ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Marco Antonio


Coisinha da glória    

O rapaz com lenço rosa na testa falava com o corpo em revertério, de ponta à cabeça roxo, no buteco diante do puteiro. O gravador ligado sobre a mesa registrou aquele show de mistério, que mais tarde ouvi outra vez, quieto e de sobreaviso em casa.

A bicha tinha mesmo encorpado, ou melhor, incorporava, haviam me contado. Estava quase sempre amarrada, possuída na Glória, obrigada a dar voz a uma coisa piranha, esta Marlene, profissional transgênero daquela zona, sempre à vontade pra dizer umas verdades. Que ela disse querer muito bem escritas, pra não se sentir ameaçada com perseguição.

Na manhã seguinte à nossa entrevista, anotei o falatório inteiro e deletei o arquivo que serviria de prova. Quem é que iria querer manter gravadas aquelas frases, contra a vontade dela, ditas com tanta voz e intenção? Fiz o que pediu.

— Obrigada — ela disse mais tarde. — O que vale é escrito.

Eis o recado.

"Aí, vieram me desdizer, dizer que não era capaz de pôr ritmo e tanto pensamento em palavra escrita, porque faltava-me a devida instrução de homem! Esses quindins não valem um quinhão. Agora que encontrei você, meu canal, faço meu passamento, digo meus queros, e pensem eles mal ou bem.

Garoto bom! Se soubesse como, comia os vadios...

Não, não provoco mais. Estou velha há mais tempo que estive nova.

Garoto, muitos desentortaram pra mim culotes magros, dos cabeludos e também dos raspados até à barriga, desde as coxas. Desenganei quase todos os tipos machos do mundo. Sou eu: Marlene, esta coisinha da Glória. Nasci. Quero mostrar que posso fazer o bem com você. Um rego fino como o meu não merece escrita só no papel grosso, o miserável que se encontra pelas privadas do mundo! Senta aí. Sossega o facho, aprende a ser homem, porque essas coisas que tens aí, por maior que seja boa, fará pouco a minha cabeça, não quero. Tu vai ter que ser mulher, garotão, pra aprender a ser de novo homem se quiser ficar comigo. Solta mais o quadril, safado... Aliás, põe ele nas pernas, nas cuecas. Vai ter que voltar a usar se não as tem, pra não revelar tua vaidade. Nem por isso vai deixar de ser homem. Essa vaidade vai te afastar dos vícios, vai ensinar a usar isso que tu tens crescido. Falo séria. Não me largue agora, amor, se arrependerá depois. Escuta a Marlene, se for por bem, por causa da conversa. Se por mal, toma que nem remédio, que nem cuspe. Sei que enche por dentro, entope, às vezes volta pra garganta. É, enjoa sim. Aí, põe pra fora, desabafa a porra no cimento.

Em cima de mim não!

Não sou confessionária e meu corpo não é balde de lágrimas nem à força de simpatia. Digo o simples, não zangue comigo por causa da sacanagem. Minha profissão é mesmo esta de foder e ser fodida. Aprendi todas as línguas de lombo largo. Com os vadios, medrosa a princípio, botando meu cuspe pra fora no asfalto, imitando mulher no peito. Sim. Sim. Tudo que inicia começa igual: sabe nada! Foi o caso daquele primeiro, fazendo a zorra de homem macho na frente do mundo. Quando que viu na rua euzinha, reclamou desta coisa que eu trazia, querendo mulher. Mas me chamou pra intimidade. Dentro, comigo desembrulhada mudou-se, querendo o presente. Chorou, chorou sozinho. Queria o quê? Euzinha. Mas dizia que não queria. Ai confusão! Estava desesperado. Se eu quisesse, botava pra dentro dele minha coisinha, forçando no muque. Era o que ele queria: tomar no cu pensando que não queria. Mas eu, usar assim minha coisinha? Nunquinha de graça pra malandro. Não me desgasto, sabe? Sou orgulhosa. Quanta coisa passei por querer me desfazer dela. Cortar, mamar, torcer. Quando, enfim, resolvida a assumir meu lugar no mundo, e coloquei à venda, malandro chorão surge numa de fazer bom uso. O mau sente no cheiro o bem-estar da gente. Eu nas ruas, sorriso aberto um pouquinho mais um tanto no início de carreira, e o corno-galhudo no carrão quis pensar que podia fazer tudo, e não ser cobrado. Pra puta que pariu! Se quiser me dar, vai ter que pagar, viado!, eu disse. Ele pagou. Eu falei e ele gemeu gostoso como um homem. Daquela vez, ainda saiu dizendo que foi obrigado. Mas gostou, voltou pra coisinha.

Apesar da falta de experiência, me senti segura. Tenho muita confiança na minha coisinha, sabe, que nunca falhou por bobagem. É pequeninha, e nos malandros apertados vale um bom dinheiro. Escuta só: quando me veem na rua, desembrulhada, os homens sentem a vontade da ré, e malham meus peitos bicudos. Nem ligo, passo: não quer, foda-se duro! Cobro bem porque faço gozar na mão, mando bem também com a língua, e posso gastar horas inteirinhas com a coisa reta também no papo. Estive sempre boa de saúde, garganta tem que estar boa, senão de quê viver? Convenço com qualidade e a melhor técnica. Sem emoção. Emoção só pro amor, com minhas gatas malhadas, minha paixão, que eu crio no meu quartinho. Elas são minhas delícias. Vivo por elas. Meu dinheiro eu faço por causa delas quando me deito na cama. Elas vem me abraçar e esqueço o mundo que me trouxe ao mundo. É bonito.

Adoro Betoven. Faz coração saltar mais forte, em cima, embaixo, a criação dele muitas vezes inspira meus boquetes. Minha vida é essa. Coisinha da Glória, dizem meus fãs. Outros querem me desmotivar, porque sou boa, porque ganho dinheiro, porque tenho fama e não guardo mistérios. Sou o que sou, não deixarei de ser porque uns não ganham dinheiro com pau grande. Se minha coisinha é sucesso, daí? Mandem-me os não-iniciados, os virgens, aqueles que não suportam ou não se preparam. Que lástima se são maioria! Eu nunca tive problemas com quantidade. Aprendi cedo a fazer coisas crescerem.

Mas também me preparo. Comecei em casa, com o salame da geladeira, entrando cada dia mais. No banheiro, é claro. E voltava o salame pra geladeira. Não devo dar ré? Peraí... O que você sente eu sinto igual. Senta a mão aqui. Aliás, é melhor não. Periga você gostar, se pôr a mão te ponho a perigo. Depois vai me culpar, querer me dar surra, implorar que nem fez uma noite um bobão. Arreou no chão, querendo beijo, propondo casamento pra mim, parecia uma chuva. Eu só deixei que beijasse um pouquinho, por pena. Piedade do coitado, que era um gato! E depois dei, e fiquei bem. 

Sei que a coisinha pode ser boa pra você. Não quer? Que coisa! Não? Vamos adiante.

No quarto, veio bater amiga de profissão, coleguinha irritada, meio acabrunhada por causa dos quilos. Estava magra, magérrima. Não come nada também, morre de vontade de ser que nem eu, porque eu tenho a conta modelo, a balança comigo vive depois da cama. Assim que ponho pé fora, estou sabendo os quilos que estão bem, ou se vou ter que esticar a dieta. Tenho medo da necessidade, sabe como é: é preciso corpão. São teus hormônios, dizia a noréxica, sem vontades. Eu sem pudores, quando tenho que comer, como, muito até me arrombar, e a balança na cama seguinte move pra cima um pouquinho só, depois fica normal. Eu sigo bem minha vidinha doméstica, trabalhando a vida na noite, ganhando o pão pela ré.

Não ria, safada, disse a noréxa, que te ponho olhado. Eu rindo da magra? Ela não sabe o que é ser nervosa. Pra ela, um maracujá acalma o coração vadio que é uma beleza. Na esquina, tem uma lojinha com os sucos da terra, onde ela vai sempre que ganha a mais uns trocados. Diz que vai tomar um suco. Vai lá sempre que tem moço novo. Desengana os tipos. Nos dias depois come com um apetite que espanta. E passa mal sempre, vomita os tubos. Eu disse. Muito cinco contra um na mão tampa o tesão da boca e quando quer comer, passa mal, exagera.

Que feio. Quer dizer, passar mal assim por exagero. Ou será que é assim mesmo que se trata a vida parada? Sem esperanças, apenas um exagerão, e o mundo fica colorido? Penso nisso e sinto umas ânsias passadas.

Mas não é que sou tonta. Eu não compreendo a vida com estas histórias passadas. Gosto de aquecer o presente com os ditados que ouço badalar nos carros. O som, os relógios, a calça, as braguilhas, o botão do peito, a forma da barba. São ditados que minha profissão ensina. O pó é a única coisa que me assusta. Não quero, não posso nem ver. Se me chamam pra festinha, procuro a conversa. Fico na frente obrigada se amizade, sempre se trabalho. Uns tipos quiseram me obrigar, soprei tudo. Levei porrada, fizeram miséria comigo. Voltei, dou graças, mas surrada, quase morta, a boca escancarada, e acharam que eu gostei.

Bando de broxas. Broxas sim, vão ficar.

Meu bem, você ainda não viu nada. Te agarro por baixo da mesa, feito gata, chuto bola de futebol, arrio as calças prá peidar. Ensino. Mijo em pé. Não gosto de preguiça, não é coisa de homem isso. Veja aquele que faz sentado. Coisa boa não cria. Esses me criticam. Tem muitos que me olham de lado. Quanto tempo será que falta pro entendimento de tudo? Explica o menor desejo, e desejarás, disse um alguém. Tolos. Eu respondo que tem explicação qualquer história na existência.

Acha que sou um tipo teimoso que virou euzinha, por falta de mulher na Terra? Continue. Quantas coisas mais amenas. Está bem. Vou contar algo.

Na Lapa, vive um enrustido apalermado com a própria filha. É que ela, filha dele, dono de hotel onde se vai trepar, cresceu com o negócio do pai tarada de tão próxima da sacanagem. Não que o homem a vendesse. Criava ela bem limpinha, vigiava, mas os irmãos contavam história desde pequenos, e ela, maior que eles, os ouvia, escondida, com benção da mãe, preta que achava mesmo bom ela aprender. A preta com o pai fazia como queria.

A primeira lição a filha aprendeu com o copeiro. Inventou com a mãe de levar almoço pro pai e engambelou-se na cozinha do hotel. O copeiro esperto babou seus peitos e ela arriou no chão com ele, pondo pra fora toda a vontade que tinha. Ele não acreditou que era primeiro dele, mas deu malho, meteu-lhe a coisa. Ela nascera mulher grande, quando pequena veio ao mundo com bons quilos. A moça, dali em frente, caiu no prazer de soltar prazer nos homens desse mundo. Seguiu na carreira de puta por vontade, talento absoluto. Que graça! Mas olha que um dia não descobre euzinha? Que isso, moça? Eu coisinha? Puxou-me pelos arremates, parecia um homem, a doce! Mordeu-me o silicone, Quanta coisa, ela disse pra mim. Quanta coisa! Que sofrimento. Empurrei, fugi como louca. De-ses-pe-ra-da.

Passei ano sem voltar naquela zona. Era moça pra mim, a moça. Voltei porque soube, estava namorando. Não aguentei e fui conferir o noivado. Nem tocava no rapaz, restava de lado, pouco ou nenhum metro, não ardia. Tinha perdido o furor, ou perdera eu o senso da sacanagem. Fiquei observando a festinha. Salgadinhos de doer, boa música, só faltavam uns docinhos que fui buscar na cozinha. Quem sabe? Agarrei-me com um tosco lá, trocamos um cuspinho, dava-lhe um beijo de joelhos quando entrou atravessada a sinhazinha. Arrematada com outra de beijo na boca e conversa de seios. Daí senti o furor. Meu marmanjo saiu correndo, negando o quê, gozou nas calças. Eu fiquei, parecia que ouvia. Betoven. A noiva me notou olhando. Incomodou-se.  A outra subiu seu vestido, lambeu-lhe a calcinha, enfiou o dedinho com gosto, até que a noiva também se mandou desgostosa. Puta!

Mas não é? Estava incomodada. Incomodada com tanta gente e tanta festa? Eu só estava olhando. Quando lembro dá vontade desesticar. Sim, desestiquei na hora, foi forte a pressão da coisinha. Mas não ia fazer nada com ela. Correu à toa. Que lástima, coração. Às vezes, acho que perdi direito à fácil felicidade nessa parada Terra. Quem manda nessa porra escrota deseja que eu desapareça. O máximo do bem que permite é que eu fique na vitrina pros que querem ver, sentir. Eu não tenho forças pra fazer mais. Vocês vão ter que se virar. Engole."

 

Marco Antonio é carioca, cronista e contista. Publica também nas revistas eletrônicas Rubem (www.rubem.wordpress.com) e Literatura e Fechadura (www.literaturaefechadura.com.br). Vive no Rio de Janeiro.

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SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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