ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Anaximandro Amorim


Murilinho    

Seu Murilo era o nome do mandachuva local, mas eu queria era falar de Murilinho, filho dele. Um menino franzino, delicado, que só nunca sofreu na mão da garotada pela origem que tinha. Nunca tive problemas com ele. Só achava engraçado aquele jeitinho que mais parecia com o das meninas que com o dos meninos – e deve ser por isso que tudo o que Murilinho não sofria, quem sofria era eu, obrigado a cair no braço com a molecada para provar que eu era “homem”.

Corriam aqueles anos 1960 e o mundo parecia mudar profundamente: milicos no poder, Miss Brasil, rock’n’roll... uma turma de caras cabeludos que chocavam os mais conservadores, inquietos com aquelas caras, aquelas roupas esquisitas, ambíguas, até. Meus pais, no entanto, não pareciam que se preocupavam, mas, uma vez, eu peguei a mãe de Murilinho conversando com a minha. Era, no mínimo, curioso ver a mulher do todo-poderoso naquela sala de casa de classe média baixa da época, agradecendo por eu ser o único menino a ser amigo do filho dela.

“O pai dele disse que preferia matar o menino se soubesse que o filho era...” – e parou, sem dizer a última palavra. Minha mãe, as mãos postas na boca, de espanto. Eu, naquela idade de menino que começava a ter bigodinho, entendendo que ser homem era questão de imposição. A masculinidade dos trópicos era exercício de violência. Quem renunciava a ela, fosse como fosse, era como se castrado em vida. A realidade era ainda mais fálica, naqueles dias.

Eu, no entanto, não ligava para os impropérios dos meninos. Nem por ter que provar, sempre que podia, meu desejo ao ver, nem que fosse, a Miss de biquini, ainda que Murilinho preferisse ver o biquini da Miss. E como eu ria disso! Era uma amizade divertida: comigo, o menino introvertido se tornava ele mesmo, com seus jeitos e trejeitos. A voz fraca ganhava tons afetados e foi pelo olhar astuto de quem parecia passear entre os gêneros que eu soube os segredos – e até, algumas artimanhas – para conquistar o feminino.

Faltava apenas o mais importante: faltava, apenas, “virar homem”, de verdade. Naquela época, isso se dava por um rito de passagem muito simples: adentrar um mundo, até então, proibido para quem não tivesse a idade para uma ereção. As mães faziam vista grossa. Os pais incentivavam a “aventura”. E assim íamos nós, todos juntos, num misto de medo e júbilo, conhecer, de verdade, o corpo de uma mulher.

Murilinho só foi conosco porque era a minha missão: escortar o amigo. Uma vez lá dentro, era cada um por si. Ele ia cabisbaixo, calado. Não era necessário falar absolutamente nada. A zona a que íamos ficava afastada da cidade, perto de uma praia, em uma periferia conhecida por suas casas de tolerância. As “meninas” não eram lá grande coisa, mas nós queríamos apenas saber como tudo funcionava, de fato. Murilinho, no entanto, queria poder não ocupar espaço.

Eu não podia ficar o tempo todo ao lado dele – e, para ser sincero, nem queria. Naquele instante, me identifiquei com a matilha dos meninos vorazes, guiados pelo instinto natural. Ainda dei uma olhada para trás, para ver uma daquelas mulheres chegar até ele. Parecia que ia devorar aquele corpo diminuto, tão frágil, que lhe dava as mãos como se uma presa, pronta para o abate, durante uma noite inteira que parecia ser-lhe ainda mais longa que a minha.

No raiar do dia, fui, um tanto descomposto, me encontrar com Murilinho, sentado na areia da praia, em cima de uma das pernas, cruzadas com um certo charme. A roupa parecia intacta, só os cabelos estavam um tanto desarrumados, e a gola da camisa escondia algo que ele puxava, com uma das mãos, preso ao pescoço.

“E então, amigo, como foi?”, perguntei, sem sequer lhe dar um bom dia, sentando-me ao lado de um menino subitamente assustado que, em seguida, me dava um sorriso de alegria. “Foi ótimo, ganhei até isso aqui!” – e, finalmente, eu vi o que Murilinho segurava: uma imitação de um colar de pérolas, que ainda cheirava a perfume barato.

“Mas quem lhe deu isso?”, perguntei, espantado. “A moça”, ele retrucou – e a palavra entrou em meus ouvidos não sem um certo estranhamento. “Mas por quê?” – e ele, com jeito sereno, totalmente oposto ao da noite anterior, falou: “Ela falou que meu jeito lembrava muito o de uma atriz de cinema” – e fez, em seguida, um gesto grandiloquente – “e disse que esse colar é idêntico ao da Grace Kelly”.

“Murilo” – retruquei, espantado – “o que vocês fizeram a noite toda?” – e, confessei, em minha pergunta, uma certa preocupação. “Ora, nós conversamos! E ela me disse que adoraria que todos os clientes dela fossem assim como eu”, arrematou, com um ar orgulhoso. E, a única coisa que consegui fazer, do alto da minha recém-inaugurada macheza, foi dar um suspiro.

Não fez muito tempo, fomos embora dali, minha família e eu. Outros anos, outros ares e eu que precisava dar continuidade aos estudos, o sonho do filho “doutor”. Um belo dia, abro o jornal já lido pelo meu pai e dou de cara com a notícia: um corpo não identificado foi encontrado na minha antiga cidade. O estado era tão lastimável que só havia sobrado os restos de uma imitação de colar de pérolas. Lembrei-me de Murilinho, torcendo para que ele, um dia, tivesse devolvido esse colar para a antiga dona.

 

 

Anaximandro Amorim (1978) é um advogado, professor e escritor brasileiro. Nasceu em Vila Velha, residindo, porém, desde a infância, na capital Vitória. Formado em Direito e em Letras Português-Francês pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), é membro da Academia Espírito-santense de Letras (cadeira 40, patrono Antônio Ferreira Coelho), da Academia de Letras de Vila Velha (cadeira 12, patrono José de Alencar), do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, da Associação de Professores de Francês do Espírito Santo e demais instituições culturais de seu Estado.   

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