Cultura

A filha do ermitão desaparecido | João Rebocho

As paredes caiadas da casa do ermitão oscilavam amorosamente entre o branco desgostoso de um verão seco e o cinzento de um inverno que deambulava, sinalizando a sua proximidade, pelas pétalas das roseiras que serviam de capacho para os diamantes de outubro. Os meus agasalhos de malha e flanela encanecida estavam desligados da sua principal finalidade, e rangiam-se-me os dentes, atordoando a manhã, pelo conflito que eu próprio declarei quando, de rompante, cingi aos tecidos desrespeitosas expressões, enquanto agitava com as mãos os ombros mais eriçados do que macios.

 

– Aqueçam-me! Aqueçam-me! Acordem e obedeçam-me, malditas roupas! – disse, substituindo as exclamações pelo barulho dos dentes quando chocavam violentamente. – Parece que já nem cá estão, ou então partilham da mesma velhice de quem as cozeu. – afirmei mais cabisbaixo. – Têm razão se me disserem que não sou o corpo indicado para qualquer queixa, porque eu assim como vocês reflito todos os dias sobre a triste réplica em que me tornei. Passo-vos a explicar, malditas roupas: se passar uma tarde inteira a conversar despreocupadamente com alguém que seja muito velho, caduco como as folhas das árvores que nós vimos antes de aqui chegar, e se as palavras que o velho usar acompanharem o tilintar dos talheres na chávena de chá, entornada preferencialmente com mel, dou por mim, durante três semanas inteiras, a conversar como o velho, a olhar serenamente como o velho e a esfregar vagarosamente as mãos que, para além de se tornarem engelhadas, concedem, ao longo de muitas horas, a desmedida atenção dos olhos; o mais triste é que passo, e envergonho-me só ao pensar, três semanas inteiras com um desejo gigantesco em ser velho, caduco como as folhas que nós… pois bem, já vos disse…; até a minha memória envelhece!

 

          A minha memória sempre foi a memória do Outro. Enterneço-me excessivamente pelas conquistas e os triunfos já vividos pelos espíritos que se atravessam no meu destino, levando-me muitas vezes ao arrependimento o facto de sofrer uma apática solidão, e digo que é «apática» porque nem todos sofrem da mesma maneira a crise, e as hipóteses que o Outro, diante de mim, me apresenta no plano de fundo das suas aventuras que me desaustinam a imaginação, vejo-as como uma virtude encarnada exemplarmente. Certo dia, antes da minha chegada à casa do ermitão como agora vos conto, aceitei o convite para um jantar muitíssimo agradável e nostálgico, durante uma terça-feira inútil, com um amigo, antigo colega de carteira, que seguiu a formação e licenciou-se, irrepreensivelmente. Jantámos três vezes na mesma noite, os temperos misturaram-se nos pratos e confundiu-se o peru com o coelho e o coelho com o salmão. Quando conhecido o sabor do coelho no salmão e do peru no coelho, engraçámos-nos pela nossa aptidão e pela emergência dos sentidos, voltando a testá-los com três jarros de uva branca. Passou-se o jantar, as conquistas e os triunfos, e quando o silêncio da sobremesa se colocou, o meu amigo licenciado disse-me:

 

– A minha doença desvendou-se no último ano do curso. – disse de uma vez só.

 

– A tua doença? O que se passa, meu amigo? É grave? – perguntei assustado, assistindo ao meu amigo licenciado embotado num olhar inocente e ingénuo, parecido com aquele que eu conhecia quando éramos colegas de carteira.

 

– Temo que não se saiba a sua designação, nem a sua origem e o seu paradeiro; nem sequer se é grave ou de passagem ligeira. A verdade é que estou doente e sei-o pela dor.

 

– É a maior dor que tu já alguma vez sentiste? – questionei, imitando o doutor que aparecia em minha casa quando me chocava alguma febre em criança.

 

– Se precisasse de defini-la como precisei de definir e compreender em muitos exames a Filosofia de Feuerbach, diria: uma substância povoada de um corpo maligno que se acomodou às minhas mais ínfimas partículas e, precisamente por se ter instalado como uma pessoa se instala no seu lar, felizmente não me determinou o destino, mas, ainda assim, materializou-se pelo meu organismo e arrepanha-me, dia sim, dia não, a saúde e o ânimo com as convulsões e as picadas agudas que me provoca; e já lá vão seis anos desde o seu início. Uma tortura!

 

– Desculpa-me, meu amigo, mas que bela definição! 

 

– Obrigado amigo, os exames obrigavam-me a um esmerado comprometimento que nem tu imaginas! – desafiando-me imediatamente a invenção e desviando o assunto principal que escolhemos em não aprofundar.

 

           O meu amigo licenciado, depois da sobremesa e do cigarro que antecipava a despedida, enlaçou-se a uma melancólica e irreconhecível escolha de palavras. Disse duas vezes «Amigo, como eu prezo a nossa amizade.», uma vez aos berros «Estou doente, mas isto vai.», e finalizou estendendo as mãos pequeninas e malfeitas sobre a mesa, como se tivesse acabado de copiar todos os livros de um curso de Direto, aborrecidos pelos insignificantes detalhes, e sentisse uma dormência terrível em todos os pequenos músculos dos dedos, concomitantemente ao franzir das sobrancelhas que, mesmo sendo exageradamente grossas e despenteadas, combinavam com a barba antiquada e desnivelada, expressando-se:

 

– Amigo, sempre foste bom ouvinte e a tua lealdade não a encontrei em mais lado nenhum, mas sinto-te mais ouvinte e mais leal do que nunca, não tens mesmo nada para me contar?

 

– Não. – respondi entristecido, deparando-me com as minhas únicas qualidades: saber ouvir e jurar não partilhar segredos.

 

          Despedimo-nos desanuviando algumas lembranças com um cúmplice olhar. Elucido-vos desta noite porque a partir dessa refeição passei três semanas inteiras com insónias em torno da doença do meu amigo licenciado. Não dormia, descudei-me na alimentação e enjoava-me quando sentia o cheiro a coelho assado com temperos de peru. No entanto, este transtorno fez-me lembrar que existo, e antes que a epifania me levasse a um possível sentimento estéril, lancei-me à rua. Quando alcancei o largo da ermida, durante uma manhã tão fria e nebulosa que as nuvens roncavam intercalados aguaceiros, apercebi-me de que não era a minha primeira vez naquele espaço, porque eu e o meu amigo licenciado, nos tempos adolescentes, em que ele era simplesmente meu amigo, alcançámos também uma vez aqueles campos, foi no primeiro fim-de-semana depois da páscoa e realizava-se a famosíssima romaria ao entardecer, concentrando multidões pela devoção à Virgem e pela procissão que ocorria ao lado das longas searas – reluzentes pelas velas e pelas paixões que, secretamente, pelos campos adentro troteavam os versos das cantigas em prazeres ofegantes embelezando o espetáculo sagrado. Por essa altura, a amizade com o meu amigo licenciado tornou-se a minha melhor conquista e, apesar dos cinco anos de afastamento pelos motivos académicos conhecidos, pressinto agora que a janela para reerguer a nossa relação pode ser maior do que as estreitas frechas de iluminação que constituem a ermida. Quando me aproximei da porta da Igreja, arqueada, de um amarelo escuro, trancado, verifiquei uma folha presa por pequenos pregos, desajustados, ocupando até algumas das palavras escritas no papel, mas li «Se tiver fechada pode bater à porta do ermitão ou berrar se ninguém responder», imediatamente tentei abri-la, mas sem qualquer sucesso. Restava-me apenas berrar, o que era impensável sabendo que as réstias da madrugada se espelhavam pelo silêncio dos animais. Por outro lado, junto à casa do ermitão, a ausência de qualquer veículo, principalmente da carrinha de tendeiro na qual o ermitão habitualmente se deslocava, desculpava-me caso ninguém respondesse a três punhos e necessitasse, na pior das hipóteses, de soltar um grito. Bati três vezes à porta e para meu desconsolo só testemunhei o vazio. 

 

– Ó da casa! Ó da casa! – disse de rompante.

 

– Já vai! – respondeu uma voz finíssima, de mulher, ouvindo logo de seguida os seus passos onde os calcanhares barulhentos pareciam exercer o peso de um corpo muito rijo, revoltado e furioso.

 

        Abriu-me a porta uma menina com sete ou oito anos, muito pequenina, de roupas lavadinhas, cor-de-rosa e cozidas à medida, mas tinha um olhar sério, mau, rezingão, que contrastava com a doce figura. O corpo emagrecido, mas muito tenso, levou-me a crer que a menina para além de puder ser rabugenta de sono, já estava cansada de abrir portas a pessoas que queriam visitar a Igreja, avisando-me, através dos punhos fechados, que tinha sido muito provavelmente a última pessoa que ela abrira a porta e que entrava na ermida. Deduzi que se tratasse da filha do ermitão e perguntei:

 

– O teu pai não está? 

 

– Não. – afirmou, seca e áspera.

 

– Mas sabes quando volta? – questionei, tentando compreender as feições da jovem.

 

– Acho que não volta. – disse, nem mais contente, nem mais triste.

 

– Então? Passou-se alguma coisa? – aplicando as minhas qualidades de bom ouvinte.

 

– Desapareceu.

 

– Desapareceu?

 

– Sim, desapareceu. Abalou e não voltou. É isso que significa desaparecer.

 

– Mas menina isso não te preocupa? A tua mãe não está desgostosa? – impressionou-me a inércia.

 

– Sou só eu e o meu pai. Pois bem, agora só sou eu porque o meu pai desapareceu. Olhe, o que é que quer?

 

– Desculpa-me menina, eu vinha ver a Igreja, mas agora estou afligido pela situação do teu pai.

 

– Eu vou buscar as chaves. – respondeu, enquanto se refugiava para o interior da casa balbuciando lamentações sobre a minha presença e batia com os calcanhares no chão para eu ouvi-la. – Venha lá, vá. – afirmou a menina, aparecendo com um molho de chaves maior do que as mãos, coberta por um comprido casaco de cabedal pendurado pelos ombros, provavelmente roubado do pai.

 

          À entrada da ermida, no largo em pedra, estava gravada uma planta da cruz grega de quatro braços iguais, equilibrados, simétricos. A cruz, imóvel e descolorada, esticava-se como um passadiço entre a casa caiada e a porta da Igreja, arqueada, de um amarelo escuro, mas menos trancado, já que a filha do ermitão desaparecido através de um impressionante e rapidíssimo jogo de polegares e indicadores, como se a prática das brincadeiras infantis fosse inata, descobriu em poucos segundos a chave, sem se gabar e nem sequer ter olhado para mim depois de a ter encontrado num oceano de clausuras. 

 

– Entre. – ordenou a rezingona, sentando-se na cadeirinha de madeira que estava no interior da igreja, com os pés suspensos no ar e o olhar espetado e desconfiado em cada passo meu.

 

– É uma igreja muito bonita. – disse ao contemplar as abóbadas de berço quebrado que me obrigavam a torcer o pescoço para cima, causando alguma aversão à filha do ermitão desaparecido que abanava a cabeça desprezando e desvalorizando o meu interesse. Os altares laterais revestidos por uma talha dourada abriam a composição para os belíssimos retábulos em pintura, onde as linhas puras e luminosas das figuras santas concediam ao espaço a claridade que os vitrais escondiam, mas que mesmo assim não eram merecedoras da aprovação da menina que persistia a murmurar algumas queixas. O episódio religioso representado na abóbada do presbitério, o Apocalipse de S. João, lembrou-me a conversa acerca da definição da doença do meu amigo licenciado. – Se aqui estivesse o meu amigo licenciado diria que o João, o autor da Revelação que me parece agora muito bem restaurada, projetou os desastres e as tragédias que estavam para acontecer porque sabia que na essência do Homem, e na sua de intermediário de Deus, as substâncias que colocaria exterior a si: a desordem, a crise e o conflito, eram mais fáceis para convencer os fiéis de que Deus tinha concebido aquela profecia, já que o modelo baseado na nossa experiência, por vezes, não é assim tão distante. Mas é uma bela pintura, não acha menina?

 

– É o que o senhor quiser. Vai demorar? – perguntou entediada.

 

– Ó menina, eu perguntei-te se querias ajuda para achares o teu pai, perguntei-te pela tua mãe, preocupei-me em animar-te mostrando-te as ideias do meu amigo licenciado, e continuas com essa conduta. O que é que eu te fiz?

 

– Desculpe-me … ando triste. – soluçou baixinho.

 

– Eu compreendo-te menina, sofrer assim o desaparecimento de um pai não deve ser nada fácil, e quando já não se tem uma mãe pior ainda. Arrependo-me agora de ter falado daquela maneira, desculpa-me também. – moldando o meu rosto com as feições mais empáticas que consegui manejar.

 

– Não é nada disso. A minha mãe, pelas razões da natureza da sua dispersão, se voltar é com uma forma diferente, mas o meu pai como é um homem mais frágil pode chegar a qualquer altura. O meu desgosto é com o Senhor. – olhando diretamente para o Seu Corpo no presbitério, com os olhos muitos cerrados.

 

– Eu compreendo-te menina, mas não ligues às ideias do meu amigo licenciado porque ele é, como o nome diz, licenciado, por isso não dês importância. Com certeza que as tuas vontades e as tuas preces para que Ele traga o teu pai, pois a tua mãe pelo que vejo é mais difícil, vão ser por Ele ouvidas e iluminadas como se iluminavam dez candeeiros se os tivéssemos a todos em cada um dos dedos das mãos.

 

– Está errado! É mais ou menos como o seu amigo licenciado diz, o meu pai desapareceu porque era tão crente que ao saber há quanto tempo está o Senhor desaparecido, decidiu seguir o Seu modelo e desapareceu também. A minha mãe é diferente…

 

– Então menina? Desapareceu…mesmo? – questionei, espantado com as motivações.

 

– Sim…ao ter a certeza de que o meu pai se estava a tornar excessivamente crente, tão crente que nos obrigava a tomar as refeições dentro da ermida e não percebia que não partilhava a sua paixão, tanto por mim como pela minha mãe, ela abalou e foi-se licenciar. 

 

– Que história terrível! Tenho tanta pena! Mas menina, afinal de contas, és crente como o teu pai ou vais-te licenciar como a tua mãe?

 

– O senhor não vê que não tenho idade nem para uma coisa, nem para a outra? – levantando-se da cadeira de madeira – Estou à espera que chegue algum deles para saber o que faço, mas como pode calcular levará algum tempo. – voltando-se a sentar na cadeira. – O senhor vai-se já embora? – demonstrando pela primeira vez alguma necessidade afetiva.

 

– Menina, eu iria em circunstâncias normais, mas ao ver-te assim e conhecendo-me como me conheço, provavelmente se abalasse agora como fizeram os teus pais, certo dia nas próximas três semanas desapareceria também. – respondi genuinamente.

 

– Então o que está a pensar fazer? – perguntou a filha do ermitão desaparecido, fazendo desaparecer, desta vez, a figura rezingona que lhe era parte da natureza.

 

– Acho que te posso fazer companhia enquanto esperas pelos teus pais.

 

– Durante quanto tempo?

 

– A manhã e a tarde de hoje, a manhã e a tarde de amanhã e assim sucessivamente. – afirmei compadecido.

 

– Vai berrar à porta como fez hoje?

 

– Se não a abrires após eu bater três vezes, sim.

 

– Está certo. Mas não grite muito alto porque o meu gatinho desapareceu e pode assustá-lo.

 

– O teu gato também desapareceu? Mas um gato não pode ser crente e muito menos licenciar-se. – afirmei muito convicto.

 

– Não é nada disso. Os gatos são muito espertos; quando este viu que os meus pais se foram embora quase de um dia para o outro e como não confiava em mim para o alimentar, o gatinho, enfim, desapareceu também.

 

– Pobre menina! Nem o gatinho quer ficar aqui contigo.

 

– O senhor fica? – perguntou a filha do ermitão desaparecido, muito atenta e interessada.

 

– Sim. A manhã e a tarde de hoje, a manhã e a tarde de amanhã e assim sucessivamente. – respondi, enquanto me sentava na cadeirinha de madeira em frente à dela.

 

João Rebocho – Licenciando em Artes e Humanidades com Major em História e Major em Artes e Culturas Comparadas na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Programador Cultural na Galeria de Arte Olga Campos, membro da Casa da Animação e interveniente na organização da 20° edição da Festa Mundial da Animação, em Amarante . Publicações nas edições 82, 83 e 85 da revista d’Os Fazedores de Letras, um conto na edição 29 da revista LiteraLivre, cronista com o trabalho “Projeto: A memória, também.” na revista BIRD Magazine e nomeado para o Top 3 do concurso de escrita “Eis Portugal!” da revista Olissipo.

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