Cultura

Carta para José Saramago, no seu 99.º aniversário | Zetho Cunha Gonçalves

Meu muito, muito Caro José,

 

Aconteceu estar eu, naquele preciso instante em que tu chegaste absolutamente destroçado ao Hotel Vitória para a reunião da célula dos intelectuais do Partido, ao lado do nosso saudoso e trágico Amigo Ricarte-Dácio de Sousa, que, ao ver-te assim tão irreconhecível, se dirige a ti, e pergunta, naquele modo gentil e de grande senhor dadivoso e sempre de atentíssima preocupação com os Amigos que era o seu:

 

− Meu querido José, aconteceu-te alguma tragédia?

 

Tu, estendendo a mão para o cumprimento, respondes, numa voz que nenhum de nós te conhecia:

 

− O Nelson de Matos recusou o meu novo romance para publicação, e eu fico sem saber se andei todo este tempo a escrever um mau romance!  

 

O Dácio, não te largando a mão do cumprimento, quiçá, apertando-a mais, coloca a mão esquerda sobre a tua mão, e atónito mas firme, diz-te, de olhos nos olhos, fulminante:

 

− Meu querido José, tu nunca poderás ter escrito um mau romance! – e logo atira, do muito alto da sua generosidade, sem te dar tempo de respirar ou pestanejar: − Queres que eu fale com o camarada Zeferino Coelho para que saia pela nossa Caminho?

 

Aqui, é a tua vez de começares a recuperar o chão que sempre foi teu, mas que te havia sido momentaneamente transformado em areias movediças. E, virando-te para o Dácio, perguntas:

 

− Dácio, tens alguma coisa combinada, esta noite?

 

− Não, nada de especial, meu querido José… apenas estar com os Amigos…

 

− Terias paciência, e estarias disposto a vir a minha casa, para eu te ler o original do romance? Gostava muito de ouvir a tua opinião.

 

− Meu querido José, mas isso nem é questão que se coloque: vamos tratar da edição do teu romance! – E olhando para mim, pergunta-te: − Não há problema em que aqui este nosso camarada, um jovem poeta que lê, mas lê mesmo, vá connosco?

 

E tu dizes, vendo-me tirar uns livros da bolsa que trazia ao ombro, para te pedir que os autografasses:

 

− Mas é claro que o Zetho vem connosco!

 

E passas o teu braço esquerdo pelo meu ombro, num abraço. E é então que te peço que me assines, primeiro, o Manual de Pintura e Caligrafia, que tu, logo na folha de rosto, vês anotado. Aferes a lombada de livro que foi lido, começas lentamente a folheá-lo, e, sem ainda o autografares, pedes-me o Objecto Quase que eu tinha na mão à espera de vez autografante, onde a leitura era também uma longa soma de sublinhados a lápis. E ficas ali calado, folheando, ora um ora o outro livro, até que te viras para o Dácio (e aqui, desculpa-me, caríssimo José, mas era para o Mundo, esse «mundo, vasto mundo» lembrado e nomeado pelo nosso velho Carlos Drummond de Andrade, que tu falavas, certeiro e premonitório): 

 

− Mas enfim, Dácio, afinal eu sempre tenho leitores!… Ou, pelo menos, tenho um leitor que me sublinha o que eu gostaria de ter dito de forma melhor!

 

Estendo-te uma esferográfica, e tu perguntas-me:

 

− Posso assinar os teus livros mais tarde?

 

− Claro que sim.

 

Cumprimos a nossa função, saímos, descemos à Casa do Alentejo (onde nos esperava o Pinto Ângelo, com quem eu tinha vindo de Santarém onde então vivia, e me esperava para o regresso, e a quem abraçaste como um náufrago agarrando-se à espuma da mais alta crista de onda em alto mar, e com quem não voltei a Santarém mas me providenciou modo de regresso), jantámos e seguimos para a Rua da Esperança, onde moravas, subimos ao quarto andar do número 76, onde logo providenciaste sobre a mesa uns belos enchidos e pão alentejanos para a noitada, e um tinto memorável da Adega Cooperativa de Borba que bons e gentis camaradas te haviam oferecido. Depois, antes da tua leitura, propões escutarmos um disco. Ou, mais exactamente: uma canção. Apenas uma. Ligas o gira-discos, e colocas aquele «Pedro Pedreiro» do Chico Buarque a exorcizar o ar e as trevas dessa noite tenebrosa de Inverno, que logo serviu de mote para o brinde ao teu Levantado do Chão, que ali haveríamos de ouvir pela voz do seu criador. E então soube como e quanto esse «Pedro Pedreiro», meu muito Caro José, eras tu, a metáfora de ti que para ti mesmo havias escolhido, essa metáfora que o tempo, longamente, haveria de materializar e consumar, pela teimosia lúcida e implacável da tua certeza em ti e na tua Obra, independentemente do preço a pagar. Mas haverá alguma outra maneira de se ser o que verdadeiramente se é? Se houver, sinceramente, meu Caro José, eu ainda a não descobri.

 

Ouvida a canção, com alguns comentários de circunstância e contigo refazendo-te no mais íntimo e secreto de ti pelas palavras, música, harmonia, melodia e voz do Chico, desligaste o gira-discos, pegaste num molho de folhas A4 dactilografadas quase sem rasuras ou emendas, sentaste-te à nossa frente, olhaste-nos rápido os olhos ávidos de te ouvirmos, e começaste a ler, recuperada a tua voz segura e límpida, encantatória, da primeira letra, noite e madrugada adiante, até ao ponto final dessa tua epopeia dada pelo belíssimo nome, justo e certeiro, de Levantado do Chão.  

 

Pouco passaria das nove da noite quando começaste a ler, antecedendo a leitura com a informação de que havias abolido da escrita do romance toda a vasta gama de pontuação, reduzindo-a a vírgulas, maiúsculas para os diálogos, e pontos finais. 

 

No final do primeiro capítulo, do alto dos meus dezanove anos de idade − com uma pequena plaquete de poemas (maus, muito maus, mas foram esses os poemas que eu soube e pôde ter escrito, entre os dezasseis e os dezanove anos) acabada de publicar a 16 de Novembro de 1979, dia do teu aniversário, com o título de Exercício de Escrita −, não me contive:

 

− José, o teu livro não é um romance: é um Poema, um belíssimo Poema!

 

Levantaste o olhar para mim, com um breve sorriso esboçado nos lábios:

 

− Bom, Zetho, será melhor não te precipitares no teu juízo, mas sinceramente agrada-me muito a tua observação.

 

E a leitura foi prosseguindo, maravilhando-nos e, não raro, comovendo-nos até quase às lágrimas, ou mesmo até às lágrimas, quando chegou o capítulo onde descreves o assassinato de Germano Vidigal.

 

Houve então uma pausa para ligeira manducação degustativa dos fabulosos acepipes e digerir as torrenciais emoções acumuladas, com o Dácio a tecer os mais encomiásticos elogios à leitura e à Obra, comentando certas passagens, sublinhando certas resoluções técnicas na construção da narrativa e seu inequívoco poder encantatório, fulgurante de Poesia. 

 

Tu ouvias, numa extrema atenção silenciosa, todas as observações do Dácio, que conhecia, como nenhuma academia alguma vez poderá sequer ousar, todas as literaturas do mundo − de as muito ler, em permanente estado de paixão irradiante.

 

Finda a degustada manducação, e enquanto voltávamos cada qual ao seu lugar de partida, comentaste:

 

− Bom, quanto a essa questão da Poesia a entranhar o romance, muito me parece que vocês, à minha revelia, se combinaram… Enfim, vejamos se assim será até ao final do livro…

 

E recomeçaste a leitura até ao ponto final do romance. Era já quase manhã quando colocaste a última folha do dactiloscrito sobre as outras, as bateste juntas de cima para baixo, as arrumaste no devido lugar, respiraste fundo, e se teceram os últimos comentários: 

 

− Um livro absolutamente fabuloso, meu querido José! Absolutamente fabuloso! Tem que se publicar imediatamente! – asseverou o Dácio, agradecendo-te a noite maravilhosa que nos havias proporcionado, noite irrepetível e inolvidável.

 

Eu estava completamente bêbado de encantamento, e só te soube dizer:

 

− Adorei este teu novo Poema, meu Caro José! Obrigado, muito obrigado!

 

Estávamos exaustos, maravilhosamente exaustos, mas felizes, felicíssimos, narrador e ouvintes, porque ali então se provou como era/é um livro raro e poderoso este teu Levantado do Chão.

 

Despedimo-nos comovidos e um pouco como que a levitar. 

 

Desci com o Dácio, que me propõe, colocando-me a mão sobre o ombro, naquele gesto tão seu de afecto irrestrito: 

 

− Meu querido Zetho, depois de uma noite tão fabulosa como esta, só nos resta ir até ao Cacau da Ribeira tomar um pequeno-almoço comme il fault!…

A tempestade havia passado, o vento deixara de fustigar, e fomos andando a pé, lentamente, saboreando o ar frio da manhã despontando, cada um de nós digerindo no seu pessoal silêncio as emoções acumuladas. Só à beira do balcão nos voltaram as palavras − as primeiras, do Dácio, naturalmente para pedir dois uísques duplos secos, «para começar a jornada». 

 

Sentámo-nos a uma mesa, e a conversa não saiu desse Levantado do Chão, que meses depois acabaria sendo publicado por Zeferino Coelho, na Editorial Caminho, para seguir a sua vida própria, cativando e conquistando desde então milhares e milhares de leitores, primeiro em Portugal, depois um pouco por todo esse mundo adiante.

 

*

 

Fomo-nos continuando a encontrar e conversar. A trazer-te livros teus para que mos autografasses − naturalmente sublinhados e anotados, excepto os acabadinhos de comprar. Ou de desviar da prateleira da livraria, numa certa guerrilha de aprendizagem para leitura, que eu praticava na altura com mediana eficiência.

 

Até que um dia, quando em Santarém ainda havia Comemorações Civis do 25 de Abril, eu ter proposto à organização a tua ida lá, com lugar na mesa de honra, para uma conversa, na tua dupla qualidade de ribatejano e escritor. Disseram-me logo que sim. 

 

Vim então a Lisboa para falarmos de viva voz e combinarmos o que houvesse a combinar. Calhou encontrarmo-nos na inauguração da exposição «Visão Segunda», do nosso queridíssimo Amigo, Poeta e ensaísta E. M. de Melo e Castro, na Galeria Quadrum, a 15 de Abril de 1982 − data do seu 50.º aniversário. Disseste-me que já te havias comprometido em ir a uma sessão comemorativa no Porto, mas que ainda estavas a tempo de desmarcar esse compromisso para ires a Santarém. E assim fizeste. 

 

Acontece que nas vésperas desse 25 de Abril, vêm ter comigo dizendo que não havia lugar na mesa de honra para ti, mas teriam todo o prazer em que fosses e estivesses na plateia, de onde, nas intervenções públicas, poderias falar. Senti-me esmagado, impotente, sem conseguir reverter a situação, fossem quais fossem as razões que invocasse.

 

E lá venho eu a correr a Lisboa para te dizer isto, sem saber muito bem como dizê-lo, mais do que repetir as desculpas que me apresentaram para justificar o facto de não teres lugar na mesa de honra, e às quais eu era completa e absolutamente alheio. Ficaste, e com toda a razão, possesso comigo − um fedelho armado ao pingarelho, hás-de tu ter pensado de mim, se não pior −, e a nossa relação pessoal tomou da tua parte uma vincada frieza.

 

Curiosamente, alguns anos depois, já eu não vivia em Santarém mas calhou estar lá de passagem, eis que já tens lugar na mesa de honra. Foi no 25 de Abril de 1986, e eu estava na plateia do Teatro Rosa Damasceno para te ouvir falar «dos salgueiros da beira-Tejo» e da sua flexibilidade e resistência, numa clara alusão a Salgueiro Maia que, embora presente e sentado na mesa de honra, a teu lado, fora proibido de falar pela superior hierarquia militar. E dar-te um abraço, naturalmente.  

 

Mas antes, e a Santarém, tinhas tu ido no dia 15 de Dezembro de 1982, para duas sessões absolutamente memoráveis. Lembras-te?

 

Quando soube que irias publicar Memorial do Convento, vim imediatamente a Lisboa propor-te que, se não a primeira apresentação pública, a imediata fosse feita em Santarém, como desagravo do que sucedera. Aceitaste sem qualquer hesitação o meu repto para as duas sessões: uma de tarde para os alunos das escolas secundárias (tive sempre para mim que é pelas escolas que se pode criar a paixão pela leitura, coisa que infelizmente não acontecia então nem hoje acontece!), e outra sessão à noite para o chamado público em geral. E logo ali marcámos a data, a hora em que se te viria buscar, e os horários das respectivas sessões.

 

Era um tempo, esse, convém lembrar, em que se não pensava ainda fazer festivais literários, e as raras sessões com poetas e escritores (e até mesmo com cantores e compositores) eram na sua esmagadora maioria organizadas por gente ligada ao PCP, e levadas a cabo nos mais variados sítios por esse Portugal fora. 

 

Em Santarém, cidade que muito amei, eu ia tentando, com o apoio logístico que a Câmara Municipal e o Museu Distrital proporcionavam, que acontecessem coisas no domínio da Cultura, com a Poesia e a Literatura à cabeça. Assim, entre outras actividades, havia já organizado uma exposição biobibliográfica comemorativa dos 30 anos de actividade literária do nosso muito querido António Ramos Rosa (quando ele não tinha editora que o publicasse, falida e acabada que estava a Arcádia!), com várias conversas e debates sobre a sua Obra, e uma exposição de Poesia Visual capitaneada pelo Ernesto Melo e Castro, também a proporcionar conversas e debates, sobretudo com estudantes do ensino secundário.  

 

E agora, meu muito Caro José, ao lembrar e falar-te desta exposição, vem-me à memória uma história absolutamente inaudita. Estávamos nós a começar a dispor e colocar os poemas visuais e concretos, devidamente emoldurados, no átrio de entrada da Escola Secundária Dr. Ginestal Machado, onde ficariam expostos, eis que vem uma das professoras da direcção dizer-nos que 

 

− O senhor ministro da Cultura, Dr. Lucas Pires, acabou de nos telefonar pessoalmente, a proibir esta exposição, porque é um verdadeiro despautério.

 

− Um verdadeiro despautério?! – ironizou o nosso bom e grande, imensíssimo Ernesto Melo e Castro.

 

− Foi o que o senhor ministro disse: esta exposição é um verdadeiro despautério! – confirmou essa senhora professora, com um arzinho empertigado e muito contente, acrescentando: − Tirem isso tudo daqui para fora!

 

O Ernesto Melo e Castro, do seu patamar imodesto, calmo e delicado, riposta:

 

− Senhora professora, faço questão de lhe apresentar a minha querida Amiga Maria Lúcia Lepecki. 

 

− A Doutora Lúcia Lepecki foi minha professora… − confessou a tal professora.

 

− O senhor ministro da Cultura também a mandou calar, e ir para a terra dela, já que é brasileira de nascimento e sotaque?! – questionou o Poeta Concreto. − É que o Zetho Cunha Gonçalves, que nos convidou, e nós, com o maior gosto, aqui viemos, é angolano, e é poeta, coisa que nem o ministro nem a senhora talvez saibam! E eu, e a senhora Professora Doutora Maria Lúcia Lepecki, vamos falar aos vossos alunos da «Literatura Portuguesa de Invenção Pós-25 de Abril», já que é para isso que cá estamos. – E apontando os quadros para a exposição: − Quanto a isto, que é, como a senhora diz, para tirar tudo daqui para fora, a Escola Secundária de Sá da Bandeira expô-los-á, sem nenhum problema! – Fez uma breve pausa, cofiando a barba, e acrescentou: − Mandem lá depois os vossos alunos vê-los, se assim acharem por bem não melindrar o senhor ministro da Cultura, que nem para caralhama serve, quanto mais para fonema!

 

Após várias negociações e telefonema do Ernesto Melo e Castro para o ministro, a exposição acabou por se realizar, para grande gáudio dos alunos. E a palestra, a duas vozes, sobre «Literatura Portuguesa de Invenção Pós-25 de Abril» − onde muito se falou do teu Levantado do Chão, a par de Casas Pardas, da nossa tão saudosíssima Maria Velho da Costa, de Finisterra: Paisagem e Povoamento, de Carlos de Oliveira, e de Sinais de Fogo, de Jorge de Sena −, acabou por ser um verdadeiro acontecimento.

 

Voltando a nós, meu muito Caro José, lembro como estava uma belíssima tarde soalheira, naquele 15 de Dezembro. Terminado o magnífico almoço no Restaurante O Solar, dirigimo-nos a pé até ao auditório do Museu Distrital, onde já duas turmas do 11.º ano da Escola Secundária de Sá da Bandeira nos esperavam. Eu contava com mais gente, mais alunos, mas eram já os últimos dias de aulas do primeiro período, e havia pontos marcados, como já veremos.

 

Esperámos um pouco por essa gente que afinal não apareceu, comigo a encher o tempo dizendo àqueles adolescentes como fazer cábulas, até que entras tu em cena, com a tua voz pausada e ligeiramente rouca de seu natural, andando de um lado para o outro da sala, a passos lentos:

 

− Também eu, meus amigos, para escrever os meus livros, me vou socorrendo de cábulas, se cábulas podemos chamar aos apontamentos que vou tomando… Nesse sentido, sou também eu um grande cábula, tal como o Zetho nos contou agora que foi… 

 

Houve uma boa gargalhada, e tu encetaste a conversa rememorando as tuas origens, falando de tua avó (cuja «Carta para Josefa, minha avó» todos conheciam do manual de Introdução à Filosofia, que muitos, depois, te pediram que autografasses), e de teu avô Jerónimo, contando daquela viagem que com ele fizeste desde a tua Azinhaga do Ribatejo natal, dormindo pelo caminho debaixo de uma figueira, para acompanhar os bácoros que levavam à Feira da Piedade, em Santarém – matéria-prima que te iria, muitos anos mais tarde, moldar e tornar os Discursos de Estocolmo mais humanamente luminosos e belos.

 

E não tardou que voltasses as tuas palavras, não para falares do Memorial do Convento, como mais espectável seria, mas para, escudado em Que Farei Com Este Livro?, falares de Luís Vaz de Camões, de Os Lusíadas, da sua lírica e do seu teatro.

 

A paixão que irradiava das tuas palavras tinha o poder de nos trazer ali à nossa presença esse mítico e intangível Camões, com uma tal força de humanidade e génio, que com ele, através de ti e da tua verve, todos nós poderíamos entabular conversa. 

 

A plateia, como que hipnotizada de maravilhamento, numa atenção absoluta ao que ias dizendo, ia rodando lentamente a cabeça da esquerda para a direita, e da direita para a esquerda, acompanhando o teu andar de lado a lado da sala, até que, a certa altura, começa um bichanar colectivo, de boca a orelha. Enquanto continuavas falando, fui discretamente perguntar a um dos alunos o que se estava a passar, se tinham subitamente deixado de gostar do que estavam a ouvir…

 

− Não, Zetho: estamos a combinar faltarmos todos ao ponto de inglês que tínhamos agora, para continuarmos a ouvir o Saramago! Estamos a adorar!

 

 − José, por favor – impetrei eu −, podes interromper uns instantes a tua lição, para estes amigos combinarem faltar todos ao ponto de inglês que têm marcado, para te continuarem a ouvir?

 

Acenaste que sim com a cabeça, sem uma palavra. Reparei como estavas emocionado, parado a olhar para aquelas e aqueles adolescentes diplomática e democraticamente negociando uma falta colectiva e uma fuga ao ponto para te poderem continuar a escutar. E não tardou que um deles se dirigisse a ti:

 

− Senhor Saramago, pode continuar a falar, porque nós já decidimos faltar todos ao ponto de inglês para ficarmos aqui a ouvi-lo!

 

Foi um momento mágico, que jamais esquecerei. 

 

Começaste a bater palmas fortes, no que te secundei, bem como aqueles sessenta jovens, colocaste depois ambas as mãos sobre o coração, agradeceste, e continuaste a falar de Camões e da Vida, até que chegou a hora de cada um ir a correr apanhar o autocarro para voltar para casa.

 

Finda a sessão, ao nos dirigirmos para o restaurante, parando aqui e ali para contemplar a cidade, a Torre do Cabaceiro e o Museu de São João do Alporão, as igrejas da Graça e do Milagre, este prédio e aquele, vamos comentando, felizes, o resultado daquela conversa, que, meu Caro José, criou leitores, e nunca nenhum deles alguma vez se olvidou de ti e da tua sapiente lição camoniana. Tenho vários testemunhos disso. E é, ainda hoje, para mim, uma das mais gratas memórias da minha já alentada vida de Poeta e de agitador cultural.

 

A sessão da noite, bastante concorrida, foi então para te ouvirmos falar do belo e fabuloso Memorial do Convento. Foi uma maravilha, e, como sempre, encantaste-nos com essa tua poderosíssima magia do verbo lúcido e contundente, sábio, poético e justo. 

 

Acontece que os livros para os autógrafos se esgotaram, e eu tive que vir por duas vezes a Lisboa carregado deles, para, à mesa da Varina da Madragoa, teu restaurante predilecto, mos autografares e eu voltar com eles mais ricos de abraços teus, para os devolver a seus donos e leitores.

 

Entretanto, a vida levou-nos a maiores distâncias – físicas, sobretudo. 

 

Mas quando te foi atribuído o Prémio Nobel de Literatura, lembrando-me das nossas comuns aventuras, profundamente me emocionei, numa felicidade muito íntima. 

 

E aconteceu conhecer o tipógrafo do teu primeiro livro, Fernando dos Santos Vieira de seu nome, que acabei por entrevistar com o Luís Carlos Patraquim. E podes imaginar como sonhei apresentar-vos um ao outro, e ficar ali a ouvir-vos lembrar os naturalíssimos embaraços de afectos e de memórias de cada um de vocês para o outro, contigo a saberes, então, coisas que só pela entrevista pudeste ter conhecimento, como por exemplo aquela visita da Pide à tipografia, para apreender a tua Terra do Pecado, e toda a biografia, se assim lhe podemos chamar, da sua génese tipográfica. Lamento ter sido tão incompetente para agendar tal encontro, mas bem sabes que nem a mim nem ao velho tipógrafo Fernando dos Santos Vieira se poderá alguma vez imputar a razão desse não-encontro.

 

Meu muito Caro José, quero apenas reiterar como a tua voz faz uma falta danada a este destrambelhado mundo de indigentes mentais e trogloditas espinoteantes que não param de se reproduzir em estado de mediocridade geral uniformemente acelerada: «horror dos horrores», como diria o nosso Amigo Dácio! 

 

Até sempre, meu muito Caro José, até sempre!

 

15-25.11.2021 e 30.5.2022

Zetho Cunha Gonçalves nasceu na cidade do Huambo, Angola, a 1 de Julho de 1960. Passou a infância e adolescência no Cutato (pequena povoação na Província do Cuando-Cubango, onde fez a instrução primária e a que chama a sua «pátria inaugural da Poesia»). Estudou no Colégio Alexandre Herculano, na cidade do Huambo, e Agronomia na extinta Escola de Regentes Agrícolas de Santarém, em Portugal. 

Poeta, autor de literatura para a infância e juventude, ficcionista, organizador de edições, antologiador e tradutor de poesia, exerceu várias profissões: de tratador de gado numa fazenda a empregado de escritório, de vendedor de publicidade e publicitário a director-adjunto de um jornal de turismo falido, de empregado de mesa em restaurantes e pesquisador de notícias para uma empresa da especialidade a intermediário e conselheiro de bibliófilos. Foi coordenador da página literária «Casa-Poema da Língua Portuguesa» no jornal Plataforma, de Macau, e da secção cultural da revista África 21. É membro da União dos Escritores Angolanos.

Tem traduções para alemão, chinês, espanhol, hebraico e italiano, e colaboração dispersa por jornais e revistas de Angola, Brasil, Espanha, Itália, Macau, Moçambique e Portugal. Tem participado em vários colóquios e encontros literários em Portugal, Brasil, Cuba, Espanha e Itália. 

Em 2018, o seu nome foi proposto para Prémio Nobel de Literatura. Em 2019, Noite Vertical, obra publicada em 2017, foi galardoada com o I Prémio dstangola/Camões. 

Vive actualmente em Lisboa, dedicando-se inteiramente à criação poética e literária.

Publicou, de poesia: Exercício de Escrita, 1979; Coração Limite / Sobre a Sombra do Corpo, 1981; A Construção do Prazer / Reportagem do Silêncio, 1981; O Incêndio do Fogo, 1983; O Outro Mapa da Terra, Edição manuscrita, exemplar único, 1997; O Voo da Serpente, Edição manuscrita, 12 exemplares, com 4 desenhos originais do Autor, 1998; A Palavra Exuberante, 2004; Sortilégios da Terra: Canto de Narração e Exemplo, 2007; Rio Sem Margem: Poesia da Tradição Oral, 2011; Terra: Sortilégios, 2013; Rio Sem Margem: Poesia da Tradição Oral. Livro II, 2013; Noite Vertical, 2017 [I Prémio dstangola/Camões 2019]; O Sábio de Bandiagara: Esconjuros, Ebriedades e Ofícios, 2018; O Leopardo Morre Com as Suas Cores, 2019; Alumbramentos, 2020; Respiração Suspensa, 2021; Noite Vertical: Poemas Reunidos 1979-2021, 2022.

Literatura para a infância e juventude: Debaixo do Arco-íris Não Passa Ninguém [ed. brasileira] (poemas), 2006; A Caçada Real (teatro), 2007; [ed. brasileira], 2011; [ed. moçambicana], 2013; Brincando, Brincando, Não Tem Macaco Troglodita (poemas) [ed. brasileira], 2011; A Vassoura do Ar Encantado (estória) [ed. brasileira], 2012; Os Sete Poemas do Papagaio de Cabinda [ed. angolana], 2012; Rio Sem Margem: Poesia da Tradição Oral Africana [ed. brasileira], 2013; Dima, o Passarinho que Criou o Mundo: Mitos, Contos e Lendas dos Países de Língua Portuguesa (antologia), [ed. brasileira], 2013; A Minha Primeira Leitora (conto), in: Mapas Literários: O Rio em Histórias, de Ninfa Parreiras, [ed. brasileira], 2015; Com o Cágado Ninguém Brinca (conto), in: Pássaros de Asas Abertas. Antologia de Contos Angolanos, de António Quino e Margarida Gil Reis [ed. angolana], 2015; A Filha do Sol e da Lua (conto), in: Angola 40 Anos − 40 Contos – 40 Autores, de Arlindo Isabel [ed. angolana], 2015; Aqui Há Dinossauro (conto), 2020; A Galinha-de-Angola Que Punha os Ovos no Telhado (poemas), a publicar; Relojoeiro de Palavras (poemas), a publicar; A Serpente Que Dançava Para Mudar de Vestido (poemas), a publicar; O Sapo Astronauta Que Não Quer Voltar a Marte, a publicar; Paixões & Aventuras de Fernando Pessoa Para Jovens Irreverentes, de Fernando Pessoa [Org.], a publicar.  

 

Prosa: Quarto Crescente Lunar em Havana Velha (estórias), a publicar.

Tradução de poesia: O Desejo É Uma Água, de Antonio Carvajal, 1998; Altazor: Canto II, de Vicente Huidobro, 2012; 3 Poemas, de William Carlos Williams, 2012; 22 Poemas, de Joan Brossa, 2012; 15 Poemas, de Rainer Maria Rilke, 2012; Sete Poemas, de Friedrich Hölderlin, 2012; Chora, Ó Irmão Negro Bem-Amado, de Patrice Lumumba, 2018; 4 Epigramas Gregos, 2019; Rubaiyat: Odes à Embriaguez Divina, de Jalal-al-Din Rumi, 2019; Transversões: Poemas Reescritos em Português, 2021; A Poesia É Um Atentado Celeste, de Vicente Huidobro, 2022; Sereia Adormecida: Poesia Marroquina Contemporânea Escrita por Mulheres, no prelo. 

Organização de edições: Corpo Visível, de Mário Cesariny, com ilustrações de Pedro Oom, 1996; Obra Poética, de Luís Pignatelli, 1999; Uma Rosa na Tromba de Um Elefante, de António José Forte, com desenhos de Aldina, 2.ª ed., 2001; Uma Faca nos Dentes (Obra Poética), de António José Forte, com Prefácio de Herberto Helder, fotografias e desenhos de Aldina, 2.ª ed., 2003; Breve História da Mulher e Outros Escritos, de Natália Correia, com Prefácio de Maria Teresa Horta, 2003; A Estrela de Cada Um, de Natália Correia, 2004; Entrevistas a Natália Correia, de Antónia de Sousa, Bruno da Ponte, Dórdio Guimarães e Edite Soeiro, 2004; Contos Inéditos e Crónicas de Viagem, de Natália Correia, 2005; Os Brasileiros, de Eça de Queiroz (em col. com Eduardo Coelho) [ed. brasileira], 2008; Contos, Fábulas & Outras Ficções, de Fernando Pessoa, 2008 [Tradução italiana com o título La Vita Non Basta. Racconti, Favole e Altre Prose Fantastiche, 2010]; Impia Scipta, de Luís Carlos Patraquim, 2011; Contos Completos, Fábulas & Crónicas Decorativas, de Fernando Pessoa, 2012; [ed. brasileira com o título Um Grande Português. Contos, Fábulas & Outras Histórias], 2012; Manual Para Incendiários e Outras Crónicas, de Luís Carlos Patraquim, 2012; Bonsoir, Madame! (Obra Poética), de Manuel de Castro, 2013; Notícia do Maior Escândalo Erótico-Social do Século XX em Portugal, de Fernando Pessoa, Raul Leal (Henoch) e outros, 2014; Sete Poemas Inéditos, de Ruy Cinatti, 2015; Sete Poemas Inéditos, de Natália Correia, 2015; A Pedra-que-Mata. Poesia Japonesa: Uma Antologia do «Período Primitivo» ao «Estilo Moderno», de Luís Pignatelli, 2016; O Senhor Freud Nunca Veio a África, de Luís Carlos Patraquim, 2017; Fernando Pessoa: Um Retrato Fora da Arca. Cartas, Ensaios, Poemas, Testemunhos, Memórias, de Fernando Pessoa e outros, 2018; Morada Nómada: Poesia 1980-2020, de Luís Carlos Patraquim, 2020; Carta ao Jovem Poeta, de Jorge de Sena, 2021; Luz Central: Ensaios Reunidos, de Ernesto Sampaio, 2022;  Raiz-Andante da Flor do Ar: Poemas Traduzidos, de Luís Pignatelli, a publicar;  Os 47 Poemas de Vida de Fernando Pessoa: Antologia de Cabeceira, a publicar; Cartas a Salazar & Outras Epístolas Para Caeiro da Mata, John Fitzgerald Kennedy, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa e Aleister Crowley, de Raul Leal (Henoch), a publicar; Obra Poética, de José Sebag, a publicar; Esta Cabeça Não É Minha. A (Im)possível História do Chamado «Grupo do Café Gelo», com Mário Cesariny, Luiz Pacheco, Herberto Helder, António José Forte, Virgílio Martinho, António Barahona, Manuel de Castro, Manuel de Lima, João Rodrigues, Raul Leal (Henoch) e outros, a publicar; Dada Dada Dada – 1914-1970, de Mário Cesariny, a publicar; Capítulos seguidos de O Morgado de Fafe, de Camilo Castelo Branco, com Prefácio de Jorge de Sena, a publicar.    

Antologias: 35 Poemas Para 35 Anos de Independência, 2010; Antologia Pessoal da Poesia Angolana, a publicar; Poesia Tradicional Angolana: Uma Antologia, a publicar. Nova Antologia do Humor Português, a publicar.  

  

Está representado nas seguintes antologias, obras colectivas ou livros-catálogo: Vozes Poéticas da Lusofonia, de Luís Carlos Patraquim, 1999 [Org.]; António Prates: Percursos de Um Sonho. Fotobiografia, de Alexandra Silvano Prates e António Prates [Org.], 2007; Sonhos d’Agora e Também d’Outros Tempos, de Roberto Chichorro, 2009; Divina Música: Antologia de Poesia Sobre Música, de Amadeu Baptista, 2009; Coletânea Prêmio OFF FLIP de Literatura 2009, de Ovídio Poli Junior [Org.], 2010; Pensando África. Literatura, Arte, Cultura e Ensaio, de Carmen Lucia Tindó Secco, Maria Teresa Salgado e Silvio Renato Jorge [Org.], 2010; Histórias Pintadas de Azul, de Roberto Chichorro, 2010; Hinc Illae Lacrimae! – Studi in Memoria di Carmen Maria Radulet, 2 Vol. A cura di Gaetano Platania, Cristina Rosa e Mariagrazia Russo, 2011; Conversas de Homens no Conto Angolano: Breve Antologia (1980-2010), de António Quino [Org.], 2011; Balada dos Homens que Sonham: Breve Antologia do Conto Angolano (1980-2010), de António Quino [Org.], 2012; Da África e Sobre a África: Textos de Lá e de Cá, de Emilia Machado, Mariucha Rocha, Ninfa Parreiras e Vânia Salek [Org.], 2012; Depois do Silêncio: Escritos Sobre Bartolomeu Campos de Queirós, de Lucilia Soares & Ninfa Parreiras [Org.], 2013; A Arqueologia da Palavra e a Anatomia da Língua: Antologia Poética, de Amosse Mucavele [Org.], 2013; Mögen Pitangas Wachsen. Literatur aus Angola: Ein Zweisprachiges Lesebuch (Antologia Bilingue Português-Alemão: Oxalá Cresçam Pitangas. Literatura de Angola: Um Livro Bilingue). Herausgegeben von Ineke Phaf-Rheinberger; Übersetzung aus dem Angolanischen Portugiesisch: Bárbara Mesquita, Leipzig: Poetenladen, 2014; Afeto & Poesia. Ensaios e Entrevistas: Angola e Moçambique, de Carmen Lúcia Tindó Secco, 2014; Mapas Literários: O Rio em Histórias, de Ninfa Parreiras [Org.], 2015; Pássaros de Asas Abertas. Antologia de Contos Angolanos, de António Quino e Margarida Gil Reis [Org.], 2015; Angola 40 Anos −40 Contos – 40 Autores, de Arlindo Isabel [Org.], 2015; O Sol É Secreto. Poetas Celebram Eugénio de Andrade, de Carlos d’Abreu, Luís Maçarico e Pedro Salvado [Coordenação], 2019;  Cartas Sem Resposta, de Ninfa Parreiras [Org.], 2020; E de Súbito É Noite: Caderno Pandémico, A Corja [Org.], 2020; Ao Ouvido de Um Moribundo: Uma Antologia Desesperada da Poesia Portuguesa, de Nuno dos Santos Sousa [Org.], 2020; Pandemia Não Rima com Poesia, de Valdeci Duarte [Org.], 2020; Entre a Lua, o Caos e o Silêncio: A Flor: Antologia da Poesia Angolana, de Carlos Ferreira e Irene Guerra Marques [Org.], 2021; Literatura e Cultura em Tempos de Pandemia, UCCLA [Org.], 2021; Antoloxia do Confinamento: Poetas Galegos e Portugueses, de Elisabeth Oliveira, Xaime Toxo, Carmen Quinteiro e Antón Sobral  [Coordenação], 2021.

 

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