ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Elisa Scarpa


O borrego do êxtase    

Os Epónimos e os Nomótetas almoçavam. No espaço vital dos Epónimos?  Estamos perante os Nomótetas?

No fim da refeição, quando esta era coelho lambiam os dedos encantados com o sabor, e deixavam as mãos secar ao vento. Só depois continuavam a refeição com as nozes e outros frutos secos, mas já com os dedos por completo enxutos.

Mesmo no final voltava o borrego de olhos dilatados, a língua seca, e eles debicavam apenas, uma ou outra febra e solenemente uns aos outros diziam: Agora durante meia hora não mentimos! Não é assim? Assim é.

Refeição tão chumbada merece verdade meditada:
Viva Porcupines, dizia o mais idoso à laia de comentário.

Abriam-se as portadas ao êxtase de par em par, o centro de gravidade era o borrego semi-esconjurado.

Durante esta meia hora as bocas não se abriam, saídas do labirinto das predições – que prato seria mais delicioso que o outro, prever isso em segundos era um esforço anímico considerável, que deixava não bastas vezes aqueles comedores à beira da hecatombe mental.

Esta meia hora é um tempo atacado de êxtase, afastado que está o esforço de dar à mandíbula, olhar aliciadoramente a generalidade esmagadora dos ingredientes, antever o surgimento do borrego, manipular os talheres, perceber se o quinhão que calhou nos pratos dos outros é melhor do que o quinhão que no nosso está, e sobretudo os Epónimos por determinação rácica ainda se viam subjugados à masmorra de tentarem perceber porque tinham os pratos aqueles nomes.

Antes não havia clima para o êxtase, a meia hora pós-refeitoral trazia-o.

O êxtase, como bom netovschick que era, trazia o sossego pleno, não havia nada para além dele. As criaturas em redor pareciam padecer de um pasmo súbito. O êxtase netovschick agarrava-os pelas omoplatas e fazia-os erguerem-se um metro acima do chão, mas como o chão não era liso, uns ficavam mais acima outros mais abaixo. A impressão de escala de um gráfico ainda era mais acentuada porque as alturas das ditas criaturas não se assemelhavam. Parecia não haver duas com a mesma metragem.

O êxtase netovschick ao apanhá-las sem aviso, pois a sua meia hora dependia muito da duração da refeição, duração esta impossível de prever, fazia com que as criaturas não tivessem possibilidade de se organizar de uma forma harmónica – isto é numa escala que subisse ou descesse. Assim o êxtase na sua forma visível apresentava um desenho extremamente irregular e mesmo emaranhado.

Os Epónimos quase adormeciam durante o êxtase pós-refeitoral, confortáveis nos seus nomes viam que os qualificativos que poderiam arranjar para os outros eram sobretudo acaso do destino. Os Nomótetas tranquilos dormitavam praticamente reclinados nos Epónimos, eram alguém entre os demais, sobrepunham-se aos nomes, sabiam que o borrego de olhos dilatados sobre a mesa já tinha sido sujeito à lei, amarinado, ateado, chamuscado. Legislado em pedaços, em centenas de pedaços.

A meia hora de êxtase parava os movimentos, congelava-os, os homens haviam sido apanhados de cami-Knickers, as mulheres de corpete e sem cuecas, os seus cabelos emanavam um odor suave a camomila, o êxtase não camuflava os odores, os cheiros permaneciam em trânsito.

Sobre a cabeça dos Epónimos e dos Nomótetas refulgia um odor a conservas de peixe, autênticas chibatadas de cheiro. Conservas de peixe, se calhar é o que eles tinham nos cérebros canibalescos de certezas. Só quem estivesse de fora poderia sentir os odores, porque os que haviam sido fossilizados pelo êxtase estavam absolutamente impossibilitados de sentir.

A mesa rescendia a carvalho misturado com fumo e a uma miscelânia indescritível de cheiros, correspondentes às várias iguarias que já haviam passado por ali. As nuvens odoriferezavam as rótulas do borrego, praticamente intocado, libertavam um odor a vagão. Tal como o odor a conserva de peixe emanado das cabeças dos Nomótetas e dos Epónimos, este odor a vagão escapa à compreensão.

Os borregos da mesa do êxtase não eram transportados em vagões, vinham directamente do curral e não podiam ter convivido com um grande número de borregos, o máximo permitido por lei eram dois. Cada curral não podia ter mais do que três borregos. A não ser que não fossem borregos destinados à mesa do êxtase. E durante a preparação para a refeição, quando o borrego começava a ser preparado para ser morto e cozinhado, era deixado completamente sozinho. O borrego havia que ser compelido a encontrar-se consigo mesmo. A estripar de si qualquer memória feliz.

A preparação consistia em fazê-lo no primeiro dia ingurgitar uma gemada de vinho quente com aveia e açúcar. Metiam-lhe um tubo na garganta e com um funil iam enchendo o tubo de gemada, o vinho quente irritava o animal, ele contorcia-se, o tubo saltava-lhe da garganta e tinha que se recomeçar o ofício de novo. O ingurgitar da gemada podia levar horas.

Mortificado pela gemada quente o borrego ficava a dormir os dois dias seguintes. No terceiro dia metiam no curral um tentilhão com boas capacidades vocais que o algemava com o seu canto palhento e rescaldado. Dormir com tais grilhetas nem um atleta vencedor, um campeão das olimpíadas do barulho. Tal cativeiro encolerizava o borrego que espumava música de câmara na esperança de se conseguir sobrepor ao tentilhão. A música de câmara não chegava. Já para o fim do terceiro dia, lembrou-se de espumar Wagner, mas mesmo assim as algemas que o tentilhão libertava pelo bico não o deixaram de reptar.

Ao quarto dia chegavam os lençóis de linho com cheiro a alfazema, frescos e lisos, saídos há pouco das mãos das engomadeiras. O borrego era posto transitoriamente num recipiente cheio de algodão e louro, e nas orelhas uns headphones, nos headphones silêncio, limpavam-lhe da cabeça o tentilhão. Uma velha de carapuço vermelho com um leque bem largo afastava-lhe as moscas do corpo, que parecia rescender apenas a gemada, qualquer indício a odor de vagão é impossível discernir neste momento.

Os lençóis de linho vêm numa cesta grande deixada fora das portas do curral. Ficam à porta enquanto os homens polvilham o curral com pólvora. Usando para tal máscaras de ferro com respiradores, semeiam a pólvora. Quando o chão está coberto, pincelam as paredes com mel, grandes pincéis, quase vassouras com cerdas, saem dos baldes de seis litros cheios de mel e espojam-se pelas paredes do curral. As paredes parecem agora uma enorme colmeia, nova fase de grinaldagem de pólvora, o pó preto-acinzentado cola-se ao mel e as paredes ficam sarapintadas, ficam com uma cor e uma forma desconcertante. O cesto dos lençóis de linho entra no curral, os lençóis são desdobrados e com eles atapeta-se o chão do curral e forra-se a manjedoura, com fio grosso vermelho de lã cozem-se os lençóis de linho à estrutura de madeira da manjedoura.

Os homens, uns a seguir aos outros, saem do curral, às arrecuas, fazendo continência à manjedoura forrada de lençóis de linho.

A velha entra com o borrego, pé ante-pé, o borrego ao colo. Como ele é pesado está muito curvada, traz a sua cabeça praticamente enterrada no borrego, como se lhe desse um longo beijo.

O borrego ouve o silêncio, está sossegado, anti-loquaz. A velha deposita-o na manjedoura. O algodão e o louro são espalhados pelo curral, a velha manda-os contra as paredes, e algumas das bolas de algodão colam-se ao mel, e as folhas de louro, ainda que com mais dificuldade, colam-se também, algumas, a grande maioria cai no chão sobre os lençóis de linho criando uma orla naquele tapete branco cheio de manchas de mel e pólvora.

No quinto dia entrava o pedinte e era-lhe entregue a faca.

O borrego tinha que ser obrigatoriamente ferido por um pedinte. Porquê um pedinte? Porque a não ser alguém muito necessitado, quem aceitaria tal tarefa?

Acreditava-se que quem ferisse o borrego sofreria dores incontornáveis, forças cancerígenas alquímicas, que o ranho se transformaria em celulose e as fezes em lava. Mas um estômago vazio e um corpo golpeado pelas intempéries é mau conselheiro.  Ou seja, arranjar um pedinte para executar a tarefa do ferimento era fácil, bastava para tanto as Forças da Ordem dirigirem-se ao jardim das ervas-coalheiras e fazerem a proposta ao primeiro que aparecesse ou, antes, permanecesse. Certo era que nesses dias teria refeições bastas, todos os restos, que eram muitos e bons da mesa dos Epónimos e dos Nomótetas iriam parar às mandíbulas do pedinte. Directamente do tampo da mesa, para debaixo desta onde o pedinte deitado sobre um tapete ia sendo ofertado com as iguarias.

Os Epónimos e os Nomótetas não veriam a sua face. Após o banquete do êxtase o pedinte seria entregue a algum queijeiro de passagem, que o levasse para longe, e o impedisse de provocar nos outros a melancolia. Os Nomótetas haviam estudado a possibilidade da eliminação pura. A eliminação pura era muito arriscada, porque havia que arranjar um eliminador, e depois outro eliminador que eliminasse o primeiro. E como os serventes não abundavam não podiam pôr em risco o equilíbrio entre as almas viventes e as almas defuntantes. A aliar a estas contrariedades não se podia esquecer o principio básico do êxtase, o êxtase era netovschick ou seja negativista, e não poderia suportar que alguém se lhe assemelhasse. Havia que respeitar o princípio da diferença.

Sem êxtase a lei não se podia cumprir. O pedinte antes de começar a segurar a faca para o golpe era despido e barrado com mel e farinha, com um pincel dava-se a primeira demão de mel, com uma espátula espalhava-se a farinha, na cabeça previamente rapada e desinfectada com vinagre punha-se uma cereja recheada com uma azeitona preta.

Depositavam-lhe a faca na mão. Vinha então a velha, desta feita com um barrete verde enfeitado com azevinhos e contava-lhe a infância do borrego, dando especial ênfase a todas as vezes que ele havia esmurrado as rótulas e feito pequenos golpes junto às orelhas por causa do hábito tremendo de dar marradas na manjedoura. O pedinte gotejava mel e farinha e ia enchendo a barra da saia da velha desta papa pegajosa e um pouco nojenta.

A velha lembrava-se dos filhos e do cordão umbilical e tinha pena daquela faca que ia ser o instrumento de ferimento. Tal frieza e insensibilidade provocava cãibras na língua do pedinte que queria falar mas não conseguia. A velha parecia cada vez mais pueril no modo como contava os acontecimentos da infância do borrego.

Um homem entra e põe em frente à velha e ao pedinte um quebra-fogo. A velha tira do bolso do avental um frasco de clorofórmio, encosta-o às narinas e desmaia, desliza sobre os lençóis de linho e bate com a cabeça numa das paredes. O homem que havia colocado o quebra-fogo à frente dela e do pedinte, dá a voz de: ACÇÃO.

Dois holofotes pendurados por cima da manjedoura acendem-se, o borrego acorda com a música do Arvo Pärt. O homem que deu a voz de acção, aproxima-se do pedinte, retira-lhe a faca das mãos, com um pedaço de algodão imbuído em vaselina limpa-lhe a lâmina, e depois crava-a numa pequena bacia cheia de canela. A faca volta às mãos do pedinte.

O pedinte sente as mãos em brasa, a sua cabeça é uma tela panorâmica com todas as sequências da infância do borrego. Antes tudo isto fosse um baile que ao menos durasse só até à meia noite! A velha cloroformizada não dá conta de si. O homem da voz de acção foi-se embora e fechou a porta à chave.

O pedinte sabia que não era um monge cisterciense capaz de se alhear das lides terrenas, e também não era um relógio de mesa, capaz de se baldar dela abaixo, partir-se e parar o tempo. A canela na faca parecia ferrugem, os dentes do borrego por entre a música do Arvo Pärt ouviam-se a bater uns nos outros, como se fosse uma dança de tamancos sobre um estrado oco colocado em cima de um chão de pedra ou azulejaria. As orelhas do borrego estavam de um cor de rosa de anilinas espanholas. No abdómen via-se desenhado a preto, traço grosso, o sítio onde ele tinha que cortar. A velha tinha a cabeça no mesmo sítio. Na universidade ele havia conhecido um cão pastor escocês de pelo comprido, chamavam-lhe collier-mineiro porque ele se metia em todos os buracos. Ali não havia buracos, tão somente lençóis de linho. Desejou ardentemente ser daltónico para não ver a cor das orelhas anilinas rosa do borrego. Queria um curador, um curador para alienados, não, preferia ser alienado, membro de um comité extinto, queria ser uma cómoda no paraíso, queria estar comodamente num sítio cómodo.

O borrego estava a chorar, o cheiro da pólvora irritara-lhe os olhos, pareciam condecorações de sangue.

A faca coberta de canela tremia nas mãos do pedinte. Se houvesse ali água encanada ele podia abrir a torneira e lavar aquele curral pegajoso, ensopar os lençóis de linho e as bolas de algodão, despedaçar as folhas de louro com a força da água, e deixar a velha cloroformizada a boiar com o gorro verde condimentado com ramos de azevinho a pairar longe daquele corpo inanimado. A água podia apagar talvez o risco do abdómen do borrego!

Precisava de uma bebida calmante, um pirolito de gravilha e ácido sulfúrico, uma coisa forte que o transformasse rapidamente em algo mais morto que uma vela de estearina. O cão pastor escocês tinha vindo de uma escola do Canadá para a Universidade, era bom aluno e dera um industrial superior. Ele tinha fome, esquecera-se de comer durante um mês. Chama-se a isso uma complexa, complacente e obsequiosa amnésia. Foi assim que deu com as meninges no jardim da erva-coalheira.

A voz de acção batia de meia em meia hora e não havia claúsulas adicionais nem leis conducentes a outras leis. Ali o procedimento era a contribuição obrigatória para o banquete do êxtase. Concorda em acarear o borrego? Concordo sim. O quebra fogo e a manjedoura. Ele, o pedinte sentia uma afeição conjugal pelo borrego apesar das orelhas anilinas rosa, chorava também e fingia ignorância do acto blindado que iria faquear.

Nem uma linha de luz entrava por debaixo da porta fechada à chave, o céu ali não tinha entrada, nem sequer à consignação. Não se vende o consolo público, o céu era de todos. Os Epónimos e os Nomótetas assim o haviam assegurado. Muito respeito e carinho lhes era dedicado, com ressonância querida muitos eram os que os nomeavam como Nomos e Épos. E era nítido o prazer linguodental com que aspergiam estes nomes.

A voz de acção contorna a porta fechada à chave e faz-se ouvir: ACÇÃO.

A primeira acção foi pouco movimentada, contraceptiva, não deu em nada. Tinha que espetar a faca no abdómen do borrego, tinha que lhe dar um golpe no intestino para que ele se soltasse. O contorno de uma curva é curvo, porque é que não estoira nesta curva uma revolução, tornar a curva recta.

No banquete do êxtase não se comia borrego que previamente não tivesse tido dores abdominais, as últimas horas do bicho deviam ser pungentes. Ávido de escapar ao sofrimento ele devia espojar-se no chão, depois de ter saltado da manjedoura, mesmerizado, e arremeter contra a manjedoura, as paredes, a velha cloroformizada. Tinha que convalescer na agressividade, tornar-se perigoso até ao ponto de ser fera para ser leal matá-lo. Para que as dores abdominais se catapultassem nos prazos adequados, ou seja, quando o anterior borrego já havia sido consumido (desmaiado nas bocas dos Nomos e dos Épos) um pedinte era aliciado a fazer-lhe um golpe, que havia sido desenhado previamente pelos homens preparatórios.

O intestino começava a soltar-se depois de golpeado e a dor deixava de ser uma convocação, passava a ser um ministério, toda a diferença entre o ladrão de mercearia e o ladrão do sultão. O comportamento do borrego de intestino golpeado era incomportável, exigia um golpe maior, já sem desenho, à catanada grosseira, que o tornasse um lenho de golpes sangrentos. Exigia uma intervenção sem rival, a elevação ao pariato. Nada se iguala a este borrego. É um igual entre os desiguais.

O borrego era refeito de tantos golpes e assado com compostura majestosa. Chegado à mesa é ele que despoleta o êxtase – um guincho veloz perpassa o céu, o êxtase arrima-se aos presentes, fá-los parar, sossega-os brandamente com um beijo terno de boa noite, cobre-os da singeleza das rosas secas dentro dos livros.

O êxtase perfura os sentidos, abre caminho – forças intrépidas em terra nova depois das queimadas, seca os pântanos, areja os brejos, abençoa os charcos, trespassa as lagoas e as árvores com o seu guincho convocador. Rompe a membrana fibrosa em que vivera desde o último banquete de borrego, e qual hidra rompe magistral, archoteando a missão de se extrapolar. A gente parece exangue, mas na verdade sentem-se como belos corais entre água límpida para todo o sempre.

Um cilindro de ar delicado voa de um lado para o outro dando imanência aos Épos e aos Nomos e às coisas simples e boas da vida, as iguarias finas, o leiteiro na plataforma do comboio a dizer adeus ao cliente, um campo coberto de margaridas, a mão singela de um infante chapinhando na água, a moça que trabalha numa fazenda pastoril, o cavalo branco branco que salta no prado, o bronzeado trigueiro de uma rapariga que se banha no mar, o ultramiscrocóspico embrião que já é vida, a audácia do rapazinho que apreende o andar de bicicleta, o mistério da natureza que é a mãe que tira o pão de sua boca para alimentar a cria, o despertar de um novo dia após uma longa noite de trevas, o balido do cordeirinho que arranja quem o amamente depois de se ter perdido do rebanho, o ente amado que se levanta da cama após seis anos a viver entrevado e esse amplexo luminoso que é o abraço de toda a família.

Os efeitos olfactivos são estonteantes.

À medida que os corvos descem e vão depenicando o borrego, o cheiro a vagão sobe de tom, afoga o alvoroço dos corvos que o comem com delicadeza e etérea complacência.

Nas rótulas do borrego crescem umas excrecências semelhantes a lichias, e que se comportam como sanguessugas. Deslizam até à travessa e sorvem-na e vão depois pela mesa, sanguessugando a louça, seja de porcelana ou vidro. Desta totalidade íntegra deixam a comida, e os Èpos e os Nomos. Não tocam nos serventes, não tocam em nada que seja humano, o máximo que fazem é sorver as botas, se estas forem de cabedal. As de plástico, borracha ou silicone escapam incólumes. Fulguram no tempo integral rebolando como lichias-berlinde, vão sorvendo as mesas, as estantes, os carrinhos de rodas com mais manjares, que logo ali ficam sem recipientes, os porta roupa, as mesas de jogo, as máquinas de flippers, e para o fim deixam a estante de leitura.

Não tocam no púlpito dos Épos e dos Nomos. O site onde eles depositam os cartapácios e ensinam as leis maduras e desprovidas de agitação. Não é fanfarronada ser Epónimo e Nemóteta. Tem que se ter senha, ser distinto e educado, ter boa família, ser descendente de boa gente, saber genuflectir bem, não se pode cambalear quando se ajoelha perante a lei.

Os Epónimos são geocêntricos, estão no centro da geografia, como se diz na gíria escolar. São piões, rodopiam sobre si mesmos e estão sempre no centro das atenções. Os Epónimos chegam ao assunto mais depressa do que os outros, mesmo mais depressa que os Nomótetas, quando eles dizem são quase 12 horas, elas estão a dar em ponto naquela altura, não ficam nervosos, não saem depressa sem dar explicações, não se vão embora sem dizerem qual o destino, não escapam sem vestir o fato apropriado, não fogem sem avisar a polícia, não publicam sem indemnizar o editor, não descobrem o que já foi descoberto. Arrancam os segredos com anestesia, pergunta-se o que ganham com isso e se não podem vir mais tarde a perder algo. Descem nos elevadores, saem pelas portas que alguém lhes segura, livram-se dos jornalistas com um breve adejar de mão. Saem da cama com o pé direito, têm guarda-costas que sabem por onde vão, restabelecem-se do calor com ginger ales frescas com rodelas de limão, superam a falta de cálcio com leite, dominam os nervos com sexo, vencem o cansaço descansando, sofrem com a dor dos outros, embrulham os pastéis de nata em pedaços de veludo, conformam-se com as perdas nas bolsas onde não têm dividendos, vencem o vento protegendo-se em aviões, levam vantagem quando correm com inválidos, chegam a entender até  os seus próprios discursos, percebem os truques que ensinaram aos ilusionistas, são derrotados e aniquilados quando brincam às guerras com os filhos, alcançam cem objectivos quando o pretendido era alcançar um, passam o dinheiro de mão em mão, da esquerda para a direita, da mão direita para a mão esquerda, sucedem-se a si próprios, completam os cargos públicos com os membros das suas famílias, esbanjam o dinheiro que não lhes pertence, todo o dinheiro, terminam a tarefa de enriquecer, não se aborrecem com os dias aborrecidos dos outros, passam nos exames em que são professores, conseguem ligação telefónica com os seus telefones, juntam moedinhas para pôr no mealheiro que é um porquinho, encontram os amigos que estão presos, reúnem em reunião, chegam a acordo nos pré-acordados meetings, acoplam os factos com inventiva, alcançam o candeeiro na mesa de cabeceira, chegam à retrete a tempo e horas, começam aquilo que acabaram, chegam à mesa antes dos demais, por acaso até falam, subjugam as esposas, controlam os espermatozóides, dominam a chama de um fósforo, zarpam na banheira, iniciam as viagens até ao parlamento, erguem-se da cama, levantam-se da cadeira, preparam-se para comer, vestem-se com fumo, enfurecem-se com a injustiça. Alcançam-nos, adornam-se ricos, lavam e passam as notas da lei, enfeitam-se sublimes, estudam o papel, encenam a peça, fazem vapor na cafeteira da cozinha, esquentam as mãos na chapa do forno, esgotam a paciência, preparam festas para os serventes, tornam-se públicos sem recobrar o fôlego, recebem informações.

Os Nomótetas para além das qualidades com que igualam os Epónimos são ainda capazes de fugir de si mesmos, descolarem os selos das cartas, tornar acessível a linguagem dos bebés, procriar em círculo fechado, reproduzir campânulas, estrangularem um mineiro com as mãos dos outros, tornar as substâncias salvíficas, usarem válvulas electrónicas para absorver gases, captarem lucros com uma rede de caçar borboletas, reunirem-se informalmente com o mundo, arranjarem-se com vestuário emprestado, enfeitarem-se com a energia do desporto, entusiasmarem-se com o crescimento de uma planta, comprarem bugigangas para oferecerem ao terceiro mundo, futilizarem o que não tem valor, comprarem um geiser para terem água quente em casa. Serem horríveis com os maus, empalidecerem quando cortam um dedo, subir escadarias com tapetes vermelhos, serem espectros distintos, posarem para uma fotografia encavalitados numa escarpa, atravessarem um rio com um só passo, perscrutarem uma montanha num relance, comprarem manteiga na India Oriental, fazerem conserva de pepino, expulsar os judeus do gueto de Varsóvia, começarem a contar o começo, darem o irmão sem ninguém lho pedir, receber um livro de presente, terminarem uma obra começada há séculos, desposarem a mãe sem mais discussões, concederem a si mesmos tempo para pensarem.

Tão inclinados e dispostos como são os Epónimos e os Nomótetas merecem brindes dos seus servos. Borrego sobre a mesa, êxtase sob a mente e um gin-fizz com soda e limão ao cair da noite.

 

GLOSSÁRIO

Arvo Pärt- compositor contemporâneo.

 

Cami-knickers- calção e corpinho em uma só peça. (americano).

 

Defuntantes (de defunto).

 

Epónimo- que dá ou empresta o seu nome a alguma coisa. Qualificativo do arconte que em Atenas, dava o nome ao ano. Diz-se dos heróis que deram o seu nome aos vários povos da Grécia antiga.

 

Faquear (de faca)

 

Lichias- fruto comestível de uma planta que ocorre nas regiões quentes da Ásia. Costuma fazer parte da ementa das sobremesas nos restaurantes chineses, na Europa.

 

Netovschick- negativista (russo)
.

Nomótetas- cada um dos membros da grande comissão legislativa que, formada de indivíduos que tinham sido juízes, era encarregado, entre os Atenienses, da revisão das leis existentes.

 

Porcupines- porco espinho (latim).

 

 

Elisa Scarpa nasceu a 7 de janeiro de 1964 e há-de morrer

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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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