ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Álvaro Alves de Faria


Entrevista do poeta peruano-espanhol Alfredo Pérez-Alencart a Álvaro Alves de Faria    

1.- Háblame del por qué escribiste esta primera novela, ¿qué necesidad tuviste de expresar en esta primera incursión tuya por territorios de la prosa?

 

AAF – Este foi o meu primeiro romance que, no Brasil, virou filme longa-metragem, que recebeu o título “Onde os poetas morrem primeiro”. Foi escrito quando eu tinha apenas 24 anos de idade. Explico: “O Sermão do Viaduto”, recitais de poesia que eu fazia no Viaduto do Chá, no centro da cidade de São Paulo, foi proibido definitivamente pela polícia da ditadura militar no dia 9 de agosto de 1966. Escrevi “O tribunal” no mês de setembro desse mesmo ano. Foi publicado somente cinco anos depois, em 1971, por uma grande editora de São Paulo, a Martins, já extinta. Em 1972 saiu mais uma edição e, a seguir, várias outras sucessivamente, de maneira clandestina, sobre as quais eu não tinha controle. Fiz cinco recitais de poesia no Viaduto do Chá e detido cinco vezes. “O Sermão do Viaduto”, que se tornou um livro famoso, foi todo construído todo numa linguagem bíblica. “O Tribunal” é uma história de amor, no entanto tem de ser lido nas entrelinhas, que foi a maneira que encontrei para narrar a impossibilidade e a repressão. Nessa história de amor o personagem é obrigado a entrar numa guerra com um fuzil e 32 balas, mas ele prefere usar apenas uma, contra si mesmo. A narrativa é profundamente poética. Escrevi vários romances, três deles autobiográficos, com a ditadura como pano de fundo. A Editora LetraSelvagem, de São Paulo, vai publicar os três. Começa pelo “O Tribunal”, no ano que vem seguirá com “O Defunto – uma história brasileira” e, finalmente, o mais amargo de todos, “Autópsia”. Fui preso uma sexta vez. Essa foi bastante dura e violenta. Ocorreu quando a polícia da ditadura descobriu que era eu quem desenhava dos cartazes do Partido Socialista Brasileiro, então na clandestinidade.
 

2.- ¿Cuál es la trama de fondo de la novela?

AAF – O personagem é obrigado a participar de uma guerra e sua missão é matar. Mas ele diz que não quer matar ninguém. No máximo, poderia matar a si mesmo. No entanto, é obrigado a entrar no campo de batalha, enfrentado inimigos que ele não conhece. Tem de experimentar a violência de um tempo que o envolve e percorre sua vida em todos os sentidos. No entanto, a única arma que ele de fato tem em mãos é a poesia, derrotada em todas as frentes. Esse personagem diz então que sempre estará entre os derrotados, entre os feridos, entre aqueles que não têm, entre os acuados. Assim, percorre sua própria vida numa viagem reminiscente que o leva até à infância, com as roupas rasgadas, as botas desfeitas, as mãos machucadas e um futuro sombrio pela frente. Esse futuro começa a se mostrar de maneira mais evidente depois do golpe de 31 de março de 1964. O golpe se consolidou de vez com a edição do Ato Institucional n. 5, que, em outras palavras, decretou o novo regime de perseguições e prisões e mortes também.

3. Un poeta no olvida nunca que la narrativa también necesita del lubricante poético. Algunos críticos y escritores de la época consideraron que O TRIBUNAL está imantado de lenguaje poético.

AAF – Está sim. Toda a linguagem é poética. É a poesia levada às últimas consequências, mas num romance. Como já afirmei, inspirei-me na linguagem bíblica, porque sempre fui bastante espiritualista, embora isso não pareça. Gostava demais do Sermão da Montanha e escrevi “O Sermão do Viaduto” com aquela linguagem. Observadas, evidentemente, as devidas proporções. No entanto, eu era um jovem poeta inconformado com os rumos das coisas. Os recitais que eu fazia eram mesmo subversivos para a ordem vigente, era uma espécie de desafio feito com um microfone e quatro alto-falantes. Juntava muita gente para ouvir. Eu já era jornalista e fazia parte dos movimentos de esquerda que agiam clandestinamente. Era uma espécie de vida dupla. Porque tudo se transformou em temor. As pessoas simplesmente desapareciam de repente. Como foi comigo na sexta prisão. Nem a família sabia onde eu me encontrava. Havia tortura de ordem psicológica e física também. O Tribunal retratou então esse primeiro indício das atrocidades que estavam ainda por vir, numa história desesperada de amor, um grito no meio de uma escuridão que começava a se desenhar no horizonte do país.
 

4.- Crees que la historia que narra no ha perdido vigencia, tantos años después?

AAF – Devo dizer, com muita tristeza, que, infelizmente, o livro está mais atual que nunca. Eu lutei e participei da luta pela redemocratização do Brasil, não para ver o país como está hoje, atolado em atos de corrupção, de uma gente que representa uma verdadeira quadrilha. Não foi para isso que passei por tantas provas de violência. Eu me sinto traído como cidadão, porque convivi com gente que por mais de vinte anos pregou a ética na política mas quando chegou ao poder começou a repetir exatamente tudo aquilo que sempre combateu. E repetiu pior. É corrupção de todos os lados. Sinto profunda angústia em dizer isto. Hoje existe, sim, democracia, isso é inegável, mas com uma mancha enorme de situações intoleráveis. O país está aparelhado. A mim não interessa nem ditadura de direita nem ditadura de esquerda. A mim interessa a liberdade, interessa ser livre para viver. O que se vê no Brasil hoje, infelizmente, é um país afundado em sombras, uma corrupção como nunca vi em minha vida e a ameaça constante da censura à livre expressão de pensamento, censura à imprensa, um discurso mentiroso que subestima a inteligência do povo. Nunca gostei de traidores. 
 

5.- Un notable poeta, cronista premiado, periodista relevante y crítico, dramaturgo, novelista... ¿Eres todo en uno o son varios los Álvaros que habitan en ti?

AAF – Sinto que sou vários e sou somente um. Eu me expresso de muitas maneiras. Fiz muitas exposições de pintura nos anos 70, escrevi peças de teatro, ensaios literários, romances, crônicas para jornal, escrevo e desenho histórias em quadrinhos, mas sou fundamentalmente poeta. Por exemplo: sou um poeta que faz crítica literária, sou um poeta que escreveu peças de teatro, sou um poeta que escreveu vários romances, sou um poeta que ainda faz pintura e desenha muito sem a preocupação de fazer exposições. Sou poeta 24 horas por dia, até no jornalismo. Faço jornalismo geral, especialmente político, mas sempre me dediquei também à área cultural, em defesa do Livro, trabalho reconhecido com prêmios importantes, como o Jabuti, por duas vezes. Meu teatro também recebeu, nos anos 70, uma das maiores láureas brasileiras daquela época, o Prêmio Anchieta para Teatro. A peça chamava-se “Salve-se quem puder que o jardim está pegando fogo”. A trama se desenvolvia numa cela, com quatro personagens. No entanto, foi proibida de encenação e ficou censurada por sete anos. Só entrou em cartaz na chamada abertura política, já no final da ditadura, mas mesmo assim tive de tirar os personagens de uma cela e colocá-los no consultório médico. Mas voltando, sou poeta em tudo que faço. Isso muitas vezes me causa algum problema, porque tenho uma realidade dentro de mim que difere da realidade que se mostra todos os dias. Procuro os detalhes. Foi sempre assim. O primeiro poema eu escrevi com onze anos de idade, quando eu era um menino jardineiro, cuidava dos jardins das casas para levar algum dinheiro para casa e para ajudar meus pais a enfrentar a pobreza. Hoje eu me orgulho disso. Depois de jardineiro, foi operário numa fábrica de canetas e, a seguir, contínuo em um jornal de São Paulo. Com 18 anos eu já escrevi para o jornal. Com muito sacrifício fiz duas faculdades, Ciências Sociais e Literatura e Língua Portuguesa, além Mestrado em Comunicação Social. Fiz tudo isso na vida acadêmica e nunca tive um caderno. Guardava tudo na cabeça. Os professores não gostavam disso. Mas aceitavam. Minha militância começou a ser conhecida quando, com 19 anos, organizei uma greve geral no colégio onde eu estudava, que aumentou as mensalidades abusivamente. Fiquei marcado, principalmente porque o colégio pertencia ao vice-governador do Estado de São Paulo. Fui expulso. Aliás fui expulso algumas vezes do ensino de segundo grau, não por falhas de comportamento, mas por uma postura crítica em relação às coisas e ao próprio ensino. No Brasil tem a história oficial e a história verdadeira.     

6.- Eres un hombre que no desdeñas la poderosa realidad. ¿Cuál la situación actual de tu país? ¿Qué opinión te merecen los escándalos de corrupción y demás lodos que enturbian el presente y lo porvenir de Brasil?

 

AAF – Eu me sinto aflito no meu país. Eu não compreendo como pessoas com quem convivi na juventude hoje estão presas porque roubaram dinheiro público. Eu não compreendo que amigos meus que combatiam a censura à imprensa na ditadura hoje defendem essa mesma censura à imprensa, querendo calar pessoas como eu, por exemplo, que além de escrever gravo vídeos de sátiras políticas e de comportamento. Pessoas que traíram a própria vida, a começar por aquele que se tornou presidente da República e que hoje, para mim, se revela uma pessoa desprezível que tem como meta de vida apenas o poder, a qualquer custo. O que esse homem já fez neste país é inacreditável, é constrangedor, é vergonhoso, é inaceitável. Ele nunca sabe de nada. E os escândalos de corrupção se multiplicam. Hoje é milionário. Se o Brasil fosse um país civilizado e se a Justiça fosse séria ele estaria preso. Lula é uma farsa. Uma grande farsa no país da mentira. 

7. Deja que tu memoria hable y recuerde lo que Salamanca va significando para ti.

AAF – Salamanca passou a fazer parte de meu roteiro existencial. Descobri Salamanca quando o poeta Alfredo Perez Alencart, da Universidade de Salamanca, me convidou a participar, como homenageado, do X Encontro de Poetas Iberoamericanos, em 2007, quando tive a honra de receber o diploma de Hóspede Distinguido de Salamanca. Hoje é um grande e querido amigo. Conheceu-me em Coimbra, Portugal, para onde fugi a fim me salvar e salvar minha poesia da mediocridade reinante em meu país, sem generalizar. Desse encontro em Salamanca resultou um grande encantamento que passou a fazer parte de minha poesia. Como homenageado no evento tive publicada uma antologia – “Habitación de olvidos” - com os poemas traduzidos por Alfredo Perez Alencart, que também já traduziu “Alma afligida”. Há também dois outros livros publicados na Espanha, a novela “Cartas de abril para Julia” e o livro de poemas “Motivos Ajenos – Resíduos”, traduzidos pela poeta igualmente querida Montserrat Villar Gonzales, este último publicado na coleção de poesia de Ediciones Linteo, dirigida pelo poeta Antonio Colinas. Tudo isso é resultado desse encontro com Salamanca, onde a poesia está em todo lugar, onde sinto o gosto da solidariedade, da aproximação, do abraço que se estende à vida e me faz ainda acreditar.

 

 

Álvaro Alves de Faria, jornalista, poeta e escritor – São Paulo / Brasil

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