Política

A guerra na Ucrânia: o confronto do confronto | Artur Alonso

“Nos fizeram muitas promessas, mais das que posso lembrar. Mas jamais cumpriram nenhuma delas, exceto uma: nos prometeram que nos tirariam nossas terras, e no-las tiraram”

 

(Grande Chefe Nuvem Vermelha, da nação Sioux – Lakota)

 

A CRISE ECONÓMICA

 

O economista japonês Robert Kiyosaki tem afirmado em diversas entrevistas que estamos no final da economia mundial. Afirma: “Biden está causando a inflação e culpa Putin de que o dólar possa implodir”. “Minha maior preocupação é que a Rússia e a China estejam a confabular-se contra nós, por que como todos sabemos os Estados Unidos já não produzem nada. Produzimos bolhas financeiras. Assim que agora temos uma bolha nos bens raízes, nas ações e nos bônus do Tesouro (dívida soberana). A inflação subiu e o norteamericano médio não tem nem 1000 dólares (mensais). 40% dos norte-americanos não tem 1000 dólares. Assim, quando a inflação seguir crescendo vamos terminar com 50% da população, e aí é quando vai começar a revolução. Não temos reforma garantida, nossas pensões estarão na quebra”. Assim temos 3 problemas: nosso Tesouro está fora de controle, nossos direitos cívicos fora de controle e, agora, estamos em guerra com nosso departamento de defesa. Nossa dívida respeitante ao PIB está descontrolada”. Finalmente Kiyosaki afirma que, em um futuro próximo, será mais valioso ter uma lata de atum que valores financieros ou cripto moedas. Este símil nos deixa entrever que agora mesmo aquelas potências emergentes produturas de energia, alimentos, minérios, “commodites várias” estão em melhor posição que as potências ocidentais, que deslocaram sua indústria à procura de mão de obra barata, nos tempos em que quem controlava as finanças controlava o mundo, por meio da “armadilha” da dívida perpétua…

 

Pois, em 2007 – 2008 esse modelo de controlo global unipolar chegou a seu limite biológico.

 

A guerra da Ucrânia, o único que fez foi acelerar essa tendência, quando a Rússia, por causa das sanções se viu obrigada a cobrar em rublos a sua energia a países denominados pelo Kremlim de “não amigavéis”; pois com este movimento atrelou o rublo às commodites e ouro. Isso fez aumentar, devagarinho a desdolarização, a vez que o Ocidente não conseguir isolar a Rússia e quebrar sua economia, apesar do grande golpe recebido (calcula-se que menos que entre 10 ou 12% do PIB da Rússia vai cair neste ano) por mais de 6 mil sanções.

 

O economista Jim Rogers (ex sócio de George Soros), acredita que o colapso financeiro está a produzir-se já atualmente, em duas fases: a primeira estando em andamento, com a queda de todos os ativos financeiros, a dívida soberana impagável e a queda das cripto moedas. O que vai obrigar o FED a aumentar os tipos de interesse, produzindo uma crise no consumo impossível de salvar. Na segunda fase, terá de haver um rebote no mercado financeiro, prelúdio do colpaso definitivo. Em este momento, Rogers que afirma que venderá sua carteira de valores e comprará ouro.

 

A razão pela qual a subida necessária e iminente do tipo de interesse e dos juros bancários vai produzir uma queda grande no consumo, que irá trazer o colapso (inflação combinada com estagflação) é devido a que os rendimentos duma família média norteamericana têm a seguinte distribuição: 31% gastos da casa (aluguer ou hipoteca); 26% impostos (diretos e indiretos); 15% transporte; 12% comida; 8% seguros médicos; 5% entretenimento…

 

Com a crescente inflação, o maior aumento dos juros e a manutenção dos salários baixos, simplesmente estas famílias não poderão fazer frente a todos os seus gastos, tendo que priorizar e descer drásticamente o seu consumo. Se, a maior subida da energia, insumos e fertilizantes trazer consigo a subida dos alimentos, a visão da lata de atum de Kiyosaki tornaria um cenário de revolta inevitável nos EEUU.

 

Luke Gromen nos dá uma reflexão muito interessante de como fomos chegando a este cenário, que a guerra da Ucrânia não fez senão que disparar. Em 1999, estourou a bolha bursátil, responsáveis políticos e económicos subiram o estouro das chamadas ponto.com, ao sistema bancário, por meio do mercado das vivendas, criando a bolha imobiliária, que estourou em 2007-2008. De novo os responsáveis políticos – económicos elevaram este problema com a criação duma bolha de Dívida Soberana (através dos resgastes bilhonários bancários, pelos governos ocidentais). Esta bolha soberana está a ponto de estourar, e não existem ativos não tóxicos no mundo financeiro para elevar este problema, criando uma nova bolha. Daí que a única solução a curto prazo é a impressão descontrolada de dinheiro, que aumentou drasticamente a mesma bolha.

 

Para manter essa impressão um bocadinho mais no tempo, preciso era que o resto o mundo seguisse a manter o dólar como moeda de reserva global (comprando a dívida soberana do EEUU); com a desdolarização em curso (BRICS fazendo intercàmbios comercias em moeda própria, a China vendendo lentamente os seus bônus do Tesouro do FED), e a diversificação da carteira de moedas em todos os países não ocidentais (o mesmo Israel, aliado fiel dos EEEU, está retirando-se timidamente da sua exposição ao dólar e ampliando sua carteira a moedas como o yuang); os estímulos monétarios nos Estados Unidos estão a chegar a seu fim. Assim como o papel das divisas Fiat, como moedas de confiança no mundo, têm os dias contados, o que afeta a posição presente e futura do dólar.

 

Gromem fala do Japão como o primeiro local de estouro das Dívidas Soberanas. Um último recurso foi utilizar a investida do dólar contra o rublo, junto às sanções, para inflamar a economia russa, como aconteceu com o Irão em 2012, criando uma crise na balança de pagamentos de Moscovo. Mas, ao invés disso, o efeito boomerang destas medidas ocidentais atingiram o Banco Central do Japão (3ªa economia mundial). Sendo que no Japão as dívidas superam por muito as poupanças, que puderam fazer-lhe frente. O yen já atingiu uma depreciação de 130 yens com respeito ao dólar, limite que marcaram as autoridades monetárias nipónicas, como de perigo iminente. O Banco do Japão terá, em breve, de imprimir mais yens, acontecendo uma hiperinflação, num cenário onde a dívida pode ser superior aos ingressos fiscais.

 

Se a estagflação chegar ao Japão, segundo Gromen, o dólar seria atingido de forma violenta; dado os bônus nipónicos terem de ser financiados exteriormente.

 

O Japão foi em seu dia um grande exportador, mas hoje a economia nipónica está mais exposta à importação de outros países, criando um impacto negativo na balança de pagamentos. Segundo Gromem, isto traz consigo vários cenários: o governo nipónico pode pedir ao Fundo de Estabilização de Câmbios do Departamento do Tesouro dos EUA, comprar dívida soberana japonesa. Se o governo dos EUA se negar, o governo japonês se veria na obrigação de vender suas inversões internacionais líquidas, e dizer, suas poupanças exteriores, para financiar seu défice. Vendendo entre elas seus bônus do Tesouro Norte-americano; piorando a pressão sobre o dólar, que começaria a perder valor.

 

Outra alternativa para o Japão, curiosamente, seria pedir à Rússia para vender o seu gás e petróleo ao Japão em yens, em um acordo pelo qual a Rússia utilizaria, à sua vez, estes yens para comprar bens e serviços nipónicos, conseguindo com esta manobra liquidar qualquer excedente líquido em ouro, que flutue contra o yen. Alternativa muito atrativa para a Rússia pela grande significação geopolítica, mas que os EUA não permitirão (lembrando que Estados Unidos mantêm bases militares nos Japão, e têm a capacidade de exercer pressão sobre qualquer governo japonês). Daí Gromen ver o Japão em sérios problemas no curto prazo.

 

Outra solução para Gromen seria os Estados Unidos e a Rússia chegarem a uma distensão aceitável numa mesa de negociação séria, que retomará a confiança quebrada. Negociação de Segurança mútua, aceitação da Rússia como potência global e entedimento que se os EUA não permitem, no dia de hoje, que nenhum país do continente americano tenha misseis apontados ao seu território, em equanimidade, terá de retirar os misseis que não somente apontam ao território russo na Europa, se não que além, estão nas suas fronteiras. Algo que poderia salvar a economia global. Mas, para isso, segundo Gromen, teria de haver uma grande mudança na Administração norte-americana – o que significaria rolar muitas cabeças.

 

A Europa, como afirmou o Presidente da Shell, Ben van Bevrden, em artigo no “Bussines News”, de 6 de maio deste ano, não pode substituir o gás russo. Algo que, afinal, de muitas idas e voltas, tem-se afirmado, pois a mesma União Europeia vem de criar um artifício verbal, ao afirmar que se pode comprar gás russo em rublos, sem violar sanções; ao confirmar que na prática esse gás e petróleo já estava a ser comprado ou bem no mercado negro a preços mais elevados; ou bem indirectamente por meio de terceiros países, como no caso polonês.

 

Assim que cada vez são mais as vozes que falam em alto da necessidade de ver a realidade: morte do sistema financeiro unilateral global, a necessidade dum arranjo geopolítico, em vistas a aceitar, na prática, um mundo multipolar. Mas as dificuldades de chegar a essa necessária possibilidade persistem, e agora a guerra na Ucrânia continua, na dinâmica cega de quem vencer a OTAN ou a Rússia prevalecerá. No entanto, segundo a opinião de John Maersheimer, um dos mais respeitados académicos norteamericanos em Relações Internacionais, a determinação da Rússia em ganhar a guerra é maior que a dos EUA- NATO, pois os russos jogam a sua existência como nação, enquanto os norteamericanos estão a lutar por procuração alimentando o exército ucraniano, não querendo envolver-se diretamente numa guerra muito longe da sua nação e não vital para a sua sobrevivência, mesmo pondo em causa a existência final da NATO. Pelo que para ele, não existe dúvida: a Rússia vai vencer este embate.

 

CRISE ALIMENTAR

 

Com o embargo ao trigo russo, a impossibilidade de sacar cereais da Ucrânia, por causa da guerra, junto aos já falados aumentos de combustível e fertilizantes, a crise alimentar pode tornar-se um facto nos vindouros meses do ano que vem. O grande problema desta crise é que sempre vai golpear as camadas mais indefesas da sociedade e os países menos desenvolvidos, à vez muito endividados, com respeito às suas capacidades de afrontar estes fardos, criados na partilha global do trabalho, onde as periferias sempre passam a ser dependentes do centro 

e servidoras do mesmo.

 

Como explica magistralmente Prabhat Patnaik no seu artigo intitulado “The Inhumanity of Capitalism”, a 15 de Maio de 2022: “Precisamente devido ao abrandamento ou à estagnação da economia mundial, as exportações dos países do terceiro mundo sofrem. Sem dúvida, as suas importações também sofrem devido ao abrandamento das suas próprias taxas de crescimento do PIB. Mas mesmo assumindo que as exportações e importações são afetadas na mesma medida de modo a que o défice ou excedente comercial desça a par do PIB, permanece o facto de que os compromissos herdados da dívida externa têm de ser cumpridos e a sua magnitude em relação ao PIB deve aumentar. Estas dívidas precisam ser roladas (rolled over) e o seu serviço tem de ser devidamente diferido (…) O fardo da dívida, portanto, torna-se maior e requer uma acomodação especial a ser oferecida aos países do terceiro mundo(…) A Intermon Oxfam analisou recentemente 15 acordos de empréstimo assinados pelo FMI com países do terceiro mundo, no segundo ano da pandemia, e 13 destes insistem explicitamente na “austeridade”. Tais medidas de “austeridade” incluem impostos sobre alimentos e combustíveis e cortes nas despesas por parte dos governos que inevitavelmente afetam serviços básicos como educação e cuidados de saúde (…) No início de 12 de Outubro de 2020, a Oxfam relatou que desde Março de 2020, quando foi declarada a pandemia, o FMI havia negociado 91 empréstimos com 81 países. Destes, em cerca de 76, nomeadamente em 84% dos acordos de empréstimo, havia uma insistência na “austeridade” que não só tornaria a vida mais difícil para as pessoas pobres apanhadas nas garras da pandemia como também resultaria numa compressão das despesas de saúde (…) Exatamente da mesma maneira, num mundo de imperialismo onde os países estão divididos em duas categorias distintas – países metropolitanos e países periféricos – os bancos metropolitanos seriam muito mais relutantes em conceder empréstimos aos países periféricos do que aos países metropolitanos. Haverá necessariamente “duplos padrões” em matéria de concessão de empréstimos. O FMI, como guardião do capital financeiro internacional que é dominado pelas instituições financeiras metropolitanas, tem de manter estes “dois pesos e duas medidas” ao sancionar empréstimos e ao impor condições para o reembolso”.

 

Vemos então aqui que enquanto o FMI permitiu à Europa sair da planificação económica da austeridade e aumentar o seu endividamento soberano, para não estagnar sua economia; faz pressão, pelo contrário, a países subdesenvolvidos para aumentar sua austeridade orçamental. Agravando a situação, já de por si dramática, das suas populações, ao ter de retirar incentivos à saúde, educaçao, infraestrutura civil, e muitas outras variantes das suas agendas sociais: como subvenções a certos sectores produtivos que empregam grande parte da sua mão de obra ou incentivos a comunidades agrícolas ou de gado, etc… Toda esta situação pode agravar em fomes se o aumento que se está a verificar no preço da alimentação atingir países vulneráveis que, em seu dia, guiados pelas necessidades das metrópoles (dentro da já mencionada redistribuição desigual do trabalho) abandonaram sua tradicional economia rural de subsitência por um modelo de industralização selvagem, e êxodo de população do campo à cidade, esvaziando grandes áreas de pequenos cultivos familiares, à medida que criaram grandes urbes, ondes os bairros marginais, longe de ser uma excepção radial periférica são a tônica. Revoltas podem ser desatadas nestas grandes urbes, mal urbanizadas e pior gestionadas, caóticas e muito pouco resilentes aos embates do mercado atual, à beira dum colapso.

 

Se a isto acrescentamos que, como foi reproduzido em um texto publicado na CNN por Katie Bo Lillis, Jeremy Herb, Natasha Bertrand, Oren Liebermann a 20 de abril de 2022, de que os Estados Unidos têm poucas formas de rastrear ou verificar o importante fornecimento de armamento entregue à Ucrânia. Reconhecendo que parte dessas armas podem terminar em milícias que os Estados Unidos não queriam armar. E havendo denúncia de revenda de armas, por parte de máfias, com destino África (dado um oficial ucraniano cobrar 200 dólares mensais, pode ser facilmente captado por alguma máfia russa ou ucraniana, lembrar que em Odessa as máfias da droga da Ucrânia trabalham em associação às russas, como bem informou Argemino Barro, em artigo no diário Confidencial, a 21/05/2014), a situação poderia tornar-se muito instável no continente. Algo que a Índia não gostaria que acontecesse, em especial dado este continente ser um dos seus mercados de referência. As mercadorias indianas chegam pelo oceano Índico, ao porto de Durban e em menor escada a Maputo (atualmente Moçambique está em plena guerra com milícias jihadistas no norte do país); e desde aí são enviadas, a pequenos e grandes mercados, por toda a geografia africana.

 

CRISE DA AGENDA VERDE

 

A guerra também tornou evidente que as chamadas energias renováveis não estão prontas para substituir os hidrocarbonetos e os chamamentos da Agenda 2030 no sentido de apostar nesta energia, em teoria mais a favor do verde (na prática como falámos em outros artigos isso não encaixa também, dado a contaminação, entre outras, das baterias de lítio, se sua escassa durabilidade, e problemas de armazenamento), podem ter como raiz a tentativa do poder globalista financeiro internacional de elevar o problema da bolha das dívidas soberanas ao criar uma nova bolha das renovavéis (ativos ainda não intoxicados); mas que, na prática, devido à necessidade de subvencionamento estatal, ainda acrescentou maior pressão sobre essa dívida impagável dos governos ocidentais. Como nítidamente fala  F. William Engdahl em seu artigo “Why Do NATO States Commit Energy Hara Kiri ?”, publicado em New Eastern Outlook: “Uma surpreendente transformação das economias industriais mais avançadas do mundo está em curso e ganhando força. O coração desta transformação é a energia e a exigência absurda de uma energia “zero carbono” até 2050 ou antes. Eliminar o carbono da produção de energia não é possível neste momento, ou talvez nunca. Mas a pressão para isso significará destruir as economias mais produtivas do mundo. Sem uma base energética viável, os países da NATO tornam-se uma piada militar. Não podemos falar de energia “renovável” para o solar, o eólico e de armazenamento em baterias. Devemos falar de Energia Não Confiável. É um dos delírios científicos mais colossais da história (…)  As centrais eólicas são erroneamente classificadas em termos de capacidade teórica bruta quando Estados como a Alemanha querem gabar-se do progresso nas energias renováveis. Na realidade, o que conta é a eletricidade realmente produzida ao longo do tempo ou o que é chamado de fator de utilização ou fator de carga. Para a energia solar, o fator de utilização é tipicamente apenas cerca de 25%. O sol no norte da Europa ou na América do Norte não brilha 24 horas por dia. Nem os céus estão sempre sem nuvens. Da mesma forma, o vento nem sempre sopra e é pouco confiável. A Alemanha orgulha-se de 45% de energia renovável bruta, mas isso esconde a realidade. O Instituto Frauenhofer, num estudo de 2021, estimou que a Alemanha deve instalar pelo menos seis a oito vezes a energia solar para atingir as metas 100% livres de carbono em 2045, algo que o governo se recusa é a estimar custos, mas estimativas privadas estão na casa dos milhões de milhões. O relatório diz que para a atual capacidade solar bruta de 54 GW, são necessários 544 GW até 2045. Isso significaria um espaço de 1,4 milhões de hectares, mais de 16 000 quilómetros quadrados de painéis solares sólidos em todo o país. Adicionem-se as principais estações eólicas a isto. É uma receita de suicídio (…)  Além de atingir zero carbono de fontes renováveis, enormes extensões de terra devem ser recobertas com refletores solares ou dedicadas a parques eólicos. De acordo com uma estimativa, a quantidade de terreno necessária para acomodar as 46 480 centrais solares fotovoltaicas previstas para os EUA é de 1 700 000 quilómetros quadrados, quase 20% dos 48 territórios menores dos EUA. Estas são as áreas do Texas, Califórnia, Arizona e Nevada somadas. Somente no estado americano da Virgínia, uma nova lei verde, a Lei de Economia Limpa da Virgínia (VCEA) criou um enorme aumento nas aplicações de projetos solares até agora para 780 milhas quadradas [2021 km2] de paineis solares. Como David Wojick aponta, são mais de 2 milhões de hectares de campo, terras agrícolas ou florestas destruídas e recobertas com cerca de 500 projetos separados cobrindo grande parte da área rural da Virgínia, que precisará de impressionantes 160 milhões de painéis solares, principalmente da China e todos destinados a tornarem-se centenas de toneladas de lixo tóxico”.

 

Esta refleixão de Engdahl está avaliada por vários estudos, como mostra em um artigo para Le Monde Diplomatique, Phillipe Bovet, a 6 de Janeiro de 2014, intitulado “Mentiras contra a Energia Verde” (mesmo apesar do autor tentar vender a senda verde), onde entre outras coisas afirma: “Assim, as placas de energia solar fotovoltaicas não reembolsariam a energia necessária para sua fabricação e não seriam recicláveis; as baterias que deveriam estocar seus watts “verdes” seriam muito nocivas; a generalização das lâmpadas fluorescentes compactas (LFCs), de baixo consumo, anunciaria um desastre ecológico. Em suma, a ecologia polui. “Quando se faz referência a esses efeitos perversos”, ressalta Hirschman, “é frequentemente por razões que não têm muito a ver com a realidade dos fatos.” Mas em geral um rumor impregna-se a uma verdade até que ela se torne mentira” acrescentando outros nomes de reconhecimento científico a desmontar o suposto engano sobre as renovavéis: “o astrofísico e político francês Jacques Boulesteix publicou um artigo intitulado: “Lâmpadas fluorescentes compactas: entre o roubo, o perigo e a aberração tecnológica”. Essas lâmpadas de baixo consumo contêm, de fato, de 1 a 2 miligramas de mercúrio sob a forma gasosa, assim como os bons e velhos tubos de neon. Ninguém contesta o alto nível tóxico desse metal (…) “A eletricidade de origem fotovoltaica recebe muitas críticas: diz-se que uma placa solar consome em sua fabricação mais energia do que jamais produzirá (…) Poderíamos, por outro lado, discutir sobre a placa chamada “camada fina”, fabricada com telureto de cádmio (CdTe), um subproduto tóxico da indústria do zinco, do qual existem estoques consideráveis com os quais ninguém sabe o que fazer”.

 

Finalmente o conflito atual trouxe à tona esta situação e a verdade de ainda não ter capacidade real tecnológica para a substituição das fontes tradicionais de energia. Pelo que a Europa, após muito teatro, teve de ceder às evidências.   

 

CRISE GEOPOLÍTICA

 

Finalmente, o confronto globalismo unilateral – soberanismo multilateral, tomou mais corpo. A Índia, aproveitando a situação, aumentou o seu comércio com a Rússia em moedas nacionais: rúpia – rublo, comprando grandes quantidades de petróleo (está-se a negociar a compra de 5 milhões de barris diários, se a Rússia baixar 40 dólores o preço do barril sobre o preço de mercado), a China segue a ser o maior sócio da Rússia, e o modelo alternativo chinês ao SWIFT (que a Rússia não pode utilizar) esteve a aumentar mais de 120%, desde o inicio da invasão da Ucrânia. A Arábia Saudita trocou o petro dólar pelo petro yuang, e, segundo fontes independentes, até ao de hoje os sauditas não atendem as chamadas telefonicas do Presidente norteamericano Joe Biden. O Qatar, que está a ganhar grandes somas de dinheiro com a venda de gás (demandado em aumento pela volatilidade do mercado após a tentativa de bloqueio ao gás russo), esteve reunido com dirigentes iranianos e ambos os países têm relacionamentos, o Qatar político e o Irão militar com o Hamas na Palestina e com Hezbollah no Libano (algo não muito bom para a segurança de Israel). A OPEP não retirou a Rússia do seu seio e, ao invés do solicitado pelo Ocidente, de aumentar a produção de pétroleo, se recusou a este pedido, fazendo o impossível na prática: prescindir do petróleo russo.

 

Os EEUU têm um dificil relacionamento com o atual governo mexicano, que também está a trabalhar uma agenda soberanista. No Brasil, nenhum dos doos candidatos à presidência são totalmente leais a  Washington, e o Presidente atual Jair Bolsonaro, além de agradecer publicamente ao Presidente russo Vladimir Putin a defesa da soberania da Amazônia como parte inquestionável do Brasil; em recente reunião com representantes do agro negócio voltou a reiterar este agradecimento, recebendo uma grande ovação dos assistentes. Em jogo também estão os fertilizantes russos para este agro negócio. A próxima cimeira das Américas, a celebrar em Junho, em Los Angeles, pode ver-se afetada pela decisão da Administração Biden de não convidar a Venezuela, Cuba e Nicaragua por considerar o governo dos EEUU que estes países não cumprem os mínimos requisitos democráticos; o que já causou a recusa do México, que afirmou, que não podia haver cimeira das Américas sem a participação de todos os países do continente. O Brasil está a avaliar se finalmente vai assistir com uma representação de baixo nivel, sem a presença do Presidente Bolsonaro; enquanto outros países estão em dúvida.

 

No contexto Africano, muitos países vêm na resilência da Rússia à pressão ocidental uma porta para tentarem fugir do poder global financeiro ocidental que os asfixia. E jogando com a China, como importante parceiro comercial, podem tirar proveito de dois concorrentes pelos recursos do continente. Na verdade, o Ocidente nunca se foi da África, como muito bem afirma Eve Ottenberg, no seu texto intitulado “How CIA Plots Undermined African De-Colonization”, escrito em 31 de Dezembro de 2021 (e fazendo referência ao livro de Susan Willians “The CIA and The Covert Recolonization of Africa”): “É verdade que as potências coloniais europeias já não impõem domínio direto sobre as nações africanas, que são nominalmente “independentes”. Mas os países europeus expulsos das suas colónias africanas na segunda metade do século XX, não tinham intenção de perder os seus investimentos ou o acesso à vasta riqueza mineral da África. Assim, com a ajuda de grupos como a CIA, europeus e americanos recolonizaram secretamente o continente, com subornos, assassinatos, empréstimos, privatizações (também conhecidas como saques) e a instalação de regimes amigos do Ocidente (…) Agora o Congo salta novamente para as manchetes – não por causa dos seus ricos depósitos de urânio, tão cobiçados por Washington nos anos 1940 e 1950, mas por causa do cobalto e outros minerais essenciais para uma transição de energia verde. A mineração de cobalto é um negócio feio. Aproximadamente 40.000 dos 255.000 mineiros de cobalto são crianças congolesas. Trabalham em condições de quase escravatura, ganhando menos de US$2 por dia. O seu trabalho intensivo é extremamente perigoso e houve acusações de que o AFRICOM supervisiona indiretamente essas minas. O contexto é a chave aqui. A RDC é um país extremamente pobre. A expectativa de vida é de 60 anos. Mas os EUA anseiam por recursos da RDC, como já fizeram, desde a década de 1940. Então, praticamente vale tudo” A guerra, aqui também acentou a necessidade dos africanos em aderir ao soberanismo estatal multilateral contra o globalismo financeiro privado unilateral, mesmo contra o poder que as Instituiçoes bancárias do Ocidente e suas Corporações ainda têm em ativo.

 

Na Ásia a rota da seda chinesa, com o auxílio da Rússia, tem acrescentado países como o Paquistão (embora o novo primeiro ministro não seja tão anti ocidental como o anterior – a sua margem de manobra é pequena, e não pode retirar seus laços com a China), o Afeganistão dos novos talibans e outros, junto a várias organizações político – económicas, aumentam a crescente fricção entre estes dois modelos em confronto globalismo versus soberanismo.

 

A 15 de Novembro de 2020 foi criada pela  China a Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP) constituíndo a maior associação comercial do mundo; englobando 2,1 bilhões de consumidores, ou seja, o equivalente a 30% do PIB mundial. Entre os seus membros figuram a China, o Japão, a Coreia do Sul, a Austrália, a Nova Zelândia, a Indonésia, a Tailândia, Singapura, Malásia, as Filipinas, o Vietnã, Myanmar, Camboja, Laos e Brunei. A mesma Índia, inimiga declarada da China, está ainda a avaliar se em um futuro poderá juntar-se a este organismo; dado que já tanto nos BRICS como na Organização para a Cooperação de Xangai, a tradicional inimizade chino – indiana, sempre foi suavizada pela Rússia, que faz de ponte entre ambas as potências.

 

E sabendo da tendência paulatina de deslocamento do centro económico mundial do Ocidente para a Ásia, tudo aparenta, com o tempo, os gigantes Euroasiáticos tomarem conta dum novo centro geográfico substituto daquele velho do Ocidente.

 

Na verdade, o Ocidente ainda domina o sistema SWIFT, o centro de controlo financeiro global, a mídia global e o sector cultural – todos formando parte do 2º e 3º Tabuleiro geopolítico, mas a China – Rússia – Irão, e mesmo se pode juntar Índia ou a Arabia Saudita, estão já a trabalhar uma alternativa de arquitectura financeira, com centro em Xangai, mas que pode ter outras centralidades, pois, para unir outras potências terá de em um futuro ter de haver cessão, também em diversos aspectos, para que esse equilíbrio multipolar que confronta a unipolaridade ocidental, tenha sucesso. Ao mesmo tempo, a China, a Rússia, a Índia e o Irão têm efetuado um trabalho no seu poder mediático, e também na sua agenda exterior cultural.

 

O economista norte-americano Michael Hudson, em uma entrevista para The Saker, afirmou, falando sobre o tema das sanções do Ocidente à Rússia: “Parece haver dois meios para os países hostis comprarem gás russo. Um parece ser através de bancos russos que não estão banidos da SWIFT. O outro meio na verdade parece passar por procurar desenvolver um intercâmbio formal ou informal com um banco de países terceiros. A Índia e a China parecem ser os mais bem posicionados para este papel. Diplomatas norte-americanos estarão a pressionar a Índia para impôr as suas próprias sanções à Rússia e existe ali uma forte influência pró-EUA. Mas mesmo apesar de tudo Modi vê os óbvios benefícios superiores de beneficiar da posição geopolítica da Índia com a Rússia e a Belt and Road Initiative da China em relação ao que quer que os EUA disponham“. Isto acrescenta de novo uma reflexão profunda sobre essa mudança do eixo de poder, devagar, do Ocidente para o Oriente. Sendo por isso esta guerra tão importante para as aspirações de ambos os blocos, pois, ambos os contendentes a Russia diretamente, a NATO por procuração jogam seu presente existencial.

 

Pois se a Rússia ganhar, o atrativo corredor Lisboa – Vladivostok – Xangai pode mesmo criar movementos dentro da Europa, em favor de mais soberania estatal, como no caso da Hungria de Vitor Orban. Mesmo chegado a um divórcio ou separaçao paulatina da Europa e do Poder Anglo Americano – Algo no dia de hoje impensável.

 

PROCURAR UMA ACOMODAÇÃO

 

Estando assim as coisas, e antes do risco de escalar a uma Guerra Total (com o temor da detonação nuclear), um arranjo geopolítico, entre todas as partes envolvidas; com negociação direta Rússia – Estados Unidos, aparenta ser a melhor solução possível.

 

De algum modo, o diálogo inicial entre o Ministro russo da defesa Serguei Shoigu e seu homólogo Estado-unidense, o Secretário do departamento da defesa norteamericano Lloyd Austin, é o início da senda correta. E de algum modo o reconhecimento da fricção ter chegado já a um ponto de não retorno, e daí para a frente o perigo ser iminente. Reconhecimento de já o confronto deixou ver, que tanto um rival como o outro não podem sair vitoriosos, sem entrar, num caminho de imposição maior da força, que pode pôr em risco a, em nossos dias, precária segurança mundial.

 

E mesmo apesar, como sempre, de no início de uma negociação, que promete de à frente ser prolongada, ambos os rivais manterem sua posição muito forte e rígida, em espera dos movimentos do contrário ou de alguma inicial cessão, por parte do adversário; já de por si a fala inicial é um trunfo da paz.

 

Aguardemos finalmente esta hipótese, seguir crescendo, e tenhamos finalmente a notícia do bom caminho ser trilhado. A paz sempre é a maior das vitórias.

 

A manobra de “Os bárbaros” resolverem nossos problemas internos, como no poema de Kavafis, deve ser aqui descartada.      

 

“E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

 

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

 

Porque, subitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?

 

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

 

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.”

 

(Trecho do mencionado poema de Konstantínos Kavafis)

                   

 

O RESPEITO CIVILIZACIONAL

 

Assim, pois, o Ocidente deve reconhecer que hoje existem outros atores globais, renunciando aquela ideia formulada por Zbigniew Brzezinski, que o xadrez do mundo era movido por um só actor, jogando com as brancas e as negras, à vez. Sabendo que hoje existem vários jogadores, dentro e fora do tabuleiro internacional. À vez que o Oriente deve reconhecer o Ocidente como um fundamental Poder, a não derrubar, se não a implementar uma nova rota de mudança, onde todos os atores devem já enterrar o velho modelo globalista, na atualidade regressivo e ineficaz.

 

Também o “Destino Manifesto” dos Estados Unidos e o “Messianismo Nacional” da Rússia devem ser reconvertidos, para ultrapassar aquela antiga dicotomia do confrontar, pela nova realidade de converger, cada um no que tem de melhor e específico.

 

Termos de ir, muito devagar (a mudança vai levar séculos, e devemos aceitar as dinâmicas biológicas), a conquistar esse novo modelo soberanista, com todos trabalhando em comum, que deve ser alicerçado pelo respeito à tradição, cultura, língua, identidade de todos os povos. Deixando de lado o individualismo niilísta e, agora já auto-destrutivo, que reivindica somente o gozo do corpo, por cima da moral. Avançando para um coletivismo com respeto do individual, onde a ética comunitária, a razão por cima da paixão, seja a guia do individuo livre, que respeita seus vizinhos, e com eles constrói o novo e vindouro mundo, dentro dum regulamento ordenado em valores profundos, humanos, ecológicos e confiança e ajuda mútua.

Artur Alonso: escritor com vários livros editados de teatro, poesia, ensaio e romance… Ex diretor do Instituto Galego de Estudos Internacionais e da Paz.

Ex secretario do Instituto Galego de Estudos Celtas.

Membro do Conselho Consultivo do Movimento Internacional Lusófono.

Membro de Honra da Associação de Escritores.Mocambicanos na diáspora.

Membro do Conselho de Redação da Revista Identidades, etc.

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