Cultura

A origem das vigarices | Hermínio Prates

O livro “Os contos e os vigários – Uma história da trapaça no Brasil”, do historiador José Augusto Dias Júnior, é uma deliciosa viagem pelo mundo das ilusões. E quem se deixa enganar? São aqueles que se imaginam espertos e que estão diante de uma oportunidade única para um ganho fácil. 

 

Foi o que aconteceu em julho de 1969. Após a histórica viagem da Apolo II, que levou os primeiros homens à Lua, um sergipano de fala fácil, com um mapa da superfície lunar, se materializou nas ruas de Belo Horizone e vendeu para dois fazendeiros lotes às margens do Mar da Tranquilidade; e oferecia outros terrenos na beirada do Mar das Tormentas, por preços mais atraentes. Fechou negócio com os dois “investidores” e antes que outros interessados no negócio de ocasião  aparecessem  a polícia chegou antes e prendeu o espertinho. E ele nem era um pastor, desses que se dizem íntimos de Jesus.

 

Duvidam? Confiram na página 22 da edição de 27/08/1969 da revista Veja.

 

Por que as pessoas caem nos contos do vigário? Excesso de credulidade ou porque fixam os olhos em ganhos aparentemente fáceis? Vale lembrar a famosa frase atribuída a P.T. Barnum, Phineas Taylor Barnum (1810-1891), mestre da ilusão e dono de um circo de variedades no século XIX: “Nasce um trouxa a cada minuto.”

 

Conto do vigário? Por que será que os homens de fé foram assim desmerecidos? A origem diz tudo e até Machado de Assis (1839-1908), em crônica publicada na Gazeta de Notícias, de março de 1895, escreveu que “aos sapientes e pacientes recomendo que a bela monografia que podem escrever estudando o conto do vigário pelos séculos atrás, as suas modificações segundo o tempo, a raça e o clima. A obra, para ser completa, deve ser imensa.” 

 

Definido pelo filólogo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (1910-1989), conto do vigário é o “embuste para apanhar dinheiro, em que o embusteiro, o vigarista, procura aproveitar-se da boa fé da vítima, contando uma história meio complicada mas com certa verossimilhança, como, por exemplo, a do paco.”

 

Fernando Pessoa (1988-1935), o poeta de muitos nomes, constatou que “ninguém já engana ninguém – o que é tristíssimo – na terra natal do Conto do Vigário.” O autor português nos faz crer que a palavra não é brasileirismo, conclui o dicionarista.

 

Há registros de golpistas ardilosos na Inglaterra, Estados Unidos, França e Espanha, mas em nenhum outro país há uma referência a religiosos; apenas na língua portugesa existe a associação de práticas tão pouco cristãs quanto o embuste, a trapaça e a mentira à solene figura eclesiástica do vigário.

 

Como se explica? Em 1903, o delegado Vicente Reis publicou a obra “Os ladrões do Rio” e vincula a expressão a uma complexa operação de alcance internacional, organizada em torno de uma trama rocambolesca. O golpe partia do exterior: “Uns tantos indivíduos, geralmente na Espanha, formam uma quadrilha e dessa tropa, uns ficam no país, outros são escolhidos para operar em lugares combinados, como seja o Brasil”.

 

Membros da quadrilha, atuando em Portugal ou no Brasil, descobriam possíveis vítimas, geralmente entre abastados e respeitáveis proprietários rurais e o golpe tinha início com uma carta enviada da Espanha, assinada por Manuel Suarez Lopes, pároco da Iglesia Parroquial de Santa Maria, em Pamplona; a correspondência trazia os devidos selos, carimbos e chancelas – sinais com aparência de inequívoca autenticidade – e uma narrativa extraordinária: o brasileiro, por idas e vindas do destino, era o único beneficiado por uma herança milionária, desde que assumisse a responsabilidade de acolher a filha de 13 anos do falecido doador.

 

Mas – e há sempre um mas – a fortuna estava retida em um banco em Londres e só seria liberada quando fossem pagas às custas de um complicado processo contra o doador. Outras missivas chegavam, uma da mocinha Luiza e cópias do testamento de Don Eduardo Martinez Castellanos, do atestado de óbito e da certidão com o carimbo do Juzgado de Instrución del Districto de Palacio, em Madri, informando que às custas do processo atingiam o valor de 8.750 pesetas, uma ninharia diante da hipotética herança de 2.450.000 pesetas. 

 

Dinheiro entregue ao emissário das boas novas, o herdeiro ficava na expectativa de receber a dinheirama e a chegada da mocinha, possível alvo de uma sedução. Dias, semanas e meses se passavam até que o otário admitisse ter caído em um golpe. Ele e outros morderam a isca e não demorou para que o conto fosse atribuído a um vigário. Imaginário sim, mas quem iria garantir que não fosse real?

 

O historiador José Augusto Dias Júnior constata que há algo do escritor francês Eugène Sue (1804-1851) e mesmo de Alexandre Dumas (1802-1870) nesse enredo folhetinesco que mistura heroísmo e vilania, tesouros a serem resgatados e identidades ocultas subitamente reveladas, conspirações que espalham perigos por todos os lados e segredos confiados em nome da honra a salvadores distantes – além, evidentemente, do inegável apelo sexual representado pela pubescente imagem da desamparada Luiza. Era tal capacidade de manobrar com elementos que, com toda probabilidade, deveriam fazer fervilhar a imaginação da vítima potencial que conferia eficiência ao esquema.

 

Não foram apenas os brasileiros seduzidos por miragens d’além mar; também nos Estados Unidos, onde a trama não incluía a participação de um católico. Onde o protestanismo tem prevalência, alguém do clero católico não teria a mesma força de persuasão, mas o engodo era semelhante. Na versão para ludibriar os norte-americanos era um “prisioneiro” que enviava a carta. Dizia-se um ricaço vítima de perseguição e pedia dinheiro para subornar os carcereiros e escapar. Fora das grades, teria acesso à sua fortuna e  gratificaria regiamente aquele que financiasse a fuga. 

 

O surgimento de uma forma inicial do ardil foi na Espanha de Filipe II (1527-1598); o prisoneiro, de origem nobre e dono de um tesouro, também citava uma bela e frágil filha, sofrendo no desamparo.

 

O neologismo “conto do vigário” é apenas um, há inúmeras variações: conto do paco (papel picado simulando dinheiro), bilhete premiado, miraculosa doação a um hospital ou asilo, venda de bens públicos e mais, mais, muitos mais.

 

Hoje, graças à virtualidade, a tentação nos chega pela internet. Já recebi propostas para ser agraciado com doações milionárias: um moribundo dono de mina diamantífera na África, arrependido das maldades, desejoso de fazer o bem aos carentes do mundo, que me escolheu para ser o intermediário das bondades graças aos milhões de dólares que receberia. Outra proposta de uma bela oficial do exército dos USA, a serviço no Iraque, ofertando 2,5 milhões de dólares, segundo ela, confiscados dos terroristas árabes; com o dinheiro eu deveria comprar uma bela casa em meu país, onde viveríamos na fartura e um grande amor. Aparentemente, ela nem sabia qual é o meu país, mas isso é apenas um detalhe. O que importa é fisgar uma vítima em qualquer lugar.

 

Há também as lindas mocinhas que começam com um oi e na segunda mensagem já nos chamam de querido; na sequência pedem o número do whatSapp para maior aproximação. Desavisados devem ceder à tentação, sem desconfiar que uso será feito. Nada informo, elas não acreditam que não sei mexer com zap zap e somem sem um adeusinho. Algumas até me xingam, frustradas por não terem enfeitiçado mais um tolo.

 

Ora, de que falo? Nenhuma novidade, as propostas miraculosas abundam na nuvem à cata de “um trouxa que nasce a cada minuto”.

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda – Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

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