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AS FALSIFICAÇÕES, A FARSA, AS SEREIAS, A MAIORIA | EDITORIAL

AS SONDAGENS

As sondagens são, frequentemente, tentativas de manipulação dos resultados eleitorais, sobretudo quando mostram, na reta final, o crescimento do partido que determinados interesses pretendem que vença umas eleições.

Foi o que, claramente, sucedeu nestas legislativas em Portugal.

Nenhuma sondagem dava maioria absoluta ao PS. Na última semana da campanha eleitoral, o partido que melhor defende os interesses dos senhores do poder económico surgia em crescendo como vencedor nas sondagens publicadas pelos órgãos de informação porta-vozes desses senhores.

A verdade da votação desmontou essas falsificações.

OS COMENTADORES

Apesar de muitos defeitos, o modelo dos debates seguido na comunicação social mostrou ser minimamente esclarecedor. Porém, mais ainda que as sondagens, os comentadores torceram a realidade. A sua quase totalidade embandeirou uma grande vitória de Rui Rio no debate com António Costa. No programa POLÍTICA IMPURA, que temos semanalmente na radiotransforma, fomos os únicos a afirmar que António Costa tinha vencido o debate com larga vantagem.

Os eleitores deram-nos razão e demonstraram que nem sempre as consciências são manipuláveis e nem sempre a mentira dos comentadores triunfa.

A FARSA

          O Bloco de Esquerda e o Partido Comunista são partidos marxistas, mas ignoraram a lição de Marx  (em O 18 BRUMÁRIO DE LUIS BONAPARTE) de que a história se repete a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.

         Em 1987, o PS de Vitor Constâncio e o extinto PRD, de Ramalho Eanes, uniram-se para fazer cair, a meio do mandato, um governo de Cavaco Silva. A consequência foi darem a primeira maioria absoluta a Cavaco Silva.

Em 2011, o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda uniram-se à direita para derrubarem o governo do Partido Socialista. O resultado foi a vitória da direita e a consequente tragédia que foi a intervenção da troika e o sofrimento que causou a Portugal.

Em 2021, sem perceberem as lições da história, o PCP e o BE uniram-se à direita para derrubarem novamente o PS de António Costa.

Isso resultou numa derrota eleitoral que os fez perder a maior parte da sua representação parlamentar.

Foi a história a repetir-se como farsa.

AS SEREIAS

As sereias que acenavam com o paraíso liberal da enorme diminuição dos impostos  não foram escutadas a não ser quanto à Iniciativa Liberal, mas esta em pequena escala. É caso para dizer que, quando a esmola é grande, o santo desconfia. Ora a baixa generalizada dos impostos para 15% é tão aliciante para quem paga 20 ou 30% que ainda houve alguns que foram nesse canto de sereia, iludidos, por ignorância ou simples interesse.

Com tão alta baixa de impostos há que perguntar: quem paga as forças armadas, as forças de segurança, a saúde, a educação, a justiça, as infraestruturas, etc?

Privatizam-se esses serviços como querem os liberais? Mas a PPPs vivem à custa do Estado, a saúde e o ensino proporcionados pelos privados vivem também à custa do Estado, sem o apoio do qual não conseguiriam manter-se a não ser com preços incomportáveis para as classes médias.

E o que pretende o nosso país: ter os impostos altos da Dinamarca (49% do PIB contra 37% de Portugal) que os liberais criticam mas que tem dos maiores índices de desenvolvimento e felicidade do mundo, ou impostos baixos como no Chile de Pinochet que levaram ao empobrecimento generalizado das classes médias e à redução à miséria dos mais pobres?

A MAIORIA ABSOLUTA

O PS de António Costa alcançou a maioria absoluta. Diga-se em abono da verdade, que Costa é o mais arguto Primeiro Ministro que Portugal teve depois do 25 de Abril.

Mas isso não basta. Que fará ele com esta vitória?

Aceitará diminuir o poder absoluto dos grandes grupos económicos que vivem quase em roda livre, cartelizando preços de compra e venda, asfixiando fornecedores e sugando consumidores?

Procurará instituir num verdadeiro mercado no qual o Estado tem um poder importante através do investimento público na banca e na grande distribuição, particularmente na água, na energia e nos bens alimentares, de modo a impedir o abuso do poder económico que alguns praticam?  Irá combater firmemente a corrupção e os crimes contra a economia, criminalizando  com severidade o enriquecimento ilícito, o branqueamento e a fuga de capitais para paraísos fiscais? Irá acabar com o escandaloso atraso dos tribunais administrativos e fiscais? Irá construir um aeroporto com custos baixos, em Beja, e não um elefante no Montijo? Irá melhorar significativamente os portos para dinamizar as trocas comerciais com os EUA e os países da lusofonia? E o transporte ferroviário investindo na alta velocidade de que Portugal tanto carece para se ligar com eficiência ao mercado europeu?

São muitas perguntas cuja resposta iremos aguardar, não com muita, mas com alguma esperança.

 

Henrique Dória

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