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A potência da suavidade no Taoísmo | Chiu Yi Chich

Na visão taoísta, quando agimos de acordo com o princípio da suavidade (柔-róu), manifestamos a potência misteriosa do Dao. Uma das figuras mais emblemáticas de tal manifestação é a água, pois, com suavidade, ela se infiltra no cimento e gradualmente consegue minar o seu alicerce sólido. Do ponto de vista filosófico, isso quer dizer que o mais suave pode não somente penetrar na solidez das coisas concretas como até mesmo dissolver a sua estrutura interna. Além disso, a água possui a maravilhosa capacidade de ir e vir em todas as partes sem distinguir os lugares altos e baixos. Como diz o mestre Laozi: “Sem disputa, a água beneficia todos os seres, habita os sítios que a multidão detesta e, por isso, é semelhante ao Dao…”1 Essa mesma eficácia da suavidade que tem a virtude de atravessar certos lugares incomuns traduz de maneira significativa o alcance da potência daqueles que conseguem se esvaziar de seus egos e assim “atravessar” o portal de todos os prodígios. 

 

De maneira análoga, na medida em que penetramos no Supremo Vazio onde se dissolve a identificação ilusória com os bens transitórios, concretizamos a eficácia potente do Sopro Vital na expansão de nossa consciência. Com a dissolução de tal apego, sentimo-nos plenificados com um bem mais precioso que é a essência da nossa vitalidade primordial. É por essa razão que um dos comentadores clássicos do Dao De Jing, Su Zhe2, observa que o sábio, agindo a partir da suavidade, deixa manifestar em si a suprema ação do Dao, ao mesmo tempo que não deseja mais se apoderar das coisas. Com efeito, através do desapego, o sábio manifesta em si cada vez mais a potência do vastíssimo Dao. Como também observa o mestre Wang Bi (século III d.C.), embora haja conflitos no mundo, ele se conserva num estado de espírito de serenidade onde não haverá mais oscilações de uma mente condicionada pelos dualismos de seus pensamentos, sentimentos e juízos parciais. É preciso compreender que a nossa mente ordinária é suscetível de ser afetada e condicionada por diversas tendências binárias, dualísticas e fragmentárias que a aprisionam entre as estreitas grades de suas conceituações. Oscilando entre sensações, pensamentos e sentimentos opostos como alegria/tristeza, ódio/amor, prazer/dor, dentre outros, a mente humana se limita, se restringe e se apega a um dos lados da complexa teia dos fenômenos. 

 

No Dao De Jing, Laozi declara: “(…) na simplicidade inominável não há desejos. Na serenidade desprovida de desejos, o mundo por si mesmo se sustenta.”3 É por isso que a serenidade aqui mencionada não significa um estado de mortificação ou de imobilidade em oposição ao movimento dinâmico do devir do mundo, pois, nesse caso, estaríamos “apegados” a um dos extremos da estrutura dualística da realidade. Ao contrário, significa um estado de compreensão de que todas as manifestações contrárias e diversificadas dos fenômenos são intrínsecas ao fluxo da totalidade do Dao. Permanecer na Constância do Dao com suavidade não é se estancar numa espécie de atitude imóvel. A dimensão genuína desse estado de constância e serenidade aflora quando justamente não “somos inclinados para juízos parciais, e tampouco aos estados de luz e escuridão, às imagens do calor e do frio” (不偏不彰,无皦昧之状,温凉之象-bùpiānbùzhāng, wújiǎomèizhī zhuàng, wēnliángzhīxiàng)4, ou seja, quando não nos identificamos mais com o modo parcializado de ver a realidade.

 

É nesse sentido que o sábio chinês observa que “os rígidos e fortes caminham para a morte”, ou seja, aqueles que ignoram o princípio da suavidade acabam agindo forçosamente e provocando sua própria destruição. Em contrapartida, “os suaves e brandos caminham para a vida”, porque, ao agirem de acordo com a suavidade, manifestam a potência sutil do wúwéi (Não-Ação) e cultivam a essência vital na sua existência. Eles não se apegam a um lado ou a um outro, mas simplesmente se mantêm numa atitude de equanimidade. Portanto, quem cultiva a suavidade segue o princípio do equilíbrio e da Naturalidade, enquanto quem valoriza a rigidez avança para o terreno da secura, da frouxidão e da morte. Para evitar o enrijecimento, o sábio retorna ao estado originário da Vida/Destino (命-mìng)5. Assim que se revitaliza na Fonte Originária da Vida, ele concede vida e liberdade a si mesmo e aos outros, cultivando amor, moderação e humildade. Do ponto de vista ético, isso significa que se desenvolve uma atitude de respeito e de consideração pelos outros, visto que uma atitude contrária ao princípio da suavidade provocaria somente conflitos e desentendimentos que só produziriam a deterioração da vida humana. 

 

Quando vivem, os seres humanos são suaves e brandos. 

Quando morrem, são rígidos e fortes.

 

Quando vivem, as ervas e árvores são suaves e frágeis.

Quando morrem, são secas e murchas.

 

Assim, os rígidos e fortes caminham para a morte.

Os suaves e brandos caminham para a vida.

 

Por isso, a arma forte se aniquila.

A árvore forte se esfacela.

 

Os fortes e grandes desfalecem.

Os suaves e brandos se elevam. 6

 

Percebam que a imagem de uma árvore enrijecida é utilizada por Laozi para mostrar o quão danosa é a conduta de uma pessoa arrogante, seja quando se envaidece das suas próprias capacidades, seja quando se vangloria por ter recebido elogios. É que, diante das forças do mundo, essa árvore rígida está mais sujeita ao risco de ser derrubada (cortada pelas tempestades das circunstâncias) e de sofrer prejuízos em razão da sua própria cegueira. Ao contrário, se formos como uma árvore branda e suave, seremos mais flexíveis, correndo menos riscos de sermos prejudicados. Essa última seria a conduta de quem se esvaziou de sua vontade caprichosa e conquistou o autodomínio. É por isso que se evitam as lisonjas que poderiam nos tornar orgulhosos, uma vez que tal cegueira perniciosa só conduziria à ignomínia, à destruição e à ruína. Daí a razão pela qual são as coisas suaves e delicadas que possuem a verdadeira força enquanto as coisas duras e aparentemente robustas correm o perigo da deterioração. Em outro momento, Laozi também utiliza a imagem simbólica da água para revelar a potência concreta da suavidade. 

 

Nada é mais brando e suave do que a água.

Nada é capaz de vencê-la no ataque ao rígido e forte.

Nada consegue modificá-la.

 

Brandura vence força.

Suavidade vence rigidez.

 

No mundo, todos conhecem isso,

porém, ninguém é capaz de praticar.

 

Portanto, diz o Sábio:

 

“Quem assume a impureza do reino é o senhor da terra.

Quem assume os males do reino é o rei do mundo.”

 

Palavras corretas parecem contraditórias.7 

 

Como enfatiza Wang Bi8, a potência da água é tão invencível que nenhuma coisa pode alterá-la. É por isso que Laozi no capítulo 36 diz que “suavidade e brandura vencem força e rigidez”. Com efeito, é preciso estarmos atentos para agirmos de acordo com a especificidade de cada situação, aprendendo com a qualidade flexível da água para que não venhamos a nos enrijecer em posturas e hábitos engessados. É que a força da água reside justamente no fato de que é capaz de adaptar-se a toda espécie de situação, indo até os lugares mais detestáveis e “assumindo a impureza do reino”. É baseando-se nessa amplidão de visão e nesse espírito de adaptabilidade que também o sábio governante deveria governar o seu reino (assim como nós em cada momento de nossas ações). Todavia, para compreendermos esse espírito da água, precisamos aprender com a eficácia do princípio do Vazio. 

 

O retorno é o movimento do Dao.

A suavidade é a sua eficácia.


Todos os seres emergem da Existência.

A Existência nasce do Vazio.9

 

Contrariando a lógica comum, a visão taoista mostra que o princípio do Vazio desdobra a sua eficácia na materialidade imanente da Existência de todos os seres. Em outras palavras, traduzindo essa visão metafísica para o âmbito ético-prático, isso significa que, incorporando a suavidade da água, podemos cultivar o Vazio em harmonia com a ordem da totalidade, tornando-nos mais capacitados para enfrentar as dificuldades, os perigos e os obstáculos da vida. Nesse sentido, quando somos impregnados pelos influxos do Vazio, todos os fenômenos da vida passam a ser considerados como constitutivos da realidade do Todo, sendo imprescindíveis e úteis na medida mesma em que são partes integrantes dessa teia cósmica. Quando alcançamos essa visão ampliada, cada elemento passa a ter sua utilidade, valor e sentido. Além disso, começamos a perceber que as coisas possuem seu uso, sua virtude e sua existência devido à eficácia do Vazio e não apenas à sua constituição material. Desse modo, o Vazio considerado como o aspecto transcendente do Princípio Originário se constitui como o princípio de produção e de existência delas, o que implica, em última instância, que as coisas somente possuem existência graças à essência do Vazio. A maioria das pessoas percebe apenas as coisas de maneira limitada, ou seja, por meio de seus pontos de vista subjetivos, ignorando que, no fundo, cada elemento da realidade é como uma parte da grande roda do movimento do Dao. Geralmente se ignora o movimento do Dao cuja eficácia é amplamente englobante, vasta, incomensurável e ilimitada. Portanto, quando nos atentarmos para a eficácia da totalidade, reconectaremos com a própria essência do movimento do Dao. Nesse movimento de retorno ao Dao, nessa espécie de reconversão do olhar, perceberemos a eficácia genuína da Essência da Vida.

 

É por isso que, como bem observou Su Zhe10, o repouso é o estado originário do nosso ser tanto como o movimento, já que ambos se integram ao fluxo da totalidade. Nesse sentido, tanto o repouso como o movimento, tanto o Vazio como a Existência, tanto a suavidade como a força se engendram mutuamente numa relação de reciprocidade. É evidente que a maioria das pessoas não percebem a dimensão quase imperceptível dos estados de suavidade, de repouso e de Vazio, e sobretudo, ignoram o fato de que é o estado transcendente do Vazio que gera e mantém a concretude (具体-jùtǐ) de todas as coisas. Mal percebem que o ser de cada coisa existe graças à ação de suavidade do Dao no seu movimento de eficácia inesgotável. Daí por que se Laozi concebe que a Existência provém do Vazio, isso significa que ele está se referindo à manifestação concreta da essência metafísica do Dao. De modo análogo, do ponto de vista humano, isso significa também que se o ser humano cultivar o estado de desapego, se puder retornar à condição originária do Vazio, se autorrealizaria na comunhão genuína com a essência do Dao. Em outras palavras, essa compreensão metafísica da precedência do Vazio sobre a Existência se concretiza na eficácia imanente em virtude da própria prática do desapego quando o sábio se esvazia e alcança a sua verdadeira natureza. Compreendemos agora o motivo pelo qual o sábio não se apega aos méritos de suas obras. É que quanto mais ele se esvazia, mais realiza a plenitude da sua existência na medida em que age na suavidade de acordo com o Princípio Originário do Dao. Por isso, como sublinha I Ching, a suavidade é uma das virtudes essenciais do homem superior que faz com que ele possa se corresponder com todas as criaturas, harmonizando-se com o fluxo da Naturalidade de todo universo. 

 

Perfeita é a grandeza do Corresponder:

Ela produz todos os seres

E aceita a fonte vinda do Céu.

 

Corresponder, em sua riqueza, sustenta todos os seres;

Sua virtude está na harmonia sem limites.

Sua capacidade é larga; seu brilho, imenso.

Por meio dela, todos os seres chegam ao pleno desenvolvimento.

 

A égua é uma criatura de essência terrena.

Seu movimento da Terra desconhece fronteiras.

Dócil e submissa, favorável e perseverante.

 

O homem superior compreende o estilo de vida da égua:

Assumir a liderança gera confusão,

Ela perde o caminho.

Ao seguir e corresponder,

Ela encontra o curso normal.11

 

Desse modo, o segredo da arte taoísta é cultivar o caminho da suavidade (柔-róu) em atitude de aceitação. Ao seguir e corresponder (顺-shùn) ao fluxo do Dao Constante, o homem superior enriquece sua virtude e age na retidão; ao falar e agir, é moderado e humilde. Evitando os excessos, conserva-se na beleza interior de acordo com o Dao da Terra, cuja ação é beneficiar todos os seres, permanecendo no estado de humildade feminina. Sem nenhum ressentimento, apego e rivalidade, cumpre as ações com a perseverança e a docilidade de uma égua. O hexagrama Corresponder (坤-kun) complementa o hexagrama Iniciar (乾-qian) a tal ponto que já nos revela o funcionamento de um processo dialético de unificação das oposições. Se o hexagrama Iniciar é a plenitude da força Yang, esse hexagrama Corresponder é a plenitude da força Yin, e ambos Sopros Vitais Yin e Yang se complementam numa relação harmoniosa. Como sublinha Laozi: “Conhecer o masculino e preservar o feminino: eis o que é tornar-se o vale do mundo”12

 

Assim, somos convocados à prática da harmonização das polaridades do masculino e do feminino, polaridades que são princípios de manifestação do Dao Indiferenciado no mundo dos fenômenos. Então, a questão fundamental consiste justamente em conciliarmos esses princípios dentro de nosso ser no sentido de unificá-los com vista à transformação alquímica. Nesse sentido, somos como as éguas dóceis que seguem suavemente os movimentos do Cavalo Celeste. Com paciência e humildade, perseveramos e correspondemos ao Supremo Dao do Céu. Atualizamos a força energética do Corresponder que é acolher com humildade, flexibilidade e docilidade sem disputar com os outros seres. Eis o que seria a virtude da humildade que atua de modo compreensivo e atencioso. Mas isso não significa uma atitude de resignação ou de fraqueza, e sim a firmeza na realização do bem de todos. Como observa o mestre Laozi:

 

Suprema Bondade é como a água.

 

Sem disputa, a água beneficia todos os seres,

habita os sítios que a multidão detesta 

e, por isso, é semelhante ao Dao:

vive com bondade na terra,

ama com bondade como um rio profundo,

doa com bondade no amor,

fala com bondade na confiança,

governa com bondade na ordem,

age com bondade na eficácia

e realiza com bondade no momento propício.

 

Assim, sem disputa, não há ressentimento.13

 

Com efeito, o hexagrama Corresponder possui a mesma eficácia da água cuja Suprema Bondade favorece a perfeição de todos. Tal como a água, esse Princípio de Correspondência age com bondade não porque visa um resultado premeditado pela vontade egoística ou porque busca com sua doação uma recompensa em troca. Sua ação não é baseada no egocentrismo, mas sim na compreensão dócil e humilde que beneficia todos os seres sem se apegar a esse ato de bondade. De modo análogo, sem se alimentar de falsas expectativas, o homem superior cultiva sua conduta baseada nessa eficácia do Corresponder, atuando de maneira constante e harmoniosa de modo a sustentar todos os seres.

 

Portanto, o Corresponder, manifestando a sua virtude acolhedora em seu estado de receptividade, chega até os lugares mais distantes e ainda assim preserva o brilho de sua sabedoria ilimitada. Não se apega e tampouco rejeita nada. Isso se deve à eficácia da humildade da égua: agir sem pensar em si. Por não ter um “Eu” dominador e auto-centrado, se doa e se adapta às diversas situações, mudando a sua forma de ação de acordo com o meio em que se encontra. É por isso que age sem disputa, visto que não se apega à identidade de um Eu que busca atribuir algum sentido de mérito às suas ações bondosas. De maneira similar, assim como a água, a terra e a égua, se agirmos de acordo com a eficácia da suavidade, agiremos com menos sentimentos de rivalidade (战-zhàn). Isso ocorrerá quando cultivarmos a nossa potencialidade receptiva e feminina, não exigindo nada dos outros nem nos vangloriando de nossa própria conduta. Assim, sem criar nenhum conflito com os outros, quem ainda poderá nos prejudicar? Portanto, se em nossos atos, palavras e atitudes, pudermos cultivar uma atitude flexível, viveremos a plenitude da própria vida sem que haja o esforço excessivo de interferir na ordem natural de cada ser e, sobretudo, seremos capazes de nos harmonizar com a Naturalidade da própria essência do Dao.

 

Notas

 

 Laozi, Dao De Jing; tradução de Chiu Yi Chih . São Paulo: Editora Mantra, 2017, cap.8.

 

2 Wang Bi e Su Zhe, Laozi, A sabedoria de Dao De Jing / Daodejingdezhihui 道德经的智慧 (com comentários dos comentadores clássicos chineses Wang Bi e Su Zhe – traduzido por Huang Xian Sheng). Beijing: Xinshijiechuban, 2016, p.241.

 

3 Laozi, cap.37.

 

4 Wang Bi e Su Zhe, p.53

 

5 Laozi, cap.16.

 

6 Laozi, cap.76.

 

7 Laozi, cap.78.

 

8 Wang Bi e Su Zhe, p.245.

 

9 Laozi, cap.40.

 

10 Wang Bi e Su Zhe, p.138.

 

11 Veja I Ching, Editora Martins Fontes (tradução para o inglês do mestre chinês Alfred Huang) 2012, p.41.

 

12 Laozi, cap.28.

 

13 Laozi, cap.8.

 

Chiu Yi Chih (邱奕智) é chinês nascido em Taiwan e naturalizado brasileiro, professor de filosofia taoísta e de mandarim instrumental. Filósofo, poeta e tradutor de obras clássicas como “Dao De Jing” de Laozi , “Vazio Perfeito” de Liezi e “A arte da guerra” de Sun-Tsu, publicados pela Editora Mantra. Praticante de Tai Chi e meditação. Mestre em Filosofia Antiga Grega (USP) e graduado em Letras (Grego Clássico-Português/USP). Publicou um livro de poesia “Naufrágios” (Multifoco-2011) e um outro de ensaios filosóficos “Metacorporeidade” (Córrego-2016). Pesquisa a obra taoista de Zhuangzi, Guanzi, Huainanzi, os Sutras do Budismo Chan. Em breve, será publicado o seu livro de poemas “Osso Vazio” (Editora Contravento). Atualmente está traduzindo “Ensinamentos de Bodhidharma”. Visite seu site www.mandarimtaoismo.com 

 

 

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