Cultura

Maria Brás Ferreira. Rasura. Porto: Fresca, 2021 | Nuno Brito

 

 

Olha para o mundo e diz-me

Onde tudo começa

Onde estala o granito sob a fúria renovada da vontade

 

Rasura começa com um imperativo, um olhar frontal para com o leitor. Olhando para o mundo “a surpresa é certa” (14), talvez por isso, Maria Brás Ferreira nos proponha continuamente um exercício de atenção a todos os começos que nos compõe, e um respeito e dignidade com a “fúria renovada da vontade” e com uma condição de contínua ultrapassagem que deve ser inerente ao humano: “a ser aluvião ninguém escapa” (97). A surpresa é certa, pela vitalidade contínua e sempre renovada das imagens, onde um mundo tátil se faz sentir: “Podemos fechar um crisântemo para morrer na própria mão” (14), num cruzamento com as sensações sonoras “O ponto sincopado do grito” (14) e visuais. A vitalidade sinestésica de Rasura conecta-se constantemente à imagem de um corpo cosmificado, em que as mãos, os olhos, a língua, boca, a garganta e a pele se mostram como espaços porosos de contacto com o exterior, aliando o corpo à imagem do fogo: “é mesmo possível erguer paredes e dentro fazer arder corpos?” (20) “um troço de corpo para arder até alguém chamar por nós.” (14), e às imagens marítimas: “a boca minar todos os pontos do oceano.”, “Os olhos, faróis insinuados do mar desfeito” (18). O poder visual de Rasura passa também pelo diálogo interartístico com outras áreas de expressão, como o cinema, a pintura ou a escultura. A poesia ecfrástica de “a propósito do filme Aniki Bóbó de Manoel de Oliveira e não só” e “Pietá Brava” mostram formas originais de dialogar e revitalizar obras de arte através da poesia, “Pietá Brava” desconstrói e renova a imagem de simetria, harmonia e proporção da escultura de Michelangelo propondo uma nova escala, humanizada e intensificada por um pathos emotivo “bravura a desse olhar parado (…) tão brava, tão brava.” (22), físico, em que o corpo é a manifestação viva do afeto e da paixão “pois é o corpo que sempre prova” (22), repensando uma ideia preconcebida de paciência e resignação feminina diante da morte este poema dialoga com “Tudo o que existe louvará” tecendo um diálogo com um conjunto amplo de textos em que o desejo, a vontade se contrapõem a um “mar pateticamente calmo” (18) ou a uma resignação que se quer vencida pela “fúria renovada da vontade”. O mar, a memória e o corpo manifestam-se em Rasura como um excesso, um excesso de vida e força, um excesso de sentir, de viver e de recordar, de um corpo que não pode ser contido e de um desejo que não pode ser limitado, revitalizando a escala humana e intensificando a relação com o mundo, através de um corpo em contínua transmutação: “Levas nos ombros o peso imperial do devir, / dever de amor (21)” dotado de uma vitalidade oceânica: “Espero como os seixos / as ondas que o mar esqueceu de beber: / teus olhos em cratera no areal, / por brincadeiras de catraios nus pla praia.” (81) em que o verão, a praia e o mar são revitalizados afetivamente pela memória, verão que invoca as romarias populares, as festas da Nossa Senhora da Agonia, o Santo Sntoninho ou as saias das minhotas, em alusões solares e vitais, a poesia de Rasura, dialoga constantemente com o título da unidade poética: rasurar é também traçar, fazer um risco, e nisso a poesia de Maria Brás Ferreira é invariavelmente uma poética do risco, na dupla aceção da palavra: traçando um risco, uma linha de voz própria e singular, uma linha segura na poesia portuguesa, mas também cometendo um risco,  o de um mundo novo, intenso e poroso. Enfrentando um aprofundamento reflexivo, imagético e  vital que dialoga intertextualmente com o universo da música e da poesia, são muitos os poetas referidos, e entre eles encontra-se Carlos Drummond na epígrafe “a vida apenas sem mistificação” que alude ao poema “Os ombros suportam o mundo”, também em Maria Brás Ferreira temos um mundo grande e colossal, e uma vida que deve ser dignificada sem mistificação, talvez por isso rasante ou raso são palavras que criam uma rede contínua ao longo destes poemas num exercício de humildade que celebra o chão numa escala revitalizada em que o mínimo e o próximo são olhados frontalmente e com mais atenção em detrimento daquilo que está artificialmente afastado ou desvitalizado, o exercício de Rasura é de uma humanização e dignificação constante (através do espanto) do ofício poético e do mundo, e por isso ele é vital e necessário – dotado de uma sabedoria visual, reflexiva e imagética ampla e intensa, num respeito e amor pela vida no que ela tem de plural e de unitário,  livro de urgências e imperativos onde tudo se mede pelo presente, de dignificação do corpo no que ele tem de relâmpago, ultrapassagem e vida verdadeira. Poética atenta de amor à vida: “Um fogo. Mais que um incêndio. O fogo” (50) Rasura é um exercício de unir os pontos e por isso é um livro para trazer perto. Um livro-começo. Todos os começos seguros.

Nuno Brito nasceu no Porto em 1981.  É autor dos livros de poesia: Delírio Húngaro (2009), Antologia (2011), Crème de la Crème (2011), Duplo-Poço (2012), As abelhas produzem sol (2015), Estação de serviço em Mercúrio (2015) e O Desenhador de Sóis (2017).

É leitor do Instituto Camões na Universidade da Califórnia em Santa Barbara onde vive desde 2015 e onde obteve o Doutoramento em Literaturas Brasileiras e Portuguesas, foi professor de Literatura Portuguesa na Universidade Nacional Autónoma do México onde viveu entre 2012 e 2014. 

Foi editor da revista literária Cràse e publicou em diversas antologias de poesia em Portugal, Espanha, México e Grécia, entre as quais a Antologia da Jovem Poesia Portuguesa (Atenas, Valkixon, 2021), a Antologia Lluvia Oblicua: Poesía Portuguesa Actual. (México: Círculo de Poesía, 2018), O Binómino de Newton e a Vénus de Milo: Poesia e Ciência na Literatura Portuguesa, organização de Vasco Graça Moura e Maria Maria Bochicchio (Lisboa: Aletheia, 2011) e Antologia Jovens Escritores 2008 (Lisboa, Clube Português de Artes e Ideia). Foi distinguido por duas vezes com o Prémio da Associação de estudantes da Faculdade de Letras do Porto na categoria de Poesia e Conto e foi selecionado para a Mostra Jovens Criadores (Literatura) 2008 em Lisboa.   É coordenador editorial juntamente com Maria Bochicchio da colecção Novíssima da editora Exclamação. 

Ode Menina é o seu quarto livro publicado pela editora Exclamação e reúne textos escritos entre 2018 e 2021, assim como alguns textos publicados anteriormente em livro.

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