ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

André Giusti


Lost    

Rique, afundado na poltrona encardida que me coube na partilha do divórcio, consigo ver as horas: faltam oito minutos para acabar o dia do meu aniversário de quarenta anos.

Cansados os dedos no controle da TV, acabei parando num desses seriados que fazem tanto sucesso hoje em dia. É esse tal em que um bando de gente tenta sobreviver numa ilha, ou babaquice que o valha. Jamais gastei meus olhos vendo um capítulo sequer. Conheço de ouvir falar, do que pesco das conversas dos jovens lá do trabalho. Embromam o serviço, de quinze em quinze minutos vão ao cantinho do café falar desses seriados, da vida dos personagens. E contam também uns aos outros sobre festas, lugares, shows, planos e sonhos. Dão gargalhadas, vibram; há os que se emocionam, e todos mostram que acreditam mesmo no que estão falando, no que poderão fazer, no que querem que aconteça. Eles têm o tempo da convicção, Rique. Veja como são belos esses jovens pulando com aqueles penduricalhos eletrônicos no pescoço nos anúncios de celular, passando no metrô com uns grampos no nariz e nos supercílios. Eles baixam posts, Rique, trocam piadas, confidências, declarações de amor pelo twitter, criam comunidades, gostam de samba-jazz-pop-rock-baião-tecno, vão para a Austrália aprimorar o inglês e morar na casa de uma família que nunca viram. A vida lhes pertence, como um dia, lá por 1986 ou 7, nos pertenceu.

Mas hoje, Rique, a única coisa que temos é quarenta anos, não nos sobrou muito mais do que essa incógnita meia-idade, casamentos desfeitos e um ou outro episódio de alcoolismo. O passado é alguém que ri ou chora no quarto dos fundos, Rique, e eu não tenho saco nenhum para quem adora seriados de TV.

Ano após ano foi diminuindo o número de pessoas que me ligavam no dia do meu aniversário. No último, foram uma ou duas, se bem lembro, até que este ano a coisa zerou: faltam sete minutos para a meia-noite e ninguém ligou no dia do meu aniversário de quarenta anos. E certamente será mais fácil que algum dos idiotas desse seriado consiga fugir da bosta dessa ilha do que esse telefone tocar daqui para a meia-noite.

Até que acordei bem, fiz barba, tomei banho, pus roupa nova, uma camiseta e uma bermuda. A camiseta foi minha filha quem deu, veio aqui na quinta-feira com o pretexto de que não poderia vir hoje, que viajaria prum mato escondido do mundo com sei lá quem ou para quê. Ficou dez minutos protocolares, obrigatórios, atendeu duas vezes o celular, não perguntou nada da minha vida, não me falou nada sobre a dela. A bermuda foi minha irmã, mandou que uma afilhada comprasse e viesse aqui entregar. Velha e diabética, não sai de casa porque tem síndrome de pânico; surda, não telefona porque não ouve quem fala do outro lado da linha.

Ainda animado, preparei um almoço razoável aqui em casa. Fui à padaria, comprei um frango. Da rua trouxe também nhoque. Bebi até vinho. Depois de duas taças, senti que me tocavam a alma certa expectativa e esperança, no quê e em quê não sei dizer. Há sentimentos que com o passar dos anos tornam-se intrusos na alma como forasteiros em uma cidade inóspita. E como eram mesmo absurdas, já foram embora, Rique, a expectativa e a esperança. Seguiram a euforia da leve embriaguez do vinho, tomaram o rumo da tarde rosada de outono, não esperaram a noite acender as lâmpadas econômicas de minha casa, deixaram-me feito mães desesperadas que abandonam no lixo filhos recém-nascidos.

O som da TV continua se perdendo no nada da minha cabeça, como água corrente que cai em uma gruta sem fundo. O filme vai e volta do comercial no mesmo espaço de tempo em que a digital do relógio salta duas vezes avançando o domingo para o fim. Feito um helicóptero que dá rasantes em um campo devastado pela guerra, volta-me à lembrança a ideia que fiz deste meu aniversário de quarenta anos na época em que eu e você tínhamos apenas vinte.

Se contássemos, pareceria inverossímil aos meninos que veem esses seriados que um dia tivemos vinte anos. Besta que eu era, pensei que num dia como hoje eu ganharia festa surpresa, amigos tantos acendendo as luzes, dando vivas aos berros no momento em que eu, inocente, abrisse a porta de casa, uma grande e moderna casa de estilo e bom gosto num bairro de classe média elegante. Batendo espantado a porta atrás de mim, eu jogaria nas costas de uma cadeira de palha meu paletó de fino corte, deixaria também de lado minha pasta executiva de couro bom e receberia logo teu abraço, heroico amigo de fidelidade concretada pela alegria e pela tristeza. Abriria, então, os braços para receber outros afagos, mas no fundo achando previsível que me aprontassem uma daquelas, porque, afinal, eu seria um jornalista consagrado, expoente de minha geração, repleto de boas e influentes relações, e, como tal, me ladeavam pessoas do mesmo quilate, tão influentes quanto eu e você, colecionadores de discípulos e admiradores.

Recompondo-me feliz do baque, alguém de nosso séquito pediria então que nos ombreássemos para a foto eterna do dia do meu aniversário de quarenta anos. Queriam ver lado a lado os dois jornalistas que derrubaram um presidente, trouxeram à tona os horrores da ditadura militar, revelaram esquemas cruéis do narcotráfico na América Latina, tal como se fôssemos, transportados para a realidade, personagens encarnados de Frederick Forsyth. Lembra, Rique? Dossiê Odessa, que compramos juntos e dividimos a leitura, um dia eu, um dia você, para resumir e entregar como trabalho de faculdade.

Ao passo que devorava as páginas, ficava claro em minha mente trouxa que sairíamos de uma história de Forsyth para a vida real: destemidos repórteres atravessando uma noite de natal, obtendo informações sigilosas da fonte mais importante, a peça crucial do elo entre o corrupto ditador chileno e o governo brasileiro no plano para desenvolver a bomba atômica. Da redação, varando a madrugada escrevendo linhas bombásticas, iríamos para casa com as primeiras luzes do dia, sabendo que o país já não era mais o mesmo tendo chegado às bancas o jornal com nossa reportagem. No sossego do ninho, Maria Lúcia aflita e tua mulher aflita esperam com um resto da ceia aqueles homens exaustos e felizes, insones cumpridores do dever, no aguardo sempre de ir atrás de uma investigação na França, revelar uma missão secreta no Cairo, embarcar numa incursão ao Marrocos.

Não desestabilizei governos, não abalei qualquer estrutura. Sequer fui ao Paraguai alguma vez em minha vida. Alcancei, no máximo, ser por algum tempo manejo barato dos barões da imprensa a troco do aluguel e do colégio da filha. Também não casei com Maria Lúcia, o que, na minha certeza embotada de ilusão, aconteceria. Ela e seu garbo de Lady of Lake, porte aristocrático de quem viveu na Irlanda no século treze ou na Inglaterra, em 1964, bem a tempo de ver um show dos Beatles. Maria Lúcia brincou comigo de princesa, de fadinha dois ou três anos, desprezou-me quando eu tinha uns vinte e um e acendeu pela primeira vez uma luz de advertência de que meus sonhos de otário poderiam não ter sido concretizados quando eu tivesse quarenta anos.

É breve o tempo em que repasso essas algumas coisas que a vida não me deu. Ao menos possuo certa tristeza resignada, que chega a me trazer uma quase paz.

Pouco mais de outro minuto já foi embora, aproximando do passado o dia do meu aniversário de quarenta anos. Da poltrona onde atravessei inerte a noite, acompanho com os olhos baços o facho decrépito de luz da TV incidindo justamente sobre o livro de Forsyth. Ele acabou ficando comigo, depois que a frustração desbotou todo o imaginário da nossa juventude, e, como castigo por eu ter sonhado demais, transformou-me em tolo funcionário da empresa de água e esgoto, sem admiradores e séquito de discípulos, sem ninguém que apareça de surpresa nesse quarto e sala, o único canto que deu para comprar no subúrbio de onde jamais consegui sair.

Meia-noite, Rique. Acabou o dia, os babacas não acharam a saída da ilha, nem você ligou.

Ano que vem faço quarenta e um anos.
*
do livro A Maturidade Angustiada (Editora Penalux, São Paulo, 2017)

 

 

André Giusti nasceu em maio de 1968 no Rio de Janeiro e mora em Brasília desde a década de 90. Entre contos, crônicas e poemas, A Maturidade Angustiada (Penalux, 2017) e Os Filmes em que Morremos de Amor (Patuá, 2016) são seus livros mais recentes. Atualmente trabalha em seu primeiro romance. Também é jornalista. Mantém site e blog em www.andregiusti.com.br

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