Política

Editorial: O nascimento de uma Nova Ordem Mundial | Henrique Dória

Parece passar ao lado dos mais argutos comentadores pró-americanos que enxameiam a nossa comunicação social uma verdade que é cada vez mais evidente: os Estados Unidos da América, isto é, o complexo militar industrial americano, vão sofrer na Ucrânia  uma humilhante derrota, e com mais graves consequências que as humilhantes derrotas, ainda recentes, na Síria e no Afeganistão.

 

Toda a estratégia americana teve como objetivo fragilizar a Rússia através de um conflito em que o país de Putin ficasse economicamente de rastos por uma guerra social e economicamente desgastante, por sanções nunca antes lançadas contra qualquer outro país, incluindo o Irão, por uma imagem na opinião pública mundial que fez mobilizar o Ocidente para uma autêntica cruzada contra o demónio russo.

 

Por outro lado, acreditando que o principal inimigo é a China, como potência económica ascendente capaz de pôr em causa o Império americano como única grande potência mundial, como ele surgiu após a derrocada da União Soviética, um conflito com a Rússia a Ocidente faria com que as tropas russas se fixassem na Europa e se vissem impossibilitadas de auxiliar a China num provável conflito a Oriente.

 

Estas estratégia americana demonstra toda a incompetência da sua classe dirigente. 

 

Em primeiro lugar, porque um qualquer conflito direto entre os Estados Unidos da América e a China já não é mais possível porque significaria a destruição de ambos. Mas certamente seria muito mais devastador para os EUA cuja população é apenas cerca de um quinto da população chinesa e se concentra quase totalmente nas grandes cidades fáceis de destruir.

 

Em segundo  lugar, porque a distância entre Moscovo e Nova Iorque é de 7.500 quilómetros, enquanto a distância entre Nova Iorque e Pequim é de 11.000 quilómetros, o que, num acesso de loucura nuclear, faria toda a diferença: os mísseis chegariam de Moscovo a Nova Iorque em muito menos tempo do que chegariam de Pequim a Nova Iorque, e o arrastar das foças russas para Ocidente só faria perigar ainda mais a capacidade de os loucos do complexo militar industrial vencerem qualquer conflito, se nesse conflito houvesse qualquer vencedor, o que não sucederia.

 

Finalmente, porque a estratégia de fazer soçobrar a Rússia pelo desgaste e pelas sanções económicas só demonstrará a fragilidade dos aliados europeus e diminuirá a importância do dólar em proveito do yuan, já que a China pode converter em ouro o yuan, o que torna a sua moeda muito mais apetecível do que o dólar que, há muito, abandonou o padrão ouro. Ora, a força dos EUA reside, antes de mais, no facto de o dólar ser moeda de troca internacional e a sua substituição pelo yuan (ou pelo euro, como a Rússia tem estado a fazer) lançará  o descrédito sobre o dólar e mostrará a fragilidade da economia americana que será lançada numa espiral de pobreza como já não sofria desde a Grande Depressão.

 

No meio desta tragédia que é a guerra, a Ucrânia é uma simples marioneta dos EUA que, antecipadamente, sabiam que a Rússia iria reagir se a NATO insistisse em se instalar naquele país. E Zelensky foi muito ingénuo em acreditar que os EUA  e a União Europeia iriam intervir  combatendo contra a Rússia em sua defesa. Zelensky multiplica-se em pedidos desesperados de ajuda, de Israel à Suíça, sem qualquer proveito. Deveria ter percebido que a Ucrânia é apenas um pretexto, o que está em causa é uma Nova Ordem Mundial como muito bem afirmou o ministro russo dos negócios estrangeiros, Sergei Lavrov.

 

O povo ucraniano é a maior vítima de cegueira americana. Mas também os povos da União Europeia estão a ser vítimas dessa cegueira. A União Europeia, acabada de sair da terrível crise provocada pela covid-19, confronta-se com a subida enorme do preço dos combustíveis, da energia e das matérias primas que esmagam as suas possibilidades de recuperação económica, mas beneficiam largamente a economia dos EUA.

 

A União Europeia aceitou ser, neste cenário, a Bielorrússia dos EUA. É tempo de perceber que só deve contar, essencialmente, consigo mesma. É tempo de se unir ainda mais e procurar ter com a Rússia uma relação pacífica, com esse vizinho militarmente poderoso, mas economicamente frágil. A Rússia é um vizinho de que a União Europeia não se pode livrar, pelo que a única solução sensata é conviver com ela em paz. Para bem da União Europeia.

Fotografia de Henrique Dória

 

É advogado e colaborou no Diário de Lisboa Juvenil e nas revista Vértice e Foro das Letras. Tem quatro livros de poesia e dois de prosa publicados. É diretor da revista online incomunidade.com, e da radiotransforma.

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
0
Sem certezas
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Próximo Artigo:

0 %