ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Lindevania Martins


Voo noturno    

Heraldo deu uma última baforada e jogou a bituca de cigarro sobre o resto da comida velha espalhada pelo chão. Observou suas mãos ossudas e vazias, os dedos com pontos de sujeira sob as unhas. Uniu as mãos e estalou as juntas. Agora, já podia trabalhar. Levantou o braço inerte do filho, que repousava sobre seu próprio ventre de menino, e o colocou de lado. O caminho estava livre. Pegou um estilete enferrujado e o enfiou na barriga magra de Tonho, na qual se contavam os ossos. Cuspiu sobre o amontoado de garrafas de cerveja e cacos de vidro no chão imundo, murmurando:
— Ele tem que sentir na pele como dói ser destruído. Antes que a destruição de fato ocorra.

Algumas moscam zuniam em volta deles. Rita, a mãe do menino de sete anos, se afastou do fogareiro onde o companheiro costumava aquecer o crack e tomou mais um pouco da cerveja morna, bebendo do gargalo. Uns goles desceram pelo canto da boca. Ela limpou com o braço e perguntou, olhando para o menino:
— Você não tá exagerando? Acho que ele desmaiou.

— Melhor. Assim ele não se mexe e estraga o desenho.

Ela riu sem saber de quê e se jogou no sofá puído, as espumas saltando, enquanto observava os cortes enviesados que o homem fazia no barriga do filho:
—  Não sabia que você era tatuador.

—  Nem eu. Mas a pedra faz a gente descobrir talentos.

  Foi crack que você usou?

—  Não. Hoje consegui coisa fina. Coisa de bacana.

E ele interrompeu os cortes para mostrar a ela umas bolinhas coloridas:
—  Te daria algumas. Se não tivesse tão pouco.

Ele voltou a se entreter com a tatuagem. Rita se remexeu no sofá, esticou o pé e empurrou o menino com suavidade. O homem reclamou:
— Para com isso, mulher. Vai estragar o desenho.

Ela se recolheu novamente. Se o filho não reagia com os cortes do estilete, iria reagir com os toques do seu pé? Perguntou ao homem:
—  Ele tá muito tempo parado. Será que morreu?

— Não seja boba. Claro que não. O moleque é forte. Eu apanhava do meu pai muito mais do que ele apanha de mim. Nunca morri. Por que ele iria morrer?

Ela desceu do sofá e se jogou ao chão ao lado do menino, o corpo todo na horizontal, a cabeça apoiada no braço. O companheiro devia ter razão. Observou os cortes irregulares, o sangue de um vermelho intenso. Ainda não conseguia entender o que era aquilo:
— Que desenho é esse?

—  O que você imagina?

—  Não sei.

— É uma borboleta. Não parece?

— Talvez.

—  Um dia, quero desenhar algo que possa ser qualquer coisa que a gente sonhar.

A mulher coçou a cabeça:
— Qualquer coisa?

— Diz aí um sonho teu.

— Não tenho sonhos.

Depois apalpou o menino:
— Tá frio!

O homem não ouviu  e continuou:
—  Nenhum sonho? Nem quando era criança?

Ela arqueou as sobrancelhas, como se lembrasse de algo antigo demais e falou numa voz insegura:
— O menino era meu sonho. Ser mãe pra alguém me respeitar.

— Meu sonho era voar. Nunca quis ser gente, mas algo com asas.

Um movimento atraiu  a atenção dela:
— A barriga do menino tá tremendo, percebeu?

— Não. O moleque continua imóvel. Duro que nem estátua de praça.

— Será que ele tá sonhando?

— Tá colaborando. Feliz porque vai ter uma obra de arte desenhada bem na barriga.

Continuou manipulando o estilete, ora cortando a pele, ora cortando o vazio. De repente, foi como se o ar lhe faltasse e, no susto, Heraldo atirou o estilete longe:
—  Percebi, Rita!

— Percebeu o quê?

— A barriga do moleque! Se mexeu como se fosse um bicho. Algo grande vai acontecer. Você não sente?

Ela fechou os olhos e esperou. Não sentia nada. Abriu as pálpebras depois do que lhe apareceu muito tempo, sobressaltada com os gritos do companheiro:
— Aconteceu, Rita! Olha! Olha!

A princípio, ela não viu nada. Depois também gritou:
— Eu vejo!

Olhos arregalados, correu para sentar ao lado do homem. Muito juntos, mãos entrelaçadas, assistiram a tudo hipnotizados e felizes. Uma borboleta sangrenta se destacou da carne magra do menino, bateu asas e alçou voo pela janela do casebre, desaparecendo na escuridão da noite.

 

 

Lindevania Martins nasceu em Pinheiro, estado do Maranhão, no Brasil.  É graduada em Direito com Mestrado em Cultura e Sociedade. Ex-delegada de polícia, atua como defensora pública  de Defesa da Mulher e População LGBT. Palestrante. Contista e poeta, é autora dos livros “Anônimos” (Prefeitura de São Luís, 2003), “Zona de Desconforto” (Editora Benfazeja, 2018), “Longe de Mim” (Sangre Editorial, 2019) e “Fora dos Trilhos” (Ed. Venas Abiertas, 2019).

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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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