Cultura

Num pique de vida | José Arrabal

…é preciso que se diga que é um camponês é preciso que se diga que é uma camponesa num pique do alto da estrada o gosto do sal da terra e ela olhou para ele dizendo (assim, feito quem crinquintila uma coisa sensata num ata e não desata) me deixa rodar meu coração me deixa me deixa me deixa eu prometo eu te digo eu te falo eu te ouço eu te conto e pergunto e te toco meu coração é teu me deixa rodar meu coração no meio da fogueira em noite de pimenta pintando a terra, me deixa rodar meu coração nessa terra teu coração eu me faço e te traço no vento de meu fogo fogueira fogueando eu fogueio e te encosto o cheiro de  meu coração na trança de tuas mãos, me deixa rodar meu coração, me deixa (…) não deixo não (…) rodar meu coração que eu digo eu disse eu dissera eu dizia eu dito dizendo direi meu coração é teu e te encosto o coração nos lábios e assim me faço pedir teu coração, você na minha cova sem um não, faço, faço, sentindo teu desenho nessa fome, eu preciso e rodo rodo rodo rodo rodo rodo rodo e rodo, me deixa rodar meu coração as minhas mãos o vento retalhado em mim colado o fogo dessa roda roda roda roda na cor de tuas cores corda que me enrosca roda, me deixa (…) não deixo não : a faca, o corte, no peito de dolores, o tranco traço e ele mata uma duas três quatro cinco seis sete oito nove dez que não te aceito assim te deito com essa faca eu te enfeito que não deixo (…) e de novo rompendo como um traço os olhos dela reviviendo outra vez fogueando no fogueio: me deixa rodar meu coração (…) é preciso que se diga que é uma camponesa é preciso que se diga que é um camponês: eu não deixo não e te corto em mil pedaços meu demônio me maltrato mas não te deixo não no eixo desse fogo te deito a mão a faca uma duas três quatro cinco seis  sete oito outra vez nove dez na estrada um trato de sangue o sangue coalhado esparramado o corpo todo furado dolores das dores zenaide zoraíde zoraide adelaide rosa josita rosinha rosita chiquita virginiana e o sangue no meio da estrada das fitas dessa rita oito pontas em cada ponta dessa faca no peito encalacrada dessa adelaide rosada zoraide do fogueio o rosto dele ela no meio : me deixa rodar meu coração roda o seu que eu rodo o meu me deixa rodar meu coração (…) não, não deixo não, no meio da fogueira no meio da fogueira eu não deixo não eu não deixo não eu não deixo não eu não deixo não (…) mas o meu coração te cabe e mais cabe tudo que me deixo aqui na tua mão meu rodopio (…) eu não deixo não que eu deito oito pontas em cada ponta dessa faca no teu peito e não te aceito nem te deixo, nesse pique que te pico com essa morte, não te deixo não (…) me deixa : não deixo não : mas te dou a minha mão meu pé e meu cabelo à volta de cada volta no meio de meu fogueio minhas cores de dolores de zenaide cor de arroz  rosa rosita roda na roda dessa fogueira (…) não, não te deixo não (…) mas me deixa rodar meu coração e roda você também fogueia daí de baixo que fogueio cá de cima que me passo por você, você passando por mim, você não ficando assim de adonde você está : não, eu não deixo não : uma duas três quatro cinco seis sete oito nove dez vezes o sangue na terra sangrada réstia de réstia de sangue na terra penentrada, o corpo no chão desse sangue, ali jogada adelaide ensangüentada elzira morta virgem joãozinho e mariquinha zenaide zoraíde (…) mas olha pra tuas mãos abre os punhos de tuas mãos e roda como um pião me deixa  rodar meu coração que tua faca na mão me penetra não, não, não : não te deixo não, minha faca te penetra com a força desse meu não essa faca enferrujada de ferrugem afiada (…) abre o fogo da fogueira abre a asa dessa roda me deixa rodar meu coração : dolores esfaqueada cada vez mais ele com a faca levantada ela marca de sangue ensangüentada de chão rodeada (…) meu coração é teu meu coração nas tuas mãos : e ele e ele e ele e ele e ele e ele e ele e ele e ele e ele a faca nela penetrada no peito de zenaide zoraíde zoraide virginiana rosada enfiada : uma duas três quatro cinco seis sete oito nove dez vezes : e ela e ela e ela e ela e ela e ela e ela e ela e ela e ela me deixa rodar meu coração que volto já para tuas mãos me deixa : não deixo não (…) e ela para ele olhando me deixa me deixa me deixa me deixa : não deixo não (…) me deixa que te chamo de joão te rodeio sebastião te chego perto manuel te sopro meu sopro pedro te colo meu colo argeu teus nomes por mim chamados altino amaro machado arlindo alcides gambé delcides maria josé me deixa rodar meu coração : a faca de novo penentrando no peito de alzira ensangüentada uma duas três meia meia meia oito outra vez : é preciso que se diga que é um camponês é preciso que se diga que é uma camponesa, toda vez por tantas vezes e a faca penentrando e zenaide despertando no fogueio rodopio : ele com a faca matando : ela ressuscitando : ele dela mais perdido, ela dele bem mais perto : não, não te deixo não mantenerse indiferente : me deixa rodar meu coração que ele está nas tuas mãos eu rodar meu coração na paredes da madeira foguear meu coração só para ti, me deixa (…) não deixo não : e a faca penentrando oito pontas cada              ponta, uma facada, dolores, ressuscitada por ela, por ele ela              marcada, ela por ele tocada, na tocaia dessa amada a fogueira se extinguindo a roda nunca rodada ela dele já              cansada : o meu coração é teu me deixa rodar meu coração tira essa faca da mão tua mão no meu coração tua faca             esse não, me roda : não rodo não : me roda roda joão de outro nome sebastião gambé zé maria josé, a rosa ressuscitada do pique de morte matada, a lâmina da faca, lâmina cansada, ela dele desesperada de esperança esperançada, seus olhares se extinguindo : me deixa, não deixo não, me deixa, não deixo não, me deixa que não te deixo : nesse eixo desse eixo a falação se embolando no me deixa deixo não, na embolada das paradas ela dele mais tercendo ele dela não bebendo : uma duas três quatro cinco seis sete oito nove dez vezes, se matando, os dois na estrada morrendo, nenhum de si mais sabendo, a trança já se invertendo (me roda deixar meu coração, meu coração deixar me roda) no fogueio que se esvai e ele na sua rudez: é preciso que se diga que é um camponês não mais só um camponês, é preciso que se diga que é uma camponesa não mais só uma camponesa, nem mais só o sal da terra : a roda como uma guerra (…) e ele na sua rudez outra vez esfaqueando e ela sangue coalhado não mais ela, ela não ressuscitando (…) e ele ali parado no meio daquela estrada, mas roda teu coração mais roda nas minhas mãos no meio de nossa estrada (…) ela não mais ressuscitada nas palmas de suas mãos : ele querendo mais : ressuscita e roda teu coração, ressuscita : dessa vez não rodo não : ele com a faca na mão esfaqueia a morta em vão no corpo dele sangrando, ela morta levantando rodando seu coração : el corazón de sí mismo aunque juzguemos que la vida es absurda con el tiempo que tenemos libre : e roda seu coração adelaide zoraíde zenaide elzira rosa rosita rosinha roda adelaide uma zenaide zoraíde ou zoraide roda o corpo roda os braços roda as mãos com seu coração nas mãos, entre uma e outra ressurreição : e ele ensangüentado : me deixa rodar meu coração e ela, rodando, não, agora eu não deixo não : e os dois, olho no olho se olhando : ela rodando, a faca no chão e ele com mais nada na mão, sangrando por suas pedras : mas roda meu coração (…) e ela : não, eu não rodo não : abre com tudo os braços e abre as mãos e chega perto e mais perto dele, tão perto que ele brilha então feito o fogo da fogueira que se extingue nessa dança mal dançada, pique de morte matada para um toque que vê vida : e ele, agora, feito o fogo que fogueia : me deixa rodar meu coração, nele o fogo da fogueira já extinta, roda roda roda meu coração (…) ela : não eu não rodo não (…) mas então, diz ele, encosta nos meus lábios tuas mãos, os dedos de tuas mãos nos meus lábios, nesse roda pião, encosta : encosto sim (é preciso que se diga que é uma camponesa, é preciso que se diga que é um camponês, ambos na sua rudez) o gosto do sol da vida desses dedos nesses lábios, e ele, num salto, rodopiando abocanhando os dedos braços corpo dela e ela num salto rodopiando mergulhando nele o corpo inteiro (e a faca em vão na terra) agora então ele e ela, neles eles outro corpo, um corpo só : elela nu rodando o coração : num pique de vida sem não…

SP/BR

 

José Arrabal é professor universitário, jornalista, escritor, autor de contos, novelas e romances. Entre suas 50 obras publicadas sobressaem “O Nacional e o Popular na Cultura Brasileira: Teatro” (Editora Brasiliense), “O Livro das Origens”, “Lendas Brasileiras, Vol 1/Vol. 2”, “As Aventuras de El Cid Campeador”, “Romeu e Julieta”. “Da Vinci das Crianças”, “Lazarilho das Crianças”, “O Terrível Gosmakente” “A Chave e Além da Chave” (Editora Paulinas), “A Ira do Curupira” (Editora Mercuryo Jovem), “O Noviço” (Editora FTD), “Stalin – Biografia” (Editora Moderna) “Histórias do Japão”, “O Lobisomem da Paulista” (Editora Peirópolis), “Contos Brasileiros (Editora Expressão Popular) e “Anos 70 – Ainda Sob a Tempestade” (Aeroplano Editora). “NOUVELLES BRÉSIL” (Antologia de contos/com outros autores) – Collection Archipel – Éditions Reflets d’ailleurs–França – Blog 

[ http://josearrabal.blogspot.com.br/ ]

 

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