Cultura

A aprendizagem no espaço concreto das imagens em Death of a Naturalist, de Seamus Heaney | André Osório

Death of a Naturalist, primeiro livro do poeta irlandês Seamus Heaney, simula um processo de aprendizagem que vai desde a infância num ambiente rural e pantanoso até a um ponto temporal que se situaria mais perto do momento da enunciação, marcante de uma aproximação à vida adulta que o ponto de vista de quem escreve estabelece. Ora, essa transição, desde o início corrompida pela simultaneidade na construção da figura do observador e do observado, da criança que cresce e do adulto que se fixa nos espaços intermédios, constitui-se num confronto com imagens que rompem a tranquilidade dos processos de percepção da criança, fazendo-a confrontar-se com a inerência da morte nos mecanismos da natureza. 

 

Essa tensão entre infância e vida adulta, posta em movimento pelo “eu” que as escreve e inscreve no espaço da linguagem, surge pela invasão da figura do criador na obra criada, causador de uma morte original que se pauta por esse mesmo acto de escrita: “Between my finger and my thumb / The squat pen rests; snug as a gun”. A caneta, responsável pela criação, é, também, por sua vez, agente da morte; ou, melhor, é nessa morte que a memória se concretiza enquanto catalisadora do movimento de construção interior da aprendizagem, que a infância se afirma não como uma ausência eternamente recuada, mas como uma presença, um acontecimento (assimilado na sua temporalidade) que se vai dissipando no confronto do leitor com o livro, na progressão da leitura, até que ambos se tornem, num sentido figurado, auto-suficientes nesse mesmo livro, onde o último poema, que retorna à memória dessa infância, faz, em simultâneo, alusão ao poema primeiro do livro, “Digging”: “Now, to pry into roots, to finger slime, / To stare, big-eyed Narcissus, into some Spring / Is beneath all adult dignity. I rhyme / To see myself, to set the darkness echoing”. A perspectiva de um observador sobre a memória de gostar de brincar nos poços da sua infância (“I loved the dark drop, the trapped sky”) e de ver o reflexo que lhe devolvia a imagem enquanto escuridão, coloca essa memória num plano geograficamente inferior, de observado, sendo que é a figuração física da rima que une o topo e o interior do poço, no qual a criança habita como que numa forma poética. 

 

A constituição da leitura enquanto “actividade de converter o que está escrito ou impresso em som”, de atravessar a temporalidade do livro, que coloca em movimento e retorna a voz enquanto eco, reflexo, colhe os frutos do trabalho poético que se edifica em simultâneo, devolvendo à imagem a consciência de si e o som à materialidade da palavra (como se alude pelo título “Personal Helicon”: tuba que se envolve em torno de quem toca). Ainda no poema “Digging”, em equiparação aos familiares do sujeito poético, que escavam o campo com uma pá e procuram chegar à terra mais profunda, o “eu” utiliza uma caneta, o que remete, invariavelmente, esses familiares (e o próprio “eu”) para um jogo de linguagem onde estes são imagens constituintes do poema, que o constroem, escavando-o e trabalhando-o, no espaço que se identifica com o próprio sujeito: “the curt cuts of an edge / Through living roots awaken in my head”. Esse espaço, o da possibilidade da descoberta da criança face à natureza auto-regulada com que se tem de confrontar, o do jogo de linguagem, é precisamente aquele que o “eu” escava, tal como o seu pai e avô cortavam raízes do pântano de Toner.

 

Com efeito, em Death of a Naturalist, a linguagem tem uma componente física que devolve as imagens ao trabalho poético (e vice-versa), sendo que as letras e os sons se materializam no acto da leitura, “a imagem da coisa nomeada aparece na consciência”; o processo de aprendizagem da criança faz-se equivaler ao de familiarização com a vida e com a morte- aprender e apreender o jogo de linguagem em que a identidade se vai construindo até ao ponto em que o livro se fecha em si mesmo, rimando o seu começo e regressando à sua natureza já apreendida, em eterno retorno. Há, pois, uma coabitação entre o ponto de vista crítico de um adulto, fixo, e a percepção da criança que se move até se tornar também uma imagem convocada para a aprendizagem poética. Em “Poem”, por exemplo, o anel, que marca o casamento entre duas pessoas, uma passagem para a vida adulta (também união da consciência ao acto), assemelha-se à imagem do poço no poema final, onde a criança, ao contrário de no poema “Death of Naturalist” (que dá título ao livro) em que a barragem de linho (simultaneamente vertical e horizontal como o poço) apodrecia para crescer de novo todos os anos, se encontra dentro dos seus limites fixos, na forma que lhe foi construída e que por ela era procurada.

 

De facto, “Death of a Naturalist” ocupa uma posição central para a compreensão da estrutura do livro. Não só por lhe dar o nome, mas também por instaurar o movimento e o contra-movimento que perpassam a obra, como, aliás, no poema “Waterfall”, onde a figura do observador se encontra dentro da própria imagem que nomeia. Em “Death of a Naturalist”, é retractado o crescimento do linho: como este, sob o sol, apodrecia para dar lugar a amontoados de raízes onde o “eu”, de forma semelhante ao som que cercava o cheiro das plantas, enchia frascos com os ovos de sapo que apanhava, mais uma vez aludindo-se a uma tentativa de captar em forma o crescimento de uma imagem. Depois, na escola, ouvia a professora nomear o processo de transformação dos ovos até à sua forma adulta, e até estes porem ovos de novo, trazendo ao acto o contexto natural em que este se insere. Após esse acto de nomeação, que traz à imagem a consciência de si, há um confronto entre a criança e os sapos adultos que a envolvem no som das suas vozes tal como acontece com o som em volta das plantas que apodreciam, fertilizando a terra- o espaço do poema; a imagem dos sapos, agora ameaçadora, provoca uma interrupção nos hábitos da criança para com a natureza, de modo que ela é obrigada a confrontar um movimento contrário àquele que existia num primeiro momento do poema. 

 

A morte de um naturalista é, pois, a morte do observador; a observação, invalidada pela imagem percepcionada, faz com que o “eu” passe a integrar a própria natureza que observa, passe a observar de dentro. Esse confronto entre o humano e o não-humano afirma um espaço intermédio onde a figuração da aprendizagem coaduna com o próprio jogo que as imagens estabelecem entre si, com a própria construção do livro que se vai efectuando após o confronto. O naturalista que coleccionava coisas belas quando criança, confrontado com o espaço moralmente neutro da natureza, habita e passa a habitar, em simultâneo, o espaço neutro da memória, onde as imagens chocam e aprendem a sua própria natureza- a do livro em que se inserem; daí que as tentativas da criança de captar imagens, de as prender, falhem consistentemente: ainda não domina o jogo de linguagem em que está inserida (ao mesmo tempo que, desde o início do livro, há um domínio da figuração da criança enquanto imagem pelo “eu” que escreve, que coloca as imagens em movimento, em aprendizagem de si).

 

Em “An Advancement of Learning”, a imagem do rato como elemento perturbador na paisagem (imagem que se repete em vários poemas) é provocadora de uma mudança: o sujeito que se movia em volta da ponte sem a atravessar, ao contemplar e reconhecer o animal, trá-lo para dentro de si, aliando o terror ao espanto, o medo à beleza. Então, em movimento contrário, o rato observado volta ao esgoto (posição inferior à do tecto da casa de infância do “eu”, onde os ratos faziam barulho) e o “eu” atravessa a ponte. A duplicidade do reconhecimento, pelo som e pela imagem (o rato que ouve para dentro e o sujeito que recolhe a imagem do rato em si), ocorre num mesmo espaço, aquele em que a tensão é assimilada enquanto experiência, construída e destruída na leitura, fazendo devolver a imagem ao espaço da memória que se constitui simultaneamente à sua fundação enquanto tal, a partir de um ponto de vista de releitura onde as imagens que se debatem consciencializam-se de si mesmas pelo embate umas nas outras, ganhando forma, solidificando-se. 

 

O crescimento da criança ao longo do livro, com os seus limites que consistentemente se quebram, é uma aprendizagem da língua desse mesmo livro, já que “todo o processo do uso de palavras é um daqueles jogos por meio dos quais as crianças aprendem a sua língua natal”, o jogo de linguagem que a criança atravessa até se fazer equivaler aos limites fixos desse mesmo livro. Em “Honeymoon Flight” e em “Scaffolding”, os dois poemas que se seguem a “Poem” (que se formaliza como um casamento), essa auto-referencialidade é clara. No primeiro, o sujeito vê a sua paisagem familiar desaparecer entre a asa do avião em que parte, assimilando-a e partindo para o não-familiar, através desse espaço intermédio, onde os viajantes têm de confiar em quem os guia- o próprio espaço intermédio, o ar que atravessam; no segundo, é comparada a relação entre um “eu” e um “tu” (figuradamente um casal) com os pedreiros que, antes de começarem a construir um edifício, testam os andaimes, os seus pontos fracos, os quais cairão quando o trabalho estiver completo, sem traços do processo que permitiu a construção desse edifício, seguro em si. 

 

Nessa estrutura auto-suficiente, o movimento da leitura une as imagens e a fala, a letra e o som. Por sua vez, este coloca em movimento uma voz que só existia em potência na materialidade das palavras, devolvendo-se o texto a si mesmo. Nesse sentido, ler é ser guiado pelas palavras, frases, unidades de sentido, é inserir-se no jogo de linguagem que o texto, na sua natureza própria, reproduz. No entanto, a aprendizagem patente no livro não tem como ponto de chegada uma unidade última, mas sim a afirmação de um espaço sempre desconhecido, não-familiar, por dentro dos limites fixos onde as vozes ecoam e as imagens se reflectem contra a escuridão, lugar onde esses sons e imagens se restituem e tomam consciência de si. É nesse espaço intervalar da linguagem que o enunciador se situa; ele é a linguagem, é nela que se move, repetidamente trazendo de volta a esse espaço a colheita da terra que escava, o resultado do confronto entre imagens e movimentos opostos, a aprendizagem do próprio jogo de linguagem que constrói.

Bibliografia

 

. Clifton, Harry. “The Physical World of Seamus Heaney” in The Poetry Ireland Review. No. 104, pp. 18-29. Dublin: Poetry Ireland, 2011.

 

. Heaney, Seamus. Death of a Naturalist. Londres: Faber & Faber, 2006.

 

. Heaney, Seamus. “The Sense of Place” in The Cork Review, Vol. 1, No. 3, pp. 12-15. Cork: Triskel Arts Centre, 1980.

 

. Wittgenstein, Ludwig. Tratado Lógico-Filosófico & Investigações Filosóficas. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2015.

André Osório nasceu em Lisboa, em 1998. Tirou a licenciatura em Estudos Portugueses, na Universidade Nova de Lisboa, e tirou o mestrado em Teoria da Literatura, na Universidade de Lisboa. Tem poesia publicada em revistas literárias e em 2020, lançou o seu primeiro livro, Observação da Gravidade (Guerra e Paz). Fundou em 2019 a revista literária Lote.

 

Qual é a sua reação?

Gostei
0
Adorei
0
Sem certezas
0

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Próximo Artigo:

0 %