Cultura

Crônica: Inquietação | Ricardo Ramos Filho

Tenho andado inquieto. Sinto como se houvesse um desastre próximo a acontecer. O resultado é um bolo no estômago, vontade de regurgitar, colocar a infelicidade para fora. E neste iminente acontecimento capaz de ameaçar os instantes todos do cotidiano há dor, desânimo, desorientação. Nada objetivo, concreto, apenas presságio mau. Passo o tempo aguardando a notícia cruel. Aquela terrível e ameaçadora, embora desconhecida. Debato-me sem saber definir o motivo da pele arrepiada, os cabelos em pé, o susto anunciado. Sucumbo ante a cruel perspectiva de desabar, antecipo o desastre. Antes mesmo de estar consciente do evento ruim em perspectiva que virá, estou certo. Incapaz, ele, de assumir qualquer forma, identidade, mostrar-se por inteiro, vil por completo, monstro a ferir. E assim, ameaçado em cada minuto por esta irreal catástrofe a jogar-se sobre mim, tento respirar e percebo o fôlego curto, insuficiente, o ar minguado insuflando o desespero. A garganta seca arfando, apertada, enrolando-se em um nó tão cego quanto a dificuldade de enxergar. Não vejo solução. Pouco ou quase nada entendo. Arrasto-me sangrando e os cortes inexistentes, contudo sejam pouco menos que tristes agouros, deitam rabiscos vermelhos na penumbra do quarto onde me escondo. Feridas prematuras, embora nada exista, tenha acontecido, ou mesmo mereça atenção.

 

Tenho andado inquieto. Agonia, angústia, ânsia, apreensão. Observo o futuro com desconfiança. Amanhã pode chover e algum morro deslizar. Ou o vírus finalmente aprender a matar as pessoas mais importantes. Ele vem se especializando, multiplicando-se, evoluindo. Quer dar um jeito de perpetuar-se, driblar as vacinas, festeja diariamente a ignorância antivax. Competente o bichinho… E quando penso em coisas assim tão assemelhadas à morte, percebo o coração atropelar. É como se ele, devido ao horror, perdesse momentaneamente a noção de seu trabalho. E distraído pela experiência atroz se contraísse em um espasmo fugaz, felizmente, antes de recuperar o tamborilar monótono da vida.  No entanto, saio invariavelmente enfermo desta vivência. Não se passa impune por sobressaltos tão amplos. A gente acaba mais próximo da indesejada, ganha intimidade com o finamento. Até por ter sentido o peito doer, a cabeça latejar, imaginar partidas definitivas, a nossa própria. O luto marcando presença. Nunca lastimamos tanto!

 

Tenho andado inquieto. Cansado. Insuportável amanhã se descortina. Se houver futuro, se, já que nada sei do porvir. Talvez o pavor seja apenas maior ciência do tempo, constatar os minutos arranhando a carne, putrefazendo a alma. Outro dia me chamaram de branco velho autoritário. Sobressaltado ante a ofensa, não tive como argumentar. Muito por me sentir gasto, abatido, exaurido. Refém da tristeza, observo o entorno aparvalhado. A sensação de haver perdido muito se avoluma diariamente. Definho, murcho, mirro. Os cabelos grisalhos, a barriga avolumada, costas curvadas, o espelho gargalha. Amanhã minha tia faria aniversário. Mais uma em minha relação de perdas. Contabilidade de afetos ausentes, passados. E a saudade é tão enorme, absurdamente gigante, que tenho medo de chorar e não mais saber dominar o pranto. Tudo aflige.

 

Tenho andado inquieto. Aquecimento global, fascismo, pandemias, velhice, perdas, tudo junto. Tempo, tempo, tempo. És o senhor das horas.

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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