Cultura

A muda | Demétrio Panarotto

 

A história que vou contar para vocês é dessas que são assim, como vou dizer, tipo causo.

 

Histórias que as pessoas perguntam:

 

— Mas isso aconteceu mesmo?

 

E a gente responde:

 

— mas claro que sim.

 

E se as pessoas insistirem,

— tem certeza?

 

E a resposta é na tampa,

— mas claro que não.

 

Pois bem, a de hoje é a história da muda. Não sei se todos conhecem, e naturalmente isso tem muita importância, porém o fato é que para quem conhece eu vou atualizar como anda o causo e quem não conhece, vai conhecer.

 

Reza os improvisos das pessoas mais antigas que na cidade de Chapecó, lá pelos idos de quando o vilarejo ainda engatinhava e as pelotas de merda caiam para fora da fralda, havia uma muda que uma vez por mês, confirmado assim que nem dor de pontapé na panturrilha, bem nas noites de lua cheia, subia as escadarias da igreja, por volta da meia-noite mais precisamente, e começava a uivar.

 

Pensem num uivo.

 

Sério, multiplique agora.

 

Imaginaram?

 

Daqueles de colocar os miolos em desatino.

 

Daqueles em que o sorriso parece uma anomalia do esquadrinhamento humano.

 

Daqueles que chega dá prisão de ventre. Mas prisão bem na hora que a liberdade havia sido conquistada.

 

Daqueles…

 

Essa história, como disse, é antiga, assim, mas antiga mesmo, do tempo em que a porta da igreja era o limite pra se entrar na casa de deus. Não havia — como há hoje — os portões de ferro que parece que foram colocados ali para a população não conseguir se proteger da chuva em dia que chove mais que o combinado.

 

Pensem na cidade, para vocês que não a conhecem ou que não a conheceram na época dos acontecidos: a igreja ficava mais no alto, assim em projeção; o resto da cidade aos seus pés, era ainda, naquela época, um monte de casinhas com uma ou outra exceção de uma casa mais bonita; e era isso, e a muda subia as escadarias da igreja e soltava num estribilho sem volta.

 

Os butiás, antes de cair dos bolso, se grudavam um no outro na certeza do pior.

 

Os cachorros da cidade, e olha que cada casa tinha uns três pra quatro, daqueles vira-lata sarnento mesmo, uivavam de volta e ficava aquela briga pra ver qual barulho produzia mais efeito.

 

Mas a potência do uivo da muda, a de se relevar, era um negócio por mais de impressionante, parece que vinha de dentro, assim das entranhas, das partes baixas mesmo, que deixavam a cidade toda ouriçada.

 

Ela espaçava as pernas, dobrava um pouco os joelhos, não muito, arregaçava o vestido e soltava e destempero.

 

Ouvia-se os uivos dela em todos os cantos da cidade que se possa imaginar.

 

Ela parecia um orelhão que tocava alto e que não parava de jeito maneira. Nem depois que atendessem a ligação.

 

Nas casas das pessoas mais boas do que más, minoria na cidade, as crianças perguntavam para os pais,

— que barulho é esse?

 

Os pais respondiam,

— é o vento, meu filho,

 

e esse?

 

— Esses são os cachorros,

 E assim seguia a prosa, afinal, o vento anunciava o verão, o inverno, a saída do inverno, a chegada, o momento tal, o momento qual.

 

E os cachorros faziam cama pro espavento todo.

 

 — e as velas? Perguntavam as crianças,

— É pra Nossa Senhora da Muda, diziam os pais.

 

A muda, sem passar pelo aval do papa, já havia sido canonizada.

 

E rezavam. Gente do céu, pensem num povo rezando para conter o vento que partia da muda. Quando ninguém acudia, o vento cortava a madrugada e as rezas seguiam se tapeando com os sentidos e as velas fumando a noite toda.

 

A situação era tão escabrosa que quando ventava mesmo, as crianças acreditavam menos do que acreditavam quando era a muda. Afinal, não tinha nem vela nem reza, daí não parecia vento, né? E assim ia se consumindo no esfumaçado do vilarejo uma das histórias mais pitorescas, em que as pessoas pareciam bater o queixo de medo toda vez que a muda subia as escadarias em direção ao púlpito sagrado.

 

Na fala dos mais antigos, com mais propriedade no causo, eles diziam que o coronel da cidade, o mesmo que tem o nome abraçado nas estátuas, havia tirado a virgindade da moça — mais na força do que no jeito — e quando, no dia do acontecido, ele se preparava pra ir embora a muda puxou ele pelo braço e sorrindo, com os cabelos desgrenhados, disse,

— de novo,

Imaginem o coronel que tinha a mania, garantida no histórico da família, de fazer tudo às escondidas pra não dar nos queixos. E, do nada, a muda dá com os dentes nas palavras.

 

Crein dios pai.

 

O coronel se atrapalhou todo, mas dum jeito, mas dum jeito mesmo, que os coco de baixo tilintaram nos buraco dos óio.

 

A muda ter falado, como nos contos do Decameron, deixaram o coronel, que não conhecia Decameron, em polvorosa. O coronel depois, e isso é história contada pelos antigo, pediu para que a muda falasse de novo, chamando ela de impostora, disso e daquilo, mas a muda nunca mais disse uma palavra se quer e ria, dava aquelas gargalhadas que batiam na alma do abençoado.

 

O coronel, calçado na sua sentença ou na sua alucinação, levou a muda até o médico da cidade — aquele médico de família de bem que até funciona em algum momento, mas quando o coronel precisa ele dá aqueles laudos bem sem vergonha nenhuma, fora das juntas —, levou para se certificar se ela poderia vir a falar ou não algum dia, e o médico, sem precisar de muito exame, respondeu:

 

— Sem chance, mudinha, de nascença.

 

O coronel, para tirar todas as dúvidas, levou num curandeiro, numa benzedeira, numa mulher que fazia massagem, numa cartomante, até, a contragosto, num pai de santo foi, e todos eles sentenciaram, cada qual ao seu jeito, de que a muda era muda mesmo.

 

 Quando o coronel achou que havia esgotado as alternativas, mas pensando em não correr o risco de se incomodar, deu dinheiro pra que ela pegasse as suas coisas e fosse embora da cidade.

 

E a muda foi. Mas um belo dia, tipo assim, umas catorze luas cheias depois ela voltou. A partir daí, sem dar chance para o azar, como se fosse autenticado no corpo, uma vez por mês lá estava ela a uivar do alto das escadarias da igreja.

 

O coronel, nesse momento, que parecia mais demonstrar medo do que outra coisa qualquer, quando a saliva não passou pela goela, chamou os seus apóstolos, os doze empresários que marchavam junto na desgraça da cidade. Pense numa gente necrosada, eram eles. E fez uma reunião às pressas dando a incumbência, tipo compromisso mesmo, de que uma vez por mês um dos doze sem confiança tinha que dar um jeito de conter a muda.

 

E lá se ia no mês de março o dono da padaria. No mês de abril o dono da concessionária. No mês de maio o dono dos postos de combustível. E por aí vai. Por aí ia.

 

Era uma procissão para conter o vento.

 

Carcule.

 

Algumas pessoas na cidade perguntavam, mas por que o coronel, que já matou mais gente do que a quantidade de emprego que ele diz ter dado, já botou fogo na igreja e tudo mais, não mandou matar a muda ainda?

 

Os mais velhos, que não titubeavam na resposta, nesse caso tinham mais que uma versão para a pergunta: uma parte deles dizia, e eram convictos, de que a muda havia hipnotizado o coronel, de que a muda tinha um pacto com o tinhoso; a outra metade, por sua vez, e se vocês quiserem emendar que era pacto com o tinhoso também ninguém ia dizer que não, dizia que o coronel não podia matá-la pois ela era filha renegada do próprio pai do coronel, no caso, um outro coronel mais velho que era pai do coronel e assim seguia a luxúria dos mandos e desmandos da cidade.

 

Eita, que a gente vai remexendo nos fatos e o cheiro de estrume só aumenta, daí aquilo que parecia pequeno se transforma em uma coisa mais monstruosa, que nem história de cidade pequena.

 

E a muda, pra falar um pouco nela, que não era boba nem nada, sentava no conforto da falta das palavras e aos poucos se tornou exigente.

 

 Quando o dono da floricultura vinha com botão de rosa, a muda só apontava com o dedo e dizia que não, e lá ia o dono da floricultura, que nunca se quer tinha dado uma flor pra esposa, buscar um ramalhete de flores, mas das flores mais bonitas que tinha por lá, só para agradar a moçoila.

 

O certo é que com o passar do tempo as pessoas começaram a entender que era a muda que mandava na cidade. O prefeito, que era dono do frigorífico também, parecia prova viva de tudo isso: todos envelheciam, os velhos que já eram velhos no começo da história já estavam ainda mais velhos, e a muda permanecia jovem e exuberante.

 

Havia, pra ninguém duvidar do causo, aqueles que diziam que Chapecó era o único lugar do mundo em que a justiça não era cega, era muda.

 

O delegado queria enfrentar o problema e falava que se o coronel quisesse ele resolvia a seu modo aquela situação, mas o coronel pedia que o delegado não se envolvesse.

 

O fato é que o tempo foi passando e a partir de um momento da história a muda parece que deixou de existir, se mataram, se morreu, ou se foi embora por conta própria, ninguém sabe. E se a muda uivava ou não, isso já não tinha mais a mínima importância, pois parecia que o vento já estava no imaginário da cidade.

 

Bastava ter lua cheia e os mais velhos, encardido da memória, acendiam as velas, começavam a rezar e diziam, escuta? Tão ouvindo? É a muda.

 

E o mais engraçado, é que a desculpa de conter a muda, ou de manter a cidade calada, de ninguém abrir a boca pra falar da sujeirada que desde os primórdios acompanha a história do município, era a que mantinha a cidade às escuras, na moita, às escondidas, sempre à luz de vela.

 

Tinha aqueles que diziam que a história da muda era uma invenção dos mais antigos para justificarem as desgraças da perpétua insignificância. Os mais velhos, sem encardimento nenhum, diziam que foi a desgraça do coronel, e seus maus feitos, que criaram a muda.

 

O fato é que acreditem ou não, a muda sempre existiu. Disso eu garanto. Nem passe pela cabeça de vocês ter algum tipo de dúvida. E hoje, quando vocês forem pra casa, e se for lua cheia, se cuidem que a muda pode estar andando por aí com um agrado de um dos donos da cidade.

 

Sei que me estendi no causo, e sei ainda que alguém da velha guarda da cidade, já que o assunto é esse, pode perguntar sobre o mudo, no caso, o Roberto Carlos Benga Longa. Pois bem, o mudo, sim, o mudo é uma delícia de encanto e charme no apetite noturno que movimentava o imaginário, no caso, precisamente, assim de necessidade, das damas da sociedade. Mas mesmo que o assunto passe perto, assim, bem pertinho, essa já é outra história, que daí eu deixo pra contar na próxima.

 

E pra fechar o causo, assim, fechado mesmo, só tenho uma coisa pra dizer:

 

Pessoal, olha o vento.

 

Demétrio Panarotto (1969 – ) nasceu em Chapecó SC. É um músico, compositor, pesquisador, professor e literato brasileiro. Paralelamente a uma carreira musical com a Banda Repolho e projetos alternativos, louvados pela sua originalidade e irreverência, desenvolve atividades como acadêmico, palestrante e escritor. Publicou vários livros de poesia e prosa que lhe valeram o reconhecimento como um dos nomes de destaque da nova literatura do estado de Santa Catarina.

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