Cultura

Entre o belo e o sinistro: Freud e Hitchcock | João Rebocho

O intrometimento freudiano na obra de Eugenio Trías impõe uma reflexão pouco ou nada inocente, diga-se de passagem, acerca da tragédia grega que, de um modo capaz e hábil, emergiu em O belo e o sinistro acarretando uma carga linguística, estética e formal, elevando-se, então, ao campo da natureza denominal permitindo a possibilidade de, quase descaradamente, estar presente em mais do que um momento na obra do autor espanhol. A perpetuação da hipótese “o sinistro constitui condição e limite do belo”, paradoxalmente viva na intermitência temporal já que estão nas artes atuais as incessantes tentativas de revelar essa problemática mas, concomitantemente, são as formas de arte inscritas numa realidade passada as constituintes da sua base, representa-se ao longo do texto enquanto expressão indispensável da teorética do autor, referenciada quer de forma direta ou indireta na compreensão da travessia kantiana sobre a limitativa noção e conceção de “belo” e através da transferência para o plano mental do leitor dessa mesma contínua e eficaz promulgação que assalta o objeto estético até aí inevitavelmente presente e oferece uma composição cinematográfica direcionada por Hitchcock que, inquietamente, inflama o corpo de O belo e o sinistro, permanentemente agitado pelas correntes em que acaba sempre por ser submetido. 

 

               O estudo que se procura desenvolver apreende na Primeira e Quarta Parte da obra de Eugenio Trías a sua essencialidade. A força suprema da arte grega, a tragédia, que segundo Aristóteles em Poética “pretende imitar homens superiores aos de hoje…” tem em O Rei Édipo uma exploração dessa mesma complexidade moral, ambígua e sensível, relacionando-se com a catharsis, com a conceção antropológica fundamental freudiana e com a discussão sobre a existência do herói trágico; serão estes os três degraus que esta investigação tentará esclarecer. Passando, sem uma devida abordagem, para a afirmação que Lukács realiza em A Estética “ O que aqui se faz objeto não é o em-si da natureza (…), mas uma natureza em interação ininterrupta como um sujeito ativo e não individual apenas : um sujeito coletivo – a sociedade de cada caso e, mediante ela, o género humano.”, conseguimos absorver um evidente cariz antropológico, de valor conditio sine qua non, que será crucial na discussão sobre O Rei Édipo inseparável da íntima tese de Freud, porém, neste momento, sabendo que a carência de conhecimento sobre o sinistro enquanto individuo ou situação singular, o enunciado de Lukács é colocado, se o pudermos dizer, temporariamente em pausa mas pronto para ser solicitado assim que for preciso. 

 

               Os termos “Unheimlich” e “Heimlich” previamente explicados antes de, sucintamente, serem referidos os seis pontos-chave onde os indivíduos e as situações sinistras se projetam, acompanham-nos também, mesmo que implique um recuo na leitura, na transição do sublime kantiano para o sinistro – momento em que é atribuído ao “belo” a pesada expressão, designada por Rilke “O belo é o começo do terrível que nós, humanos, podemos suportar”. Os vestígios deste “terrível”, independentemente dos pontos-chave na construção do sinistro, já são refletidos pontualmente no valor estético do sublime kantiano e, falando em termos gerais utilizando como analogia a própria espera que o enunciado de Lukács por agora passa, o sublime pode ser entendido como o despertar para o convite que o sujeito se sente tentado a aceitar entre a dor e o prazer, a pequenez e a grandeza, ou “a suspensão perante esse objeto que o ultrapassa”.

 

                É fundamental para o estudo em questão ressaltar um dos seis tópicos em que o individuo sinistro se representa e, assim sendo, convoco o desmembramento ou a multiplicidade de personalidades como efeito ou causa daquilo que este valor estético potencialmente produz, e se associarmos esta ordem de ideias com a citação de Nietzsche acerca da relação do coro e do herói trágico “ No fundo, o fenómeno estético é simples : se temos o dom de perceber sempre o jogo vivo das figuras e de viver sem cessar cercados de toda uma coorte de espíritos – somos poetas; se experimentamos a necessidade instintiva de nos metamorfosearmos e de nos exprimirmos através de outros corpos e outras almas – somos dramaturgos.”, observamos que é precisamente esta metamorfose, este processo de transfiguração quase carnal que possessa, no sinistro, o sujeito em sentimentos de nojo, de violência e de morbidez, que corrompe a noção de belo platónica, de harmonia e proporção, que sintetiza o sublime e arruma-o na categoria platónica, e encontra em O Rei Édipo e, ainda, em Vertigo, terra fértil para se instalar, para se propagar e, eventualmente, para se contagiar. A manifestação de um “ser portador de malefícios e de presságios funestos”  como o Rei de Tebas é anunciado pelo Sacerdote “Agora, Édipo, que todos te consideram o mais forte, encontra remédio para os nossos males (…) Tu, o melhor dos homens, conduz, de novo, o governo da cidade, com segurança, mas pensa que, se hoje esta terra te aclama como seu salvador (…) faz com que não tenhamos de recordar, mais tarde, o teu governo, como uma época em que nos erguemos no alto, para depois cairmos no mais profundo mal.”. O prenúncio é aqui bastante explícito, seja pelo conjunto de sintomas de uma doença que necessita de “remédio”, seja pela aparente carência de novidade no discurso do Sacerdote, onde até podemos ligar o autor Eugénio Trías quando enumera o inventário de temáticas sinistras “A repetição de uma situação em condições idênticas às da primeira vez em que se apresentou, num autêntico retorno do mesmo”, e por último a própria ação da tragédia que, sabendo-se de antemão que Tebas era usada por Atenas como forma de propaganda e como local onde todos os infortúnios aconteciam, voltou sob este discurso repleto de presságios a ser o lugar onde a imoralidade e o horroroso revelaram-se em forma de incesto e de um crime parricida. Todavia, a imoralidade e o horroroso traduzidos nos crimes de Édipo podem ser, simplesmente, segundo Freud e seguindo a linha da categoria estética do sinistro, aquilo que era secreto, íntimo, autocensurado e, a certa altura, realizado no real. Esta aproximação a situações desonrosas e estrangeiras de valores morais são, ainda para Freud, muito cúmplices e estimuladas pelo subconsciente que concebe as coordenadas para a concretização das vontades e aptidões do sujeito. Vejamos este excerto retirado das Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade “A excitação que acompanha certas emoções penosas (angústia, terror, espanto) persiste num grande número de adultos. Isto explica-nos porque é que tantos indivíduos procuram sensações desta ordem”, esta perseguição não é inocente, não é desligada da catharsis que, enquanto designação para libertação ou evacuação de um amontado e abismal excesso de emoções que desregulam o funcionamento e o equilíbrio da alma e se inscrevem enquanto princípios da tragédia grega e a criação do herói trágico. Recordando ainda a citação de Nietzsche e a metamorfose que possessa o sujeito, no sinistro, em sentimentos terríveis e angustiantes, não seria errado salientar uma das definições que o termo Mimesis nos propõe e que nos é apresentado em forma de “identificação” ou seja, em grau superlativo, “possessão” que pouco ou nada se desviam de princípios como éleos e fobós que desencadeiam ou motivam a significação central de catharsis. Esta maliciosa ou premeditada, pelo subconsciente do sujeito, perseguição das mais negras vultuosidades foram referidas por Santo Agostinho quando, em Confissões, escreve “Porque os espectadores querem sentir a dor, e essa dor é o seu prazer.” ou quando Paul Valéry desenvolve acerca do prazer, “Mas há prazer e prazer. Nenhum prazer se deixa facilmente reconduzir a um lugar determinado obedecendo à ordem correta das coisas.” e é em O belo e o sinistro, pela tese freudiana, que se observam os dois desejos que se projetam nos sonhos e se aprisionam na proibição imposta pela sociedade: desejo homicida e desejo amoroso. O desejo amoroso, pelo caráter incestuoso, é virado para a mãe e o desejo homicida, mais atribulado pela presença de um “rival”, virado para a figura paterna. O reconhecimento que daí advém, anamnesis, produz no espectador ou em qualquer pessoa que recorda os primeiros anos da sua infância uma compaixão, um sentimento de verossimilhança, acompanhada, sempre que se exprima no real as fantasias sufocadas no desejo do subconsciente – o ato sinistro –, de uma “purga anímica”.

 

              A presença da obra Totem e Tabu confere ao O belo e o sinistro uma ampla abrangência no campo cultural e social, porque elucidam-se fenómenos de sociedades primitivas que se regulam, de uma ou outra forma, pela consciencialização destes desejos do subconsciente, simplificando e ilustrando com exemplos práticos o caso de O Rei Édipo, onde essas amordaçadas paixões levaram à morte da mulher/irmã do Rei de Tebas, e à morte do Pai/ Antigo Rei de Tebas por parte de Édipo, o seu filho. A teoria freudiana, ou o mito fundacional, com que Freud atribui a Totem e Tabu circula, principalmente, ao lado da tese de Darwin sobre a origem da família humana onde a presença de um pai repressor e tirano remete os filhos a encará-lo como uma figura concorrente para a atividade sexual. Sabendo que se esclareceram agora alguns termos e algumas definições essenciais para nos ambientarmos na teorética de Freud, julgo ser pertinente o empréstimo da citação de Lukács, já que a abordagem é neste momento muito mais acertada, porque ajudar-nos-á a reforçar a ambivalência entre a singularidade e a pluralidade que estes ideais compreendem e a dificuldade que existe em posicioná-las “(…) mas uma natureza em interação ininterrupta como um sujeito ativo e não individual apenas : um sujeito coletivo – a sociedade de cada caso e, mediante ela, o género humano.”.

 

               No corpo do ensaio de O belo e o sinistro, acidentado pelas variantes estilísticas e pelos objetos estéticos emergentes, sobressai-se Vertigo como alvo dominante no estudo de Eugenio Trías em constante articulação com o Homem da Areia, obra introduzida exaltando os sintomas e as atribulações que o ato sinistro provoca, mas, ainda assim, creio que a dormente ou inanimada figura feminina no filme de Hitchcock permite-nos não só encurtar a distância com a premissa que rodeia o filme e, ainda, declara-se como o desejo amoroso de um homem para com uma mulher morta, pálida, se olharmos para a cena que abre o filme, algo roxa, com inúmeras referências à pintura – forma de arte que ocupa a Segunda Parte do livro O belo e o sinistro-, como é o caso da famosíssima cena em que o protagonista espia ou vigia a mulher num museu e encontra, seja no modo como o cabelo está devidamente aprumado ou pelo arranjo de flores, semelhanças entre o retrato pintado a óleo e a atenta espectadora que, estando de costas para o homem, não sente a sua presença e mistura-se, sombriamente, com a mulher inanimada da obra artística.

 

Bibliografia:

 

BORIE, Monique, DE ROUGEMONT, Martine, SCHERER, Jacques, Estética Teatral “Textos de Platão a Brecht”, Trad. Helena Barras, Fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa, 1996.

 

FREUD, Sigmund, “Três Ensaios Sobre a Teoria da Sexualidade”, Ed. Livros do Brasil, Lisboa, 2001

 

LIVROS RTP, Biblioteca Básica Verbo, Sófocles, “O Rei Édipo”, Editorial Verbo, Lisboa.

 

SACRAMENTO, Mário, “Há uma estética neo-realista?”, 2ª Edição, Ed. Vega, Lisboa, 1985.

 

VALERY, Paul, “Discurso sobre a estética/ Poesia e pensamento abstrato”, 2º Edição, Ed. Passagens, Lisboa, 2020.

João Rebocho – Licenciando em Artes e Humanidades com Major em História e Major em Artes e Culturas Comparadas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Programador Cultural na Galeria de Arte Olga Campos, membro da Casa da Animação e interveniente na organização da 20° edição da Festa Mundial da Animação, em Amarante . Publicações nas edições 82, 83 e 85 da revista d’Os Fazedores de Letras, um conto na edição 29 da revista LiteraLivre, cronista com o trabalho “Projeto: A memória, também.” na revista BIRD Magazine e nomeado para o Top 3 do concurso de escrita “Eis Portugal!” da revista Olissipo.

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