Cultura

Dos fracos rezará a História | Paulo Landeck

Mal tivera tempo para gozar sorteio.

 

– O quê!? Nem pensar! Treinador, esse gajo é campeão nacional, eu sei!

 

Como nos filmes do Rocky, lugar a pronto incentivo, embora excluída necessidade de baldear água fria, e um pouco cedo para toalha ao torturado. 

 

Semeada moral com poderoso calduço para encomendar forças, como quem amacia carne na tábua de bater bifes, imbuído de espírito demolidor, nem deu por ela.

 

Quando o assunto é de franca embora jocosa inspiração torna-se menos pesaroso partilhar desgraças alheias. Desenganem-se igualmente os que pensarem que floreio derrotas. Não é suplex ao amigo, muito pelo contrário. Falo de tenras idades e vitórias nunca antes reconhecidas. Nunca como hoje tão importantes (num mundo repleto de questionáveis heróis).

 

Por respeito à vítima, vou poupar detalhes identitários; não vá a ficção tomar de assalto, por trocadas regras biográficas. Até porque não é de pugilismo que falamos, mas de luta-livre olímpica e greco-romana. 

 

– Pensas que eu não sei que o gajo é campeão? Olha só aquele pescoço…ai mãe! E a barba do sócio…epá, faz quantos de mim!? Hmmm…nããã! Esse gajo é sénior!

 

Cuspiu palavras sem disfarçar nervoso graudinho; provavelmente desconfiado com prognóstico reservado na harmoniosa assistência, e adivinhando tapete que se seguiria por mútuo desacordo.

 

– Não ouviste o treinador, estás preparado man! Até te digo mais, olha lá para ti, bem lá dentro…liberta essa alma e comes o bacano vivo!

 

-Ai é!? Então vai lá tu! Eh pá…- quanta inquietação a fugir dos poros – fogo…- e arde – ai – seria úlcera!? -…hmmm! Treinador…veja lá se não dá para trocar, vai ele em nome da equipa, se calhar ninguém nota, somos quase do mesmo tamanho (orgulho no sacana bem nutrido).

 

– Porra, já umas semanas desta merda pá! Olha aí…às tantas o treinador pode não achar piada; deixa-o concentrar-se nas indicações aos outros, estou aqui por ti. Coragem!

 

O sofrimento não deve durar muito, – pensei, – vai-se fazer homem, e daqui por uns tempos temos reforço garantido na equipa. 

 

Além da moral, prontamente enterrada a sete palmos por coveiro nomeado nos altifalantes, foi preciso mitigar achaque intestinal (prodigiosa fuga possível). É que o nosso amigo, até para se bater noutra categoria de pesagem inferior, e preferencialmente no feminino, teria paupérrimas hipóteses de sobrevivência. Não quero com isto parecer misógino, nem diminuir atributos ao diamante…bruto. 

 

Claudicaria com qualquer Cláudia. – Minimamente treinada.

 

Natural para quem se iniciara à modalidade nas “últimas horas” e acordara subitamente enfiado num circo de feras. 

 

Há voos de última hora que correm muito bem, sobretudo quando aterramos vivos, acumulada experiência a milhares de pés de altitude.

 

Debitada alguma informação útil ao turista, sobre os tempos imemoriais da Antiguidade clássica, o dia era de renovado festival. – Poupados assim, suores de competição desportiva…- Até, porque já escutava de antemão torcida (só de imaginar), despedida ao som de Pachelbel Cânone em Ré Maior. 

 

Pairava uma dúvida: se entraria doutro modo no pentatlo da Grécia Antiga, qual disco arremessado para galáxia distante. 

 

Pesagens à parte, o adversário era mais do que santo da casa (dispensava milagres), além do mais, gozava da protecção do Olimpo. 

 

Tudo parecia conspirar a favor da tragicomédia que ninguém queria ver sem se esgargalhar.

 

Apesar dos maiôs duvidosos, havia pescoços que casavam bem com barba rija; como no caso…de seu oponente. Dispensava um ou outro atrevido olhar de bancada, na comparação de pistolas de bolso.

 

Escondi olhos rasos de bem-humorada tranquilidade, à medida que o menino na personificação de homem em dia mau caminhava sem confiança alguma para o centro do tapete. 

 

E a moral da história!? Calma!

 

Quantas taças de lata não viram ao longo da vida, nas prateleiras de outros cagões? 

 

Se ouro houvesse naquele fatídico combate, sei bem que cagão o merecia! 

 

Não…não se trata de vitória moral, meus caros! Falo da rara qualidade de ir ao tapete, apesar do assegurado resultado, quase olhos nos olhos, mesmo a coxear enchouriçado de porrada. Qual a glória do campeão, neste caso? Não fugir ao combate com mais fraco? Massacrar devagarinho? Talvez tirar selfies enquanto esfrega moral ao adversário…não! Esteve no tapete com máximo respeito e o mais que se seguiu apesar de… – lições finais de táctica e técnica, por exemplo… – na luta, além da destreza física e mental, há valores que se trabalham em conjunto, para que todos possam evoluir e fazer evoluir a modalidade. 

 

“A odisseia de Homero” emprestou argumentos de peso para modernos jogos sem derrotados, nem pingarelhos ao léu (se bem que os soldados de Napoleão, ao que parece, ainda treinaram sem body flex por terras lusas…). 

 

Como a pil(h)ada donzela era outra, vamos lá, resgatar relâmpagos! 

 

Se julgam que deu para escutar Ennio Moricone, ou algo que valesse a eternidade de um bofe mastigado por Saturno, desenganem-se. 

 

Por breves instantes, ecoou vindo do Grupo Desportivo e sobretudo Recreativo de Portugal: “não vacila / Não vacila!” – Gritou-se. Ao mesmo tempo que denunciava farta e amarelenta coroa de louros, com direito a prenúncio de hit nascido na banda, alguns anos mais tarde; – até hoje, desconheço a presença do rei na bancada [pura especulação, caro leitor. É preciso aliviar sofrimento ao rapaz]. 

 

Talvez só antigas divindades saibam, se do sangue pronto a esguichar, surgiu inspiração para batidas renovadas.

 

Congelei arrepios na dança do snap shot

 

Afinal, há sempre uma surpresa dentro daquilo que se espera. 

 

Implorei clemência, por acrobáticas frações de segundo pelas quais passou meu grande amigo e que lhe pareceram seguramente eternas: 

“Suicidaram-no…porra, como foste na conversa!?” – Pensei.

 

Arcângelo parecia Carrie assustada. 

 

Sua vida era agora uma orelha rasgada no centro do mundo. 

 

Incrédulo, nem dera pelo assentamento de espáduas. 

 

Chorava sangue e misérias, ignorando intervenção hospitalar agendada.

 

O pobre menino ficou à toa… – Senti-me cúmplice de semi-assassinato ovacionado pelo público. Meu herói iniciara carreira, ao jeito desportivo duas portas.

 

Depois de sentir o power, tomou-lhe o gosto. Não demorou a ponderar nunca mais voltar!

 

Quem cresce no bairro, recorda sempre o preço da felicidade: “eh, pá…é mesmo assim…eh, pá…maka!” – Por isso, o lugar de medalhado ninguém rouba, muito menos o resplendor dos bons tempos.

 

 

Paulo Osório da Silva Landeck nasceu em 78. Vagabundo do mar, boémio, amigo…por vezes asceta…tímido e extrovertido, filho de Deus e do Diabo. Nasceu próximo do Moinho de Maré de Alhos Vedros (Moita). Cresceu no Vale da Amoreira, irrequieto ambiente multicultural da margem sul do Tejo. Fez-se ao cais para soltar amarras. 

Viveu e trabalhou em diversos lugares que o marcaram de forma muito intensa: Portalegre, Madeira, Peniche, Londres, Cornualha País-de-Gales, Porto, Açores, Trás-os-Montes, Terra Nova, Noruega, Escócia, Figueira da Foz, São Pedro de Moel, Croácia, Cartagena (Espanha), Faro, ou Lisboa. 

Observador de espécies marinhas; marinheiro; guia; ser humano incompleto e insatisfeito; sonhador profissional. Andou às voltas debaixo e à tona de água (em lazer e trabalho). Embarcou sobretudo em contexto científico. Sentiu-se forçado a escrever na areia da praia, antecipando incertezas da enchente.

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