InComunidade

Poema | Beatriz Aquino

Preciso te contar do espanto das minhas noites insones.
Desse grito abafado no peito que não consegue nascer
mas que também não cala.

Preciso te falar do vento frio que corre por esses lados do Atlântico.
Que corta as palavras no meio
e nos faz vagar pelas ruas roucos, tontos e pela metade.

Quero te falar das tardes vazias e curtas.
Onde meus pés perambulam por calçadas estreitas.
E meus olhos se perdem no Tejo em busca quem sabe de alguma caravela em atraso.

E quero também te dizer que temos navegado a esmo.
Os horizontes estão  cada vez mais distantes.
O mar cada vez mais íntimo de nossas retinas úmidas e confusas.

Quero te advertir que a visão do poeta será sempre turva.
Que a subida se torna cada vez mais íngreme à medida que avançamos.
Que o nosso gesto se desbota nas bordas do tempo.
Como o aceno débil de uma mão também débil e sonhadora.

E te afirmar que a poesia não salva nada.
Apenas nos torna menos cínicos.
Mais humanos,
talvez.

Beatriz Aquino, além de escritora, é formada em Publicidade e propaganda e é atriz de teatro. Beatriz também é autora dos livros: Apneia (romance), A Savana e Eu (crônicas), Caligrafia selvagem (poesia), Anne B.: a hora mais pacífica, e outros. Colabora em diversos sites, jornais e revistas, como o jornal O tornado e a revista InComunidade, do Porto. Atualmente vive em Portugal.

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