ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Hermínio Prates


O pardal e a brisa    

Uma brisa na manhã de domingo revirou papéis picados jogados na sarjeta. Um dos papéis, pouco maior do que uma polegada, de um amarelo vivo, talvez resquício da embalagem de um presente infantil. Ou de um bombom, uma bala doce, quem sabe?

O homem dentro do carro aguardava o amigo na porta da casa e olhava o nada, deixando que a imaginação acompanhasse as piruetas do papelucho tocado pelo fraco sopro do vento. O amarelo revirava, brilhava sob o sol, parava retido pelo meio fio; se desgarrava e vinha, trazido para o não se sabe onde.

Sob o sol, apenas uma cor na ínfima lembrança do que fora uma prenda, agora a caminho do lixo urbano. Era um mínimo pedaço de papel, mas por ser de um amarelo vivo, assim não o viu o pardal pousado no galho da amendoeira, árvore que é a primeira a florescer no final do inverno, indicando a chegada da primavera. Para a avezinha era uma borboleta, dessas que sugam a água e o sal da terra nas poças de um dia de chuva após longa estiagem.

Em voo rasante, o pássaro apontou o bico para o lhe pareciam ser asas tremulantes. A brisa moveu o amarelo para mais longe, o pardal se aproximou, aos pulinhos, sem precisar bater as asas. Duas, três tentativas depois, finalmente a diminuta ave obteve o prêmio, que se tornou um logro quando percebeu, pela sensibilidade da língua, que aquilo não era a asa de uma borboleta e sim um indigesto produto além de seu mundo. De um impulso, voltou para o galho, o bico ajeitando as penas, os olhinhos atentos em busca de alimento.

Será do entendimento do pardal que nem todo amarelo é asa de borboleta? Ou o fiasco de um segundo não deixa nenhuma lembrança? O observador ficou pensando no logro do pássaro: bicou o que viu, não comeu o que esperava.

Não seria assim no mundo dos homens? Na política, por exemplo. Em um lampejo de esperança há quem vote em uma promessa, idealizando o que poderia ser, mas se frustrando a cada eleição. Ou o candidato prometedor não é eleito ou, se vence nas urnas, se omite nas ações. O eleitor é o pardal, o candidato é o papel colorido.

Ou seria o contrário? O eleitor é o papel colorido que revoluteia ao sopro das paixões e o político o caça com o bico do oportunismo. Afinal, é da natureza dos pardais a disseminação do engano.

Explico: o danadinho de poucos centímetros, da família passaridae, adapta-se facilmente em áreas urbanas e se tornou um cosmopolita. É a ave com maior distribuição geográfica, vive em todos os continentes. Essa espécie invasora, numericamente, é a segunda ou terceira ave do mundo, superada apenas pela galinha doméstica e o estorninho.

Originário do Oriente Médio chegou à América em meados do século XIX, primeiro em Cuba, depois aos Estados Unidos, e no Brasil no comecinho do século XX, quando o prefeito do Rio de Janeiro, Pereira Passos (1838-1913) autorizou, em 1903, a soltura do pássaro exótico trazido de Portugal.

O objetivo era que os 220 pardais exterminassem os mosquitos da febre amarela, malária e outros insetos transmissores de enfermidades que infestavam a capital, mas a ave que não canta bonito não fez o serviço, proliferou sem controle, se espalhou pelo país e é uma ameaça para a agricultura e outros pássaros.

Os que o defendem o têm como insetívoro, os que o condenam o acusam de granívoro. Os predadores naturais são os gaviões e as corujas, mas até esses estão ameaçados de extinção graças ao avanço das máquinas sobre as florestas.

O pardal é esperto, desconfiado, não se deixa surpreender. É antigo, citado até na Bíblia em alguns salmos (84, 102) e mais velho do que as areias do tempo, tendo surgido no período Terciário, entre 65 e 2 milhões de anos. O onipresente bichinho alado tende à eternidade.

Na obra de ficção científica “A máquina do tempo”, o escritor britânico H. G. Wells (1866-1946) menciona a existência de pardais no ano de 802.701. Tal como as baratas, têm a fama de antediluviano – “per omnia saecula saeculorum”.

Eles não merecem poemas, no máximo um trava-línguas de domínio público: “Pardo pardal por que palras?/Palro e sempre palrarei/Porque sou o pardal pardo/Palrador d’El Rei.”

 Se fossem apenas insetívoros, seriam uma dádiva, mas eles só o fazem nos curtos períodos de procriação, quando capturam insetos para alimentar os filhotes. Já que são granívoros, se assemelham aos maus políticos que atacam os cofres públicos com a fome dos infernos.

Aí está o teorema: insetívoros seriam os bons políticos; granívoros os péssimos.  Sim, os pardais são onívoros e oportunistas, assim como os políticos. Não todos, é verdade. Com boa vontade dá para salvar uns ... quantos mesmo?

 

*Jornalista
herminioprates@gmail.com

 

 

Hermínio Prates é jornalista, escritor, ex-professor universitário de Jornalismo, Rádio e Teoria da Comunicação na UFMG, UNI-BH, PUC e Newton de Paiva. Foi repórter e redator do Diário de Minas, Jornal de Minas, Minas Gerais, Rádio Itatiaia, diretor de Jornalismo da Rádio Inconfidência, chefe das Assessorias de Comunicação das Câmaras Municipais de Sabará e de Belo Horizonte e da UEMG – Universidade do Estado de Minas Gerais. Publica regularmente contos, crônicas e artigos em vários jornais mineiros. Autor dos livros Família Miranda - Vidas e Histórias ( ensaio historiográfico) e A Amante de Drummond (contos).

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