ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Denise Emmer


Um conto de Denise Emmer no lançamento de “O cavalo cantor e outros contos” em Portugal    

Myrian Naves, pelo conselho editorial.

 

 

O Cavalo Cantor e outros contos, de Denise Emmer
Capa da edição portuguesa, pela ed. Gato Bravo.

 

O livro O cavalo cantor e outros contos, da poeta e musicista brasileira, Denise Emmer, é sua estreia no gênero. A obra foi lançada no Brasil em 2018, e agora tem seu lançamento em Portugal pela editora Gato Bravo.

A autora, que nasceu no Rio de Janeiro, publicou vinte e um livros, dos quais dezessete de poesia, três romances e este, de contos. Ganhou importantes prêmios literários, tais como Prêmio ABL de poesia (Academia Brasileira de Letras); Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA); Prêmio José Martí (UNESCO conjunto de obra); Prêmio PEN Club do Brasil de Poesia; Prêmio Pen Club do Brasil de Romance; Prêmio Olavo Bilac (ABL); entre outros. Participou de relevantes antologias da poesia brasileira, tais como 41 poetas do Rio, org. Moacyr Félix, Ministério da Cultura, Antologia da Nova Poesia Brasileira, org. Olga Savary, Ed Hipocampo, Poesia Sempre, Fundação Biblioteca Nacional, O signo e a sibila – ensaios, Ivan Junqueira Ed.Topbooks, Ponte poética Rio-São Paulo Ed. 7letras, bem como das Revistas Califórnia College of the at Eleven Eleven (EUA), Newspaper Surreal Poets, (EUA) e Revista da Poesia, Metin Cengiz (Turquia). Revista Crear in Salamanca (Espanha), traduzida pelo poeta Alfredo Pérez Alencart.  É bacharela em Física e Música (violoncelo). Compositora, com vários CDs gravados, também integra, como violoncelista, orquestras e grupos de câmera. Apesar da versátil personalidade, a essência de sua criação, é, fundamentalmente, a poesia.

O poeta, crítico literário e professor português, António Carlos Cortez prefaciou a obra, o texto vem a seguir. E após, dentre os contos de O cavalo cantor conto, publicamos O primeiro rei.
        

 

Notas para uma música

 

António Carlos Cortez

Denise Emmer publica O Cavalo Cantor e Outros Contos e logo numa espécie de nota ao leitor diz escrever estes textos «como a poesia que permiti em minha vida». São «histórias de naufrágios, não diários», avisa, o que vamos ler. E assina: «A autora». Por aqui se vê, ao assinar como se houvesse certo distanciamento entre a figura empírica daquele que escreve – Denise – e a figura do autor que se constrói, a forte consciência do que pode a literatura. Dois romances seus, afirma, tem «nuances poéticas» e neste livro que Paula Cajaty publica, mais uma vez a poesia está presente no modo como, fruto da «memória romanceada», os enredos podem ser lidos como um poema longo, único, que todos os contos unisse e contivesse.

Se a poesia pode ser universo de linguagem muito diferente do que o resto da literatura, Denise recorre a uma das mais felizes formas de o narrativo poder ser lido como poema: o texto curto, conciso, concentrado em torno de imagens-símbolo, ou de motivos centrais, ilustrações do artista Álvaro Alves de Faria. Adequar a linguagem poética aos procedimentos narrativos (longa linhagem na literatura Ocidental, mas destacaria Borges, um sul-americano), congregam-se no seu registo a poesia como «doença da linguagem» (para lembrar Ruy Belo, poeta português que Denise decerto segue) e a narração (o modo de contar) que Horácio, na velhinha e sempre actual Arte Poética, como acto de tecer as intrigas de forma a que elas prendam o leitor a um possível efeito de verossimilhança.

Uma verossimilhança que surpreenda.

Neste livro belo, sensível, pensado, Denise Emmer está interessada, sobretudo, em narrar o inominável, o imponderável, o imensurável. São as palavras a matéria mesmo, o assunto próprio, da narrativa. Por isso a ambiência destes textos é evanescente, há um impalpável que a todo o tempo perseguimos: a linguagem, essa imaterialidade com que a literatura trabalha e se refaz. É sobre sujeitos ausentes que Denise, ou o sujeito que nos contos-poema fala, se debruça. No meio disto as relações humanas, feitas da linguagem que as diz: uma mulher casada com outro homem, seu amante, seu carcereiro, mas que ela julga encarnar o amor verdadeiro. «Três Minutos», eis o poema dramático, o conto-poema em que as categorias da narrativa – tempo, espaço, acção, personagens, narrador – se liquefazem, posto que esses três minutos sejam a metonímia da existência: são a eternidade que pode durar o nosso confronto com uma verdade terrível. Dois universos contrastantes: o idealizado que logo se transforma em mundo demoníaco (esse homem é o símbolo da crueldade, do mal), e o real, a família da mulher agora desencantada. Denise Emmer, talvez como só uma mulher poderá compreender, explora aí a distância entre o que a vida é e o que a vida poderia ter sido, num «teatro de tantos ferimentos», na bela expressão de Alves de Faria.

Denise Emmer, que terá lido Menina & Moça de Bernardim Ribeiro, poeta quinhentista português e autor da novela de cavalaria, de matriz passional, onde tudo acontece num tempo e num lugar inapreensíveis, entre uma Moça que vagueia por montes e vales e ouve as histórias que lhe conta uma «Dona do Tempo Antigo», a qual partilha com a Moça as desventuras que ocorreram a cavaleiros e princesas naqueles mesmos montes e vales de saudade aguda; Denise lembra, em alguns instantes, esse mundo fantasmático do autor da novela de 1554. Logo no primeiro conto-poema, uma frase: «Viajávamos para os longínquos arredores do nunca», numa alusão à viagem que o sujeito da narração – uma menina de treze anos – faz com o seu pai. O mundo visto por essa menina é um mundo de «estradas desfocadas», de morros e lâmpadas velozes». O mundo?, um «resumo do sonho». Essa menina, despertando-lhe o desejo subtil que o pai tenta represar, impede que, no trem onde viajam, a filha se encontre um um «moço bem talhado», aquele que ela desejava que fosse «o seu primeiro rei». Olhando-se, mirando-se, menina e rapaz irão perder-se, depois de o pai da menina desaparecer (o leitor que entenda como – não quero contar tudo aqui), «em nossas próprias estrelas». «Trocamos nossos nomes sob pensamentos nebulosos», diz a protagonista da acção, aqui já identificada como narrador de primeira pessoa. Nome dele: Leste. Nome dela: Claridade. Nascidos para os novos nomes, o que importa ver nesse conto, como, de resto, em todos os outros, é a capacidade de Denise em tornar alegórica, simbólica, aquilo que na acção pareceria tomar um curso muito concreto, realista e que, de repente, se transforma, em sonho, mito, alusão. Leste, eis um nome que reenvia para o próprio sentido da viagem que menina e pai fazem – vão para o Leste? Para o país da última utopia, a URSS, num tempo antigo? – e ela, chamando-se Claridade, é a própria possibilidade de a alegria acontecer nessa viagem enigmática que, neste conto, não é já a que se faz no trem, mas a que o amor faz acontecer.

Denise Emmer domina a sintaxe de modo raro. Frases curtas, entresachadas de imagens poéticas densas, («Abraçou-me com cuidado e segredou-me um par de asas»), e ambos amam o seu amor – dizem. Separados quando o destino assim impõe, é a espera outro tema forte deste conto, «O primeiro rei». Logo, a espera, a saudade, a compreensão do amor. Tudo, porém, parece dar lugar ao afastamento, à separação. Leste não será mais o rapaz que Claridade conheceu... O leitor que leia, que aprecie a técnica narrativa de Denise, sua capacidade de nos colocar dentro dum país outro, o dos sonhos, por vezes tão reais.

Na sequência destes contos, outro há que «sem começo, sem meio e sem fim» se jogam no limite da comunicação. «Ninguém não é ninguém», lê-se no conto em que a figura de um velho concentra a moralidade. Ninguém é o nome desse velho. Se as coisas existem quando lhes damos um nome, e nada há que nos impeça de colocar a tese de que, sem linguagem, a realidade, inomeável, não existiria, esse velho vive o paradoxo (e nisto Denise lembra Clarice Lispector) de ser a figura encarnada do inexistente. Desde logo porque seu nome é «Ninguém». Nome próprio, note-se. Que vida é a desse personagem da ausência? Ele conta o tempo. Na sua casa não existe gravidade. Ao contrário de Newton, nenhuma maçã cairá sobre a sua cabeça para que ele compreenda o sentido da realidade, seu peso, sua complexidade. É, até certo ponto, uma kafkiana personagem a que, o que lhe acontece, é nada.

Por isso cigarros e cigarros lhe queimam os dedos, gastando--lhe, depois, os lábios enrugados. São as formigas, quem sabe, a sua ocupação principal: contar o tempo, contando formigas. Uma Macabéia do nosso tempo, este Ninguém. Sua casa? «Um ponto sombrio no espaço». Sua casa? «um espaço negativo».

Figuração da loucura? Ou da extrema lucidez? Não sei se haverá resposta. Uma frase sintetiza este mundo: «Ninguém não ama ninguém». Outra: «E ninguém ama Ninguém». Por vezes Ninguém pensa ter morrido. É a morte libertadora que, de resto, Denise procura, talvez inquirir aqui.

São, portanto, contos, poemas, textos que se escrevem ao sabor de uma torrente de imagens que é impossível negar. Se me perguntassem qual a tese da maioria destes contos, diria que há uma constante, um padrão e que talvez isso possa funcionar como eventual tese, nó górdio deste belo livro: a interrogação sobre os nomes e seus sentidos. Dizem que os índios dão às palavras o poder quase profético, antecipando nelas o que os factos trarão depois. Se se diz uma palavra, essa palavra é já o início da coisa. Um pouco como nessa novela sobre a linguagem e seu poder de realização, A Pérola, de Steinbeck. Um conto, dos mais surpreendentes que tenho lido, ilumina o que aqui digo. Uma personagem chamada Metamorfose (a linguagem é a grande personagem destes contos, eles mesmos prosopopeias) figura a alma e o que, transcendente, a alma pode receber, ou absorver. É uma mulher especial, Metamorfose:
ela adquire formas, ela é a volubilidade feita corpo.

Emmer, possuidora de uma imaginação prodigiosa, fá-la ser árvore, noiva, a narrativa escorre como essa água das imagens que tantas vezes parece motivar o mundo de fragmentos deste livro:
Ela agora era uma noiva a procurar o seu homem de olhos fundos. Ao fim da escada, casou-se com um vulto e saiu de braços dados com a morte. Seu ventre inchou tão logo a maré subiu e, depois de nove luas, pariu uma criança sem rosto. Por um tempo a amamentou de leites celestes, a acalentou com canções de despedidas, até que seus cabelos misturaram-se aos rios e ela transmudou-se em corredeiras desnorteadas.

Foi-se com os seixos a rolar na correnteza, embrulhada em seu vestido largo de fêmea cheia. [...]

Narrativas onde os planos do real e do sonho se justapõem, onde o lugar da transfiguração é assegurado por uma gama de recursos que Denise controla (a alusão, a frase assindética, as metáforas onde o evanescente se edifica).

Neste O Cavalo Cantor, como acontece com Metamorfose, tudo é outra coisa, ou a possibilidade de outra coisa. Árvore, noiva, mãe, música, estação do ano – o Outono – essa mulher que é «tudo de todas as maneiras» é um símbolo poderosíssimo. Não por acaso, será água no fim do conto. Mas o ominoso da última imagem faz-me pensar até que ponto esta Metamorfose não é também uma encarnação do que na vida se frustra, se interrompe.

Regresso ao conto «Três Minutos» para terminar. Conto sobre essa categoria invisível, mas tão presente em nós: o tempo.

Fala uma primeira pessoa. O que me interessa ver é o modo como magistralmente Denise Emmer conjuga esse tema com a paisagem circundante, as pessoas, os transeuntes que passam pela protagonista naqueles 180 segundos, a qual, em demanda da sua «atraente aventura» se irá encontrar com o seu algoz. O que é magistral nessa narração – o modo como Denise desloca o olhar do leitor para o espaço e seus pormenores:
Encosto-me a um poste encardido para ver se ele me enxerga, mas eis que desvia o olhar para dentro de si. As folhas secas, como humildes súditas, se afastam para deixá-lo passar.

Mantenho-me firme, mas internamente retraio-me. Poucos segundos, e já pressinto o seu cheiro de uísque com sensual perfume. Hoje ele vestiu uma cara de animal predador. Um felino arisco de vasta juba e corpo de homem a trajar uma roupa pesada que alonga suas pernas magras. O vento chicoteia uma rápida rajada e ele chega à minha frente [...].

O resto é o desenvolvimento do tempo em termos de erotismo rude e paixão estrepitosa. Mas a frase é ritmada, polida.

A cena do encontro dos corpos é de uma violência desejada: o corpo do homem, «fera da noite», o dela «magro e franzino».

Não há palavras ternas, apenas o movimento cadenciado dos corpos, aceleração e descompasso, harmonia e desacerto. A descrição do homem, símbolo de poder nesta relação, obedece à lógica das relações depredatórias: «acende os olhos em duas chamas de sangue e crava, em minha carne branca, as suas garras afiadas». Vampiro desejado, «doce vampiro», para recordar a dolência de uma música sensual de Rita Lee, que conto é este? É, a meu ver, como tantos outros, um conto sobre a humanidade, isto é, sobre nós.

Caçadores, uns, presas, outros, estes contos são viagens ao âmago do corpo e da alma, do corpo em confronto com a alma.

O homem, esse animal demasiado humano, como disse Pascal, eis o problema. E a solução. Como essa personagem que, mulher, tem a consciência do trágico, Denise Emmer parece vir dizer-nos que é justamente o trágico o problema e a solução do homem. Trágico supõe heroicidade, elevação, rasgão nos actos e nas ideias. Uma existência edificada sob a noção da nossa grandeza e miséria. Tal como a mulher que abandona esse felino que a suga, também é preciso dizer não, saber dizer não ao tempo. Sobretudo a este tempo em que vivemos, tão duro, tão veloz, tão enlouquecido. Essa mulher, regressada à monotonia da vida familiar, ela é tudo o que somos. Ela o cavalo cantor escolhe a segurança dum quotidiano mais ou menos previsível. O sol brilha, o filho joga no computador, ela penteia seu filho. Denise Emmer, nestes contos que vêm sempre preparados com uma ilustração em jeito de legenda, como que a esclarecer ou a tornar mais obscuro o sentido do que vai ser narrado, oferece-nos neste seu livro uma fórmula curiosa, ou instigante, para compreendermos a sua literatura, a sua proposta:
Comigo as coisas da criação acontecem sem que eu saiba. Surgem do nada ou do fundo de mim, talvez da alma. Eu apenas aproveito a ideia passando no ar e coloco no papel.

Estes contos, que não sei se surgiram desta forma tão inocente e passiva, são textos trabalhados. Mas, nisto estamos de acordo, Álvaro Alves de Faria e eu: «estamos diante de uma obra que respeita e dignifica a literatura» porque há um compromisso de Denise entre palavra e acção, ou entre realidade e sonho. Dessa matéria se faz a própria vida – dos sonhos.

 

O primeiro rei

 

Por acaso, num tempo antigo, quando os trens atravessavam ilhas e unificavam as lendas, eu o conheci.

Viajávamos para os longínquos arredores do nunca. Meu pai, ao meu lado, controlava meus olhares, meus suspiros e meu sorriso, todas as vezes em que eu me virava para as fileiras de trás. Treze anos, catorze anos, a ver os acontecimentos serenos passarem pela janela do trem como morros e lâmpadas velozes e também árvores de muitos braços, cordilheiras apressadas, estradas desfocadas, gados gordos. Para mim, o mundo era um resumo do sonho e eu sentia as patas gentis de um cordeiro sobre meu ombro. Algo assim, qual um feixe de sol. Uma camisa arregaçada a vestir um braço esguio. No pulso, um relógio que marcava as horas pela rotação dos circos. Quando quis levantar-me para vê-lo, meu pai escondeu os meus sapatos para que eu não caminhasse. E me cobriu com reticências e silêncios para deixar-me fora dos circuitos.

No entanto, ele me olhava de soslaio e cruzávamos nossas vidas como podíamos, entre curtos intervalos de olhos e faíscas. E eis que virou, apressadamente, as muitas páginas de um livro até sentar-se em nossa fileira. Próximos e possíveis um para o outro, nos olhávamos tanto quanto nos queríamos. E nos queríamos. Apesar de eu não compreender exatamente a pulsação das duas peras que eram os meus seios ainda não nascidos. Naqueles tempos de aviões sem hélices, as maçãs caíam das árvores como beijos de carmim. O moço bem talhado a estibordo, seria o meu primeiro rei. Trajava uma blusa voadora por dentro da calça preta cinturada, que revelava o corpo de um homem romanesco.

Meu pai, sem saber, nos intercalava. Mirava somente o caminho para o qual queria me levar e não via nada além dos horizontes frios. Quando eu lhe perguntava sobre as árvores que cresciam à nossa frente e os seus gemidos na noite, ele nada dizia, e voltava-se para os seus Tratados Sovietes. O país da utopia para onde me levava. O destino do nosso velho trem, cujos trilhos apontavam para uma terra glacial de raros sorrisos. “Salvemos a humanidade, minha filha”, ele me dizia.

Assim, adormeceu um longo sono e não assistiu à passagem das décadas que me habitariam no futuro. Partiu para mim, embora permanecesse ao meu lado, e foi levado por sisudos soldados para lavar as estátuas das praças geladas e içar as anciãs bandeiras sem ventos.

Acenei para o meu primeiro rei e o deixei chegar. Por um tempo infinito, quando talvez por muitas vezes as pessoas se arrastassem famintas pelos corredores do trem ou as nuvens mudassem seus enredos, nós nos olhamos. E nos perdemos em nossas próprias estrelas a viajar para dentro de nós mesmos. Sem palavras que coubessem nos lábios, trocamos nossos nomes sob pensamentos nebulosos. Eu o chamaria de Leste e ele me teria por Claridade. E nascemos naquele instante sem que os anjos soubessem. Sequer as comportas se abriram, ou a Lua inflamou seu ventre vermelho.

Papai, já distante e adormecido na poltrona do trem, não observou os novos movimentos ao seu redor, quando eu e Leste nos sentamos lado a lado. Tão juntos, a esbarrar os ombros, as roupas, os tons de nossas almas e afundarmos nas marés do inefável para nos fitarmos mais e mais. Não sabíamos o que fazer. Se tirávamos um lenço dos pulsos, ou se bebíamos uma taça com nossos hálitos tão próximos. Se puxávamos um cometa ou dançávamos uma balada de árvores. Assim, ele pousou a sua mão na minha mão e a levou para uma passagem úmida e meus olhos encheram-se de rios enquanto os dele diziam-me do amor imprevisto. Abraçou-me com cuidado e segredou-me um par de asas. Meu corpo tremeu uma floresta de eucaliptos, enquanto eu acariciava seus pássaros.

“Claridade, amo seu amor”, ele dizia, entre respirações e sopros de curtas palavras. E a aurora derreteu-se em cores que iluminaram nossos corpos, qual a inauguração de um grande acontecimento. “Leste, amo seu amor”, disse-lhe entre espasmos e espanto. Logo depois, as constelações sonharam por nós e um beijo riscou a noite de frutas vermelhas.

Por um longo tempo da viagem, assim permanecemos, enredados em nossos corpos como se deste modo sempre fora, por toda a vida e daqui para frente uma única história se conceberia. E, quando tocaram as sirenes, ele saltou do trem e me disse num aceno entristecido: “Espere por mim”. Assim estava determinado pelos juízes, que ele partisse. Nós nos encontraríamos na próxima estação no dia a seguir. Dessa forma, prometeu-me e ergueu uma ponte sobre o sol. Faltava-me agora uma porção. Ao meu lado, um vácuo de silêncio mergulhava--me em profunda solidão. Ou a indizível queda no espaço, escuridão cósmica infinita de um grito sem ecos.

A manhã abriu-se como um envelope vazio. As casas, se não eram ruínas, seriam asilos de criaturas adormecidas. Nas ruas, eu esbarrava em sonâmbulos de olhos paralisados. Zumbis. As lojas anunciavam vestes para fantasmas e o meu trem já ia longe...

O vento gelado uivava entre as esquinas cinzentas. Eu portava minha mala, um peso morto cheio de retratos inúteis de família, sapatos sem rodas, diários remotos. Cobri-me com o capuz do espesso casaco e comecei a procurar por Leste. Decerto, ele já haveria de esperar-me ansioso sob uma marquise, ou sentado em alguma pedra. Talvez estivesse em frente aos batentes dos portões sem chaves ou, quem sabe, ao lado das esculturas arruinadas.

Caminhei, passos lentos, por entre as alamedas e as ruas sem voz. Tropeçava em pessoas que deliravam seus próprios pesadelos e, portanto, não me compreendiam quando indagava sobre o paradeiro de um rapaz de olhos mansos, vestido como um pássaro do leste.

Foi quando, entre a caravana de sonâmbulos a vagar seus pesadelos particulares, eu o avistei em meio à multidão perdida. Corri, com o coração aos saltos a perfurar-me a blusa, até, enfim, estar com ele. Olhou-me, olhou-me, sem parecer me ver. “Leste... Sou eu, Claridade”, disse-lhe com estranhamento.

Sem me responder, ele me olhava por cima na direção dos postes. Nossos corpos se esbarraram, como se fossem sacos surdos de bagagens. Nada mais. Sem as explosões cósmicas, sem tremores de telhados, sem os arrepios de outrora quando as estrelas nos falavam. Quem seria este que agora me apagava?

Pensei e segui a caminhar no rumo do nunca mais.

Assim, eu vi quem poderia ter sido o meu primeiro rei, a vagar sem rumo ao lado de meu pai. Ambos, adormecidos e sonâmbulos, por um tempo que só os relógios sem ponteiros saberiam.

E foi então que o improvável aconteceu e as estátuas pararam de falar.

De O Cavalo Cantor, página 21 a 24. Editora Gato Bravo.

 

 

Denise Emmer

 

 

 

António Carlos Cortez

 

Denise Emmer é poeta e musicista, e nasceu  no Rio de Janeiro, Brasil. Publicou vinte e um livros, dos quais dezessete de poesia, três romances e um de contos. Ganhou importantes prêmios literários, tais como Prêmio ABL de poesia (Academia Brasileira de Letras); Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA); Prêmio José Martí (UNESCO conjunto de obra); Prêmio PEN Club do Brasil de Poesia; Prêmio Pen Club do Brasil de Romance; Prêmio Olavo Bilac (ABL); entre outros. Participou de relevantes antologias da poesia brasileira, tais como 41 poetas do Rio, org. Moacyr Félix, Ministério da Cultura, Antologia da Nova Poesia Brasileira, org. Olga Savary, Ed Hipocampo, Poesia Sempre, Fundação Biblioteca Nacional, O signo e a sibila – ensaios, Ivan Junqueira Ed.Topbooks, Ponte poética Rio-São Paulo Ed. 7letras, bem como das Revistas Califórnia College of the at Eleven Eleven (EUA), Newspaper Surreal Poets, (EUA) e Revista da Poesia, Metin Cengiz (Turquia). Revista Crear in Salamanca (Espanha), traduzida pelo poeta Alfredo Pérez Alencart.  É bacharela em Física e Música (violoncelo). Compositora, com vários CDs gravados, também integra, como violoncelista, orquestras e grupos de câmera. Apesar da versátil personalidade, a essência de sua criação, é, fundamentalmente, a poesia.

António Carlos Cortez. Poeta, crítico literário e professor português. Professor de Literatura Portuguesa, crítico e ensaísta, é colaborador permanente, com crítica de poesia, no Jornal de Letras, nas revistas Colóquio-Letras (Fundação Calouste Gulbenkian), Relâmpago (Fundação Luís Miguel Nava), Agio (Ed. Artefacto), Pessoa – revista da Casa Fernando Pessoa e Letras Convida – revista de artes, literatura e cultura do Centro de Literaturas e Culturas Lusófonas e Europeias da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Investigador pelo mesmo centro, CLEPUL, e do Instituto de Estudos do Modernismo, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas. Publicou vários livros de poesia, destadando-se Ritos de Passagem, 1999; Um Barco no Rio, 2002; A Sombra no Limite, 2004; À Flor da Pele, 2008 e em 2010, Depois de Dezembro (Prémio da Sociedade Portuguesa de Autores / RTP – melhor livro de poesia de 2010), O nome negro, 2013; Animais Feridos, 2016; A dor concreta, 2016 (Grande Prémio Teixeira de Pascoais), Corvos, cobras, chacais (2018) e Jaguar, em 2019. Em 2005 publicou Nos Passos da Poesia – estudos sobre a pedagogia do texto lírico. É conselheiro para a leitura do Clube UNESCO, em Portugal. Prepara doutoramento em Estudos Portugueses – poesia contemporânea (sobre a poesia de Gastão Cruz).

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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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