ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Henrique Dória


Poemas    

CORAÇÃO

 

Coração furioso de vida
Persistes na tua demência
De querer devorar o mundo?
Cometa saindo da boca
Com alma de labareda
Com o cio apoderando-se dos céus
Dos ardentes corpos celestes
Animal louco que corres nos desfiladeiros
Atravessado por um raio de luz
Onde dança o pó
Rio remoinho
Até ao ranger das raízes
Ignorando o mar
                            Quando pensas parar?

 

 

 

 

 

 

JUSTIÇA

 

Os tribunais são espadas vendadas
Os juízes as linhas tortas por onde
Circulam as bicicletas
Os procuradores corvos que debicam
As sereias
Os advogados meretrizes cobertas de chocalhos
Que sem remorsos entregam
A alma ao demónio
As leis são imperadores com coroa 
De latão faiscante-
Pelas suas mãos descem os homens
Até às cloacas do mundo
A justiça uma velha estéril
Com quem dormem os impotentes-
                            Ou não dormem.

 

 

 

 

 

 

CORRO EM BUSCA DA TUA MORTE

 

Corro em busca de tua Morte
Ah meu leão alado
Um dia heide caçar-te
Montado sobre um elefante
Heide ser mais rápido
Que a luz branca das tuas asas
Mais feroz do que as tuas garras
Mais inclemente do que o vento.
Sou um caçador de leões 
À entrada dos palácios.
Ergo a minha lança de bronze
Atiro-a contra a pedra
De donde jorrará teu sangue
Frio e a minha lança
Será mais cruel que o Tempo
                            Quando atingir o Nada.

 

 

 

 

 

 

 

CAMINHA COMIGO

 

Caminha comigo na floresta meu filho
Os caminhos são estreitos
Nem caminhos são.

As árvores movem-se 
São fluidas, são peixes
Nem árvores são.

Vegetação excessiva
Impaciente, silvas, silvos
Que nem silvos são.

Aqui não há clareiras
Aqui entra uma luz inanimada
Que nem luz é.

Vem do alto o odor verde
Vem da terra o odor da morte
Que nem morte é. 

Gritos, ruídos, estrondos
Palavras, palavras, palavras
Que nem palavras são.

Segura-te a mim meu filho
Havemos de regressar a casa, ao mar
Ao mar apenas ondas, ondas, ondas
                            Que só espuma são.

 

 

 

 

 

 

LÂMPADA, VULVA, ATÉ ONDE

 

Lâmpada, vulva, até onde
Poderei arder-te
Sonhar dentro dos sonhos
Para te manter acesa?
O longe é apenas alma
Ou o que sentimos dela
Separados animais 
Cativos por dentro de si mesmos
Consagramos os nossos corações em alegria
Enquanto o sangue arde
Até à chama fria

Pois nada nos pertence em sete rosas
De pétalas mais breves
Do que as mariposas.

 

 

 

 

 

 

QUANTO PESA A VIDA?


Quanto pesa a vida?
A vida de um homem é mais pesada
Que o homem
Ou mal suporta o peso do seu riso?

A sua sombra cai
Sobre ele como um velho
Muro com entranhas de musgo
Quando lembra a morte que há-de vir
Ou a vida que não viveu?

As palavras que nascem das suas mãos
São à noite as pedras por onde passa
O seu caminho
Ou tão só a água da sua miragem?

Saberá a  irmã árvore pensativa
Que o seu peso é o lume
Que sobe ao céu
Ou o corpo que ela leva
Ao útero da terra?

E tu homem tão triângulo
Tão parábola sabe que
O sofrimento o medo a maldição
O silêncio as palavras perdidas

Tão pesadas tão muralhas

As suportas
Porque alguma poesia alguma música
São o Atlas do teu mundo.

 

 

 

 

 

 

PRISIONEIRO

 

Sou prisioneiro numa casa
Guardada por um invisível
Silencioso carcereiro
Mas não aprisionado em mim.

O meu coração mantém a sua janela
Aberta para o mar a que pertence
Com a lua e o sol
Com o tigre de olhos indecifráveis
Com o grou coroado
Com as rãs coaxando o cio
Com o sereno choroso cherne
Com as cegas estrelas do mar
Com os distantes embondeiros
Com as pedras sacrificadas à solidão.

Sou prisioneiro mas os meus braços
Vão para ti com o vento
E o sentimento do tempo.

Oh mulher de corpo escarlate
Esta noite sonhei que não estava só
Porque tinha a língua
Na boca do mealheiro.

 

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Revisão de textos: Filomena Barata e Alice Macedo Campos

Conselho Editorial:

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Colaboradores de Novembro de 2020:

Henrique Dória, Adán Echeverria, Adelto Gonçalves, Anaximandro Amorim, André Giusti, Angela Maria Zanirato Salomão, Antônio Torres, Autor Vários autores ; Carvalho Júnior, org., Beatriz Aquino, Carlos Barroso, Carlos Eduardo Matos, Djami Sezostre ; Antônio Cunha, Edmira Cariango Manuel, Elisa Scarpa, Federico Rivero Scarani, Fernando Andrade, Fernando Ferro Brandão, Francisco Marcelino, Ganhanguane Masseve, Geraldo Lima, Henrique Dória, Hermínio Prates, Job Sipitali, Leila Míccolis, Marcus Groza, Marinho Lopes, Mário Baggio, Myrian Naves, Myrian Naves, pelo Conselho Editorial, Nilma Lacerda, Paula Winkler ; Rolando Revagliatti, entrevista, Paulo Martins, Ricardo Ramos Filho, Sônia Peçanha, Suely Bispo, Waldo Contreras López, Wil Prado


Foto de capa:

WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


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