ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Dalila d’Alte Rodrigues


Cruzeiro Seixas: um amigo que nunca se esquece    

“Alô Monsieur Breton! Comment ça và?!” Era este o código que utilizávamos para que Cruzeiro Seixas me identificasse ao telefone. O ouvido já não lhe obedecia como há cerca de 38 anos, quando o conheci no atelier do Eurico, em Lisboa. Do outro lado, ele achava graça. Sorria sempre.

Monsieur Breton n’est plus la…

Pouco depois de o ter conhecido, cerca de 1982/83, refugiou-se no Algarve, em São Brás de Alportel, onde transformou um antigo curral numa maravilhosa casinha de campo, a sua “Caverna”, em homenagem a Dorothea Tanning, autora de uma litografia da sua Colecção, La Caverne. E foi com imenso prazer que a revisitámos por volta de 2004, então habitada por um casal de ingleses que nos receberam com imensa simpatia. Aqui se relacionou com os artistas e galeristas do meio, participando e desenvolvendo, como sempre, uma intensa actividade cultural.

Do Algarve regressou a Lisboa, para se alojar num amplo 3º andar da Rua da Rosa, no Bairro Alto. Sem elevador, subia e descia vezes sem conta aquelas escadas, e, quando saía, deixava o rádio ligado na música clássica “por causa da ladroagem”, sugerindo que havia gente em casa. Tanto eu como o Eurico tivemos o enorme privilégio de folhear os livros da sua fabulosa Biblioteca, muitos dos quais ele magistralmente intervencionava. Aí, admirámos a sua fantástica Colecção de obras, maioritariamente relacionadas com o Surrealismo, onde sobressaía um pequeno “cadavre-exquis” datado de 1936, da autoria de Breton, Tzara, Greta Knutson e Valentine Hugo.

Cruzeiro Seixas confessava com orgulho que todas as suas economias eram aplicadas em novas aquisições. Da sua Colecção destacam-se nomes, como: Ana Hatherly, Anne Éthuin, António Areal, António Domingues, António Quadros, Arpad Szenes, Jorge Camacho, Carlos Calvet, Carlos Eurico da Costa, Cavalcanti, Cesar Moro, Mário Cesariny, Dorothea Tanning, Eugenio Granell, Eurico, Giordano Bruno, Gonçalo Duarte, Hein Semke, João Rodrigues, Jorge Barradas, Jorge Vieira, José Escada, José Francisco Aranda, Jules Perahim, Júlio Pomar, Júlio dos Reis Pereira, Malangatana, Manuel d’ Assumpção, Mário Botas, Mário Eloy, Mário Henrique Leiria, Max Ernst, Menez, Paula Rego, Philip West, Raúl de Carvalho, Raúl Perez, Rik Lina, Franklin e Penélope Rosemont, Saura, Sónia Delaunay, Teixeira de Pascoais e Victor Brauner, entre outros.

Na casa do Bairro Alto, a sala era confortavelmente decorada com gosto e com requinte. Os nichos das paredes, em tom marfim, exibiam fotos de família e de amigos chegados, que ele ia apresentando: A minha avó com o irmão…tem aqui a data…imagine, uma fotografia da minha avó menina, com 15 anos, parecia já uma velha! Havia Inúmeras miniaturas herdadas da mãe, Maria Rita Andreia do Cruzeiro Seixas, bonecas de biscuit, caixinhas, brinquedos, pequeninas gavetas cheias de surpresas, um belo cinto de artesanato turco, em prata, que Cruzeiro Seixas usara em tempo de juventude, ou um pequeno copo, que assim recordava: O meu avô bebeu por este copinho, o meu pai bebeu por este copinho, o meu tio bebeu por este copinho, eu bebi por este copinho de prata, engraçado!

Ainda na sala, uma cama estreita e muito antiga, de madeira escura, servia de sofá. Tinha almofadas verde-garrafa, iguais à do cadeirão, que pedia conserto. A propósito, ele sorria dizendo: “Conserto? Já não vale a pena! Quero ir-me embora!”

– Desejo que manteve durante mais de trinta anos!

Fascinava-me um conjunto de objectos, pequenas estatuetas e máscaras africanas sobre uma mesa com tampo de vidro. Uma delas pertencera a Henrique Galvão. Cruzeiro Seixas conhecia o seu significado. Este é um “gingongo”, fazem disto metido nos panos, para terem gémeos, imagine!

A “aventura surrealista” reabilita os rituais e a magia das artes e das culturas ditas primitivas. São conhecidas as Colecções de arte primitiva de Max Ernst, Lévi Strauss, Carlbach, Segredakis André Breton, Masson, Lam, Matisse, Picasso, e, em Portugal, de Cruzeiro Seixas, hoje na Fundação Cupertino de Miranda, em Famalicão.

O pintor fixou-se em Angola entre 1952 e 1964. A sua aventura por terras de África, “um amor inteiramente correspondido”, proporcionou-lhe o encontro com as raízes milenares dos “primitivos”, que inspiraram a realização de uma parte significativa da sua obra poética e plástica. Aí iniciou a sua Colecção de arte africana, posteriormente aberta aos povos da América latina, manifestando também uma grande paixão pela arte “naïf” do homem comum, da criança e do “louco”. Cruzeiro Seixas redescobriu na arte dita primitiva o seu significado profundo e espiritual, o fascínio e a nostalgia das imagens de um passado longínquo, que não se processa apenas por via do exotismo, mas também pelo imediatismo com que nos transportam para as quimeras, fábulas, superstições, e estranhas crenças, que o homem primitivo soube exprimir de forma tão tocante.

Cruzeiro Seixas odiava os mecanismos institucionais da Igreja e seu “pecado original” - “a noção mais infame da religião cristã”, nas palavras de André Breton. Nesta perspectiva, a sua obra evoca as admiráveis cenas orgíacas do “Jardim das delícias” de Jerónimo Bosch, precursoras do Surrealismo numa época em que os cristãos se dividiam entre a tentação e a “salvação”. Visionário e subversivo, o pintor quinhentista contribuiu para a desocultação de todo um processo mental obscurantista, ao abrir as portas do subconsciente. As “Tentações”são representações simbólicas que se relacionam com a temática artística da época. A vida dos santos, os “mistérios”, as “farsas” e os temas diabólicos, abrem definitivamente o caminho à interpretação alegórica do monstro, semi-humano, semi-animalesco, que confirma a ordem divina da criação. As alegorias e as metáforas medievais, as metamorfoses e as transformações, denunciam o homem “corrupto” e “pecador”. À beira da loucura, o “sonho” e a “visão” dão-nos a dimensão global do homem medievo: o sonho do heroísmo e do amor, herdado da cavalaria; a visão da morte, as emoções e os fantasmas. A fundamentação erótica e o recalcamento colectivo têm por base uma ética igualmente colectiva, baseada em normas e leis rigorosas, de que o erotismo não se compadece, ao exigir o prazer da transgressão. A época apresenta-se com um vivo sentimento do corpo e da sensualidade.

O corpo é a paisagem que a moldura não contém (Cruzeiro Seixas, catálogo da exposição Cruzeiro Seixas - Homenagem a Mário Henrique Leiria, Galeria S. Mamede, Lisboa, Maio-Junho, 1995)

 

Perturbadora, visionária, nocturna, estranha e inquietante, a imagética simbólica, metafórica e metamórfica de Cruzeiro Seixas remete-nos para o universo boscheano. A tentação, o prazer delirante, a paixão sublime de sensuais copos juvenis erotizados; rochosas paisagens, áridas planícies, estranhas arquitecturas vazadas; imagética cenográfica de baixos horizontes, abismo e vertigem; o silêncio e o crepúsculo, a lua e o mar, a nau e a sombra, a noite e o raio, o clarão e o astro; o cavalo-homem e o homem-pássaro; a fechadura sem chave e a chave sem fechadura; o ritmo ondulante, silencioso e orgânico; o violino, a pena, o garfo, o aparo, o bastão e a bandeira; as criaturas híbridas, de pesadas asas que não voam; o ser colossal e o minúsculo ser em movimento, ou a monumentalidade ilusória no pequeno formato.

A nossa grande esperança é sermos expulsos do inferno, como fomos do céu (C. Seixas, Desaforismos)

Por toda a parte há sonhos a empurrar outros sonhos para o abismo (Cruzeiro Seixas, A liberdade Livre, Lisboa, S.P.A., 2014)

 

Cruzeiro Seixas referia frequentemente as dificuldades económicas com que viveram os pais, que, no entanto, puderam contar sempre com a ajuda do filho, motivo porque nunca pode desenvolver actividade artística a tempo inteiro. Trabalhou nos mais variados ofícios, chegando a alistar-se na Marinha Mercante, experiência que lhe proporcionou importantes viagens, as quais, de outro modo não poderia ter realizado, em momentos mais difíceis. Nunca se serviu do poder instituído, nem mesmo nos últimos anos de vida, vivendo de forma bem modesta, sem o conforto e o desafogo que conquistara por direito!

Nunca pedi nada a ninguém e não vai ser agora que vou pedir!”- Dizia, com orgulho.
Desprezava a ganância do poder e do dinheiro, mais preocupado com a relação ética e humana com os amigos e com a vida. “Para que quero eu o dinheiro?” – Dizia, fazendo questão de lembrar a felicidade dos pais, apesar de tudo…

O sol é feito de delinquentes de delito comum, de gentes que não vêm biografadas em parte alguma e nunca vestirão ridículos fatos de bronze na Praça Pública. (C. Seixas in catálogo da exposição “Cesariny, Cruzeiro Seixas, Fernando José Francisco – e o passeio do cadáver esquisito”, Galeria Perve, Outubro, 2006)

O Mestre do Surrealismo teve uma vida cheia de sensações e contradições. Com Mário Cesariny manteve uma relação de Amor / Ódio, não se cansando, no entanto, de exaltar o seu génio criador, que colocava num pedestal que ele próprio admitia não alcançar. “Era um tipo genial!” – afirmava, citando-o com admiração: Os bois puxam para a frente; os homens puxam para cima! E dizia de cor páginas e páginas da poesia de Cesariny, Teixeira de Pascoais, Mário de Sá Carneiro e tantos outros, que admirava. Todas as noites digo poesia. São as minhas orações! E a dele próprio, não a sabia de cor, curiosamente.

Em 1998, Cruzeiro Seixas comemorou, como já se tornara habitual, o aniversário do Eurico em nossa casa, onde lhe ofereci um pequeno livro (16,1x11,9x1cm de lombada) com 48 páginas, em papel reciclado, que “cobiçara”, em cima de uma mesa. Cerca de um mês depois, para grande espanto nosso, recebi-o na volta do correio, completamente intervencionado com desenhos, “desaforismos”, recortes de jornal, citações e textos poéticos, com a seguinte dedicatória: “Este livrinho volta à Dalila, agora mais completo, com a amizade do Cruzeiro Seixas”.

O pintor não deixa de nos surpreender com a sua espantosa imaginação, humor e qualidade humana. Num recorte colado numa página deste pequeno livro, pode ler-se: Levará sete anos a chegar a Saturno. Na Terra houve mais um dia mundial da alimentação, durante o qual ficou a saber-se que há mais de 800 mil pessoas a passar fome, enquanto há dinheiro de sobra para a corrida às armas. E, mais adiante, acrescenta: Perante o panorama existente pergunto-me se ainda é legítimo alguém considerar-se surrealista neste 1997 aqui (…) perante o ensino que continua a ignorar os jovens dos bairros de lata e os do terceiro mundo, a mim me parece que seria preferível ter a coragem de correr o pano desta tragi-comédia…; Que é o meu nada, comparado com o horror que vos espera?” (citando Rimbaud); São em número muito superior aos que vendi, os desenhos e pinturas que dei, e é destas ofertas que tiro prazer; Na terra dos cegos, quem tem olho é Presidente da República…

Cruzeiro Seixas interroga-se sobre o papel social da Arte, que, à margem do sistema e contra o sistema, não abdica de valores éticos, estéticos e poéticos: Sin moral no hay Arte (evoca Saura); Será que muitos dos monstros sagrados do pensamento actual não passam de impostores? ; Ceux qui font les révolutions à moitié, ne font que creuser leur propre tombeau (cita Saint Just); Que fazer, se cheguei a uma altura da vida em que os mortos me acompanham mais do que os vivos?

O livrinho intervencionado por Cruzeiro Seixas integra ainda fotos e referências a autores seus amigos, vivos ou mortos (Mário Botas, Cesariny, Raúl Leal e Maria Helena Vieira da Silva), fotos das suas montagens objectuais e desenhos originais, frequentemente vinculados a Lisboa e a Portugal. É o caso de “Mar Português” (gaiola com um búzio), com a seguinte legenda: …não preciso de um búzio, numa rosa ou num malmequer ouço o mar (…) um dos espectáculos mais belos desta minha Lisboa de há uns anos era ao fim da tarde o desembarque da “vedeta” vinda do Alfeite, cheia de marinheiros estilizados nas suas fardas, invadindo alegremente as ruas da baixa. Hoje não resta qualquer lembrança viva do mar nesta cidade. Se eu tivesse algum poder, organizava todos os dias este mesmo espectáculo, nem que fosse com figurantes…”

E o pintor-poeta, nostálgico de um tempo que já não volta, continua: seria eu capaz de te amar tanto e com a mesma constância como amo a tua ausência? (…) Grave erro foi querer que os outros me amassem / sem eu me amar a mim mesmo…

Recentemente, pouco antes de mais uma das múltiplas homenagens que lhe foram dedicadas, Cruzeiro Seixas escrevia-nos:
Amigos Dalila e Eurico / tudo mexe como se fosse novo, mas, afinal, trata-se de uma repetitiva mascarada. À falta de melhor, e com saudades vossas, aqui fica o abraço do, Rei Artur (20-03-2018).

Em Setembro do mesmo ano, seguiu-se a viagem que realizámos até Palma de Maiorca, para vermos uma anunciada exposição de Chirico. A visita estendeu-se à maravilhosa Catedral de Palma e à Fundação Pilar e Joan Miró, com a maior lucidez e entusiasmo do nosso Amigo. Viagem para sempre na nossa memória.

Mais recentemente, numa das últimas ocasiões em que almoçámos e passeámos junto ao mar, e a propósito do que íamos conversando, perguntei-lhe:
- Cruzeiro Seixas, o que é para si o “bom gosto”?

- Resposta imediata: “É uma árvore

- Uma árvore?

- Sim, uma simples árvore!

Assim era o nosso Amigo Artur Manuel de Cruzeiro Seixas. Foram quase 100 anos de uma personalidade inesquecível!

 

 

 

Dalila d’Alte Rodrigues  (1948-) é uma pintora, professora e investigadora portuguesa.

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Paginação:

Nuno Baptista


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