ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Ricardo Ramos Filho


Crônica: Saudade da minha peixeira    

Quem passar pelo título da crônica apressadamente, de forma distraída, irá de certo confundir-se, terá expectativa errada sobre o assunto a ser abordado por aqui, imaginará amor trazido do passado, saudosamente relembrado, talvez evocação da mocinha vestida de branco atrás do balcão, postas de filé Saint Peter sendo cortadas com cuidado, paixão do cronista pela vendedora de peixe, relacionamento findo por razões a serem abordadas no texto. Estará enganado, bem enganado.

Fui um menino medroso. Embora fizesse força para aparentar valentia capaz de me elevar a um tipo de herói de histórias postas em livros, aqueles fortes e justos, hábeis a enfrentar o nocivo, dispostos a roubar dos ricos para doar aos pobres, fazia na verdade, internamente, figura lamentável. Custava-me disfarçar os terrores, minhas noites, quase sempre, eram atormentadas por pesadelos terríveis. Acordava acovardado, tremendo, pijama encharcado, cabelos em pé. Hoje, adulto, desejaria entender a razão de tantos sustos escondidos nos sonhos dos meninos. Era um inferno. Postergava com energia e determinação o momento de recolher-me. Apenas depois de brigas, ameaças, discussões infindáveis com meus pais, concordava em arriscar-me, enfiava-me debaixo das cobertas, aceitava desconfiado a enorme probabilidade de encontrar meus demônios enquanto dormia. E eles eram insistentes, feios, insidiosos, transformavam-me em caça, um fugir eterno sob minhas pestanas fechadas.

Certo dia encontrei na cozinha uma faca de tamanho grande. Enorme a danadinha, quase uma espada. Empunhadura preta envernizada de madeira, lâmina larga e afiada, cerca de oitenta centímetros de comprimento. Faca de ponta. Encantei-me com a arma. Aproveitei um descuido de Alice, a cozinheira, roubei o utensílio de metal, subi com ele para o quarto. Acomodei-o debaixo da cama de forma estratégica. Caso virasse de bruços e esticasse o braço direito, conseguia facilmente apossar-me da peixeira.

Andava na época às voltas com minhas raízes nordestinas. Os cangaceiros enfeitavam meu imaginário. Um deles Virgulino, apelido Lampião. Outro, Corisco, o Diabo Louro.

- Se entrega, Corisco!

- Eu não me entrego não, não sou passarinho pra viver lá na prisão, só me entrego na morte, de parabelo na mão!

Vestiam roupa de couro, cobravam proteção dos fazendeiros ricos, ajudavam os pobres. Com suas peixeiras faziam justiça no sertão. Violentos, sanguinários, mas equânimes. 

Naquela noite, assim que me deitei, soltei um suspiro profundo e aliviado. Pela primeira vez sentia-me tranquilo ante a possibilidade do sono.  A arma ali vizinha transformava-me em um super-herói alagoano. Nenhum monstro fictício escondido em meu inconsciente faria frente à lâmina afiada e pontiaguda.

- Fé cega, faca amolada!

Dormi bem, apaziguado.

Durante muito tempo, talvez por algum tipo de magia, nunca consegui entender direito, a peixeira ficou debaixo de minha cama. O quarto era limpo, mas não enxergavam e, portanto, não removiam meu tesouro. Os pesadelos fugiram de dentro de mim.

- Faca de ponta tá tá...     

Hoje vi-me às voltas com a nostalgia da minha peixeira. Um dia, não há bem que sempre dure, minha mãe descobriu minha Excalibur. Horrorizada, deu sumiço nela.

O Covid tem atormentado o meu dormir. Adoraria estar de posse de minha peixeira. Com a idade os pesadelos voltam.

Novembro/2020

 

 

Ricardo Ramos Filho é escritor, com livros editados no Brasil e no exterior.  Professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela USP. Ministra cursos e oficinas, trabalha como orientador literário. É cronista do Escritablog e da revista InComunidade.  Presidente da União Brasileira dos Escritores (UBE), São Paulo. Como sócio proprietário da Ricardo Filho Eventos Literários atua como produtor cultural. Possui graduação em Matemática pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1986).

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Paginação:

Nuno Baptista


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