Cultura

A potência do anômalo – parte II | Clécio Branco

A erva daninha imita a planta comestível e as duas se valem de uma zona de vizinhança que as tornam imperceptíveis. A erva daninha é anômala em meio às plantas. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência que o homem retira da natureza. Não se pode ver nesse efeito o mesmo que se passa no ressentimento. Olhar a proliferação da erva daninha na natureza como efeito do pecado. Faz parte da inocência da natureza: uma erva daninha e os rizomas das formigas que atacam as plantações. Em ambos os casos, são vidas que desejam expandir-se. As ervas daninhas e as formigas, assim como os vírus e as bactérias não se extinguem por conta dessa capacidade de proliferar mimeses e rizomas.

 

“Vemo-nos tomados em segmentos de devir, entre os quais podemos estabelecer uma espécie de ordem ou progressão aparente (…).” O sucesso da revolução consiste justamente nessa capacidade de se abrirem zonas de indiscernibilidade de maneira que se instaure toda espécie de devir necessário às circunstâncias: mulher, criança, animal, vegetal, toda espécie de proliferação de partículas de “fibras de uns que levam aos outros, transformam uns nos outros, atravessam suas portas ou limiares. Cantar ou compor, pintar, escrever não têm talvez outro objetivo: desencadear esses devires”.[1]

 

Lançar o corpo em um devir-outro, devir-partícula, que são todos devires moleculares, ou seja, devires que nos lançam a um plano intensivo, plano de contato e vizinhança incorpórea com o outro. Encontrar-se na zona do anômalo é estar em longitude e latitude, um conjunto de velocidades e lentidões entre partículas não formadas, um conjunto de afectos não subjetivados. Tem a individuação de um dia, de uma estação, de um ano, de uma vida (independentemente da duração); de um clima, de um vento, de uma neblina, de um enxame, de uma matilha (independentemente da regularidade).

 

Um enxame de gafanhotos trazido pelo vento às cinco horas da tarde; um vampiro que sai na noite, um lobisomem na lua cheia. Não se acreditará que a hecceidade consista simplesmente num cenário ou num fundo que situaria os sujeitos, nem em apêndices que segurariam as coisas e as pessoas no chão. É todo o agenciamento em seu conjunto individuado que é uma hecceidade; é ele que se define por uma longitude e uma latitude, por velocidades e afectos, independentemente das formas e dos sujeitos que pertencem tão-somente a outro plano.

 

Os ataques de segmentaridade dura não impedem que eles tenham os microperceptos inconscientes, que vivem nos afectos inconsciente. “É assim que, em O Homem dos Lobos, a matilha dos lobos torna-se também um enxame de abelhas, e ainda campo de ânus, e na coleção de buraquinhos e ulcerações finas.”[2]

 

Há uma vitalidade ignorada nessas espécies de doenças. De alguma maneira no doente, essas forças afloram, mas, estranhamente, o fascismo molecular da doença que permite seu afloramento é também a barreira que paralisa o processo. Nesse paradoxo, encontra-se todo o sentido do que faz a política ser, ao mesmo tempo, micro e macropolítica.

 

Há uma política de segmentaridade fina e outra de segmentaridade dura, no macro e no micro, ao mesmo tempo. Cair na doença diagnosticada já é a falha do processo, o diagnóstico é da ordem macro. A potência que se perdeu no adoecer é da esfera molecular; é nessa potência que se deve instalar com prudência, para que o juízo não caia sobre a cabeça com maior crueldade.

 

Daí levantarmos a questão de haver, potencialmente, uma falsificação em forma de mimetismo para cada forma originária da realidade concreta que se verifica na natureza e na sociedade. São os termos de aliança demoníaca; é o que faz com que Lúcifer seja o mais belo dos anjos caídos; um devir sombrio, ainda assim, é um devir.

 

Nesse sentido, as mímeses corpóreas como a entenderam Deleuze/Guattari não podem ser confundidas nem com representação, nem com imitação, mas, ao contrário, como uma espécie de devir-outro. Devir-outro continua a ser o mesmo. Um devir-outro que ocasiona um devir-sensível, um estado de arte. E o devir-sensível é o ato pelo qual algo ou alguém não para de devir-outro, continuando a ser o que é.[3]

 

A mímese, portanto, não busca uma cópia, nem mesmo uma representação; ela busca através de uma observação concreta da fisicidade-forma. Quando uma planta ou um animal imita o meio em que se situa, é a forma que se oferece para que um e outro vivam; também nesses casos, há uma cadeia de mimetismos positivos e uma linha fascista que se insere na natureza das imitações.

 

[1] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., Mille Plateaux, p. 333.

[2] Idem, p. 305.

[3] DELEUZE, G. e GUATTARI, F., Qu’est-ce que La philosophie?, p. 168.

 

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Clécio Branco é psicólogo clínico e Doutor em Filosofia. 

 

 

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