ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


O novo Livro do Desassossego    

NLD 1


Chegou o outono. As primeiras chuvas após um longo estio. As folhas caem com calma abandonando a vida, ou com violência fustigadas pelo vento que começou a erguer-se todas as manhãs. As pessoas começam a inclinar-se como que movidas por uma bebedeira triste, aceitando também a sua condição de árvores.

Já vindimei, já esmaguei as uvas, já afundei o bagaço no vinho durante sete dias, três vezes ao dia, já passei o vinho para as cubas e, agora, é o tempo de ele repousar.

Outrora, quando existia a aldeia e a aldeia existia em mim, e tudo era nítido, tanto o orvalho das manhãs como as estrelas da noite, quando, ao fim da tarde, os bois pacientes regressavam a casa, eu via o lume transformado em fumo a sair pelas chaminés. O fumo era claro e melancólico como as vidas que se iam perdendo.

Hoje, esforço-me por regressar à terra, mas este meu esforço é contra a minha verdade, pois eu já não sou o mesmo que era quando ainda criança, e tocava os bois para casa, e me deitava na terra a sonhar de olhos abertos como sonham as estrelas, e assim respirava a terra e o céu, e ambos respiravam suavemente em mim com a força serena dos deuses. Já não ando descalço como quando brincava à cabra cega nem com as calças rotas como quando subia às árvores mais altas para tocar a penugem dos pequenos milhafres.

Tudo mudou em mim e eu em tudo. Sem cura é esta mudança.

 

 

 

 

 

 

NLD 2

 

Nunca regressaremos a nós mesmos. O eterno retorno é uma fantasia dum inadaptado. De cada vez que queremos regressar a nós mesmos encontramos em nós um ser diferente, como quando regressamos às águas que passam por debaixo da ponte.

A nossa sabedoria e a nossa força estão em sabermos ser outro em águas novas. 

 

 

 

 

 

 

NLD 3

 

Quero controlar os meus pensamentos mas, tantas vezes, não o consigo. Ontem, quando caminhava pela rua olhando as folhas de Outono que mudavam de cor em direção à queda, o pensamento desviou-se para uma mulher desconhecida, que vi uma só vez na vida e nada tinha de diferente de tantas outras mulheres, nem sequer os seios abundantes que sempre atraíram o meu olhar. Ela estava só, deitada na praia e, subitamente, levantou-se, penteou os cabelos longos e bastos, negros e fortes como penas de corvo e, depois, caminhou vagarosamente em direção o mar para se lançar às ondas.

    Admirei-me por me surgir esta lembrança tão remota e sem sinais que me pudessem marcar. Sorri deste absurdo mas, logo a seguir, veio-me à memória o nome de Maldini, nome que já não ouço há largos anos e nunca me impressionou mais do que tantos outros futebolistas famosos, e nem sequer estava entre os que melhor conhecia.

    Sou e não sou responsável pelos meus pensamentos. A quem atribuir a culpa daqueles que não chamei a mim e são cruéis ou baixos, mas surgiram no meu cérebro contra a minha vontade?

    Sou senhor dos meus pensamentos mas eles são, também, senhores de mim. Sou livre e dominado pelo que não desejo ou repudio. 

    Sonho enquanto durmo, sonho quando estou acordado. E o sonho sonha-me. Eis uma das sete fontes do meu desassossego.

 

 

 

 

 

 

NLD 4

 

Creio que todos os homens são fragmentos de Deus que trava consigo mesmo um vão combate, um Deus que nasceu adulto e mau, que nunca teve uma mãe que O deitasse no regaço e Lhe acariciasse os cabelos loiros, Lhe cobrisse a face de beijos, Lhe contasse histórias de princesas belas e bondosas e bruxas feias e más com agulhas a picar dedos de cetim, O entusiasmasse com o triunfo de príncipes valentes e Lhe cantasse canções de embalar até Ele adormecer no lume do inverno.

Mas esse Deus adulto e mau também quer ser criança e bom, e creio que esse combate que Ele trava consigo mesmo não terá fim, nem terá fim o Seu reino ao contrário de todos os reinos, a não ser quando tudo tiver fim, que será o fim desse Deus porque todos os Deuses têm em Si a semente da destruição.

Existem estrelas, existem cometas, existem meteoros, e Deus tem medo porque estão longe e não foi Ele que os criou, e Ele interroga-se se não existem outros Deuses além Dele, outros Deuses tão infinitamente grandes e poderosos que desprezam a Sua pequenez terrena.

Creio que Deus tem tanta maldade porque tem medo, e o medo é o Deus de Deus.

 

 

 

 

 

 

NLD 5

 

DIÁLOGO IMAGINÁRIO

Francisco de Assis
- Todo o saber do homem é vão e todo o seu poder uma torre arruinada, Frederico. De que te serve o teu saber contra a morte? Acaso matarás um dia a ceifeira do tempo? Acaso lhe poderás dizer, numa das nove línguas que te orgulhas de falar: vai-te, quando ela se aproximar? Ela compreender-te-á numa dessas nove línguas, ou precisarias de novecentas e noventa e nove para ela te entender. E, ainda que as soubesses, isso seria suficiente face à sua eterna mudez? Falando à morte apenas enches a boca do vento do teu orgulho. Existes antes das estrelas ou das montanhas para conheceres a sua criação? Sabes o que se encontra dentro das sementes para que elas rompam a terra, cresçam e te deem pão? Conheces a sabedoria íntima do sol quando te aquece ou a indiferença do gelo quando se abate o inverno? Compreendes a luz do dia ou as trevas da noite?

O teu poder não passa de cinza dentro duma urna de pórfiro. Sais com a espada e o escudo a enfrentar os teus inimigos. Contra ti eles não escaparão à morte ou à humilhação. Cegarás os seus olhos e cortarás os seus narizes, deceparás as suas mãos e os seus pés. Deixarás as suas cidades desoladas e os seus campos devastados pra que não lhes deem pão, as vinhas e as oliveiras queimadas para que não lhe deem frutos. Mas hordas e hordas surgirão com os tempos.

Sempre, todos os impérios foram destruídos pela espada e pelo fogo. O teu império não escapará. O teu orgulho será abatido. Não te enganes a ti mesmo.

Frederico II da Suábia

- Apenas tento compreender, Francisco. Se escrevo ao sultão do Egito ou leio as suas cartas sábias convidando à paz e à aceitação das nossas diferenças, propondo o simultâneo rebater dos sinos com o convite dos muezins à oração, é para que  as ruas das cidades não se tinjam com o sangue dos homens.  Há um só Deus. Os seguidores de Cristo dão-lhe um nome, os infiéis outro. Mas eles O veneram com o mesmo fervor com que nós adoramos o Criador, o Todo-Poderoso que está por detrás desses nomes. Construí esse castelo no alto da tua cidade para que a não destruam os orgulhosos e os sôfregos de poder e de riquezas. Sem ele, os desventurados seriam esmagados como as ervas sob as patas dos cavalos. Sou imperador para defender os humildes da arrogância dos poderosos. Os meus inimigos erguem a espada para me degolarem, abrem a boca para me devorarem. Mas o meu poder foi-me concedido por Deus para travar as suas iniquidades. A coroa imperial foi colocada na minha cabeça pelo Seu representante na terra para que eles não exerçam a sua violência sobre os mais fracos, e não os sufoquem com o manto da sua maldade.

 

 

 

 

 

 

NLD 6

 

Deuses são relógios que nos acordam do tempo passado e nos alertam para o tempo que há-de vir, relógios misteriosos que nos dizem o que somos através do que iremos ser. 

 

 

 

 

 

 

NLD 7

 

Quando os espelhos se transformam em cachimbos e os cachimbos em sombrinhas por meio do sonho que irrompe das mãos, é sinal que conservamos a essência do nosso ser.

Neste mundo da técnica, o homem só alcança a sua essência e a sua grandeza quando ama acima de tudo as coisas que não têm qualquer utilidade.

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2020


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Colaboradores de Dezembro de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adel José Silva, Álvaro Alves de Faria, Antônio Torres, Artur Alonso Novelhe, Beatriz Aquino, Caio Junqueira Maciel, Carlos Eduardo Matos, Carlos Matos Gomes, Cecília Barreira, Cruzeiro Seixas, Eurico Gonçalves ; Dalila d’Alte Rodrigues, Dalila d’Alte Rodrigues, Décio Torres Cruz, Denise Emmer, Edson Cruz, Elisa Scarpa, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Flávio Sant’Anna Xavier, Grupo Estilingues, Helena Barbagelata, Henrique Dória, Hermínio Prates, Joaquim Maria Botelho, Leila Míccolis, Lindevania Martins, Luís Filipe Sarmento, Marcelo Frota, Marco Antonio, Marcos Pamplona ; Helena Barbagelata, ilustração, Marinho Lopes, Mário Baggio, Mônica de Aquino, Myrian Naves, Nilma Lacerda, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Rogelio Pizzi ; Rolando Revagliatti, entrevista, Waldo Contreras López, Wil Prado, William Vanders, Wilson Alves-Bezerra


Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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