Cultura

E que existência | Müller Barone

Genial, genial, repito, genial. Contundente, agônico, sufocante, catatônico, disfuncional, miserável, assustador, absurdo, bizarro, impactante, paralisante, ‘inquieto, áspero e desesperançado’. Magnífico, extraordinário, indizível, obra de arte, espetacular. 

 

Tenho certeza que Sartre, Beckett, Camus, Huxley, Ibsen, Dostoievski, Reich, Jung, Freud, Pasolini, Mizoguchi, Ozu, Fellini, Kurosawa, Angelopoulos, Buñuel, Bergman, Tarkovski, Antonioni, Dali, Picasso e Van Gogh, aliados a outros personagens importantes da nossa história, depois de assistirem Um Pombo Sentou Num Galho Refletindo Sobre A Existência (Pigeon Sat on a Branch Reflecting on Existence) aplaudiriam em pé a obra de Roy Andersson.

 

Assim que ele terminou, em que pese sua temática, saí de um sopro de depressão que vinha me seguindo desde o dia anterior. O filme é perfeito em todos os quesitos: roteiro, direção, fotografia, arte, som, trilha, figurino, não há o que reparar, não há erro. O trabalho de Andersson, que levou o Leão de Ouro/2014, é algo que vai além do monumental, é incomparável. Acho até que deveria levar ‘hors concours’, porque é uma absurda injustiça tentar competir com ele. É desproporcional.

 

Não tem como desvincular Um Pombo da eterna peça de Beckett ‘Esperando Godot’ (Waiting for Godot). Não só pelos dois vendedores, Sam e Jonathan, uma espécie de atualização de Vladmir e Estragon, mas por todo o contexto da história. Esperar Godot é mote. A espera e o desespero conformista, o sonho e o desfazimento dele, a luz da realidade atravessando o black-out que autoriza a ilusão andam de mãos dadas frame a frame.

 

É impróprio chamá-lo de comédia. Tragicomédia eu aceito com restrições, mas apenas e tão somente porque o filme arrasta a existência a um grau tão melancólico e exasperante que a torna, e assim a mostra, patética a ponto de quase causar, se não um riso, um esgar de fingimento para dizermos ‘não é comigo’.

 

Claro que não é por acaso que o riso mais constante do filme vem de um saco de risadas nunca vendido por Sam e Jonathan, que querem vender felicidade para os outros, segundo pregam, mas não conseguem ser nem mesmo felizes cada um consigo mesmo. Depois, alguém gargalha num restaurante (curiosamente na mesma mesa em que, antes, alguém chorou. O único choro do filme) para contrastar, ao fundo, com a dor do personagem em primeiro plano, do lado de fora, angustiado, triste, desiludido. Mas até aquele quem gargalha lá dentro é, percebe-se, parte de um enredo desumano de vida sem sentido, sem propósito, sem qualquer recompensa. 

 

Há choro sem dor, riso sem nexo, prepotência muda que depois se vai. Há uma tentativa de tesão, de aproximação, de amar que se esvai em lágrimas e é sepultada, pouco mais adiante, por uma amarga mensagem de caixa postal dando conta de que não há, para o desencanto final, mensagem alguma lá. Sim, o não é definitivo, implacável, mortal.

 

Talvez por tudo isso, o filme é divido em títulos que falam em morte. Tudo morre, está morrendo ou nem mesmo viveu em Um Pombo, embora exista. Não fosse aquela nota quase cômica o filme seria um soco na boca do estômago, causando um desconforto asmático na gente como conseguiram Beckett com Godot, Steinbeck com Ratos e Homens (Of Mice and Men) e Jerry Schatzberg com Panic In The Needle Park, só para não me alongar. Felicidade (Happiness), de Todd Solondz, fica parecendo light, mesmo sendo visual e emocionalmente mais escancarado.

 

Um Pombo é genial porque é massacrante e convidativo ao mesmo tempo, é como um canto de sereia, você quer fugir, sabe que não deve ouvir, mas ouve, se encanta e vai até o fim. Eu fiquei encantado desde o primeiro segundo até o último suspiro dos créditos finais.

 

Composto só de planos abertos (todos, sem exceção, porque é a visão do pombo), o filme enquadra as pessoas num contexto de fotografia de cor lavada, porque até as cores de Um Pombo são desesperançadas e mortas. E, nesse contexto, vem mais um toque de gênio. Em que pesem os movimentos, tudo parece ser inerte nos planos, mesmo os que têm cavalos, marchas, bicicletas, passos. Tudo reflete a pasmaceira da vida, o absurdo dela, a falta de horizonte, a clausura de cada um em uma cela de frustrações, desencanto e tristeza magistralmente representadas na metáfora da mala com objetos que deveriam encantar e não encantam: um saco de risadas para o falso riso da vida; uma máscara de um tio sem dentes representando nossa falsa aparência no viver; e uma dentadura de vampiro que não assusta, mas mostra como a desesperança nos suga a energia vital que, no filme, se mostra rigorosamente ausente.

 

“Hoje não é quinta-feira?”, “Não, hoje é quarta-feira”. E, detalhe cortante, não faz a menor diferença saber que dia é hoje. Nada existe para sentir em Um Pombo, por isso tanto faz ontem, hoje ou amanhã, tudo é sempre o angustiante agora que nunca muda.

 

Que soem as trombetas para um trabalho que pode figurar, sem qualquer problema, entre um dos mais importantes já feitos até hoje. Pode entrar sem receio naquela lista dos dez maiores filmes do mundo ao lado de Era Uma Vez Em Tóquio (Tokyo Monogatari), Cidadão Kane (Citizen Kane), Ladrões de Bicicleta (Ladri di Biciclette), Fellini 8 ½. É uma aula de inovação, direção e criatividade.

 

 

Müller Barone é diretor e roteirista de cinema, escritor e amante de literatura. Sócio gerente da produtora Vento Negro Produções.

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