Cultura

Aderbal e Carla | Carlos Eduardo Matos

Ele se chamava Aderbal, mas podiam chamá-lo de Carla que às vezes atendia.  

 

Aos 60 anos, Aderbal não era uma drag queen esfuziante. Nem um cross dresser enrustido, colocando às escondidas a lingerie e o vestido da esposa. Aliás, não tinha esposa, era divorciado, sem filhos, vivia sozinho. Mas era o melhor escritor de histórias eróticas/de sacanagem lésbicas do Brasil. E as assinava como Carla, sem sobrenome. Carla, a primeira e única. Suas colaborações eram relativamente bem pagas nos livros e revistas do país, e mais ainda no exterior: contos seus haviam integrado dezenas de antologias, traduzidos para diversas línguas. 

 

O que tornava seu rosto triste, a boca sempre vincada para baixo, era a defasagem crescente entre Aderbal e Carla. Ela era um sucesso, ele não era. Ela conquistava as mulheres, ele não. E o pior era que ele gostava tanto da fruta que suas personagens chupavam até o caroço!

 

Talvez o problema fosse esse, ser chegado demais no negocinho. Nas raras ocasiões em que estava com uma mulher, a ansiedade de Aderbal era tamanha que reduzia as preliminares ao mínimo e se precipitava, segundo a velha fórmula “vai ser bom, não foi?”. Resultado: a parceira não atingia o orgasmo e saía jurando para si mesma nunca mais dar pra ele.

 

Carla não. Suas palavras tornavam-se dedos mágicos que tocavam cada dobrinha de pele escondida, ou uma língua sábia e experiente, que seduzia as leitoras e as levava ao delírio. Por vezes ela/ele passava horas à procura da palavra correta, a um só tempo delicada e sensual, apta a incendiar a libido das moças, com enredos de desenvolvimento lento e elaborado. Além disso, dominava a arte de adequar a linguagem ao veículo, com um estilo mais elegante nas revistas de histórias eróticas e mais direto nas de histórias de sacanagem, mas sem jamais cair na vulgaridade. Tudo isso extasiava o público feminino, fazia de Carla um sucesso editorial e de vendas – e tornava Aderbal cada vez mais triste. 

 

Certo dia, seu celular tocaram. Número desconhecido. 

 

 — Boa tarde. Desejo falar com Carla, por favor. 

 

 — Não tem ninguém com esse nome – rosnou Aderbal.

 

 — Seu Aderbal, não desligue. Olha, trabalho na editora que publica seus contos e sei que Carla não existe, é uma criação sua. O problema é que estou apaixonada por ela, e, portanto, por você também!  — disse a mulher de um só fôlego.  — Aliás, meu nome é Flávia, muito prazer.

 

  — Muito prazer — respondeu ele mecanicamente. A repentina declaração de amor o tirara do sério.  — Moça, você está apaixonada por Carla, não por mim…

 

 — Entendo, Adê (o apelido o agradou), mas dá pra amar você também.  Olha, estou perto de sua casa. Vamos nos encontrar em meia hora no barzinho da esquina? Há coisas que prefiro falar olhando pra você disse com um risinho malicioso.

 

Uns 40 minutos depois, de banho tomado, ele entrou no bar e viu uma morena bonita, sentada sozinha, com uma cerveja pela metade diante de si.

 

 — Flávia?

 

 — Adê?

 

 — Olha, gostei do que vi. Você não usa barba, isso ajuda. Acho que vai dar pra gente transar gostoso…

 

 — Flávia, você não tá entendendo. Raras vezes consigo fazer uma mulher gozar…

 

 — Olha, Adê, imaginava que poderia haver um problema desses. É que a Carla é muito forte, dominante, e quando você vai pra cama faz questão de deixá-la de fora. É só convidá-la a participar que vai ser uma delícia…

Ele olhou-a sem entender bem. Ela prosseguiu.

 

 — Você conhece as declarações líricas que a Carla já fez em louvor do clitóris, afinal foi você quem escreveu. Instrumento destinado ao prazer, dotado de mais terminações nervosas que o órgão masculino…  —Tomou fôlego e continuou: – Você tem de levar a Carla pra cama e deixá-la conduzir a transa. Nada de pressa, Carla nunca tem pressa.  —E com um sorriso, concluiu:

 

 — Imagine que você não tem um cacete, e sim um clitóris avantajado. Ele tem menos terminações nervosas, tadinho de você, mas ainda assim pode dar muito prazer a nós dois.

 

Eles saíram do bar, entraram no primeiro motel e transaram feito coelhos. A primeira vez não foi muito boa, ele terminou rápido, mas Flávia garantiu que a segunda seria muito melhor, mais demorada e gostosa. E foi mesmo. 

 

Desde esse dia, Aderbal é muito mais feliz. Transa regularmente com Flávia, mobilizando todos os ensinamentos que expôs com maestria em seus textos lésbicos e sendo conduzido por ela. Só tem um probleminha: Flávia adora que ele se vista de mulher, despe-o bem devagar e chama-o de Carla o tempo todo, Mas Aderbal não liga. Afinal, o que um macho não faz por amor?

 

 

Fotografia de Carlos Eduardo Matos

 

 

Meu nome é Carlos Eduardo (Cadu) Matos. Nasci em 1946, em Niterói, cidadezinha diante do Rio de Janeiro – uma Almada da baía de Guanabara. Formei-me em Direito em 1968 mas jamais advoguei. Dei aulas de Sociologia na Fundação Getúlio Vargas- SP e, antes disso, em 1975, na Escola Bento de Jesus Caraça, em Évora. Sempre exerci o ofício de escritor. Desde 1969 trabalhei como editor, redator, tradutor, preparador de texto e revisor para editoras de fascículos, revistas e livros didáticos e não didáticos. Contudo, apenas em 2018 escrevi meu primeiro texto pessoal, não encomendado por uma empresa. E não parei mais. Lancei quatro e-books pela Amazon: Shoshana – publicado na íntegra em quatro edições sucessivas da InComunidade – e os livros de contos Lili dos dedinhos, A outra e Rebeldes.

 

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