Cultura

Emma – a menina que era triste | Vítor Burity da Silva

Prefácio

As histórias de vida e da vida são sempre da maior importância, são a súmula da estória e da história, a vida vivida e a imaginada, a inspirada na vida dos outros e da nossa. Este livro é vida porque é acima de tudo uma estória da história, a realidade inventada de alguém que um dia a tenha vivido. Respeitar a vida é algo sagrado, amar é mais ainda. Sem amor, há desamor. Precisamos de amor e de respeitar quem nos ama para que saibamos também amar. A vida é efectivamente uma enorme e linda escola.

Sónia Barreto Burity da Silva

 

A todas as “EMMAS” de Angola e do mundo.

 

Nem sempre os sonhos se perdem. Nem sempre nos tornamos vencedores na vida. O percurso nem sempre é inventado.

 

Sabes madrinha, sonhava ser médica, quem sabe outra coisa, tinha pena das pessoas pequenas como eu e sem mãe, mas eu tinha uma madrinha que tudo me deu. Eras a minha mãe.

 

Sabes madrinha, eu comparava-me com os outros meninos, apenas isso, por terem mãe e eu não, não entendia o porquê, mas a vida foi-se desenvolvendo e com o amor que sempre recebi de ti fui percebendo, és não sendo, mas és, amar é quem cria, educa, ensina.

 

Fui uma criança como as outras, vivi, brinquei, corri, saltei, tinha em casa o amor que todas as crianças precisam, a comida feita e o abraço de todos os dias, sabes madrinha, é tão bom sentirmo-nos amados.

 

Lembro-me das perguntas que te fazia e se me recordo das tuas respostas, eram sempre lindas e fortes, simples, mostravas-me o céu onde poderia estar a minha mamã, as estrelas que um dia iriam fazer brilhar a minha vida, o teu entusiasmo em que eu estudasse, querias como sempre, que eu fosse um dia alguém nesta vida. Cresci e sou, graças ao amor de uma madrinha a fazer o papel de uma mãe. Sempre o foste, desde que a minha mãe desapareceu numa guerra tão feia, aliás, as guerras são sempre feias!

 

Lembro-me tão bem das tranças que não dispensava, das rosas colocadas em cada uma, do teu sorriso lindo, das nossas caminhadas até à escola e tu lá, sentada no banco que dava para a entrada, à minha espera. Sabes madrinha, o amor deve ser uma palavra escrita sempre em maiúsculas, o amor é das coisas mais importantes da vida.

 

Lembraste quando me dizias que eu teria de estudar muito para ser uma pessoa importante? Eu lembro-me, como se fossem coisas ditas ainda hoje, ficaram para sempre marcadas na minha cabeça, por isso estudei, o teu apoio e a força que sempre me transmitiste levaram-me a nunca desistir. Cresci madrinha. Hoje sou adulta, desempenho funções de destaque na minha vida profissional, mas sem ti, talvez nunca fosse ninguém.

 

Lembraste dos edifícios que nos rodeavam?

 

Lembraste das nossas conversas madrinha?

 

Eu ainda me lembro de tudo, desde o escovar dos dentes ou lavar do rosto, de quantas vezes me dizias

“EMMA, está na hora, olha a hora das aulas!”

 

Aquele sombreado ainda na minha cabeça, mas das tuas mãos sim, o que mais significou para a minha vida. Eras e és a minha vida madrinha.

 

Quando o amor é incondicional ninguém esquece, quando o calor dos abraços são assim, quem esquece o valor dos braços nos corações de todos?

 

Sabes madrinha, ainda hoje, crescida e já definida na vida, recordo e vivo da mesma forma sobre tudo o que fazias comigo, tudo o que me dizias, os ensinamentos que me transmitias, sendo tu a mãe que perdi nestas coisas da vida.

 

Sabes madrinha, és a minha mãe, a mãe que o destino tirou de mim, mas felizmente surgiste como um anjo branco a sobre- voar a vida e os sonhos de uma criança.

 

Que entendia eu da vida?

 

Nem sempre as dificuldades na vida nos remetem a seres menores, o crescimento é uma coisa linda e cada pessoa tem o seu próprio, o seu próprio caminho. Eu tive como sabes madrinha, um início difícil, perdi a minha mãe que mal conheci, mas Deus encontra sempre uma solução para a nossa felicidade e sorte, ter-te a ti madrinha, está em tudo o que disse, fui uma menina triste, mas feliz por te ter encontrado nestes caminhos que a vida nos impõe.

 

A tarde encobre-se de falanges à distância, ouve-se a cor adocicada da vida, o silêncio da juventude, as memórias esquecidas neste rio tão lindo como o entardecer, um amordaçado cansaço superado pelos ímpetos e vontade de viver, sentir fluir nas veias o recorte da vitória, a sensação de que compensa lutar pelo nosso objectivo.

 

De repente, uma vontade de se falar sozinho, contar as histórias caladas da vida que decorre ainda, esse carreiro de silêncios preenchidos com sangue e vida, vontade de tudo, pensar o dia, reflectir a noite e dormir um sono profundo e suculento.

 

Dormir bem revigora, acordar cedo é um acto de saúde e vontade, esperar pelo correr do dia numa tarefa que nos dê prazer, amar o presente e respeitar o passado, sentir o fluir doce do nosso próprio corpo nesta cidade de todos. A nossa.

 

Nasci devagar, não sei se se nasce depressa, aprendi a estudar o dia a dia e os momentos para aproveitar o sabor de tantas ideias, criar o meu próprio caminho que depende sempre de como o começamos, ter lar e casa, amor, abraços, sorrisos matinais e um sempre bem-vindo bom dia amor.

 

Nem todos os que partiram desapareceram completamente, há tantos recursos para que os consigamos fazer presentes, verdade, as pessoas conseguem desde que queiram amar o tempo, venha de onde vier, vá para onde for, mas nunca desaparecerá da nossa verdade e mesmo essa nunca será só nossa, somos um grupo grande de gente e de ideias, de vontades e saber, com sacrifício soletrar os degraus do percurso desta vida que Deus nos deixou.

 

O divino não é farsa nenhuma, é crença dos vivos, momentos da existência, reflexão, saber solidificar em qualquer dos momentos tudo que se nos depare pela frente. Saber vencer é divinal.

 

Sabes, sentir que tudo o que se consiga na vida é ter o sabor da existência, persistência, amor por si mesmo, pensando num percurso nunca esgotado, algo a arranhar o pensamento todos os dias revigorado com saúde, trabalhar ou estudar e ser o fruto da conquista que a vida nunca nos impede.

 

A vida é, na verdade, um encruzilhado de ruas, optamos e escolhemos, decidimos e vamos por um, por outro, a opção é sempre nossa, da nossa educação e família, o amor do lar, a vida que a nossa casa nos permite ter, seguimos bem se por ventura escutarmos a voz da verdade. Ler devagar faz bem, é como deliciarmo-nos com um petisco à mesa, ler ensina a não nos cansarmos da vida, faz-nos perceber que existem tantas vidas nesta casa global a que chamamos mundo, esse rio estreito que nos leva a ser saudáveis e felizes, apreciar o bom que é apreciar um belo peixe grelhado.

 

Sabes, a vida é um aglutinado de tudo, de escolhas e opções, de sortes e azares e tantas vezes escolhemos o errado, talvez por ser mais fácil, acredito, embora nem para todos isso seja uma realidade, separar o trigo do joio faz parte das boas consciências, e essas, nem sempre dependem do poderio financeiro da família, mas sim do calor recebido ou entendido, aquele que a nossa alma recebe dos bons costumes, bons hábitos, regras, cumprir com zelo é um caminho que raramente dá errado. Saber encontrar no lar o rico sabor do dia, a fluência brilhante dos rios que caminham solitários, mas levando-nos a reflectir sobre como conseguem ainda ser felizes, tantas barreiras, muros estanques a fecharem a sua torrente, a obstruir o seu destino, mas nem isso os impede de chegar ao mar.

 

Sabes madrinha, nunca acreditei que vivia sem mãe, sentia em ti tudo o que uma mãe faz e dá, era a minha inocência a fazer-me perguntas e as respostas eram sempre a tua sabedoria. Não posso nunca me considerar uma pessoa infeliz, pois tive em ti tudo aquilo a que se possa chamar de sorte, felicidade, empenho e dedicação, um amor tão profundo que nada consegue por palavras explicar.

 

Como me recordo do teu nome e tão poucas vezes o citei, minha madrinha-mãe, Celeste, esse nome que vem do celestial, até nisso fui protegida pelo destino.

 

Não há dia nenhum em que me levante e não vá à janela, preciso de respirar a felicidade da memória, sentir correr pelo corpo o percurso de anos nas mãos de uma madrinha linda e amiga, a minha mãe de verdade, a que Deus deixou que ficasse para mim, a que me deu sonhos e verdades, a que elucidou e esclareceu, a que nunca me mentiu e apenas disfarçava coisas para que a criança que eu era não sentisse a verdade daquela dor que desconhecia, não tinha ainda noção da dor da vida e vivia o amor que me era dado.

 

A janela não é só o olhar para o exterior, é também viajar e recordar, recordar é viver, saber diferenciar o que está daquilo que esteve, outros olhos a verem a mesma coisa com uma experiência diferente, valorizar o que ouvia quando abria a janela pela manhã e naquela inocência sorvia com inocência todos os movimentos que a vida me deixava ver e perceber.

 

As fotos ainda na minha sala, decoro quadros com elas e tu lá, sempre do meu lado direito como se fosses e és, a minha mãe, a mãe que nunca tive, a mãe que a guerra me roubou, e tu, madrinha, sempre ali, de manhã e até ao anoitecer, quando nos íamos deitar e as histórias que me contavas para me alegrares, sei como gostavas tanto de me ver feliz, a menina que sempre fui, a que ensinaste a viver e a ver a vida do lado certo, os teus exemplos de vida que foram e são ainda a minha escola de vida.

 

Crescemos depressa e nem imaginava, e tu, ainda linda e com o mesmo sorriso, a mesma paciência, as tuas mãos dóceis que tantas vezes me acariciaram o rosto e limpavam as lágrimas que tantas vezes largava pela cara abaixo, lá vinhas tu com a mesma calma de sempre e com palavras sempre aconchegantes.

 

“a mamã está no céu, ao lado de Deus”.

 

E sempre com muita atenção ouvia, e quando seguia a caminho da escola, os meus olhos viravam-se para o céu, onde tentava, como criança que imaginava ser verdade ver da terra, a minha mamã que a guerra levou para junto de Deus, estaria lá em cima, bem entre as nuvens que todos os dias percorriam aquele azul tão bonito e como me alegrava imaginar sequer que ela ali estaria garantidamente bem, entregue a Deus.

 

O berço que temos desde criança define profundamente o nosso futuro, a forma como crescemos é a melhor coisa que temos e com ela os exemplos para tudo o que no futuro fizermos, como encararmos a realidade de todos os nossos actos, como encararmos os outros e como respeitar as pessoas que connosco se relacionam, onde aprendemos a respeitar para sermos também respeitados, é uma grande verdade madrinha, e contigo, tudo isso foi verdade, tudo isso foi a minha grande escola. Sei, é verdade, que para tudo precisamos também de sorte, muita sorte mesmo, sei madrinha, que nem todas as crianças que perderam a sua mamã assim tão cedo como eu, tiveram a sorte que eu tive em ter uma segunda mãe, uma madrinha como tu.

 

Hoje, tudo decorre como me havias ensinado, a ser uma menina linda, uma pessoa importante para si e para o seu país, que aprendeu na escola da forma que me havias tantas vezes dito e assim segui, graças a Deus madrinha, consegui absorver sempre o conteúdo das tuas mensagens, os teus recados sempre cuidadosos e belos, o teu mimo nunca exagerado, pois sempre me disseste que mimar muito nem sempre é bom, e assim foi, mas nunca me escondeste que a vida era difícil, exigente, e para que conseguíssemos ser alguma coisa, era preciso o essencial:

 

Dedicação e amor pelos estudos, respeitar o próximo.

 

Não estás já entre nós, agora tu também estás no céu, ali, naquele cantinho lindo que sempre me disseste ser o lugar onde a mamã estava, do lado direito de Deus, sobre as nuvens, lá longe, mas ao lado da mamã também, sei madrinha, a mamã deve estar-te muito agradecida por teres sido em vida uma pessoa com P grande!

 

Quantas vezes no silêncio consigo ainda ouvir-te, são tantas as recordações, foi tanto o que aprendi contigo, e tão bom o que me mostravas. Contigo aprendi a ver a lua naquelas noites sem chuva e sem nuvens, o céu escuro ao fundo e as estrelas que corriam de um lado para o outro como se tudo fosse um sonho, um sonho entre nós, acordadas e em risadas que ecoavam o vão longo do nosso corredor para o quintal, sempre de mãos dadas, sempre juntas, sempre felizes.

 

Até para crescermos precisamos de aprender que isso é um processo contínuo, é o caminhar da vida para a vida, e mesmo depois de crescidos já, continuamos a aprender e a utilizar tudo o que nos foi ensinado enquanto crianças. Não era triste por acaso, mas também não me tornei feliz por acidente, não, até nisso aprendi tanto, foi outra escola para a minha vida além da escola para onde me levavas todos os dias pela manhã e por mim esperavas, sentada no jardim até o toque para a saída soar, regressarmos a casa no meio de conversas que sempre tinhas comigo e no meio de tudo isso os exemplos que sempre me fizeste ver.

 

Sabes madrinha, muitas vezes pensavas que não te estava a ouvir, mas não era verdade, ouvia sempre tudo e com muita atenção, sempre senti que era tudo muito importante para mim mesmo não tendo ainda noção disso, mas foi um bem sagrado e hoje, sei como tudo isso é importante para o meu dia-a-dia, para o meu trabalho e para a minha vida, para com os meus amigos, colegas, toda a gente, pois, aprendi que o importante é nunca nos esquecermos da nossa vida mas também nunca nos prendermos ao que tivemos de mau, tudo se consegue quando as lições são boas e os mestres o grande exemplo para reflexões futuras.

 

“a mamã está no céu ao lado de Deus”

 

e tu madrinha

 

“tu estás no céu ao lado de Deus”

 

 E eu aqui, contigo e com a mamã no coração, nos meus gestos, nos meus dias, nas fotografias que guardarei para sempre, tenho-vos às duas lado a lado e para onde olho todos os dias.

 

De facto, recordar é viver. Digo isto por ser o que sinto, por ser o que vejo, uma experiência minha, é verdade, jamais esquecerei tudo porque passei, sei que foi uma história triste, mas uma enorme lição de vida. E quantas histórias destas não acontecerão ou aconteceram?

 

Tive um nome lindo como todas as crianças tiveram, sou a mesma como todos os que cresceram são, tive uma vida e todos nós tivemos, e o importante é saber absorver tudo porque passamos a saber aproveitar as oportunidades que nos são destinadas, uns tiveram mãe e outros alguém que nos amou da mesma forma, sabem, o amor é incondicional, é algo tão difícil de definir, mas tão importante para se viver, sim, há quem diga que somos aquilo que nos fizeram ser, é uma boa verdade, mas será mesmo assim?

 

Acredito que sim, mas é importante que sejamos também nós a encontrar o nosso rumo, a fazermos por nós mesmos, sim, nem todos tivemos o mesmo amor desde pequenos, mas nem todos se tornam maus adultos, muitos até são grandes referências disso mesmo, grandes exemplos de vida que nos ensinam que o caminho começa na nossa cabeça, no nosso coração, nos nossos actos, e há até quem diga:

 

“fazer por merecer!”

 

A vida também é uma grande escola, assim como a escola é grande para as nossas vidas. Nem todas as crianças tiveram uma mãe, e como é importante esse amor, mas tantas vezes temos outras mães, que não sendo a nossa mãe, criam-nos exactamente como se fossem a nossa mãe.

 

Não há só gente má, há também gente de bom coração, pessoas que sabem o que é o amor e sabem muito bem como dá-lo. Também devemos ser capazes de esquecer o que foi mau, viver o que é bom, crescer felizes sempre, pois a vida é uma coisa muito bonita.

 

Crescemos, deixamos de ser crianças e ainda assim criança sempre para as nossas mamãs, elas irão ver-nos sempre como pequeninos porque nos amam, não conseguem imaginar sequer que já somos adolescentes, adultos, que já temos as nossas vidas, o nosso trabalho, é verdade, mas isso acontece porque querem sempre o nosso bem, isso é amor, também nós seremos assim quando crescermos e formos também mamãs e vermos os nossos filhos sempre meninos, é verdade e é tão bonito quando sentimos assim o amor, essa coisa eterna, infinita, colorida, esse arco-íris para a vida, para nós, para eles, que nos olham todos os dias com o brilho nos olhos. Sou crescida já, mas ainda assim sinto existir uma criança dentro de mim, a criança que sempre fui e continuarei a ser, verdade, é tão lindo ser-se criança!

 

Hoje vivemos em paz e sem guerra, essa coisa feia que mata as pessoas, que matou muitas mamãs e muitos papás, tantas crianças como eu ficaram assim, sem eles, outros perderam-nos apenas sem saberem se estão vivos ou não, são essas as coisas feias que a guerra deixou, marcas de que nunca esqueceremos e que servirá de exemplo aos homens de hoje, nunca se devem repetir os erros.

Vítor Burity da Silva, natural do Huambo, Angola, a 28 de Dezembro de 1961. Professor Honorário; Doutor Honorário em Literatura; Ph.D em Filosofia das Ciências.

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