrés e a artista transdisciplinar e professora da Escola Guignard e do PPGArtes (UEMG) Celina Lage. A expografia e montagem são assinadas por Bel Diniz. Durante o período da mostra serão agendadas atividades coletivas com a participação de convidados e do público presente.

 

Texto de apresentação ao público visitante da exposição, de autoria de Marília Andrés.

Díptico Amarelo, por João Diniz 

 

AVANTYPUS: performance 

 

AVANTYPUS: performance em dois tempos

 

– As letras no chão sugerem um caminho de entendimento verbal, um idioma convergente. 

 

– Num primeiro momento a dinâmica dos diálogos buscados, nem sempre estão em acordo, configurando um ambiente de caos polirrítmico. 

 

– Após essa catarse inicial imagina-se a possibilidade do aprendizado e da evolução, indicando que, para um mundo convulso, é necessário criar linguagens, ou traduções revolucionárias, que transformem a desordem em serenidade. 

 

– Aí os agentes dessa progressão benéfica se empenham em inventar novos caracteres, a partir da ruptura das grafias do passado, para que com eles se escrevam as inéditas palavras da transformação. 

 

Celina Lage e João Diniz

 

Filmagens na abertura da exposição ‘Poematéria: arquitetura da palavra’ no Centro Cultural UFMG em BH, maio de 2022

 

ENTREVISTA

 

Myrian Naves: Olá, João Diniz, Incialmente fale-nos sobre a curadoria, e a exposição ‘Poematéria: arquitetura da palavra’.

 

João Diniz: A exposição conta com uma curadoria compartilhada entre a historiadora, crítica de arte (ABCA), escritora e professora (UFMG) Marília Andrés e a artista transdisciplinar e professora da Escola Guignard e do PPGArtes (UEMG) Celina Lage. A expografia e montagem são assinadas por Bel Diniz. Durante o período da mostra serão agendadas atividades coletivas com a participação de convidados e do público presente. 

 

Essa expo ‘gerou’ também uma performance a AVANTYPUS que tem um texto e filmagem a respeito.

 

MN: Tomando o título, Poematéria, arquitetura da palavra. O pensamento poético, nos seus fundamentos, parte de imagens concretas, sonoras, de textos ligados a cores e ao movimento, ou parte da palavra posta no papel e que vai se constituindo texto, texturas, sons tomando concretude através da constituição de cada projeto em particular?

 

JD: Myrian, a exposição ‘Poematéria arquitetura da palavra’ é uma exposição sobre a escrita, ou sobre a forma mais sintética de escrita que é a poesia. Assim como a arquitetura tem a missão de ‘qualificar o vazio’, e a poesia, a princípio, de qualificar a ‘página em branco onde se insere, Poemateria pretende expandir esse suporte preferencial da página atuando sobre diversas outras superfícies (vazios) além da página ou folha em branco.

 

JD: São vários os procedimentos adotados. Nos ‘poemobjetos’ predomina uma atitude de design + poesia onde o texto dialoga com o caráter do suporte como uma tema de pedreiro (poemobjeto Medida), uma banda de Moebius (poemobjeto ‘infinito’), um leque de tiras (poemobjeto ‘Circular’), um grande folha que pode ser aberta e lida em várias direções (poemobjeto ‘Dobra’, uma tira contínua (poemobjeto ‘Fita’) que vai sendo desenrolada ao longo da leitura, a garrafa de água potável de onde se tiram as estrofes (poemobjeto ‘Lama’) que refletem sobre os absurdos atuais a começar pelas tragédias que soterraram com lama localidades do Estado de Minas Gerais.

 

JD: Sobre os outros setores da exposição… para cada procedimento (setor da exposição) há um procedimento conceitual específico gerando resultados ou mais legíveis/literários ou mais gráficos/visuais/espaciais.

 

JD: Na série ‘Manusgritos’ o diálogo é com a caligrafia seja ela uma escrita inventada através do traço gestual, flertando com escritas orientais, ou a caligrafia linear os circular continua em português ou inglês. Aí a área do texto legível funciona como uma textura entre as linhas espontâneas das escritas criadas.

 

Myrian Naves: Uma série de perguntas interligadas partem do contato com a exposição e surgiram desde o contato com seu trabalho, sua poética. O que veio primeiro, qual das práxis? Qual ação concreta, a parte do conhecimento em relação às relações sociais e às reflexões políticas, econômicas e morais. Qual o incômodo primordial? 

 

O impulso inicial foi o senso poético que veio a preencher a página em branco, ou o incômodo ao andar pela cidade, por exemplo, o encontro com o poético que pode surgir a cada esquina? O senso espacial que leva à criação no espaço público, social. Ou do indivíduo que se aventura pela página em branco e parte daí para ocupar mentalmente e em ações o espaço em torno?

 

A escrita, a relação com a página, e com o espaço social e natural, tudo surgiu ao mesmo tempo, na mesma época? A gênese, o tipo de demandas pessoais que deram origem a suas criações. Os incômodos originais, e que nos definem. Como tem múltiplas áreas de interesse, os inícios interessam – o processo de criação acontece em flow? Projetos surgem já com início, meio e fim, num fio condutor sequencial? A questão gera interesse em relação à construção de uma obra como a sua.  

 

JD: Cada trabalho tem um tipo de incômodo diferente. Esta exposição abarca vários trabalhos, por exemplo, nos poemas-objeto, um incômodo, o desafio é um objeto performático, tanto para o autor do poema, quanto para o leitor-manipulador. Então, a leitura é feita num objeto que tem a ver com o texto. A banda de Moebius fala do infinito, a fita tem o refrão que diz ‘venha sem fazer fita’. A medida que é o poema escrito sobre uma trena, como suporte fala qual a medida da pessoa a fita, ‘venha sem fazer fita’.

JD: Em outros trabalhos a questão de se ter a poesia escrita em suportes imprevistos, suportes inéditos ou não usuais, também prevalece, por exemplo, nos prismas líricos onde prevalece a poesia escrita sobre volumes de aço e os tipos estranhos onde as letras se combinam de forma inédita, formando um alfabeto desconhecido, e palavras desconhecidas, num desafio para um mundo que ainda não se entende, na provocação de se criar um novo idioma. Nas faixas, as palavras são combinadas de forma aleatória, as grandes faixas que fazem a sala dos DECIFRÁVEIS. 

 

JD: A linha DECIFRÁVEIS, onde os textos se acumulam, gerando a princípio uma imagem gráfica, um padrão gráfico, mas que podem ser decifrados por que na verdade é uma sobreposição de palavras e versos. Nos ‘manusgrifos’, a busca de uma caligrafia inexistente, e dentro dela funcionando como uma textura, a caligrafia da língua portuguesa ou inglesa escrevendo textos ou poemas quase no fluxo da mente, escritos automaticamente como se fosse num improviso musical.

 

JD: Na maioria dos trabalhos esse incômodo vem dessa releitura do suporte para o texto e para a poesia, que são essas séries menores que eu falei anteriormente. Mas a questão da cidade surge nessa série projeto que eu chamei de POESIA URBANA, que principalmente é a sala dos TIPOGRAMAS, onde estão as letras e os DECIFRÁVEIS. São releituras de dois trabalhos de poesia urbana, de instalações ambientais. As salas dos TIPOGRAMAS são letras provenientes lá do Cubopoesia, que é a grande instalação multissensorial que está lá no Palácio das Mangabeiras que pode ser visitada, penetrada. A pessoa entra dentro da poesia literalmente. E as leituras poéticas, as grandes faixas vem da instalação da Festa da Luz, do ano passado, no vão dos edifícios mais baixos do edifício Sulacap. Esses dois trabalhos dialogam com a questão urbana, com a cidade, procurando uma leitura inicialmente visual, como instalação. Num segundo momento numa leitura literária, onde a poesia, o texto, o sentido do texto passa a fazer parte do entendimento da obra. Essa sala dos TIPOGRAMAS está se prestando a performances, que as letras no chão podem ser remontadas, recolocadas, quanto no sentido de criar letras novas, quanto palavras novas. Então, essa sala é o palco numa performance que inclusive aconteceu algumas vezes, de forma coletiva, que se chama AVANTIPOS, que justamente essa ação das pessoas sobre os cacos de letras, os pedaços de letras, podendo conformar um alfabeto novo, de palavras novas. 

 

MN: Lembro delas, as faixas – das cores e da ação do vento, quando aconteceu a Festa da Luz.

 

JD: Pode-se dizer que a leitura é uma espécie de ocupação de espaço, aí a poesia dialoga com a arquitetura. Esse paralelo me interessa muito como arquiteto. Arquitetura é a qualificação do vazio, o texto, a poesia é a qualificação do espaço em branco da página, que é também um vazio. Ler é procurar entender, e conviver na cidade de forma crítica é procurar entende-la também. Então, a arquitetura da palavra para mim é esse conjunto de espaços e sentidos que no fundo são a mesma coisa, acabam em diálogo dentro da minha visão. 

 

JD: Essas inspirações, essas preocupações me interessam desde cedo, quando menino descobri que existia a tal da vida interior, que poderíamos conversar com nós mesmos, numa espécie de diálogo, a escrita passou a fazer parte desse diálogo, a escrita e a leitura. Isso vem bem antes da questão arquitetônica, do espaço. Depois o estudo da língua inglesa e dos poetas brasileiros principais estudados no colégio, Drummond, Bandeira, Clarice, Fernando Pessoa, português.  Pablo Neruda, chileno. Depois os músicos, Bob Dylan, Beatles, Pete Townshend, Joni Mitchell essa questão da tradução da poesia em outra língua traz um entendimento profundo, que é uma espécie de dissecação do texto sentido por pessoas que estão em outros universos Depois, mais recentemente, quando fiz o livro ÁBACO surgiu essa questão performática do rock, da música, enxergando o poeta como um performer também. E esses poemas objetos que são uma forma de manipular o texto sem que sejam escritos em uma página convencional. 

 

JD: Os poemas-objeto são um texto para serem lidos de uma forma inédita, por uma pessoa que não decora o texto, por uma pessoa que é um autor, não um ator. É uma maneira de lê-los sem necessidade dessa memorização E aí, posteriormente, eu acrescentei paisagens sonoras criando ambientes sonoros para interagir com o texto e há essa poesia a que chamei “poesia progressônica”, que tem uma questão progressiva em relação ao som e à fala. Isso pode ser visto no projeto Pterotada, que é a maneira que eu nomeio esse projeto sonoro. Inclusive no disco PARLATORIUM com essas falas sonorizadas e que está disponível no SOUNDCLOUND.

 

MN: Sim, assisti a esta performance no mesmo espaço da UFMG, ao mesmo tempo em que tive o primeiro contato com seu livro ÁBACO. Posteriormente entrei em contato e o livro gerou a primeira colaboração sobre sua poesia, aqui, na revista InComunidade. Grata, em meu nome e em nome da revista. Parabéns, sucesso! 

 

 

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João Diniz, arquiteto brasileiro, com escritório em Belo Horizonte, onde realiza projetos e obras nas áreas de urbanismo, arquitetura, design, cenografia e artes visuais. É professor na Universidade Fumec e palestrante em instituições acadêmicas e profissionais do Brasil e exterior. Mestre em Construção Metálica pela Ufop e doutorando pela UFMG. Recentemente apresentou as exposições individuais ‘Trama e Typos Extraños’, (2019 e 2020); ‘Híbrido’, (2019); ‘Teia’, (2019) e ‘Vetor Vivo’, no MM Guerdau – Museu das Minas e do Metal, também em BH. Publicou os livros ‘João Diniz Arquiteturas’ (2002), ‘Depoimento: Circuito Atelier’ (2007), ‘Steel Life: arquiteturas em aço’, (2010), ‘Ábaco’ (2011), ‘Aforismos Experimentais’ (2014), ‘O Livro das Linhas’ (2020) e ‘Futurografia’ (2021); além de outras edições experimentais ou livros únicos sob demanda. 

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