ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Grupo Estilingues


Homenagem a Sônia Peçanha    

Sônia Peçanha viveu para o mundo dos livros: escreveu contos, ministrou oficinas literárias, revisou originais, entre outras coisas, e deixou a vida nesse sombrio 2020, ainda que não tenha sido vítima do vírus. Além de participar de muitas antologias, inclusive três com o Estilingues, coletivo com mais de 30 anos, e de conquistar vários prêmios, publicou três livros de contos, “Depois de sempre” (Editora da UFF), 1992, semifinalista do prêmio Jabuti; “Traição e outros desejos” (Objetiva), 2001; e “Relógio d’água” (Patuá), 2018. Em sua gaveta, repousarão outros contos, histórias infantojuvenis e pelo menos um romance.

A seguir, cada um de nós do Estilingues, grupo que se formou em uma Oficina Literária no final dos anos 1980, trouxe um pequeno testemunho de nosso convívio com essa mulher que, além de escritora madura e sensível, que seus livros não deixarão esquecida, foi amiga meiga, de poucas e certeiras palavras, de sorriso e abraço acolhedores. Alguém que, numa oficina, numa entrevista, numa reflexão sobre leitura, ou seja, diante da plateia, trazia à luz, superando a aparente timidez, a voz assertiva que amava os livros, compreendia a sutileza das tramas, sabia da importância política da Literatura.

Os textos escritos a seguir são muito pessoais e expressam a dor dessa perda, mas também a alegria da trajetória conjunta, da amizade que se consolidou a partir da escrita (e da leitura). Escrevemos com nossa memória plena dessa grande amiga, nossa Soninha, mas não nos esquecemos da família Peçanha, tão ligada a livros — sua mãe é escritora —, e de sua companheira, a querida Andréa Bastos.

Agradecemos aos editores da InComunidade pelo espaço concedido desde o mês passado, quando foi publicado o conto “Wish you were here”, um pequeno exemplo da poesia e profundidade da escritora, e que se prolongará por este mês, com nossa homenagem, e pelo próximo, quando Nilma Lacerda analisará a literatura produzida por Sônia Peçanha.


Sônia

Espichar pela ponta da tristeza
espichar até que, solto,
o fio permita confeccionar
o agasalho com que me protegerei
de tua ausência - de tua presença
em outra dimensão,
como é o teu modo de entender o fim.

Tricotar esse fio e, aos poucos,
ver a lã de cor aguda
mesclar-se à plácida
como duas vozes
em canto
em oração
em luta
como a tua voz
leve e presente
irônica e assertiva
sábia e humilde.

Tricotar os fios de tua cabeleira
num colete de gola em V de vigor
numa saia justa de poesia
numa lembrança de teu
sorriso, de teu olhar pronto
a reinventar o mundo, para o qual reservas
água, ar, intensidade
azeite, pão e o gesto
solidário carregado pelas mãos
: as tuas.

Tricotar o frio no fio
a presença na ausência
a alegria na tristeza
a saudade na comunhão
a espera na fúria
tricotar, com cuidado,
teu estilo no meu
teu brilho no da Cristina
teu segredo no da Marilena
teu amor no da Miriam
teu silêncio no da Nilma
teu aprendizado no da Vânia.

Ver a luz
— atirada do Estilingues
(tua e nossa palavra de vida) —
acertar o pássaro amoroso
que, em pios de conforto, assume
a tarefa de cuidar de ti

: aceitar teu voo.

Alexandre Brandão
Contista, cronista e poeta, lançou recentemente “Nenhuma poesia: uma antologia” (Editora Patuá). Mantém o blog No Osso (noosso.blogspot.com).


Para Soninha

Nesse 2020, ano de tantas perdas, foi difícil aprender a viver sem abraços, sem a proximidade do mundo, do Outro. A pandemia nos confrontou com a fragilidade inerente ao humano: perecemos, é a única certeza. O corpo é casca e morada provisória. O resto é poesia e cosmo. Ou sabe-se lá o quê.

Nesse catálogo de ausências, nossa Soninha se foi. Partiu para uma aventura que desconhecemos.  Partiu sem pedir licença, mas nos deixou uma delicadeza infinita. Delicadeza no trato, na fala e nas palavras. Soninha, com seus cachinhos macios e seu sorriso doce, era uma escritora daquelas que desvenda almas e inventa mistérios. Tudo com uma suavidade cortante. Ela sabia quebrar vidraças, mesmo parecendo sussurrar.  Esse rastro de palavras e histórias que ela nos deixou é o legado que nos consola.

“O tempo é templo”, escreveu nossa amiga Sônia Peçanha. Como não concordar? Guardo algumas fotos de Soninha num dos nossos encontros regados a vinho e carinho. Ali estávamos celebrando a vida. Ela continua presente, compartilhando conosco todo esse mistério.

Cristina Zarur:
Sou jornalista freelancer, escritora e fotógrafa. Uma metamorfose ambulante, como diria o Raul. Tenho pós-graduação em "Fotografia e Imagem" pela Ucam/Iuperj. Meus trabalhos são uma experimentação híbrida de textos e imagens. Ando em busca de uma poética visual. Mantenho o site https://www.cristinazarur.com/.


Soninha, querida,

Por algum motivo que não consigo explicar, minhas últimas mensagens voltaram.

Tampouco tenho falado com nossos amigos, enclausurados neste mundo fora do eixo de 2020.

Mas, como a escrita é o nosso forte, acho que um bilhete chegará até você. Afinal, foi seu aniversário, e não a cumprimentei.

Sinto falta de todos, gostaria de vê-los, mesmo que não haja planos de publicação por agora.

Tenho algumas notícias.

Alexandre, disciplinado, não para de escrever, assim como Miriam e Nilma, diligentes e aplicadas que são.

Vânia se desdobra entre a empresa e o sítio, mas tem feito poemas. Cris está no campo, onde clica o tempo todo, imagem pura. E eu me divido entre pinturas e instalações, novos caminhos.

Sei que você está às voltas com oficinas, que são um sucesso.

Segue um link com algumas fotos. Digitalizei as antigas, juntei às novas, são 30 anos de amizade, companheirismo. De mesas fartas, brindes carinhosos, ideias, momentos felizes.

Ser a anfitriã do grupo sempre me deixou orgulhosa; abro a casa com prazer, certa da boa energia de nossas reuniões, que resultam hoje em memórias e afetos.

Não deixe de dar um alô.

How wish you were here.

Beijos,
Marilena

Marilena Moraes
Ao lado da ocupação profissional no ramo do Direito, sempre cultivei nas artes atividades paralelas. Na literatura, na fotografia, agora na pintura. Nos Estilingues encontrei minha turma, seis amados companheiros.

Carta para Soninha,

Houve um tempo em que mandávamos nossos contos para os mesmos concursos, pois, se não fosse assim, nenhuma das duas ganharia. Ríamos quando vinha o resultado e víamos nossos nomes juntos.

Depois, já nosso grupo batizado como Estilingues, os livros guardavam nossas palavras bem juntinhas e as de nossos companheiros.

Releio seus textos com o mesmo encantamento da primeira vez: Inícios instigantes, finais que nos deixam com desejo de mais. Chá das três, Olhos de vidro, Noções de direito, Relógio d'agua. Pais e filhas, mães e filhos, famílias, sexo, estupro, nascimento e morte. A vida em todo o seu trágico desenrolar, contada com delicadeza.

Agora, Soninha, você se foi para um lugar onde não a podemos alcançar, mas deixou em nós a lembrança de seus cachinhos perfumados, sua presença suave, sua generosidade, sua coragem. É difícil não ter mais você ao alcance da nossa amizade, nem podermos nos refugiar no abrigo de seu carinho.

Miriam Mambrini
É carioca e formada em Letras. Seu primeiro livro de contos, “O baile das feias”, foi publicado em 1994. Nesse livro e no que se seguiu, “Grandes peixes vorazes”, incluiu contos premiados em vários concursos. Escreveu os romances “A outra metade”, atualmente em segunda edição, “As pedras não morrem” e “O crime mais cruel”, os dois últimos adquiridos pelo PNDE do Ministério da Educação. As crônicas de “Maria Quitéria”, 32 falam de sua vida de menina em Ipanema, o bairro onde nasceu e sempre viveu. Publicou ainda “Vícios ocultos”, contos (em livro e audiolivro), “Meninas em tarde de sol” (contos) e os romances “Ninguém é feliz no paraíso”, “A bela Helena” e o policial “Pássaros Pretos”.


Sônia, em afeto e falta 

Agora é lidar com isso, como disse Vânia.

Não quis ir ao enterro, menos pela pandemia e mais por uma recusa interna, coisa de criança, assim não aconteceu. Uma preguiça para as coisas da morte também, neste ano em que a morte está notícias adentro todo o tempo.

Essa notícia correu por fora da imprensa e das redes socais. Chegou íntima, de chofre, num sábado à noite. Andréa avisava aos amigos chegados que Sônia partiria em breve.

Ela partiu, pouco depois. Em nós, estupefação e dor.

Tivemos a ideia da homenagem, pediram-me o texto, que difícil.

Um pouco de biografia comum, nos conhecemos há muito, trinta e poucos anos, na afirmação da literatura. Busco as primeiras publicações dela, em sensação de que minha tarefa será facilitada pela voz de Sônia. Na dissertação de mestrado, a epígrafe de Ana Cristina César logo avisa: “sou uma mulher do século XIX/ disfarçada em século XX”.

Sou, neste momento, uma mulher tocada pela vida de Sônia. Vida corajosa, em silêncio e luz; vida vivida nos valores que os Estilingues têm cultivado: amizade, tenacidade na literatura, encontros felizes em torno do vinho, dos pães e de seus complementos. Ideias em comum, projetos, divisão de trabalho.

Outras coisas vinham de Sônia, o perfume de banho recente nos cabelos fartos e cacheados, aspirado quando a abraçávamos; o sorriso genuíno e a voz doce, empenhos de confiança, vento de infância chegando à janela. A gente abria mais a janela, abria a porta e deixava entrar a escritora rara, de sensibilidade especial para a idade criança e seus afetos, em que as palavras parecem vir daquele lugar no qual nos percebemos, ainda, emaranhados em desamparo, penumbra, lacunas e um poder que mais assusta e perde que consola e conduz.

Tocada pela vida de Sônia, rememoro a amizade. Sônia tinha fé religiosa importante em sua vida. Não precisava. Era boa e generosa por si. Partilhava com os outros o que a vida dava a ela. Tinha elegância no dirigir-se às pessoas, observava suas necessidades e oferecia formas de atendê-las, doava atenção, bens materiais, cuidados. Incentivava, amava, permitia. Reconhecia, aglutinava.

Outra coisa vinha de Sônia. O amor de Andréa, quase trinta anos de vida em comum. Costumo falar com Andréa, saber como está, como a vida se recompõe, aos pedacinhos. Por meio de Andréa sei sobre Sônia coisas que ainda não sabia. O que só o amor devotado pode falar do outro. 

Agora é lidar com isso, disse Vânia. Aceitar o voo, disse Alexandre.

Reconhecer a nova condição. Sônia ausente. Nós, presentes. Homenagens, memórias. O Mulherio das Letras Rio agora se chama Coletivo Sônia Peçanha. Nós, Estilingues, assim continuaremos. Em falta.   

Nilma Lacerda
Autora de “Manual de Tapeçaria”, “Pena de Ganso”, “Pégaso na sala de jantar”. Tradutora, ensaísta, recebeu os prêmios Jabuti, o Prêmio Rio, o Prêmio Brasília de Literatura Infantojuvenil e outros. Escreve para a Revista Pessoa de Literatura Lusófona, para São Paulo Review (www.saopauloreview), para InComunidade (www.incomunidade.com) e para o Jornal Rascunho (www.rascunho.com.br).


Aceitar seu voo

Um dia costurou palavras e estendeu seu carinho como um tapete macio. Para nós que desfrutamos de sua amizade e para muitos que dele precisavam. Carinho vestido de olhar, atenção, de doação para pessoas desacostumadas a serem vistas ou ouvidas. Fez muitos laços, com seu jeito lento e tímido abriu caminhos, elevou sua voz sem gritar, se posicionou no mundo.

Agora é um outro momento. Tantos nomes dão a isso: desenlace, descanso, partida. Como se enunciar a palavra morte destruísse nossa ilusão de eternidade. Nossa querida amiga teve um ponto final aqui. Para ela, convicta em sua crença, fez passagem para uma outra instância. Não sei bem, não sou uma pessoa de certezas. Mas se não posso acreditar plenamente nesse outro livro que se abre quando este se fecha, sei o quanto ela foi importante aqui. Somos provisórios, mas permanecemos naqueles que amamos.

Agora é lidar com isso.

Aceitar este voo e lembrar daquele outro quando ganhou novas asas para assumir seu amor, de mulher para mulher, numa sociedade ainda tão pouco segura de si mesma, que precisa fechar os olhos para as diferenças ou, o que é pior, igualar à força o que jamais será igual, numa tentativa tosca de manter o mundo cinza, triste e reprimido.

Como Estilingues voamos com ela através da amizade e dos escritos que compusemos e partilhamos ao longo destes mais de 30 anos.

Agora é aprender a aceitar seu voo solo.

Vânia Osório
Autora de “Avesso de Mim”, “Fronteiras”, “Sem Alarde” (poesia) e “Desenhando uma janela” (contos e prosa poética). Mais um livro de poemas pronto: “A horta das mínimas coisas” e um blog à deriva: rapaduracarioca.com.

 

 

 

 

Coletivo com mais de 30 anos, que se formou em uma Oficina Literária no final dos anos 80, formado pelos escritores Alexandre Brandão, Cristina Zarur, Marilena Moraes, Miriam Mambrini, Nilma Lacerda, Vânia Osório e Sônia Peçanha, recentemente falecida.

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2020


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Colaboradores de Dezembro de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adel José Silva, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Artur Alonso Novelhe, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves ; Dalila d’Alte Rodrigues, Dalila d’Alte Rodrigues, Décio Torres Cruz, Denise Emmer, Edson Cruz, Elisa Scarpa, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Grupo Estilingues, Helena Barbagelata, Henrique Dória, Hermínio Prates, Joaquim Maria Botelho, Leila Míccolis, Lindevania Martins, Luís Filipe Sarmento, Marcelo Frota, Marco Antonio, Marcos Pamplona ; Helena Barbagelata, ilustração, Marinho Lopes, Mário Baggio, Mônica de Aquino, Myrian Naves, Nilma Lacerda, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Rogelio Pizzi ; Rolando Revagliatti, entrevista, Waldo Contreras López, Wil Prado, William Vanders, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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