ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Carlos Eduardo Matos


Shoshana 4    

Antes mesmo do dia 21, quando eu sairia de São Paulo e ela de Buenos Aires, eu já estava dando choque em quem chegasse perto. O pior é que viajaria com pouco dinheiro e sem cartão de crédito, pois havia substituído o meu e duvidava que o novo chegasse a tempo. Mas os deuses high tech novamente me (nos) protegeram, e o cartão chegou no dia 20.  

No dia 21, minha primeira mensagem foi postada às 8h49:
Cariño, sou horrível em despedidas, fico coiso, comovido, apesar de não ter lua, nem conhaque, nem sabonete de eucalipto. Mas logo terei você, o que é um belo de um consolo (sem baixaria, é muito cedo pra isso). Meio estranho escrever isso mas, depois de 28 anos (Friburgo com nossas filhas foi em 1991), até amanhã. Mando beijos, não impacientes, antes aturdidos pela magia de um reencontro pra lá de improvável. 

Horas depois, quando já estava no ônibus e Shoshana a 2 minutos do embarque, recebi um vídeo levemente pornográfico com a mensagem: 
Sin cualquier intención que no sea hacer tu viaje más suavecito... No lo compartas!!!

Agradeci pela remessa do vídeo de sacanagem, alegria para a mente e o corpo, pena que não era o dela. Antes das 18h estava no apartamento de minha irmã. Shoshana só desembarcou no Galeão horas mais tarde, trocamos mensagens bobas como dois adolescentes.

A noite foi ótima, com minha irmã e uma sobrinha. Elas notaram que eu sorria muito, de orelha a orelha, com uma expressão besta de felicidade, não largava o celular, e cravaram: Namorada!! Confessei – ou antes, proclamei –, até porque minha irmã conhecera Shoshana em 1967.

O dia seguinte foi de contagem regressiva e mil mensagens.

Combinamos nos encontrar às 16h e partirmos para o hotel, onde tínhamos dois quartos adjacentes reservados. Começamos a trocar mensagens desde cedo, eu tentando adiantar a hora do reencontro mas (esperava) sem dar muita bandeira. Às 15h24 entreguei os pontos: 
Ansiedade mata a gente, morena. Chego às 15h50 e não se fala mais nisso!

Vocês assistiram a “O jovem Frankenstein”? Em dado momento, um cadáver está sendo desenterrado numa noite sem lua e de muito vento. Um personagem reclama, Que noite horrível! Outro responde, Podia ser pior, podia estar chovendo. Na cena seguinte, claro, desaba o maior aguaceiro.

Pois é, às 15h49, quando cheguei diante do prédio de Heleninha, onde estava Shoshana, fazia frio e chovia – não tanto quanto no filme, só o suficiente para divertir as panteras. Nós nos olhamos, sorrimos e nos aproximamos devagar. Ela vestia uma roupa de meia estação, o vestido tropical que prometera usar estava dentro da mala. A mecha branca nos cabelos já era conhecida, mostrada no telefonema com vídeo; lembrei que ela também exibia uma mecha na juba, quando a encontrei há 52 anos. Os corpícios, porém, só nesse momento eram vistos. 

Abracei-a como se pudesse esmagar 28 anos de ausência. Nossos corações batiam forte. Depois me afastei um pouco, deixei-a respirar, nos olhamos de novo... e começamos a rir. Estávamos ambos com frio, com os cabelos (os poucos meus e os dela), lambidos pela chuva, cada um com sua mala com rodinhas, ela trazendo ainda uma mochila que logo passou para mim. Além disso, eu tentava não perder nem amassar uma gravura que ela havia me trazido de presente – uma imagem colorida minha, pintada em 1980. Faltavam braços e mãos para segurar tudo aquilo e chamar um táxi ou um Uber, em Niterói eles somem quando chove. Fomos até debaixo de uma marquise, na esquina, ver se conseguíamos uma ligação, e nada. Não senti mais o peso de minha mala, achei que algum ET havia roubado, mas eu simplesmente a havia trocado de mão. A essa altura, nós dois gargalhávamos. A chuva e a atrapalhação cumpriam o papel de pombas que nos esmerdeassem, ajudando-nos a baixar os batimentos cardíacos e a manter a naturalidade.   

Shoshana decidiu voltar ao apartamento da amiga, onde, em princípio, seria mais fácil buscar um Uber. Em vez disso, descolou uma carona. Fui apresentado a Heleninha e a um primo dela, que riam sem parar de nossas trapalhadas. Fomos para o hotel – só não sabíamos exatamente onde ficava. Novas consultas via smartphone, risos renovados, e seguimos. Na praia, uma seta indicava o hotel. Era um prédio, sem placa que assinalasse estabelecimento comercial. Não ficava na rua apontada pelo GPS, mas Niterói é assim. Saltei para confirmar e, lógico, a seta fora colocada errado. Voltei ao carro, mais risadas. O atleta, que fazia teatro e cinema, comentou que a nossa era uma história louca, surreal. Foi minha vez de sorrir, e de dizer que ele não conhecia do roteiro a metade. Nossa motorista dirigiu uns 500 metros e, bingo!, outra seta, dessa vez correta. Saltamos, nos despedimos de Heleninha e do moço e iniciamos a fase a dois do reencontro.

O hotel ficava a uns três quarteirões da praia e não era para turistas. Ainda assim, seria uma boa sede para a catedral. 

Na recepção, fomos atendidos por uma moça encantadora. Os sorrisos dela, porém, não impediram um sério desapontamento: não ficaríamos em quartos adjacentes e sim em andares separados; pelo jeito, ganharíamos milhagem no elevador. Minutos depois, deixamos nossas bagagens nos respectivos quartos. Nem esperei o elevador, voei com armas mas sem bagagens pela escada, para o quarto de Shoshana, um andar acima. 

Sabem a catedral? Estava fechada para balanço. Em vez de falarmos sem parar sobre tudo, como havíamos planejado, lançamo-nos em uma paciente redescoberta um do outro, pontilhada de beijos e lambidas. Esse relato não vai virar agora um conto erótico, muito menos uma historinha de sacanagem; basta dizer que ainda sabíamos onde colocar as mãos e outras partes do corpo, por mais que a passagem do tempo marcasse para pior nossos corpinhos. As panteras rugiram de frustração, ao perceber que a detonação que haviam causado, amparada pela lei da gravidade, podia dificultar mas não impossibilitava nada. Ah, houve tempo para banhos a dois com sabonetes de eucalipto que não eram artesanais nem de Friburgo, mas tudo bem.

Algum tempo depois, Shoshana abriu a mochila que eu havia carregado. Estava cheia de pequenos sanduíches de queijinhos deliciosos que só aumentaram o apetite. Reiniciamos a descoberta mútua, ao som das canções de Soledad Villamil e de beijos, beijos, beijos. 

Estávamos no hotel desde as 16h40. Lá pelas 21h30 a fome apertou e decidimos sair para jantar em algum restaurante da praia. Afinal, era a orla marítima de uma cidade turística, o motorista de um táxi poderia nos indicar algum lugarzinho simpático que estivesse aberto. Lógico que não passou nenhum táxi, ventava e fazia frio, nós dois sem agasalho, mas fomos em frente. Devo ter lembrado inconsciente e imprudentemente da cena clássica de “O jovem Frankenstein”, pois no meio do caminho voltou a chover adoidado. Por sorte, havia um restaurante ainda aberto não muito longe, nos refugiamos nele e comemos duas trutas. O papo engatou, mas nada catedralesco, falamos de Buenos Aires, da filha e das netas de Shoshana, de minha filha e da minha neta e, em especial, de nossa tarde e noite antes da chuva.

A volta ao hotel foi um pesadelo. A chuva apertou, ventava mais forte, tremíamos de frio, estávamos ensopados quando entramos no quarto dela. Mais banhos, dessa vez para aquecer. Namoramos um pouco mas logo desci para meu quarto. Claro que a TV não funcionava (ou não consegui ligá-la), mas não era importante. Dormi com um sorriso bobo no rosto. 

No dia seguinte levamos uma vida mais normal. Café da manhã no hotel, passeio pela praia (fazia frio mas não chovia), rotinas de trocar dinheiro, comprar um chip brasileiro de celular, colocá-lo no celular argentino de mi pinguinita, coisas assim. Mais uma vez me encantei com a gente simples de minha cidade, que dá informações e presta auxílio com um sorriso nos lábios, sem esperar retorno (mas claro que dei boas caixinhas, afinal moro em São Paulo). O almoço foi simples, à base de peixe, que estávamos em Niterói.

Enquanto passeávamos, as revelações continuaram a fluir, mas sem o fogo de barragem de uma conversa na catedral. Na hora do jantar, uma surpresa desagradável, era segunda e muitos restaurantes estavam fechados. Afinal descolamos um simpático restaurantezinho japonês: nova refeição à base de peixes e frutos do mar. Nosso cardápio não variava.

De volta ao hotel, houve tempo para beijos e namoro (belo eufemismo, não?), mas a verdade é que estávamos cansados. Antes das 3 da madrugada eu já dormia profundamente, sozinho no meu quarto. 

Convém lembrar que não estávamos, Shoshana e eu, em lua de mel: ela havia vindo ao Brasil não só para me ver, mas também para retomar contatos e encaminhar projetos de trabalho. Assim, na manhã de terça, tomamos café no hotel, passeamos um pouco, fechamos a conta e fomos embora, ela para a casa de Heleninha, eu para a casa de minha irmã. As teclagens recomeçaram com força total, após dois dias de bendita interrupção.

No resto da tarde não fiz mais nada. A verdade é que eu estava esgotado depois de dois dias de namoro, longas caminhadas pela praia e tanto peixe e frutos do mar. Meu QI havia encolhido com tudo. Resumo da ópera: pela primeira vez em muitas décadas, fui pra cama (sozinho) antes das 22h. Minha última postagem no dia 24 para minha musa foi feita às 21h13: Ouvindo Villamil antes de nanar. Juro que escrevi isso, provavelmente babando.  

Na manhã seguinte recebi um áudio de Shoshana, falando de seus compromissos do dia e sugerindo que a gente se encontrasse à tarde. A essa altura meu QI estava mais ou menos normal, minha pouca coordenação motora idem, e teclei:
O que você quiser, onde, quando, quantas vezes você quiser. A última parte é mentira, você sabe, mas me daria muito prazer te encontrar. Beijos, beijos.

Ela, depois do almoço na Heleninha: 
Hola, você me pega às 16h, ok?

Pego e não solto mais. Beijos, beijos, beijos.

Outra mentira minha, peguei às 16h e soltei-a lá pelas 21h. Como o Sol havia se dignado a aparecer, passeamos na praia, tomamos água de coco, tiramos fotos e falamos muito, sentados num banco perto da areia. Baixou uma catedral rápida e houve revelações pesadas sobre o que Shoshana chamava de “ano de horror” antes de parar de beber. Mas não foram só exorcismos dos velhos demônios de minha musa, houve também conversas incômodas (para mim) sobre minha dependência do tabaco (fumo mais de dois maços por dia) e minha falta de fôlego para caminhar.  

Em síntese, a conversa na tarde nada teve de romântica, muito menos de erótica, mas foi gostosa e, em especial, necessária. Depois comemos um lanchinho e levei-a pra casa. Às 21h30 estava diante da TV para ver meu Flamengo esmagar o Internacional. Ás 21h49 teclei: 
Gol do Flamengo!!!

O Mengão venceu por 3 a 1, nem mandei mensagens pelos outros dois gols. 

Eu sabia que não encontraria a pinguinita no dia 26, quinta. Shoshana tinha porradas de compromissos de trabalho no Rio, estava se reunindo com a curadora de um projeto de arte para 2020. Mas havia um ponto importante a discutir: se eu reservaria um hotel para uma despedida erótica na sexta-feira ou não. As postagens começaram cedo:
Eu às 8h50: 
Bom dia, precisamos falar, beijos.

Num áudio, ela achou melhor não reservar. Engoli meu desapontamento e teclei em seguida:
Então não reservo. Falamos na sexta.

Apesar de minha frustração, comemorada pelas panteras com rugidos debochados, a quinta foi muito legal. Recebi a visita de minha meio-irmã, a quem não via desde a morte de meu pai, há 19 anos, Fiquei horas conversando com as minhas duas irmãs, foi muito gostoso. Mais do que isso, deu para desfazer mal-entendidos e queimar porradas de carma. 

Fim do parêntese familiar. No dia seguinte, as mensagens pra Shoshana começaram bem cedo. Ás 9h21:
Bom dia, quando a senhora puder/quiser falar, estoy listo.

Combinamos nos encontrar às 19h30 para jantar. Iríamos a um restaurantezinho italiano indicado por um amigo dela. Liguei para lá e fiz reservas. 

O resto da manhã e a tarde foram ocupadas por dezenas de mensagens melosas e bem-humoradas. Encontrei-a na hora marcada e cinco minutos depois estávamos no restaurante: ele ficava na primeira transversal da rua da Heleninha, a 20 metros da marquise onde havíamos nos abrigado e tentado em vão chamar um Uber no primeiro dia. Às vezes é bom Niterói ser um ovinho.

O lugar, que nem a minha cidade, era pequenino e aconchegante, ideal para namorar ao ritmo de um jantar lento, de vários pratos. Estávamos bonitos, ela com um vestido de cores discretas, bem portenho, eu com a minha melhor camisa. Sorríamos de mãos dadas quando uma revoada de pombas metafóricas invadiu e iniciou o bombardeio. A recepcionista, Marta, aproximou-se com um sorriso e fuzilou:
Desculpe, seu nome é Shoshana?

É sim, respondeu a pinguinita, com um olhar interrogativo.

Eu sou muito amiga da Débora (a filha de Shoshana), acabei de avisar a ela que a senhora está aqui. Em seguida brandiu o smartphone, para transmitir ao vivo e a cores o nosso encontro.

Minha musa foi mais rápida, girou a atleta para que o vídeo do celular focalizasse apenas a metade dela da mesa. Eu, do outro lado da fronteira (nossas mãos haviam se separado como por encanto) ouvia a voz alta bem carioca de Débora: Mãe, toda PRODUZIDA? Jantando com QUEM? Do alto de seus mais de 60 anos de praia, Shoshana conseguiu acalmar a fera sem revelar coisa alguma, afastou a recepcionista e voltamos a namorar com os olhos e sorrisos. Quem deu um sorriso cúmplice foi Marta, que logo passou a torcer pela gente, sem saber, mas intuindo, que éramos dois amantes desunidos que enfim ousavam se unir. 

O jantar foi uma delícia. Nos embebemos de água mineral (nenhum de nós bebe álcool) e da presença um do outro. Sem dar as mãos para não atrair as pombas, sorríamos, flertávamos e falávamos, a catedral reabriu com tudo. Mas foram lembranças leves e revelações insinuantes, de um casal que está aprendendo a se querer bem – embora o fizesse pela segunda ou terceira vez na vida, depois de muita quilometragem. E mais, nos raros momentos em que a conversa tendia a ficar mais pesada, tínhamos um prato cheio para apimentá-la e levantá-la outra vez: imaginar as reações e comentários de Débora quando notasse que no vídeo mandado por Marta, sua amiga de fé, sua irmã, camarada, não aparecia o misterioso acompanhante de sua mãe. Filhos, de qualquer idade, sempre acham que os pais não têm vida sentimental – sexual então, nem pensar.  

Prolongamos o jantar o mais possível, pedindo duas sobremesas – em sucessão – e dois chás. Mas afinal, pouco antes das 11h, pagamos e saímos, foi o jeito, havia gente querendo a mesa. A essa altura, Marta se tornara tiete nossa, os sorrisos cúmplices se multiplicavam e nem uma vez o celular apontou ameaçador em minha direção. Percorremos de mãos dadas os 100 metros até o prédio de Heleninha, entramos no saguão, nos beijamos muitas e muitas vezes – algo que eu queria fazer o tempo todo, no restaurante – e em seguida fui embora. 

Era sábado, Shoshana não tinha compromissos profissionais, poderíamos nos encontrar à noite. Encontraríamos um hotelzinho e, depois da noite maravilhosa da sexta-feira, eu sabia que ia ser perfeito. Não por acaso, ela havia me teclado:
Moço, foi bom o jantar, foi bom ver você bonito, bom poder conversar do jeito que pudimos hacer los dos. Sabemos un poco más uno del otro y yo aprendí o descubrí cosas de mi que no sabía.

Te habrá pasado lo mismo?

Mas havia um detalhezinho: naquele sábado, quando despontasse a primeira estrelinha tremeluzente no céu, começava a porra do Rosh Hashaná, o Ano Novo judaico. E eu, o goy, estava fora, havia primas, tias e tios, sobrinhos e sobrinhas em número suficiente pra gentio nenhum botar defeito. Eu sabia de tudo isso, aceitava, mas não gostava nem um pouquinho, na verdade estava muito puto. 

Eu conhecia há muito tempo a relação ambígua de Shoshana com o judaísmo. Ela ignorava as proibições alimentícias religiosas, era capaz de traçar um paella com camarão e carne de porco em pleno jejum do Yom Kippur, mas, ao mesmo tempo, permanecia ligada à família – o que significava, por extensão, a colônia judaica de Niterói e a religião.

A verdade é que a pinguinita estava meio clandestina. Ninguém da tribo de Judá sabia que ela se encontrava na cidade desde o dia 21; uma de suas primeiras providências foi comprar um chapelão de palha para esconder das primas, tias e conhecidos o rosto, no melhor estilo Greta I want to be alone Garbo. Mais ainda, quando ela andava a meu lado pela rua Moreira César, a um quarteirão da praia, ia receosa, pois muitas de lojas pertenciam ou eram frequentadas por membros da colônia. Mas a cada dia aproximava-se a hora da porra da estrelinha tremeluzir no céu, e aumentava a sua necessidade de informar aos parentes que estava em Niterói e participaria do réveillon (termo nada apropriado para o Rosh Hashaná) familiar. Foi o que ela fez, dois dias antes. Para tristeza minha, claro.

Isso não me impediu de mandar uma mensagem às 17h43, antes, portanto, do surgir da estrelinha empata-foda:
Moça, algumas coisas. Primeira, Shaná Tová, Feliz Ano Novo. Segunda, 5780 beijos, um por ano. Terceira, O ano que vem não em Jerusalém, mas em Buenos Aires. E quarta, adeus, meu carinho, volto a São Paulo amanhã, dia 29. Se puder, liga pra mim mais tarde, antes da orgia judaica desvirtuar o Rosh Hashaná. E numa quase rima, talvez numa quase solução, aguarde Shoshana 4. Beijos.

Mais tarde, ela me mandou uma foto da tigrada toda sorrindo feliz, roshashanando. Ela também estava sorrindo contente, la traidora, la muy desalmada. 

Já de madrugada, veio uma mensagem:
Uno empieza un año haciendo promesas y después cumple algunas, por eso nos mandan ayunar en Yon Kippur!!

Chistes aparte, como dicen los porteños y yo no entendía que era por afecto, cuídate! suerte!

Y avísame cuando llegues.

Shaná Tová!
 
No domingo me organizei para viajar cedo para São Paulo. Por isso – e pra ter uma pequena vingança dela, da família, da estrelinha, da coisa toda –, teclei às 7h52:
Buen día, cariño. Sua linda mensagem será respondida de São Paulo. Adiós, Shoshana mía. Adiós, beso tus lábios y me voy.

Mentira minha. Às 15:38, durante a viagem, mandei a seguinte mensagem:
Às vezes esbarro no teclado e segue sei lá o quê. Tudo bem, estou lendo coisas nossas no busão e mando imprevistos recheados de beijos. 

Gostei muito do torneado dessa frase que, por algum motivo, me fez lembrar da “nuvem de calças” de Maiakovski. Aparentemente, minha pinguinita também gostou:  
Recibidos y aceptados los “esbarros”, los imprevistos y los besos.

Ás 16:38, já em casa, manejando o teclado do meu computador de mesa e não do celular, pude explicar melhor:
Cariño, estoy em casa, puse la Villamil a cantar Adiós, pampa mia. Fué lo que inspiró Adiós, Shoshana mía. Durante a viagem. esbarrei no teclado quando escrevia para você e enviei uma frase incompleta e sem sentido. Com isso, me veio à mente a palavra imprevisto, recheei de beijos e mandei como presente. 

Trocamos mensagens bobas mas deliciosas até a meia-noite.

Pontilhei de mensagens o último dia de Shoshana no Brasil. Ela viajaria para Buenos Aires na madrugada do dia 1. A contagem regressiva prosseguia, as mensagens e áudios também. Tínhamos larga experiência em despedidas, mas mesmo assim... O sentimentalismo piegas quebrou todos os recordes! 

(Escrevo isso enquanto releio as postagens e escuto de novo os áudios, é tão sentimental que dá vontade de deletar tudo. Mas, ao mesmo tempo, é de uma doçura comovente, um momento de ternura na trajetória de um casal bem rodado – gostaram do eufemismo? – que estava entregue à descoberta do querer bem: não à redescoberta, que o tempo havia passado e isso era impossível, mas à descoberta mútua de dois estranhos que, por acaso, têm uma enorme cumplicidade existencial, um longo passado juntos. Então não deletei pissirongas e fiquei drummondianamente comovido como o diabo, mesmo sem Lua, mesmo sem conhaque, mesmo sem sabonete de eucalipto, que Shoshana ficou com o meu.)

Lá pras 17 h postei:
Começo agora, haverá outras despedidas. Boa viagem, meu amor. Te escrevo de novo mais tarde. Bem mais tarde. Beijos.

E a coisa continuou. Não sei como, sobrevivemos a toda aquela melação sem um coma diabético. 

Às 2h19, pouco antes da musa ausente embarcar, disparei:
Buen día, buen viaje, te quiero.

A resposta veio às 8h25:
Querido, el vuelo atrasó más de una hora... despierta desde las tres y media, argh.

Me contive por algumas horas, mas às 13h38 indaguei:
Você já chegou?

Ela, às 14h04:
Acabo de entrar. Es muy extraño estar acá.

Eu, às 14h13:
Quando você chegar em casa, mude a roupinha, descanse muito, depois de tudo isso, teclamos. Muitos beijos.

Mas mi pinguinita ainda não havia posto os pés no chão. Às 18h50 me mandou um áudio dizendo que havia dormido um pouco, que fazia um frio terrível em Buenos Aires, que estava resfriada devido à mudança brusca de temperatura e que iria jantar com a filha e as duas netas. No final, perguntou se poderia falar comigo mais tarde. 

Estranhei o formalismo, era evidente que minha musa ausente podia teclar, mandar áudio, telefonar, vir pra São Paulo ou Niterói, como carajo quisiera, mas informei:
Estou dormindo mais cedo, mas não antes da 1 hora. Ah, comecei Shoshana 4. Beijos.

Às 18h53 chegou mais um áudio e uma linda foto dela na casa de uma amiga no Rio. Eu respondi às mensagens, papinho bobo de namorados, cheio de brincadeirinhas, duplos sentidos e enleios, mas entre 10h02 e 19h05 chegaram três áudios. O mesmo padrão de namorinho de portão, o que me preocupou um pouco foi a quantidade; em média, mando três postagens para cada áudio da pinguinita. Dessa vez ela estava ganhando de goleada. 

Ás 22h07, quando Shoshana voltou do jantar, recebi uma mensagem curta.

Hola.

Teclás ahora?

Ela respondeu, quase uma hora depois, que estava lendo Shoshana 1, 2 e 3, que eu havia mandado, e não quis parar. E cravou às 23h:
Não quero teclar, quero falar.

O áudio chegou 2 minutos depois. O conteúdo, mais uma vez, era normalito. Falava das três shoshanas, que na minha opinião agora “estavam redondas, literariamente reconchudinhas”, e discutia uma ideia minha, de publicar os relatos, que já eram quatro. Depois falamos do corte de certas passagens indecentemente deliciosas, que foram (que pena!) eliminadas. E então ela perguntou se podia ligar. 

A essa altura, eu estava preocupado. Pinguins praticamente não voam, mas a pinguinita ainda não havia posto os pés em Buenos Aires, continuava enfeitiçada por Niterói e tudo que havia acontecido por lá. (Quem diria que eu, crente convicto de que “Pior que Niterói só Niterói com chuva”, um dia associaria feitiço à minha cidade natal...) Como agora estávamos distantes, ela falava e teclava, mais uma vez ganhando de goleada de mim, e saibam que não sei mandar áudios e teclo muito, para compensar.

Começamos a ensaiar a despedida às 234h47, mandando besos y besos e recebendo más besos em troca. Às 23h53 entreguei os pontos:
Y más besos. Agora vai dormir, por favor.

É o que vou fazer.

Então faz, cariño. O anjo exterminador de Buñuel sentou no nosso colo, mais no seu. Não teclo mais hoje. Quer dizer, são 23h54, daqui a 6 minutos posso recomeçar.

Mas, felizmente, não houve mais mensagens. Shoshana teve a oportunidade de dormir e, finalmente, aterrissar na Reina del Plata.

Na manhã do dia 2 – o último trecho deste relato –, recebi às 10h39 a seguinte mensagem de minha musa:
Bom dia, querido. Me arrumando devagar, cremes e loções para amaciar as unhas da pantera. Secar o cabelo, ir fazer a minha parte no ateliê. Reunião no  grupo de AA a noite e marcar terapia, retomar a defesa diária que me hace luchar con unas mías y dientes contra la parte de la pantera que ataca mi cabeza alocada y mis emociones. "Cabeza alocada" é parte de um tango, não sei qual.

Dicho todo esto, cariño, tomo otro café y me voy.

Más tranquila y consciente....

Volvemos a hablarnos.

Besos 
 
Eu já havia preparado um texto, pensado e editado, sobre o longo voo da pinguinita (belo subtítulo). Às 10h50, disparei:
Buen día, mi amor. Estou ouvindo suas canções romenas (suas e de Béla Bartók, Spotify dedura os amigos). E achando lindas. Mas escrevo sobre outra coisa.

Fiquei pensando em como você se sentiu ao chegar. Cansaço e mudança radical de temperatura explicam, mas creio haver outros fatores envolvidos.

Amor é um deles. Moça, você foi muito amada em Niterói. Em uma de suas músicas, Chico César canta: “Seja esta a nossa vênia, o nosso boi de reisado”. Cariño, você recebeu uma boiada de reisado em Niterói, de Heleninha, da mãe dela, de seus amigos da colônia, de suas primas, tias, sobrinhas e sobrinhos, de seu ex-marido e, por último mas não menos, de mim. Isso aquece o coração.

Outro fator é a família. O núcleo mais próximo está aí em Buenos Aires, mas em Niterói você foi envolvida por outra tribo reconfortante. Shoshana, você estava nitidamente se divertindo na foto que me mandou, com todas as crianças correndo e gritando, mães judias neurotizando e por aí vai. É gostoso, uma ou duas vezes por ano.

E aí tem o banho de realidade. A magia (provisória) ficou em Niterói, nossas vidas recomeçam desde 1 de outubro. Eu em Sampa, ouvindo Bartók e escrevendo, morrendo de vontade de descascar e beijar você todinha. Você, você sabe melhor que ninguém as suas circunstâncias.
 
Y seguimos adelante. Hay que retomar, pero sin perder la ternura. Y la magía, por supuesto.

Beijos, besos. 

Pouco depois (na verdade já eram 14h02, eu havia falado que este relato terminaria às 12h, mas ninguém é perfeito), ela me copiou uma velha foto e teclou uma mensagem. 

Na foto, de maiô, estavam, identificados por ela, uma tia, Sarita, o irmão de Shoshana (meu velho amigo), a própria – de expressão fechada e muito cabelo no rosto – a irmã e porradas de primas.

A mensagem era carinhosa e lúcida:
Trabalhando, almoço e a realidade voltando, achei que uma foto como essa traz o bom humor devagarinho de volta e você tem razão em tudo que escreveu. Carinhosamente, Shoshana.

Yo, el muy bruto, contesté:
Sarita dava um caldo, né não?

Ela, teclando meio exasperada (dava pra sentir a milhares de quilômetros de distância):
Dava!

Eu, um pouco menos bruto:
Ótimo, beijos, beijos, beijos.

É bom terminar este relato com uma referência a Sarita, ela foi (embora menos do que eu desejasse) uma mulher importante na minha vida. E como era bonita e encantadora, mamita mía!

Mais uma vez obrigado, Chico César, pelo “seja esta a nossa vênia, o nosso boi de reisado”. Depois da boiada de reses gordinhas que ofereci à filha nestes quatro relatos, que o “dava um caldo” seja, respeitosamente, a minha vênia à mãe da minha musa.
 
Shoshana 5

Não, moçada, não vai ter Shoshana 5.

Em primeiro lugar, porque nossa história está longe de acabar. A geringonça continua em movimento, mais sólida e mais firme do que antes da viagem mágica a Niterói. Multiplicam-se os e-mails, postagens, áudios e ligações telefônicas diárias, mas isso é exclusivamente nosso. Abrir para vocês seria levá-los a assistir a um reality show. Sinto muito, não é o caso.

No mais, temos alguns projetos em andamento. Em São Paulo, trabalho escrevendo; este livro é algo à parte; Shoshana, em Buenos Aires, é artista visual. É provável que minha pinguinita venha ao Brasil duas vezes em 2020, uma nos primeiros meses – ela está participando no processo de uma importante exposição, intermediando o contato com artistas da Argentina – e outra mais para o final do ano, para a montagem e a inauguração do evento.   Torço para que essas viagens se concretizem, seria a reedição, em um nível mais maduro e menos ansioso, do encontro de Niterói. Até lá, conforme combinamos, cuidados médicos há muito negligenciados de ambas as partes ajudarão a manter as panteras sob controle. No momento, elas não estão nem rugindo. 

Se nada disso acontecer, entra em cena “o ano que vem, em Buenos Aires”. como prometi nestes relatos. A Rainha do Prata não fica tão longe assim, e a viagem para um país de economia ainda mais detonada que a nossa não sai tão caro. Haveria, nesse caso, uns três encontros nossos em 2020, no mínimo um. É pouco, mas é o que temos. 

Carlos Drummond de Andrade, no final de “Campo de Flores”, mostrou-nos o que esperar:
Mas, porque me tocou um amor crepuscular, há que amar diferente. De uma grave paciência ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia tenha dilacerado a melhor doação.

Há que amar e calar.

Para fora do tempo arrasto meus despojos e estou vivo na luz que baixa e me confunde.

São Paulo, 18 de outubro de 2019

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2020


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Henrique Dória, Cecília Barreira, Clara Pimenta do Vale, Filomena Barata, Hirondina Joshua, Jorge Vicente, Loreley Haddad de Andrade, Maria Estela Guedes, Myrian Naves


Colaboradores de Dezembro de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adel José Silva, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Artur Alonso Novelhe, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves ; Dalila d’Alte Rodrigues, Dalila d’Alte Rodrigues, Décio Torres Cruz, Denise Emmer, Edson Cruz, Elisa Scarpa, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Grupo Estilingues, Helena Barbagelata, Henrique Dória, Hermínio Prates, Joaquim Maria Botelho, Leila Míccolis, Lindevania Martins, Luís Filipe Sarmento, Marcelo Frota, Marco Antonio, Marcos Pamplona ; Helena Barbagelata, ilustração, Marinho Lopes, Mário Baggio, Mônica de Aquino, Myrian Naves, Nilma Lacerda, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Rogelio Pizzi ; Rolando Revagliatti, entrevista, Waldo Contreras López, Wil Prado, William Vanders, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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