ANO 9 Edição 99 - Dezembro 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


A PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA    

Se é licito afirmar que o surrealismo é um romantismo, porque, como este, se funda no sentimento e não na razão, ao contrário do iluminismo que lhe foi imediatamente anterior, a obra de Dali pode considerar-se a mais barroca das obras românticas dos pintores surrealistas.

Como o romantismo, também o barroco se fundava no sentimento e não na razão, por oposição ao classicismo que o antecedera. Mas se o romantismo era um regresso a um passado mítico fundado no amor e na saudade dum mundo em ruínas mas que outrora fora uma exaltação da beleza, e um regresso ao campo visto como regresso ao paraíso, o mundo barroco é um mundo angustiante, onde o que era certo, e reto, e equilibrado se dissolve, onde a crença irracional surge como a luz que poderá conduzir o homem no futuro. Com o barroco, as áureas proporções renascentistas, tão evidentes em Leonardo, Brunelleschi e Bramante, desfizeram-se transformando-se em curvas, em sinuosidades que recordam chamas.

Uma das obras mais representativas do barroco surrealista é esta obra A PERSITÊNCIA DA MEMÓRIA, de pequenas dimensões (24X33cm), criada por Dali num fulgor de horas, em 1931, na fase que o próprio artista classificou de paranoico-crítica. Num mundo contraditório, onde a realidade e o sonho se misturam, a realidade é retratada nas falésias áridas da aldeia piscatória de Port Ligat, onde então Dali vivia e em que, como escreveu o próprio Dali, “as tardes estão, frequentemente, cheias de uma mórbida melancolia”. Em redor dessa realidade tudo é sonho: a oliveira morta em que o tempo se suspende, os relógios que se dissolvem  tal como as horas incertas que neles estão marcadas dissolvem os homens,  e a própria figura de Dali que lembra simultaneamente um feto e um cavalo deitado sob a sela do tempo. O único dos quatro relógios que não se encontra deformado, um relógio de bolso vermelho representando a intimidade e o amor, está tomado por formigas negras, a morte que devora a vida. O relógio azul sobre o altar, junto à oliveira ressequida, tem uma mosca que, como as formigas, é o símbolo do tempo que voa para a morte. O relógio suspenso sobre o ramo da oliveira lembra os tempos sombrios em que vivia Dali, logo após a carnificina da Primeira Grande Guerra, mostrando que a árvore da paz se encontrava morta.

O fundo da obra é escuro, e o azul frio e melancólico do mar e do céu em absoluta calmaria, entre os quais se dissolve o amarelo  da ténue luz do sol poente, tornam o tempo ainda mais angustiante face à indiferença  dos elementos. O fantasma da impotência que então angustiava Dali juntava-se ao tempo em que a memória se tornava pastosa, adormecida, para criar esta obra barroca.

 

 

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Revista InComunidade, Edição de Dezembro de 2020


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Foto de capa:

SALVADOR DALÍ, 'La persistencia de la memoria', 1931.


Paginação:

Nuno Baptista


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