Cultura

M’usa mas não abusa, seu Jorge | Danyel Guerra

 

                                                 “A rosa é sem porquê, está em flor porque

                                                 é flor,/Não pergunta se a vemos, de si não

quer saber”

 

           

Angelus Silesius

 

Vive-se em clima de languidez bem tropical, a estação invernosa nas latitudes baianas. Uma certa tarde sofre em anomalia das agruras de um calor arretado*, com temperaturas capazes de tornar líquida até a manteiga de ‘Ultimo Tango a Parigi’. Sob uma sombra protetora, alguém tenta dormir a sesta, despojado, balançando a rede nordestina, armada no jardim da casa soteropolitana*. Olhos semi-abertos, colados num azul celeste, sem mancha de névoa, nem ameaça de pingo d’água. 

 

 Trotando devagarinho, à cata de acidental indiscrição, sombrinha protegendo as cãs, D. Maria das Graças ainda hesita em saudar o vizinho. Deve estar cansado de guerra! Mas como se apercebe que ele nem sequer dormita.

 

– Saravá Seu Jorge, descansando, né?

 

– Nããão, D. Graça, tô tentando é trabalhar!

Fotografia de Jorge Amado descansando em Salvador

 

  O tom taxativo da réplica põe fim às amenidades. Voz manietada, a vizinha afasta-se, acelerando a passada. Uns dias adiante, o vizinho desperta disposto a amanhar o jardim, que se mostra um tanto carente de desvelos. Utensílios em riste, êmulo do Candide de Voltaire, ele se ajoelha para caprichar o viço de suas Donas Flores, das Gabrielas, das Iemanjás, das Teresas Batistas. E das rosas, a Rosa de Hiroshima, a Rosa Marítima, a Rosa Luxemburgo, la Rosa Profunda, a Rosa do Povo, a Rosa de Pixinguinha, a Rosa de Cartola, a Rosa Giesta, a Rosa Martelo, a Rosa Sintética, a Rose de Gertrude Stein, a Rosa Púrpura do Cairo,  a Rosa Cruz e até la Rose de Bécaud. É nesses afagos ditosos que a xará* de Gal Costa, de novo, o interpela, com uma saudação efusiva.

 

– Parabéns, Seu Jorge, trabalhando em dia de niver?!

 

– Obrigado, D. Graça, mas hoje tô mesmo descansando! 

 

  E a enxerida* D. Maria fica sem as poucas graças que ainda tinha Divertido com os equívocos, ele levanta bem abertos os olhos para o firmamento. Um beija-flor risca, repentino, esse céu azul de Delft. Colocando os óculos graduados, descortina os filamentos de uma nuvem, súbita, tímida, de um branco lavado com Omo. E se recorda do algodão doce que, lambão, devorava nas quermesses e nos parques de diversões. 

 

Deve ser uma nuvem passageira. Tenho de me apressar. Despeja na terra fofa as ferramentas, sacode a poalha, mãos expeditas, enquanto despe o macacão de brim e se despede de Priapo. Entra em casa e num instante, ecce homo, chapéu de palha de Itália, camisa branca de popeline, bermudão indigo blue, binóculos na mão. 

 

Onde é que ele vai, assim todo prosa?, indaga o gato Malhado. Deve ir para as Terras do Sem-Fim. Vamos com ele?, desafia a andorinha Sinhá. Todavia, Jorjamado, como lhe chama Glauber Rocha, está é a fim de se espichar na rede.

                                                                                                                                                                                                                                                 

– Ué, dormindo a sesta antes do almoço?!, estranha D. Zélia.

 

– Nããão, Zelinha, tô tentando ralar*!

 

Fotografia de Jorge Amado

 

  Corpo em refestelado decúbito dorsal, olhos semi-cerrados, num enlevo de nefelibata, ele fica de Tocaia Grande. A nuvem imobilizara-se mesmo por cima de sua cabeça, polvilhada de brancas. Bons auspícios. É nesse enleio de expectativa, que uma divindade o enlaça num abraço perfumado, benfazejo. Na sua cabeçaa, reluz uma tiara de camélias, coroando a negra cabeleira, franja na testa alva

 

– Querida, você é tão parecida com uma moça que conheci há muitos anos na Baixa…sim, só pode ser a…  Não lembro graça dela*. 

 

– A minha é Clóris, sou uma ninfa das flores, que anuncia a primavera.  M’usa, mas não abusa, Seu Jorge!

 

Nada obtusa, prenhe de tusa, a musa tira a blusa de cambraia, de amorável coloração, se deita na tipóia e se insi… nua. E presenteia o mortal com uma boceta* de nácar e uma rosa escarlate. Durante a epifania, ela se revela abnegada, vibrante, desafiadora. Uma osmose de impulsos e energias alulucinantes, que mais parece uma transfusão sanguínea. A anemia criativa do Amado romancista fica curada. 

 

-Êta, musa sangue bom, jubila o general dos Capitães da Areia, abrindo a boceta*, onde luz uma boceta* já madura, pronta a chupar.   

 

De repente, a voz estridente de Jacira, o leva a aterrissar de novo na mais prosaica das realidades.

 

– Seu Jooorge, o almoço tá pronto. Hoje tem bobó de camarão e sua mousse de manga rosa… no capricho. Feliz Niver!

  

 Mas o patrão parecia estar saciado. Agora, só me apetece a boceta* que ganhei da antusa. Salta da rede, monta o Cavalo da Esperança, galopa célere para o escritório. Ele se sente odara* como nunca. Reclinando-se no divã, abre meigo, a boceta. E ungido pelo suco de inspiração que dela exsuda, Jorge faz emergir das profundezas das recordações um episódio datado dos vigorosos tempos de juvenília.

 

No ocaso de um dia de calor pavoroso, saído de uma tertúlia na Academia dos Rebeldes, o estudante decidiu visitar, para espairecer, a Casa Branca, um inferninho* situado em plena Baixa do Sapateiro. Para Jorginho, essa noite de temperatura vaporosa se viu subitamente alterada por uma visão com foros de ineditismo. Uma das moças do bordel oficiava, com fervor de sacerdotisa, um surpreendente ritual.  Intrigado, ele instou a cafetina*.

 

-Quem é essa pitoresca personagem, D. Melânia?

 

-É uma rapariga nova. Chegou há uma semana a Salvador. Egressa do sertão, viajou de pau de arara*, lá dos confins de Juazeiro. É de família muito pobre. 

 

Amado não decolava o olhar da deputante, esplendorosa na aurora dos seus 18 anos. A moça, apercebendo-se da intromissão, dirigiu, de soslaio, para o poeta, dois olhos marejados de timidez e inocência. Olhos negros como a noite cerrada do agreste, um par de pontos cintilando de doçura numa facies adornada por um penteado que lembrava a femme fatale de Die Büchse der Pandora, filme estrelado pela LouLouise Brooks. Seria pedir muito que fosse Lulu o sobriquet dela.  

         

         -E qual é a graça* da mocinha?

 

-Lucineia!

 

-Um nome muito luminoso! Combina com ela, sem dúvida.

 

-Mas nós a chamamos de Lulu.

 

Amado sorriu jubiloso, triunfando sua intuição. Só não desejava para sua desvalida conterrânea, o pungente destino reservado à heroína da fita de G.W. Pabst, mulher em extravio nas ruas esconsas e soturnas de uma Londres mergulhada em espesso nevoeiro. A paternalista proxeneta pareceu adivinhar a perplexidade do poeta e apaziguou suas preocupações.      

 

-Ela corria o risco de se tornar uma catraia*. Pairava pelas ruas, sem eira nem beira, exposta ao sereno e aos perigos da noite. Ao saber desse drama resolvi acolhê-la na Casa Branca.

 

  1. Caridade não evita, por norma, ser uma senhora um tanto paternalista e interesseira. Tangendo o entusiasmo, D. Melânia confirmou que a nova pupila levava muito jeito para as artes do bordado, aprendido com a avó materna. A boceta* onde guardava as agulhas e as linhas sobressaía, preciosa, dos parcos pertences da sua bagagem  

 

  -Ela é muito requestada pelos clientes. Autorizo que borde, desde que não atrapalhe o trabalho e não distraia as raparigas. Borda lenços para o namorado, que ficou lá nas margens do São Francisco. Prometeu se juntar a ela aqui na capital. 

 

E a moça tanto acreditava nessa reunião que decidiu começar a bordar o lençol do leito nupcial. Até parecia querer reeditar a odisseia da homérica Penélope. Embora não pudesse desbordar de noite o que bordara de dia. Nessas horas noturnas estava geralmente a bordo de mais lúbricas tarefas.

 

E a narrativa se interrompe nesse ponto crucial, não revelando se Lulu concluiu o bordado e se o Ulisses da Terra das Carrancas veio resgatar o quindim de iaiá da servidão no meretrício. E se suspende súbita, não revelando o que mentes fesceninas estarão indagando, se acaso o Amado mancebo provou do gostoso quitute baiano. Embriagado pelo doce suco da boceta*, o fabulador adormecera no divã dos devaneios friccionais. Lá fora, num céu pintado de anil, as nuvens continuvam sendo passageiras. 

 

Me engana que eu gosto?, objetei quando o Malhado e a Sinhá me confiaram este mirabolante causo*. Em uníssono, ambos lembraram que por graça do Senhor do Bonfim, na Bahia, país do afro-Carnaval, onde os automóveis só têm três marchas  –devagar, devagar quase parando e Dorival Caymmi- nada é incrível, nada é impossível. O papai de Tieta inventou a quarta e acelerou. 

 

E quem vai acelerar sou eu. Tenho de ir buscar a Rosa Palmeirão ao Mar Morto para ir com ela ao Motel Volúpia, na Av. Jorge Amado. Salve Seu Jorge.

 

         *Glossário

 

arretado- firme, intenso

 

boceta- caixa de joias //espécie de tangerina // pequena bolsa 

 

cafetina- proxeneta

 

catraia- prostituta de rua, de baixo meretrício

 

causo- estória contada de modo coloquial

 

          enxerida- intrometida

                   

          graça- nome de pessoa 

 

          inferninho- bordel           

 

odara- feliz, bem disposto

 

         pau de arara- camião com bancos para transporte de pessoas

 

         ralar- trabalhar

 

          soteropolitana- da cidade de Salvador da Bahia         

 

          tocaia- à espera da presa

 

         xará- homônima

Danyel Guerra (aka Danni Guerra) nasceu na cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, na mátria amada Brasil, num novembrino dia de Vênus, sob o signo de Escorpião. No ano em que a advogada Hilda Hilst abandonou o Direito para ir ser torta na vida, se transtornando na fabulosa e obscena Senhora HH.  

  

Tendo uma licenciatura em História Universal da Infâmia, Guerra é autor das obras Em Busca da Musa Clio (2004), Amor, Città Aperta (2008), O Céu sobre Berlin (2009). Em 2012, publicou  Excitações Klimtorianas. Seguiram-se os livros O Apojo das Ninfas (2014), Oito e Demy e O Português do Cinemoda (ambos em 2015), Os Homens da Minha Vida (2017) e Corpo Estranho (2021).

 

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