ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Joaquim Maria Botelho


Penhascos    

Aproximou-se da sacada e inclinou o corpo para a frente, de modo a observar a área do estacionamento, nove andares abaixo. A empreiteira que construiu o prédio não respeitou a altura de segurança do guarda-corpo, pensou, verificando que o limite superior ficava abaixo da linha do umbigo. O umbigo é o centro de gravidade e de equilíbrio do corpo humano, e apoiar seu peso de mais de 90 quilos sobre o gradil deu-lhe a estranha sensação do pavor misturado com atração. Abyssus abyssum invocat. O pavor fora adquirido pela antecipação da morte, numa trilha aventureira com amigos, quando já contava quase quarenta anos. Foi assim. A trilha margeava, muito lá em cima, a encosta de um morro granítico coberto de mata muito densa, e andava-se empurrando galhos baixos, copas de arbustos, tramas de cipós e ramos espinhentos. Avançava-se devagar, sob o comando da voz firme do guia, um caboclo da região, magro, espigado e duma resistência invejável. Ficou por último, porque foi como calhou acontecer. Por ele, teria se instalado bem atrás do guia, para obedecer depressa às orientações. No meio do caminho ouviu o escachoar de água caindo de grande altura. Lançou a pergunta que foi, como a resposta voltou, escalando cada um dos caminhantes até chegar aos ouvidos dele. “Queda d’água! Boca da Onça! 156 metros!”. Devia ser um panorama soberbo, visto de onde estavam. Estancou o passo. À sua direita, o mato abria espaço bastante para meter a cabeça e olhar. Segurou o caule de uma árvore jovem e pendeu o corpo para ver. Mas era um caule flexível, molengo e fraco, e vergou sob o seu peso. Ia se projetando para o vazio, porque a mata cobria como topete o cimo de um chapadão grandoso, reto, de uma verticalidade matemática. Logo abaixo dele, o nada, o nenhum, o inexistente. Lá embaixo, a cento e cinquenta e seis metros, a fita de água se esparramava, sonoramente, em largos borrifos, num lago. Era belo. Será que teve tempo de pensar nesse esplendor da natureza enquanto sentia o corpo deslizar para a queda? ou foi depois, a salvo, que se lembrou da imagem que passou a perseguir sua coleção dos medos mais profundos? Era ele apenas, sozinho, último da fila, sem ninguém olhando o que acontecia, a garganta sufocada, os olhos arregalados de terror, antecipando a vertigem de descer indefeso pelos ares, por segundos infinitos, trombando com a água num baque devastador e letal. De certo modo, ia se entregando. Não conseguia pensar em buscar outro galho para se pendurar, ou dar um galeio no corpo para voltar à posição ereta. O abismo puxava o seu corpo e ele não conseguia reagir. Por dentro, uma sensação de frio tomava o estômago, a coluna, a nuca. Estava morto. Em agonia, não se deu conta de quanto tempo levou para conseguir recuperar o equilíbrio. Ou não foi ele, mas apenas o caule da arvorezinha que chegou ao limite da elasticidade e voltou, trazendo com ele o corpo, o corpo e a mente, o corpo e a alma, a vida restituída. Em pé, ereto de novo, foi tomado por uma tontura que o fez cair para trás, distante da beira assombrada do penhasco. Precisou de tempo para retomar o fôlego e ganhar a certeza de que estava e continuava vivo. Teve ganas de chorar, de gritar de alívio e de angústia. Não fez nada disso. Apenas apanhou sua mochila e se pôs a caminhar, último da fila. Antes daquilo, não temia coisa alguma. Saltava barrancos, grimpava até os galhos mais altos das mangueiras e das sapucaias, saltava de cavalos em pleno galope. Mas a morte chegou perto, via a sua face escura no lago, e temeu pelo resto da vida. Escadas rolantes passaram a lhe dar mal-estares. Voou em helicópteros, mas com o medo represado no peito. Em aviões, a psicologia talvez explique, passou a sentir um sono enorme e incontrolável nas decolagens. Despertava acima das nuvens, de onde não mais avistava terra e a dimensão da distância não tinha tangibilidade. Nos pousos, curiosamente, sentia-se confiante e seguro. Tudo isso a lhe percorrer o pensamento, enquanto se apoiava no gradil que a empreiteira maldita deixara mais baixa do que o umbigo de uma pessoa de estatura normal. Sentiu a mesma vertigem, e o pátio asfaltado do estacionamento parecia um lago, a chamar, a atrair, a prometer engolir num abraço os seus desencantos.

Lá dentro, o matraquear do teclado do computador lembrava que a mulher produzia o relatório para o cliente. Em teletrabalho desde 18 de março, mais de dois meses completados agora, acomodava a bunda na cadeira e só se levantava para o almoço, uma fruta no meio da tarde, um café e o jantar. Decidiram, os patrões, cortar pela metade o salário, pobres empreendedores, precisavam diminuir custos para manter empregos, mas duração do expediente não reduziram. Ao contrário, trabalhar em casa significa estar à mercê de todas as demandas, sem as divisórias e portas que avisam que o trabalhador está ocupado ou em reunião. O telefone e o computador chamam, insistem, chamam de novo, tem-se que atender para os fazer calar. E o silêncio não dura. E o trabalho não se extingue, não se completa, não tem hora, não tem parada, não tem fim. E ele, apreciando a dedicação da companheira, ficava, sem ela, sem companhia, de novo último da fila. Pior. Estava irritadiça, esmagada sob gráficos e relatórios, e perguntas e queixas, e preocupações sem mitigação. Seu primo enviara, não fazia quinze dias, fotos alegres de rapazes petulantes reunidos em torno de uma churrasqueira, desafiadores, suados, abraçados e delirantes. O primo ao centro do grupo, brincalhão, risonho e obeso. Havia dois dias, estava entubado, no hospital congestionado da periferia, sufocado e febril. A comorbidade facilitou o avanço do vírus. Pelo telefone a família avisava que ele não estava reagindo ao medicamento e que apenas o respirador não era suficiente para restabelecer o funcionamento dos pulmões. Morria. O primo alegre morria. Olhou de novo para o asfalto, distante quase trinta metros e outra vez sentiu vertigem. Começava a suar. O cunhado, irmão mais novo da mulher, médico e diabético, há dias não voltava para casa. Isolado da família, dormia num quarto do hospital onde se dedicava, de 14 a 16 horas por dia, a cuidar de pessoas contaminadas ou suspeitas de contaminação pelo Coronavírus. A família vivia em permanente sobressalto, ainda mais com as notícias que o cunhado doutor, desgostoso com o que testemunhava, dava a conhecer: não havia máscaras N-95 suficientes e ele era obrigado a reutilizar a mesma por até três dias; respiradores havia, mas a maioria quebrados ou com defeito de fábrica; espertos gestores compraram equipamentos para medição de glicose de uma marca e fitas de outra, combinação que não funcionava. Notícias ruins atrás de notícias ruins. O isolamento social não era respeitado e os teimosos enchiam os hospitais e as estatísticas. As emissoras de rádio e TV acumulavam dia a dia estatísticas a indicar aumento percentual de mortos e de internados, mas na proporção inversa o percentual de pessoas que respeitavam a orientação de ficar em casa descia para menos de cinquenta por cento e já beirava os quarenta. Não aguentava mais ouvir falar de medidas de controle e dados sobre o número de doentes e de mortos, na cidade, no estado, no país, no mundo. Mantinha os aparelhos de TV ligados, na cozinha, onde se enfurnava como se fosse uma gruta, buscando ocupar-se com a lavagem de louças, com o preparo das refeições ou simplesmente para ficar sentado, olhando a tela sem, de verdade, compreender inteiramente as imagens e a narração. Condoía-se dos casos exemplares escolhidos pelos telejornais. Irritava-se com os espertalhões que achavam jeito de ganhar dinheiro explorando a desgraça alheia. Observava os exemplos de países que enfrentavam seriamente a pandemia, como Portugal, os países nórdicos, a Índia – a Índia, quem diria, com mais de um bilhão de almas, bolsões gigantescos de pobreza, com menos mortes do que o Brasil, com apenas um quinto daquela população. Tinha outras opções de ocupação, confinado no apartamento. Debruçava-se sobre o tampo da máquina de lavar, para acompanhar o processo. Era até divertido. Também lia. Bastante. Gostava de ler, mas ultimamente não tinha mais muito ânimo. Passado o período inicial, em que devorava um volume a cada dois dias, passou a abrir um, lia quinze ou vinte páginas, deixava para prosseguir mais tarde, pegava outro e repetia o ritual, acabava empilhando vários num canto do aparador. Nos últimos tempos, nem lia mais. Andava amuado. Aposentado, não tinha se preparado para ter ocupação e sentia-se quase inútil, vendo a esposa feito escrava da agência publicitária enquanto ele se descontentava em desempenhar as funções domésticas. Não que não gostasse, mas lhe parecia pouco, diante do seu passado de alguma glória, como executivo de média gerência. Um suspiro resignado, ao lembrar do caos em que o mercado de trabalho estava envolto. A experiência dos mais velhos não tinha mais importância para os empregadores. O Brasil tem um empresariado tosco, despreparado, reacionário e egoísta, recruta jovens ambiciosos, cheios de entusiasmo, donos da tecnologia e de seus narizes, e que custam pouco. Bons meninos e meninas, mas sem engajamento, sem lealdade, sem compromisso. Por vinte euros a mais, ou mesmo por um cargo mais pomposo de mesmo salário, trocam de emprego e de lugar. A pressão da Casa Grande já havia conseguido afrouxar as leis trabalhistas em 2017, a pretexto da recessão causada por incompetência de governos seguidos, e implantou o teletrabalho para as gentes da Senzala. Portanto, agora, na pandemia, oficializar o trabalho em casa foi para os patrões a oportunidade de repartir o queijo cortando as fatias do tamanho que bem entendessem. Medindo prós e contras, para os empregados o fato de trabalhar em casa não fazia muita diferença. Ou fazia. Faltava a ambiência, o contato com pessoas, o espaço aberto entre a residência e o escritório, as paradas no caminho. Para ele, aposentado da lida diária da empresa há alguns anos, estar em casa já fazia parte do cotidiano. O isolamento necessário, no entanto, roubara-lhe muito. Não mais o café literário das sextas-feiras, as reuniões festivas, idas a restaurantes, as sessões de teatro uma vez por mês, a sala de concertos, as visitas aos amigos. Para esses, uns poucos, sim, fazia uma ligação por vídeo a cada três dias, depois a cada semana, depois mais espaçadas. Não tinha assunto a não ser os inescapáveis comentários sobre hospitais superlotados, cidades que não tinham mais terreno preparado para enterrar os mortos, faltavam caixões, coveiros contraíam o vírus, eram afastados e não havia destemidos que os substituíssem, famílias que não podiam velar seus mortos nem acompanhar os féretros, enfermeiros e médicos exaustos, autoridades desarvoradas, sem saber o que fazer. O governo brasileiro demorou cerca de quarenta dias para entender a gravidade da contaminação, guiados pelo inconsequente discurso presidencial de que se tratava de mais uma gripezinha – continuou a menosprezar o perigo mesmo depois de a Organização Mundial de Saúde declarar pandemia. Teria bastado ver o exemplo da Itália, mergulhada em luto. Quando o ministro da Saúde tratou de implantar rigores de prevenção e de atendimento, o Brasil já estava abatido. Para a população com mais miolos, que entendeu a necessidade do distanciamento social, restaram as queixas inúteis dos atos e desatos de governo. Apertou os olhos, como se buscasse lá dentro, na memória, as cretinices divulgadas. Em plena pandemia, o presidente hostilizou, humilhou e demitiu dois ministros da Saúde, porque resistiram à ideia de cancelar o isolamento social, recomendado pela grande maioria das opiniões médicas do mundo e orientado da Organização Mundial da Saúde. Fixou o olhar no prédio em frente, com algumas janelas iluminadas de onde homens e mulheres, moços e moças, berravam o bordão “Fora, presidente!”. Esmaecidas no burburinho, umas tantas exclamações de apoio ao capitão que comandava generais e insuflava a desobediência às medidas de distanciamento entre as pessoas, ignorando a gravidade da contaminação pelo vírus malicioso. E vinha-lhe à mente o mundo exterior, o que se passava além dos limites do prédio de apartamentos e lhe chegavam pelas imagens e textos implacáveis da imprensa. As manifestações grosseiras daquele homem de aparência e palavras rudes o ofendiam. O presidente não falava para ele, mas falava também para ele, vomitando desprezo pela ciência e pela cultura. Lembrava-se de uma aula de teatro do grande ator Paulo Autran, num exercício de dizer uma frase de cem maneiras diferentes. A frase era “Maria, traga-me um café”. A variedade de entonações e prolações passava mensagens diversas, sem alterar o conteúdo. Recurso que um boquirroto consegue usar com eficácia para zurrar contra aqueles que não o seguem. Como podia seguir um homem que supõe que a Terra é plana como disco de pizza, seis séculos depois de Copérnico? E que crê em satanismo e no Anti-Cristo, assunto de que não se fala desde Lutero? Sentia-se vilipendiado, com raiva. Detestava o homem de baixa patente militar e moral, que não apoia com palavras, mas admite a destruição da floresta amazônica, e baixa decretos para estimular a grilagem de terras e para perdoar desmandos de policiais em serviço. Faz-se, o energúmeno vestido de presidente, de tolo, fanfarrão e falastrão, mas dirige um projeto de dominação escrota. Quer armar a população, para “impedir que os comunistas tomem o poder”. Quer suspender o isolamento social para “salvar a economia”. Não aguentava mais ouvir a palavra cloroquina. Era a ladainha do presidente e seus sequazes, pregando o bálsamo da salvação, sem fundamento médico-científico. Crispou as duas mãos no gradil, com força. Impotente contra a turba raivosa que rodeava em matilha o mandatário, punia-a com o controle remoto. Desligava a TV e remetia essa turma para a dimensão do ignorado. Efêmero antídoto. Vitória pouca. Vingança insuficiente, fugidia. Só lhe aprofundava o desgosto. Impossível ignorar. Continuavam os gritos da população repartida, dividida, radicalizada. O mundo estava rachado em dois, numa fissura que se transformara em desfiladeiro. De um lado os atônitos, que um dia cantaram Grândola, vila morena, e festejaram o movimento das Diretas-Já, de outro os rancorosos que se apropriaram do verde-amarelo como símbolo distorcido de um patriotismo fascista. E continuaria assim, mesmo depois e se a pandemia fosse sobrepujada. Muitos especialistas arriscavam dizer que a contaminação poderia se tornar endêmica.

Dos livros, os de leitura iniciada, os novos ainda envoltos em plástico, os mais antigos que guardava para um dia ler, decidira se desapegar. Quinze dias antes, passou uma mensagem eletrônica para a síndica e montou no hall de entrada uma exposição, para que os condôminos apanhassem os livros que escolhessem, na condição, inscrita em cartaz pregado na parede, de devolver depois de lidos. Nos primeiros dias, ninguém apanhou livro algum. Aos poucos, outros vizinhos foram trazendo exemplares de que desejavam se livrar e depositando na mesa. Virou uma pilha de monturo, que incluía um dicionário português-coreano, revistas velhas, livros de autoajuda, subliteratura e publicações institucionais. Não era o que esperava, quando selecionou bons autores para compartilhar. Devagar, os moradores do prédio começaram a retirar alguns livros. Ele fiscalizava, disfarçadamente, quais volumes haviam sido retirados e quais devolvidos. Em breve, a movimentação diminuiu e cessou. Com a inércia e o desinteresse dos vizinhos, deu de ombros, afinal, largou os livros no hall e não se preocupou mais com o assunto. O fracasso da empreitada, entretanto, ficou a martelar o osso do peito. Não se sentia velho, a despeito dos 71 anos. Vigoroso, altivo, andava depressa e com passos firmes. A quadra de tênis, a dez minutos de distância, de carro, interditada para evitar aglomeração de pessoas, foi a anulação de seu esporte predileto. Decidiu caminhar. Não era o seu exercício predileto, mas era o que podia fazer, enquanto a circunstância não mudasse. Trinta voltas pelo estacionamento, 350 passos por volta, dava pouco mais de dez quilômetros. Pensando bem, um passo tem menos de um metro. Lembrou-se do Sistema Internacional de Medidas, que estabelece que um passo de adulto normal mede 82 cm, portanto, refez as contas de cabeça e constatou não ter andado mais que 8,5 quilômetros. Na segunda caminhada, no dia seguinte, procurara manter passadas mais largas, artimanha que funcionou nos primeiros dez minutos, e em seguida caíra o ritmo, pelo cansaço. Cavalo que larga disparado no começo da corrida se cansa logo e é ultrapassado pelos outros. Resignou-se e tentou concluir as trinta voltas na cadência ajustada para menos. Mas, vindo no sentido oposto, surgiu, a passos miúdos e arrastados, o insuportável Alberto, do terceiro andar, gordalhufo, com cara de fuinha, bermuda e camisa coloridas como se estivesse em férias no Caribe, ostentando a máscara de proteção esgarçada, mal instalada sobre a boca e deixando o nariz exposto. Uma besta, pensou. O fulano tinha sido síndico do prédio e se mostrou um tirano. Na prestação de contas, desarranjos e tramoias – apareceu até comprovante de estacionamento no Sambódromo, durante o carnaval. Com um grupo de vizinhos, convocou na ocasião uma assembleia, destituíram o síndico e formaram uma comissão para administrar o edifício até as eleições seguintes. Ganharam um inimigo – o negro Alberto tinha fama de macumbeiro, de praticar artes do vodu, e gabava-se pelos corredores de prejudicar os desafetos como quisesse. Os membros da comissão tremeram. Um deles teve um ameaço de infarto, outro se mudou para o sítio da filha. Os dois que permaneceram ao seu lado trabalharam muito para pôr as contas em ordem, sem temor algum das apregoadas maldades. Mas ficou, a socar-lhe o estômago, o desgosto da experiência de fazer parte da administração do condomínio. Viera um morador cobrar providências de restituição de um cabo de enxada, de legítimo guatambu, que jurava ter deixado encostado no muro do fundo. Ora, a comissão tinha que resolver essas pendengas comezinhas?! Sem contar as queixas de que o salão de festas não podia ser usado, porque o rabugento do primeiro andar se sentia incomodado com o barulho. Tinha verificado o regimento interno e constatara que bastava a discordância de um só morador para impedir o uso do espaço. Promovidas as eleições, entregou a administração ao novo síndico e afastou-se. Não participou mais de assembleias, e até ficou aliviado que a pandemia tivesse vetado as reuniões, assim não precisava inventar desculpas ou se esgueirar pelos cantos, ao chegar do trabalho, nas noites de segunda-feira, para não ser visto pelos condôminos que discutiam questões de somenos. Cruzou com Alberto quando ia a meio da décima sexta volta. Fixou o olhar para a frente e não o encarou. Não tinha medo dele, só asco. Cancelou a caminhada e as demais, planejadas. Não suportava nem sequer passar perto do velhusco encrenqueiro. Essa lembrança, que se somava a todas as outras recordações negativas, fez com que franzisse o cenho e soltasse um bufo de impaciência. Estava cada vez mais confinado.

Não completamente, é verdade. Descia, a pé, os nove lances de escada, para fumar. Isso, a mulher não lhe negava, mas controlava, implacável, o número de cigarros. Num quadro magnético colado à porta da geladeira, ia anotando um traço a cada vez que abria a porta e descia. Antes da pandemia, fumava perto de um maço, ou coisa de 18 a 20 cigarros, por dia. Com as restrições, reduziu para sete ou oito. Muito bem que reduziu, era melhor para a saúde, mas não lhe era agradável subjugar-se à vigilância da mulher. Tinha sermão todo dia, de que precisava se cuidar, não fosse cair em hospital com os pulmões doentes, especialmente nessa hora em que crescia o número de pessoas infectadas e os leitos de internação eram insuficientes. Você é velho, dizia mulher, sem pena, não pode se expor. Frase dolorosa, que não correspondia à realidade, no seu julgamento. Não tinha rugas, locomovia-se bem, tinha apenas os desacertos físicos típicos da decadência natural aos seres humanos que passam dos setenta. Não era calvo, nem tinha caspa. Apareceram-lhe pelo corpo umas coceiras, que a médica do convênio diagnosticou de dermatite de contato, e nem prescreveu coisa alguma, apenas creme hidratante por fora e água abundante por dentro. Cumpriu a prescrição, não adiantou. Vá lá, os médicos erram também. De resto, saúde boa. Há alguns anos fora obrigado a operar o tendão do ombro direito, o manguito rotador, como o denominava o ortopedista. Culpa das partidas de tênis, toda quinta-feira à noite, com o grupo de três amigos, todos gente da área da saúde: um dentista, um médico e um terapeuta ocupacional. Ainda não estava aposentado, na época da cirurgia, e seguia para o trabalho de metrô, durante o período de 45 dias prescrito de imobilidade, o braço direito suspenso numa tipoia. Um dia, um amigo foi cumprimentar, observou a tipoia, achou que o ferimento era no braço e deu-lhe boas palmadas amistosas no ombro. Encolheu-se de dor, e só a lembrança dos tapas amigos o fez se encolher novamente, agora. Quantos pedidos de perdão lhe endereçou o pobre... Sorriu de leve, revivendo a cena. Mas logo reassumiu o aspecto sombrio. O momento não era de alegria. Estava sendo chamado para outra coisa.

O prédio não era propriamente antigo. A documentação da incorporadora citava o ano de 1975. Mas a idade da obsolescência chegava para as instalações hidráulicas e até para a alvenaria. Vazamentos, trincas, infiltrações, ele ia tentando corrigir com o que havia em casa e com o que possuía de conhecimento, a bem da verdade bastante reduzido para essas ocupações típicas de manutenção predial. Não podia comprar material porque as lojas de materiais de construção estavam fechadas por determinação do governador, há três meses. Não tinha habilidade para serviços dessa natureza, e contratar um prestador de serviços era impossível, porque a decisão da assembleia era de esperar o fim da pandemia para permitir a entrada de estranhos no condomínio. O apartamento começava a revelar mofo num canto da parede da sala, a válvula de descarga do banheiro fazia minar um fio de água deslizando pelos azulejos a cada acionamento. Apelava para o computador e buscava no YouTube os vídeos que ensinam didaticamente ações de manutenção caseira. Consertava o que conseguia entender, e quase nunca entendia o processo. Dava-lhe desgosto o ar de reprovação da mulher, que deixava sempre o apartamento impecável, com a ajuda da empregada. Essa, tinham permitido que ficasse na casa dela, longe das aglomerações do metrô e do ônibus, as duas conduções que era obrigada a tomar para vir da periferia, três vezes por semana. No primeiro mês, depositaram-lhe o salário integral. Logo em seguida, souberam de uma decisão governamental de oferecer um benefício emergencial para empregadas domésticas, cumpriram a burocracia estatal e ficaram acompanhando pela Internet a situação do pedido. “Em processamento”, era a informação que perdurou por mais de um mês. Sem resposta positiva do governo, depositaram o segundo salário referente ao período de afastamento. Menos de uma semana depois, veio a aprovação, o governo depositou a ajuda na conta da empregada. Menos mal que a moça teria rendimento e ao mesmo tempo economizariam o salário dela pelos próximos dois meses. Mas a expectativa pós-pandemia não era boa. Talvez não conseguissem manter a empregada, leal auxiliar por quase vinte anos. A agência reduzira o salário da esposa, alegadamente por dois meses, mas revogariam a redução, passado esse tempo? Decerto viriam com o discurso de que precisariam de mais tempo para equilibrar as despesas, que precisariam da união de todos para fazer um esforço a mais para manter seus empregos, e que todos deveriam compreender a conjuntura (ah! como patrão gosta da palavra conjuntura!). Mas, nas reuniões semanais por vídeo, os três sócios da agência apareciam para conversar, tendo como ambiente de fundo o barco ancorado na marina, ou a piscina deslumbrante, ou ao lado de custosas garrafas de vinho. E a mulher dele em casa, usando a sua rede de Internet, a sua rede elétrica, com dores na coluna de ficar sentada diante da tela durante mais de dez horas por dia, tendo à direita o canto mofado da parede e, lá dentro, a válvula vazante da privada.

Aos poucos, uma rotina foi estabelecida, depois do aparvalhamento dos primeiros dias. Despertavam, ele e a mulher, às oito da manhã, tomavam o desjejum, ela já se acomodava em frente ao computador para montar os planos de mídia para clientes. Não se chama os clientes, em reunião, de clientes, senão se os coloca na vala comum, ensinava a mulher. Ou se os chama pelo nome ou por nome nenhum. Eram coisas sobre as quais jamais havia parado para pensar. Detalhes curiosos da profissão. Ele aceitava as informações, ponderava sobre elas. Tinha experiência de gestão em empresas, com todos os confrontos típicos das intrigas palacianas, e era mais experimentado do que a mulher, até por ser alguns anos mais velho e por ser homem, condição que a sociedade lhe conferia como troféu de superioridade. Ela, muitas vezes, se aconselhava com ele, pedia sugestões, o que o deixava sumamente lisonjeado. Mas ele sabia que a mulher era competente, correta, eficiente e rápida. Admirava nela especialmente a competência vocabular. Era capaz de encontrar a palavra exata para definir uma situação, uma definição ou um sentimento. Qualidade preciosa para a sua área de atuação. Um caso ilustrativo foi de uma empresa fabricante de papel higiênico, ávida por dar a conhecer ao público a sua marca, usando o discurso de que ofereciam ao público algo que nenhuma concorrente conseguia. Hum... Que uso inovador pode ter um papel higiênico? Sentado a um canto da sala, atento à reunião e cuidando para não aparecer no quadro, ouviu as intervenções da mulher, e sorriu com a maneira como conduzia contestação e trazia ideias novas de publicidade. Sentia-se de algum modo parte da reunião.

Uma janela que se iluminou, no prédio da frente, mostrando uma jovem com uma panela na mão, tamborilando vaias ao governo, o fez abandonar a digressão. Voltou a avaliar a rotina dos três meses de confinamento. Visto que a mulher ocupava a sala para trabalhar, recolhia-se à cozinha, lavava a louça, recolhia o lixo e descia para o térreo para depositar na lixeira. Hora do primeiro cigarro, num canto deserto do condomínio. Não usava máscara porque não cruzava com ninguém. Naquele pedaço do terreno passavam, de tempos em tempos, pessoas nas suas caminhadas diárias, para exercitar as pernas. Ademais, não fazia sentido descer de máscara, tirar para desfrutar do tabaco e depois botar de novo na cara. Soava até a hipocrisia. Para o almoço, a mulher contava com vale-refeição fornecido pela empresa (isso não cortaram) e o serviço de entrega deixava os pedidos na portaria. Entregas de comida, de produtos de limpeza, de produtos alimentícios, foram serviços que aumentaram enormemente com as pessoas evitando sair de casa e com restaurante e lojas fechadas. Ele descia para apanhar o pedido e era oportunidade para o segundo cigarro. De passagem, observava que os contêineres destinados ao descarte de lixo reciclável estavam muito mais cheios do que antigamente. Estranho, usar a referência de antigamente para um tempo que não ultrapassava três meses. As referências passaram mesmo a ser outras. Eventualmente, descia no meio da tarde para recolher uma entrega de medicamentos ou de uma caixa de vinhos que encomendavam a cada quinze dias. Mais um cigarro no final da tarde, para minimizar o tédio. Outro depois do jantar e, finalmente, um derradeiro antes de dormir. Num dia de maior nervosismo, mais um ou dois. Cigarros marcavam a passagem do tempo e da inutilidade da vida.
      
Uma vez por semana, às terças de manhã, teimava em ir fazer a feira. Frutas, legumes, verduras, peixes e frangos. Era praticamente a sua diversão. Entrava no carro, já usando a máscara protetora, estacionava em frente à feira, fazia as suas escolhas e pagava em cartão de débito. Já sabia o que devia comprar, então resolvia tudo muito rapidamente. Por último, a barraca de pastéis. Existe algo mais característico da vida urbana de São Paulo do que pastéis de feira? Comprava quatro – o almoço do dia. A mulher adorava o petisco, embora censurasse a saída regular dele e repetisse toda semana a ladainha do cuidado em manter distância das pessoas, de usar o álcool em gel depois de tocar em cada produto comprado, de não mexer na superfície da máscara com as mãos, e só nas alças que vão presas atrás das orelhas. A lista era grande e ele cumpria direitinho o que ela mandava. Só desobedecia a caminho de casa, parando para comprar na padaria dois maços de cigarro, que durariam seis dias, assim mesmo com todo cuidado, mascarado, comportado.

Tinham ficado para trás, ou para a frente, os planos de se mudarem para Santos, cidade litorânea de boa infraestrutura, bonita e bem cuidada. A aposentadoria da esposa devia se concretizar em seis meses, se as regras de transição impostas pela nova sistemática da Reforma da Previdência brasileira não frustrassem as expectativas. Isso porque não estava suficientemente claro, para o cidadão comum, como deveria ser feito o cálculo de valores. Tudo se perdia numa confusão de regras que atropelavam outras regras e se mesclavam a terceiras, e não se conseguia ter certeza de coisa alguma. De qualquer forma, em algum momento não tão distante, a mulher passaria a ter algum benefício previdenciário; somado ao seu, teriam certa estabilidade financeira. Poderiam alugar o apartamento de São Paulo, não tão novo, mas ainda um bom apartamento, mesmo precisado de reparos. O valor do aluguel custearia com sobras o aluguel de uma casa em Santos, onde o custo de vida é relativamente mais baixo. Uma casa, sim, porque o confinamento em prédio já demonstrara como pode ser incômoda a vida de alguém aprisionado em três quartos, sala, cozinha, banheiro e área de serviço. Escolheriam uma casa com quintal, onde pudessem cultivar uma horta, ter umas poucas árvores de fruta, lugar para pendurar uma rede, terra para pisar, ar para respirar, pássaros que ouvir. Para começar, economizariam o valor da taxa de condomínio, mais de 200 euros por mês, que poderia ser aplicado em melhorias na casa da praia. Mesmo aposentada, a mulher teria grandes possibilidades de prestar consultorias para agências de publicidade, na sua expertise, e o dinheiro serviria para pequenas viagens. Além disso, em uma casa poderiam receber visitas, porque teriam mais espaço e mais liberdade. O morador do apartamento de baixo, do oitavo andar, um chato, reclamava até quando caía uma almofada. Mandava recado pelo zelador, do “enorme” barulho que os moradores de cima faziam. Só que o mesmo reclamante mantinha dentro do seu apartamento dois cachorros, duas pestinhas insolentes com seus latidos esganiçados. Desciam para o passeio higiênico três vezes por dia, e a cada descida uma latomia infernal e agourenta, de latidos e rosnados. Disso ninguém reclamava. Aliás, lembrava-se de que, ao se mudar para o prédio, apenas dois dos quarenta apartamentos tinham cães entre seus habitantes; atualmente, apenas dois donos de apartamentos não têm cães. Curioso esse hábito contemporâneo de adotar animais de estimação em vez de ter filhos. Curioso, não! Incompreensível. Seria porque cães duram menos e não representam compromisso para o resto da vida? Doze, quinze anos, e morrem. Aí se escolhe outro. É amor com prazo de validade, deve ser esse o motivo.

Filhos são dependentes, no começo. Depois são questionadores. Mais tarde, desafiadores e, por fim, ingratos. Tiveram dois. E talvez teria sido preferível que tivessem cães. Há quanto tempo não tinham notícias de nenhum deles! Um estava na Noruega, onde se estabeleceu e ficou, depois de terminado o curso de mestrado em engenharia ambiental. Casou-se por lá e, aos pais, só comunicou. Não convidou, não fez questão de que comparecessem à cerimônia. Apenas informou, em mensagem lacônica pelo correio eletrônico. A notícia seguinte veio mais de três anos depois, exibindo a foto do menino, um viking rosado com cara de dono do mundo. Mais nada. O outro filho, mais jovem, decidiu sair de casa aos 19 anos e foi morar numa república de roqueiros cujo divertimento era se reunir num posto de gasolina, quase todas as noites, para bebericar e fanfarronar. Trabalhava numa oficina mecânica e só sabia falar de carros. Não quis estudar, não parecia ter qualquer objetivo na vida. Um desperdício. Um jovem bonito, saudável, mas muito mal-humorado e ranzinza. Alguma coisa tinha dado errado no percurso e os dois filhos foram buscar outros ambientes, quem sabe outros pais. A esposa não se queixava – em vez disso, trabalhava como se fugisse da realidade. Só a ouviu murmurar, naquele segundo domingo de maio, antes que ela se virasse de lado para dormir, perto da meia-noite, que os filhos nem sequer a haviam cumprimentado pelo dia das mães. Ele pretendeu dar a ela um consolo, um conforto, e pousou-lhe a mão sobre o ombro. De uma sacudidela de corpo, ela se livrou do afago, com um resmungo, e se aquietou. Ele percebeu que chorava, mas não teve o que dizer nem o que fazer. Foi uma noite de pouco e desagradável sono. Pensou nos seus próprios erros, nas ausências forçadas pelo excesso de trabalho, nas... Agarrou com mais força a barra do gradil e empurrou, como se quisesse quebrar a proteção, arrebentar tudo e jogar. E se jogar...       
   
Todo mundo estava nervoso, intolerante, uns mais que outros. Pensando bem, como tem gente irritante neste mundo! Ouviu um carro buzinando, insistentemente, diante do hospital, duas esquinas rua acima e se enfureceu com o descaso do motorista para com a disposição do Código Brasileiro de Trânsito que proíbe buzinar em área próxima a hospitais e escolas ou dentro de túneis. Sentia-se num túnel. Numa viagem, anos atrás, o tráfego de veículos ficou paralisado em razão de um acidente e ele deu o azar de ficar na fila, que não se moveu por horas e horas, dentro do túnel da Mata Fria. Uma experiência sufocante. Escuridão, cheiro de gás de escapamentos, porque tem um monte de imbecis que não desligam os motores, contrariando a orientação das autoridades, e sem qualquer informação. Não havia onde comprar água, nem sanitários por perto. Crianças choravam, adultos resmungavam, alguns botavam música muito alta. Um suplício. Algo como viver trancado no apartamento, e não apenas por horas, mas por meses. O confinamento já passava da metade do terceiro mês. A cada quinze dias o governo do estado prorrogava o isolamento, dado que o número de pessoas contaminadas e de mortes não parava de subir. E a cada prorrogação reacendia-se o debate entre os defensores do distanciamento social e os tolos que pregavam a volta à normalidade de toda a gente nas ruas, com o argumento de que era inevitável que 70% da população seria contaminada, confinada ou não. Não aguentava mais. Coronavírus ou seguidores do presidente. Seguidores do presidente ou Coronavírus. Era o cardápio.

Voltou a pensar nos filhos. Do mais velho, por mais que forçasse a memória, só lhe vinha à lembrança a imagem do menino, pequeno, magrinho, com seis ou sete anos, um filhote amoroso e divertido. A família ria muito das asneiras que o garoto produzia, com a sua falinha fina e cara séria. Não conseguia realizar a imagem do filho adolescente. Era como se a memória fizesse saltar esse período. No turbilhão de cenas rememoradas, ora o menino, ora o adulto de semblante carregado, zangado. O afastamento dos filhos... o que isso dizia dele? Considerava-se um homem de posições firmes, tinha o direito e o dever de apresentar suas opiniões sem reservas, doesse a quem doesse. Filho tem que aceitar a experiência da gente, não passamos à toa por tudo o que passamos na vida. Mas esses moleques de hoje acham que nasceram sabendo. Se deixarmos, já querem ensinar como é que devemos viver, porque conhecem tecnologia. Aliás, tecnologia é o mal moderno. Virou a hierarquia de cabeça para baixo. Os fedelhos do prédio, que conhecia desde crianças, hoje moços e moças, até são educados, cumprimentam, mas olham para os mais velhos como quem enxerga dinossauros. Não sentia vontade de conversar com eles, aliás, com nenhum dos vizinhos. Trocava saudações cordiais, mas sempre que podia, evitava encontrar pessoas. Os elevadores trazem cartazes orientando as pessoas a preferirem usar os equipamentos isoladamente, o que era perfeito. Esperava no térreo não ter outro vizinho para então usar o elevador. Se estivesse disposto, usava as escadas. Não era velho, tinha saúde, e era bom fazer exercício. Duas senhoras, uma do quarto andar e outra do décimo, tinham decidido fazer máscaras de tecido para vender. Uma lhe bateu à porta para oferecer, toda cuidadosa em relação à distância de que devia ser obedecida, disse-lhe o preço, mostrou as estampas. Encomendou três, mais para se livrar dela. Sua mulher já havia comprado máscaras em quantidade suficiente, nem precisava de outras, mas enfim não queria ser rude. Tinha raiva do marido dela porque era um alcaguete. Uns três anos antes comprou, por insistência da mulher, um sofá novo para a sala. Mania de mulher, ficar trocando a mobília. Queria, pronto. O sofá era muito grande, estava gasto, mudar a cara do apartamento fazia bem. Comprou. Alugou uma camionete para buscar a peça nova na loja e chamou o irmão para o ajudar. No estacionamento há uma vaga destinada a carga e descarga, com uso permitido por 30 minutos. Estacionou ali e se puseram, os dois, a descarregar o móvel. Muitas manobras foram necessárias para fazer o sofá entrar no elevador, outras tantas para fazê-lo sair, passar pela porta do apartamento e ser deixado, em pé, num canto, para descer o antigo. Um suador, porque realmente era muito grande, tentaram passar pela porta com o móvel na vertical, não deu, voltaram para dentro, mudaram a posição e tentaram passar com ele em pé, não deu também. Por fim, na diagonal, conseguiram sair para o corredor externo. Em meio à empreitada, tocou o interfone. Suando em bicas, aborrecido com as tentativas frustradas, interrompeu o trabalho e foi atender. Era o pobre do zelador, informando que havia recebido uma queixa de que os 30 minutos de tolerância para uso da vaga de carga tinham sido ultrapassados. Desculpou-se, avisou que já estava descendo e voltou ao trabalho. Mais um sacrifício para fazer o sofá caber no elevador, outro para retirá-lo e o terceiro para amarrá-lo na caçamba da camionete. Não havia ninguém esperando para usar a vaga do estacionamento. Terminado o carregamento, saiu com o veículo para entregar o sofá a uma família pobre que aceitara com as duas mãos a doação. Parou na portaria para indagar do zelador quem havia reclamado da demora. Quando soube, ficou irritado, porque o fulano nem carro possuía. Reclamou porque não tinha mais que fazer e passava o tempo olhando pela janela para identificar descumprimento de regras. Um desocupado e mais: alcaguete. Um bando de pulhas naquele prédio. Queria ir embora, morar no litoral, sumir dessa pressão social idiota que o cercava. Mas o vírus...

A garoa já empapava a roupa e deixava a sacada molhada. Ouviu, dentro do apartamento, o telefone tocar e a voz da mulher respondendo. Não conseguia identificar o que ela dizia, porque o vento zunia nos ouvidos. Imobilizou-se, curioso. Passava das nove da noite, não era hora de trabalho. Um minuto depois, pouco mais, ela anunciou um nome para ele, em voz alta, e avisou que essa pessoa telefonaria na manhã seguinte.

No meio do mosaico de pensamentos que lhe ocupava a mente, percebeu-se ofegante, com raiva, agarrado ao gradil da sacada. Cerca de um mês atrás, o diretor da sua antiga empresa empregadora pediu, numa chamada por vídeo, que ajudasse o novo gerente a produzir um material institucional sobre a companhia. Como era um dos empregados que mais tempo havia ficado na empresa, conhecia a história, a que podia e a que não podia ser contada. Aceitou o encargo, quase uma jangada surgida para escapar da maré de tédio. Tinha lembranças, e-mails, documentos guardados, dava um ou outro telefonema para consultar ex-colegas. Produziu um trabalho consistente e organizado. Entregou. O petulante gerente devolveu o texto, cheio de correções impertinentes e comentários desairosos à qualidade do que escrevera. Foi a ofensa mais contundente que recebera na vida. Agora já não sentia somente fúria, mas angústia, agonia, desespero. Nada parecia dar certo para ele. Puxou com o pé a banqueta para sentar. Irado, calculou mal a força, o banquinho escorregou, atingiu a mesa de centro e derrubou o abajur. Um fio se rompeu e encostou na água acumulada no piso da sacada. O choque percorreu veloz toda a armação de ferro e lhe alcançou as mãos. Com o susto, jogou o corpo para trás. Escorregou no piso molhado e caiu de costas, a fio comprido. A pancada da cabeça de encontro ao piso fez um ruído medonho.

Nove andares abaixo, o asfalto molhado refletia as luzes dos postes de iluminação, semelhando um lago escuro. Quase como um poço, no fundo de um abismo.

 

 

Joaquim Maria Botelho é jornalista e escritor. Comandou equipes na Revista Manchete, TV Globo, TV Bandeirantes e jornal ValeParaibano. Lecionou por dez anos na Faculdade de Jornalismo da Universidade de Taubaté. No âmbito corporativo, foi assessor de imprensa da Embraer e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. No governo estadual, foi coordenador de comunicação da Secretaria da Educação. Também é ensaísta e tradutor. Assinou traduções do inglês (Cultrix e Global) e do espanhol (Fundação Heinrich Böll). É autor de vários livros. Dentre outros, “Imprensa, poder e crítica”, “Redação empresarial sem mistérios”, os romances “Costelas de Heitor Batalha” e “O livro de Rovana”, além do livro de contos “Lá dentro”. Presidiu a UBE - União Brasileira de Escritores, entre 2010 e 2015. Atualmente é empresário na área de comunicação. É filho de Ruth Guimarães.
Email: jmbotelho@uol.com.br
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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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