Cultura

Depois | Ricardo Ramos Filho

E então eu penso no depois. Observo com cuidado o amanhã, tento vislumbrar o futuro. Difícil enxergar porvir sem estarmos representados nele. Não estarei. Inexiste quem ponha em meu lugar. Contudo, de certa forma, celebro a ausência de mim e de meu sangue em tempos vindouros. Quando morrer terei acabado de vez. Sim. Ter vivido sem ser pai magoa a existência, corrói a alma, deixa grande sensação de vazio de mim, mas no final até que será bom. Comemoro por ter certeza de que o tempo, se houver, será pós-catástrofe. Mas ninguém sucessor meu, ainda bem, será testemunha da cruel distopia futura. Se é que o adiantado será possível. A humanidade conseguiu o inusitado, está à beira de impossibilitar a própria vida. O mundo mingua em velocidade estonteante. Todavia, embora minhas pegadas estejam se apagando, é estranho acreditar em um ponto final tão definitivo. Sempre que termino uma história, mantenho no retrovisor a possibilidade de escrever uma continuação. Dificuldade, talvez, de me despedir das personagens. Entretanto, a falta de semente minha coloca meus genes fora do inferno anunciado. Felizmente! Impossível contar a saga da humanidade até o desenlace extremo.  Assim, embora tenha chorado algumas vezes a ausência de um filho, não é fácil guardar carinhos e a vida amputou-me o gesto de cuidar de alguém, tranquilizo-me ante o caos anunciado. Ausentes, não sofreremos, eu e minha inexistente descendência, ante o caos do calor do aquecimento global instalado. 

 

Na grande floresta as borboletas perderam a cor. Acinzentaram-se. Mimetizam-se buscando confundirem-se com o entorno. As queimadas consumiram o verde, os matizes presentes nas flores também sumiram, restou apenas o triste grisalho nas folhas jovens envelhecidas pelo fogo. Há um grande silêncio na mata fechada em escombros. Os pássaros voaram dali. Para onde? Rios secos são agora apenas leito, túmulos em que águas passadas moveram vidas sob remos de barcos afundados. Já, hoje. Tudo em volta é veneno: glifosato, atrazina, compostos à base de cobre, enxofre, tebucanazol, mercúrio. Porém, as altas temperaturas impediram as colheitas. Na paisagem devastada carcaças apodreceram, bichos famintos e chamuscados sucumbiram, os ossos desenterrados dão um tom macabro ao feio horizonte. Putrefatos. Panorama de esqueletos.

 

Metrópoles. O homem já não é. Ecocídio. Etnias apagadas. Epidemias, terremotos, furacões, a natureza enfurecida reagindo. Arrastando carros, destruindo telhados, desabrigando. Ondas gigantes afogam culturas, salgam o chão com lágrimas marinhas. Hordas maltrapilhas vasculham lixeiras, procuram alimento, zumbis famintos de olhos vazios.  Civilização? 

 

O dinheiro, todo ele, jaz acumulado em poucas contas. Quem o tinha, embora tenha se acreditado imortal, apesar de ter se esforçado para impedir medidas capazes de salvar seus imensos umbigos, preferiu acumular mais um pouco. Só mais um pouquinho! Feito criança à noite, desejando a continuação da história antes da mãe apagar a luz. Nem chegaram a se dar conta do próprio poder destruidor. Otimistas da ignorância. Capitalistas do desarrumado. Vagam agora atarantados, inúteis como sempre. Incapazes de pensar. A consciência do erro pesa demais. Repetiriam, se possível, igual destino.

 

O galo canta. Em algum lugar afastado existe manhã, esperança de amanhã. Kauã deixa a oca e respira. Inspira e expira, amplia e esvazia o peito largo. Observa o céu limpo e sem nuvens. Representante dos povos originários, vem sobrevivendo há mais de cinco mil anos. Aprendeu a seguir em frente, traz no próprio nome a bondade. Vai até o riacho, tem sede. Com as mãos em concha bebe um pouco de ty. Observa o entorno com amor: aysú. Compreende. Construirá o futuro novamente. Apesar do abangaíba.

 

Novembro/2021

 

Ricardo Ramos Filho é escritor brasileiro, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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