Cultura

Essas palavras sobre o fim | Wilson Alves-Bezerra

 

 

Para Moïse Mugenyi Kabagambe

I

 

Às vezes, para se entreter, 

os feitores da equipagem 

entre dias de trabalho e vadiagem

enfiam excrementos na boca dos pretos.

 

Essa carga, tanto tarda, nunca chega

Essa carga, que se perde, que se mata

Entre um lado e outro do oceano.

 

Acalanta um corpo prenhe no convés

a borrasca.

Acalanta um corpo enfermo no porão 

um rato.

Acalanta um corpo farto na prisão 

uns ventos

 

Escrevo, entre lábios, para ver

se este momento 

passa

mas estou congelado

num canto sujo

rábico

pouco depois

de mil e quinhentos.

 

Essa carga, tanto tarda, nunca chega

Essa carga, que se perde, que se mata

Entre um lado e outro do oceano.

 

O navio ao pé de nós,

não se apressa em naufragar.

Não há o mar.

Não há o gesto ou o sentido

que justifique um verso.

Tudo corre para trás e para dentro.

 

O algoz distrai-se com sua fugaz supremacia.

O navio onde jazia meu corpo

faz água

e nós na equipagem 

nada mais que sobreviver.

 

Fornicam sobre nossa memória.

Fornicam sobre a história.

e sobre os corpos dos futuros defuntos.

Transformados desde já em assuntos.

Coisas que contar.

Porque agora é assim.

 

Albatrozes não há mais.

Minas ainda não

ou bahia que aportar.

Diluem-se meus traços primeiros 

na face alheia do mar.

 

Essa carga, tanto tarda, nunca chega

Essa carga, que se perde, que se mata

Entre um lado e outro do oceano.

 

Malungo, não foge de mim.

Se doce fosse morrer assim, no mar

valeria ser privado de tudo

mas não.

 

Plantar cana para a embriaguez alheia 

como se fosse pouco

e por infindos alqueires de miséria nacional

padecer de sede.

 

Ver o gelo virar chorume 

e uma certa esperança, terra verde,

tornar-se palha

pouco antes

da sevícia

e não chegar a Quebrangulo.

 

II

 

O calendário avança,

O tempo não passa.

Arrotam ainda os boçais sua pirraça

quinhentos anos depois,

contra quem sobreviveu

ao agente da milícia

ao capitão do mato

que fareja sapatos, bolsos e passaportes.

A pele luzente

das gentes sem sorte

por sua cor equivocada.

 

Essa carga, tanto tarda, nunca chega

Essa carga, que se perde, que se mata

Entre um lado e outro do oceano.

 

Morrer no mar é o puro creme do exílio

Moïse Mugenyi Kabagambe há de saber.

Morrer na orla, que há de ser

tantos golpes depois?

 

A vertigem da repetição.

A terra segura sob os pés

escapa-lhe.

 

Memórias que acudiam 

eram de outros de todos de nenhuns e nós.

Um marinheiro feito um rato no leme.

Um iceberg incerto noutros olhos.

Dentes de chacais surgem dos lábios da besta canavieira.

A verdade a meias dos monges oficiais.

Um corpo avulso sob coturnos e padres.

 

Essa carga, tanto tarda, nunca chega

Essa carga, que se perde, que se mata

Entre um lado e outro do oceano.

 

Uns olhos alheios.

O Rio de Janeiro deserto. 

A las cinco de la tarde

para matar e deixar morrer.

 

Hora perfeita da vontade

a indiferença 

moi.

 

Quinhentos anos

e Moïse ainda era o mesmo.

Brasil é lugar de morrer.

 

Antropofaria, tropicaria, mas não, 

ele só queria receber o soldo.

Mas aqui, aprenda-se,

na senzala

canta a vara

e não é para ninar nenê.

 

Sua bossa é nossa disciplina.

Quem levanta a voz é só senhor.

 

Na barra da tijuca da nossa míngua

quando um preto argumenta

avança um tropel de golpes

boca adentro.

 

Mas se todo preto avança

também não avançará o tempo

de mil e quinhentos

para um pouco adiante

ao menos?

 

Essa carga, tanto tarda, nunca chega

Essa carga, que se perde, que se mata

Entre um lado e outro do oceano.

 

 O brasileiro Wilson Alves-Bezerra (São Paulo, 1977) dedica-se à prosa de ficção, à poesia em prosa, à crítica literária de autores latino-americanos e à tradução literária. Em Portugal, publicou antologia de seus poemas Exílio aos olhos, exílio às línguas (Oca, 2017), duas edições de O Pau do Brasil (Urutau, 2017 e 2019), Necromancia Tropical (Douda Correria, 2021) cujos primeiros poemas foram lançados em disco virtual, Catecismo Moreninho (Livraria Orgânica, 2020).   No Brasil, publicou ainda Histórias zoófilas e outras atrocidades (contos, EDUFSCar / Oitava Rima, 2013), Vertigens (poemas em prosa, Iluminuras, 2015), O Pau do Brasil (poemas em prosa, Urutau, 2016), Vapor Barato (romance, Iluminuras, 2018) e Malangue Malanga (poemas em prosa em língua misturadas, Iluminuras, 2021). Tem ainda obras publicadas no Chile, Colômbia, El Salvador e Uruguai. Sua literatura traz um singular cruzamento entre experimentações com a linguagem e reflexões sobre o mundo contemporâneo. Seu livro de poemas Vertigens ganhou o prêmio Jabuti em 2016, na categoria Poesia – Escolha do leitor. Seus trabalhos de crítica dividem-se entre o acadêmico e as resenhas para importantes veículos do Brasil (O Globo, O Estado de S. Paulo) e México (El Universal). É autor dos seguintes ensaios: Reverberações da fronteira em Horacio Quiroga (Humanitas/FAPESP, 2008), Da clínica do desejo a sua escrita: incidências do pensamento psicanalítico na obra de alguns escritores do Brasil e Caribe  (Mercado de Letras/FAPESP, 2012) e Páginas latino-americanas – resenhas literárias (2009-2015) (EDUFSCar / Oficina Raquel, 2016). Como tradutor, foi responsável pela versão de autores latino-americanos como Horacio Quiroga (Contos da Selva, Cartas de um caçador, Contos de amor de loucura e de morte, todos pela Iluminuras), Luis Gusmán (Pele e Osso, Os Outros, Hotel Éden,  todos pela Iluminuras) e Alfonsina Storni (Sou uma selva de raízes vivas – obra que contou com o apoio da Casa do Tradutor Looren, de Wernetshausen, Suíça). Sua tradução de Pele e Osso, de Luis Gusmán, foi finalista do Prêmio Jabuti 2010, na categoria Melhor tradução literária espanhol-português. É doutor em literatura comparada pela UERJ e mestre em literatura hispano-americana pela USP, onde também se graduou. É professor de Departamento de Letras da UFSCar, onde atua na graduação e na pós-graduação.

 

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