ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Mônica de Aquino


Continuar a nascer com dois poemas inéditos    

“Porque não são apenas momentos de felicidade, que para mim era tudo o que tínhamos. É uma felicidade que se espalha.” Escolho esta frase de Maggie Nelson, do livro Argonautas, como epígrafe da série do meu futuro livro, ainda sem nome, dedicada à observação da minha filha. A vivência da pandemia trouxe ainda outra dimensão aos textos, e o isolamento total dos primeiros meses também aparecem nestes poemas. Eles são parte de uma seção maior, em que esse olhar para o infraordinário volta-se também para a casa, os detalhes da convivência com o meu marido misturados a pequenas memórias, também cotidianas.

Acho que este é o meu principal posicionamento político hoje: observar o dia a dia, as experiências mais corriqueiras e buscar multiplicar as lentes, os ângulos, valorizando temas considerados muitas vezes laterais, talvez por serem culturalmente mais ligados à mulher. Tal poética retoma e renova, de certa forma, o que fiz no meu penúltimo livro, Continuar a nascer, em que falo da gravidez e do nascimento da minha filha. Fazer do nascimento um movimento contínuo, múltiplo, vejo que é mesmo isso que me traz a maternidade – e tudo o que vem junto com ela.

Retomo, aqui, três poemas de Continuar a nascer, junto a dois do meu próximo livro. Para quem quiser ler um pouco mais, mostro uma seleção similar em outra revista internacional, a anglo-brasileira Capitolina, número 9.

Capa  da obra Continuar a Nascer, de Mônica de Aquino

 

Imagem da obra Continuar a Nascer, de Mônica de Aquino.

 

50% a mais de sangue
para o mesmo coração, ou será outro
com as mesmas vísceras, ou outras
a mesma história, ou é outra
que conto a cada dia a você
que se forma, arbitrária.

A vida exige água, carne, tempo
para dois corações novos:
coração-placenta, em cripta
que guarda o seu, subterrâneo
céu que se oculta
big bang particular

O corpo exige estrelas, movimento, aposta.

Tudo é excesso, agora, da sala ao quarto
atravesso um deserto, pulso
taquicardia de um sol interno
mar que se afasta – e se engole em ondas –

A areia da infância, tudo me atravessa
o sangue novo mergulha
         uma promessa
você é minúscula e já toma a casa
o que expulsa: passado, futuro
o que exige, só uma urgência
ancestral
cada batida é volta
para onde, quando, volta

crescem pelos, curvas, sombras,
hipóteses
“tudo aponta para o crescimento”, a médica explica
mas há também o que escapa

seu sangue misturado ao meu
o que em mim é início ou retorno,
o chamado do chão              
do corpo
- devolvida –
a que mistério e silêncio

O amor possui outra matéria
desconhecida
em explosão

 

 

Imagem da obra Continuar a Nascer, de Mônica de Aquino.

 

Dentro, tão dentro, puxa-me, mergulho o labirinto:
que minotauro há para destruir, agora
o que foi monstruosidade, será calma

ao final, o fio leva para fora da origem
o mesmo cordão umbilical
mapa:

negar o caminho, desfazer as pegadas
de cada ancestral, só as estradas
não percorridas, a vida no avesso
da trama

(as cidades destruídas)

construir um mundo novo para você
- sair deste labirinto em voo -

refazer as linhas da mão
(você me estende a sua)

outro destino será inventado:
nascer interrompe ultrapassa o tempo.

Setenta vezes sete gerações para perdoar o passado.

 

Imagem da obra Continuar a Nascer, de Mônica de Aquino.

 

Parto: palavra para o nascimento.

Termo de uma gravidez.

Ato ou efeito de parir.

Primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo partir.

Que pode significar: ir embora, deixar um lugar
                               : separar, dividir
                               : quebrar, destruir

 

Parto: o que separa, o que deixa, o que nasce.

Parir é dissolver, transpor, rebentar.

Ou: nascer é partir.

 


Ela aprende os contornos e superfícies com a boca.
Classifica o mundo pelos seus sons:
Uuuuhh é a coruja, enquanto o mesmo barulho duplo, ritmado      
nomeia os macacos em volta, nos livros, na pelúcia.
Iaaááá é como convoca os animais com boca larga                      
simulando a abertura:
jacarés, dinossauros, lobos.
Zzzz são as abelhas, o ruído acompanha o movimento dos braços
como asas e se estende ao conjunto dos pequenos insetos.
Todas as fissuras e defeitos que vê são feridas
que ela cura com beijos: os lábios alteram a parede arranhada
as marcas no braço do pai, a costura malfeita de um brinquedo

e beija também a si: "mah!" é o som junto ao gesto
como um abracadabra que inaugura os dias.
Há outras categorias: "bom dia" é o nome de todos os sóis.
Classificação pelas funções: qualquer objeto côncavo é um pote
que guarda bolas, peças de lego ou de quebra-cabeças
o trem risonho pode ser carro ou ‘passear’
e a ele acompanha, agora, outro barulho e traço:
a filha imita um choro, o pequeno carrinho chora, depois dorme.
Não entendo a brincadeira, talvez ele sonhe a rua
estamos presas no apartamento há 75 dias.

Ela o embala numa cantiga como se fosse um bebê.
E me acalma: o sono de todos os meios de transporte
é também o nosso, mamãe, mas este quarto é imenso
tem cabana, aquário, torres e dinossauros
bichos da selva ao lado das gatas que lambem a espera
abelhas do tamanho de girafas, sapos que saltam da sua
própria infância, e livros, tantos livros misturados
também pequenos monstros, roupas espalhadas, almofadas
a vida é macia aqui, e imensa, nela cabe o futuro
a praça, os prédios e árvores, cabe nascer e morrer.
Ela me embala como se eu fosse um bebê.


 

Minha filha gosta de brincar com fios
de cabelo ou roupa
estende-os muito concentrada, observa
leva à boca, estica de novo 
presenteia-nos, exige de volta
testa os movimentos dos dedos
e as texturas mais ínfimas
como se tentasse entender
a matéria bruta das coisas, a origem
é ainda acúmulo, recua: 
recolhe um pelo de gato
um grão, este cisco, a menor partícula
de poeira sobre o chão
e observa, observa
engole.
Para começar, de novo, a expansão.

 

 

Mônica de Aquino e Manuela, a Manu.

 

Mônica de Aquino (1979), nasceu em Belo Horizonte. É autora de Sístole (Editora Bem-te-vi, 2005), Fundo Falso (Relicário Edições, 2018), Continuar a nascer (Relicário Edições, 2019) e Linha, labirinto (Edições Macondo, 2020). Fundo Falso venceu o Prêmio Cidade de Belo Horizonte em 2013 e foi finalista do Prêmio Jabuti em 2019. Publicou, também, cinco livros infantis, todos pela editora Miguilim. Participou de antologias como Roteiro da poesia brasileira 2000 (ed. Global) e A extração dos dias (Escamandro) e tem poemas publicados em periódicos do Brasil e do exterior.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2020


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Henrique Dória, Adán Echeverria, Adel José Silva, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Artur Alonso Novelhe, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves ; Dalila d’Alte Rodrigues, Dalila d’Alte Rodrigues, Décio Torres Cruz, Denise Emmer, Edson Cruz, Elisa Scarpa, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Grupo Estilingues, Helena Barbagelata, Henrique Dória, Hermínio Prates, Joaquim Maria Botelho, Leila Míccolis, Lindevania Martins, Luís Filipe Sarmento, Marcelo Frota, Marco Antonio, Marcos Pamplona ; Helena Barbagelata, ilustração, Marinho Lopes, Mário Baggio, Mônica de Aquino, Myrian Naves, Nilma Lacerda, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Rogelio Pizzi ; Rolando Revagliatti, entrevista, Waldo Contreras López, Wil Prado, William Vanders, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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