Cultura

Alguns poemas inéditos | Rafael Teixeira de Souza

NECESSIDADE

 

Nesga de sol, apenas,

precisamos, sem sombra

de dúvida. O que assombra:

viver a duras penas.

 

Além disso, água doce

para terra molhada —

mais um degrau na escada

é como se nos fosse.

 

Nosso pobre canteiro

cá bem atrás, em tal

lugar, só no quintal,

em sítio derradeiro.

 

Os regadores — já!

Melhor será enchê-los.

Logo verás quão belos

nós iremos ficar.

 

***

RETRATO DE ESTRADA

Os sujeitos perdidos na linha do tempo

encontraram-se, pasmados

pela coincidência.

Cumprimentaram-se, foram a um bar

de beira de estrada

e puseram o papo em dia,

entre petiscos, chistes e chopes.

Quantos amores 

(quantos pavores!) soltos 

no esmalte do asfalto…

E despedindo-se entre abraços,

deram-se ao tempo, ao passo 

que a linha deste — inexorável — 

se rompeu a cada um,

sem testamento.

***

OPÚSCULO

 

Sufoca o sol, mãos pálidas;

aperta-lhe a traqueia de que emana a fulgente voz.

A consequência — marés penumbrosas em frenesi 

abrandarão.

Dedos incontestes acariciam as teclas 

de um piano mudo, no espaço.

Como surdirá a rebeldia à penumbra, sem o sol?

Suspende tuas velas, mãos pálidas;

cede tua palidez à chama — e toca.

***

UMA GARÇA PERDIDA

 

Era, antes, um ponto invisível entre nuvens.

Depois foi baixando, até que se entreviram as asas, 

o pescoço enorme, além do bico.

Estava com muita fome: à distância parecia um esse de contornos delgadíssimos.

E quando avistou os cavalos deu um mergulho de nadador naquela direção.

Na piscina de seus sonhos, cuja cor da água se confundia com o pelame lustrado dos outros bichos, abundavam peixes cinzentos presos ao couro 

(a maioria peixezinhos cheios de sangue, a ponto de explodir)

que lhe encheram o papo em questão de minutos,

enquanto os cavalos, satisfeitos a relinchar, seguiam o trote. 

De repente, a garça voou, invisibilizando-se.   

Não houve agradecimento, nem um sussurro ou adeus.

Só um longínquo rumor de folhas.

***

DO QUE SE PRECISA

 

E todos nós, sem exceções,

diante do peito que sente, 

nos embriagamos com vinho

sem sequer erguermos a taça.

Pois o que seria de nós 

sem esse tal peito que sente?

Que seria de nós se o peito 

pungido não quisesse sentir?

Seríamos pedra de calçada,

divindade ausente de preces,  

percussão sem que houvesse mãos,

uma borboleta argentina

perdida entre panapanás

tombando arabescos de pólen,

seríamos um grão de sal 

achado no meio do Atlântico.

Ora, mais do que no passado, 

é imperioso a cada um 

apenas um peito sensível,

que atente para a mutação

dos casulos por rebentar,

para a queda das tanajuras, 

e possa entrever, em pleno auge, 

o último símbolo da paz.

***

 

VISITA ÍNTIMA

 

Cada um desses livros abertos sobre a escrivaninha 

representa um mundo particular

o meu mundo

o teu mundo.

Para cada um de nós reinventa-se uma visão alegórica

de temores e festejos

de belezas e feiuras

de dispersões e junções 

e de tantas outras especificidades a nós condizentes 

e nossas vivências

e nossas essências

que me entediaria alistá-las uma a uma.

Basta refletir que para além do fato de representar um mundo ou habitação

cada regresso a esses mundos e habitações também se renova

como um museu a que visitamos em intervalos regulares 

e sempre que o percorremos ele parece diferente

composto por peças diversas 

mas que evidentemente nos aprouve revê-lo

nos aprouve revivê-lo 

como se fossem sensações que se revigoram indistintamente a cada nova visita. 

E aqui 

neste cômodo familiar que mais habito 

um outro eu incompleto 

acaba por se renovar novamente 

ao sabor de cada reencontro.    

 

***

 

 

TRAGO COMIGO

 

Trago comigo

este homem que não sou 

diante das marés —  

homem desventrado, cujos olhos

são harpias,

e os pés, castelos de areia.

Trago comigo  

esta sombra de eco, 

este lenço puído ao bolso, 

em que beijos se estamparam

e sumiram.

Tantas geometrias circulando no ar,

como espirais;

tantos reflexos impúberes…

Sem ventre, trago comigo

o pêndulo das marés,

o voo das harpias

e a bosquejante fumaça de um charuto

— trago.

***

DEPOIS DA GUERRA

 

Não pensemos em vingança:

o sangue já derramou.

Verde — eis a cor da esperança.

Sem mortandade se avança,

paz é tudo que restou.

 

Vai — vai e dorme, tenso corpo,

com arranhões de ferida,

tal galho crescido torto

pobre (nada) feito douto,

água em pedra convertida.

 

Se a paz tardou, que fiz dela? 

Quis-lhe chuva corrosiva 

no Éden das árvores de Eva. 

Foi quando a bigorna fê-la  

(pela vertigem) esquiva. 

 

Qual razão? Ambos não têm; 

nenhum será vencedor. 

E não acharão ninguém 

deste planeta ou de além, 

pois partiu o executor… 

 

Gerações foram ao solo, 

crianças aos pés de pais 

mortos. Porém, onde pô-los? 

No céu, tanto se viu corvos:  

já não se escutam os ais! 

 

Do que lhes sobrou, jardins 

em floração, pirilampos 

sobre pantanais carmins, 

libélulas lá (afins)

pairam, matizando campos.

 

E a guerra? Afinal, findou… 

Ouvem-se salvas de palmas, 

um canhão por cá passou, 

cavacos — e a morte? Xô! 

Aleluias — e tu palras… 

 

Vives, então, sem o medo  

da morte dos inocentes. 

Repara: estás todo ledo, 

e te levantas mais cedo 

com lábios e olhos frementes.

***

 

REFLEXOS DA AURORA

 

Do capim-cidreira 

colhido em monturo,

dá-se a ver a eira

no terreno escuro. 

 

“Vai buscar, menino,

as folhas do chá!”,

diz a mãe de Alvino.

“Tá! pode deixar”,

 

pronto ele responde,

um tanto arrastado…

“Mas onde está, onde?

 

Lá onde fui rei,

antes (bem do lado),

e não me encontrei.”

 

***

 

E, ao lembrar isso, ele

ri: “Eu, retraído…”, 

pensa, logo, nele.

Só lhe resta o ouvido

 

e o tato, pois cego

está, por doença.

Diz, a si: “Me nego

a crer que me vença!

 

Esta casa é minha.

A mim, restou aqui;      

e a aurora se acerca,

 

é daqui vizinha…

Bem perto da cerca 

afirmo que a ouvi”.

 

Rafael Teixeira de Souza (1993) nasceu numa pequena propriedade rural do município da Pedra, em Pernambuco. Durante toda a infância frequentou escola pública. Por volta dos onze anos, seu maior sonho era estudar na cidade. Realizou-o em 2004. Dez anos depois, no entanto, saiu pela primeira vez do seu estado natal e foi a Brasília, onde conseguiu uma vaga no curso de mestrado em Literatura na UnB. Atualmente cursa o último ano de doutorado, tendo como tema central da sua tese a aproximação de romances históricos do Brasil e do México. Em matéria de poesia, publicou no ano passado O âmago das coisas (editora Penalux, SP); e, neste ano, lançou mais duas coletâneas de poemas, respectivamente Só os objetos amadurecem sem cair (Confraria do Vento, RJ) e Reinvenção dos pássaros (Penalux). Sua poesia alia tradição e contemporaneidade em versos livres e metrificados, nos quais ganham destaque, tematicamente, a natureza e os animais, a memória, o amor e a morte.

 

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