ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Antônio Torres


Pequeno exercício de admiração para a grande escritora Nélida Piñon    

[Um dia chegarei a Sagres, Nélida Piñon. Editora Record.]

 

(A propósito de Um dia chegarei a Sagres, o seu novo romance, simplesmente deslumbrante).

 

Ela é uma colecionadora de prêmios, nos dois lados do Atlântico - de alguns dos mais importantes do Brasil, ao Juan Rulfo, do México (expressivo em espécie, US$ 100 mil, e de maior repercussão continental), ao Vergílio Ferreira, de Portugal, e o Príncipe de Astúrias, da Espanha (50 mil euros e mais uma escultura de Juan Miró), no qual desbancou uns trinta e tantos nomes mundiais que estavam na lista dos premiáveis, entre eles o norte-americano Paul Auster e o israelense Amos Oz.

E mais e mais: no Chile, Colômbia, Estados Unidos...

Traduzida em mais de 30 países, Nélida tem passado com louvor pelo crivo  de sumidades internacionais como o vencedor do Prêmio Camões de 1990, Eduardo Lourenço, autor de O labirinto da saudade: psicanálise mítica do destino português, que dela disse: “Estamos perante uma das grandes escritoras da América Latina e a maior escritora brasileira viva”.

O mexicano Octavio Paz, Prêmio Nobel de 1990, não deixou por menos: “O Brasil é a terra de uma das mais admiráveis romancistas da América Latina: Nélida Piñon”. Ao que outro nobelizado, Mário Vargas Llosa, acrescentou: “Nélida é uma das pessoas mais encantadoras que já conheci, não apenas uma escritora muito fina, mas uma mulher extraordinária”.

Também não lhe pouparam louvores:
Carlos Fuentes, os críticos do Le Monde, do ABC – de Madri -, da revista Publishers Weekly, dos jornalões The New York Times e Washington Post, para quem a carioca de origem galega Nélida Piñon “é uma romancista de inquestionável estatura internacional”. E etc.

Isso para pinçar apenas algumas high lights da sua fortuna crítica, sem deixar de fora as de um conceituadíssimo escritor brasileiro, Alberto Mussa, que no prefácio à edição comemorativa dos 30 anos do monumental A República dos Sonhos (Editora Record, 2015)destacou a grande marca estilística de Nélida, “o que a irmana e simultaneamente a distingue numa longa e antiga fila de escritores primais, subversores de idiomas, criadores de linguagens, sejam de matriz popular ou erudita”.    

Obra gigantesca, tanto em tamanho (mais de 700 páginas) quanto em significação, definida por Mussa como “esplêndida”, A República dos sonhos figurou na lista dos 5 melhores romances americanos do século 20, solicitada ao autor destas linhas pelo jornal El País, de Montevidéu, que não hesitou em colocá-lo no mesmo patamar de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, Pedro Páramo, de Juan Rulfo, O som e a fúria, de William Faulkner.

Sim, estamos falando de um dos altíssimos pontos da extensa e diversificada bibliografia da romancista, contista, ensaísta e igualmente brilhante conferencista Nélida Piñon, que desde a sua estreia literária, em 1961, com Guia-mapa de Gabriel Arcanjo, dedica a sua vida à literatura, de forma obstinada.

Ei-la em plena forma, aos 83 anos.

E outra vez com um romance de fôlego, alentado mesmo, e de finíssima carpintaria, que lemos sem pestanejar, entre ais e suspiros diante de tanta arte e beleza a cada frase, a cada parágrafo, a cada página.

- Um dia chegarei a Sagres. E na condição de herdeiro do rei – eis aí o mantra do protagonista da história, o plebeu Mateus, um personagem do século 19 que nas suas aventuras e desventuras, do extremo Norte ao extremo Sul de Portugal, é levado à fronteira da nostalgia do glorioso passado de um país de conquistadores dos mares, a começar pelo pai da pátria, o infante D. Afonso Henriques, tendo aos ouvidos a heroica poesia de Camões, e cruzando com “cortejos de miseráveis na esteira de uma monarquia que devia trono e fortuna ao seu povo”.

Para dizer o mínimo:
Um dia chegarei a Sagres é um primor de romance, num texto cadenciado, luminoso, deslumbrante, que torna a última flor do Lácio ainda mais encantadora, além de coroar plenamente a poderosa trajetória literária de Nélida Piñon, a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras, ou seja, a Casa de Machado de Assis, viva ela!   

 

 

O escritor brasileiro Antônio Torres (Bahia, 1940) é romancista, contista e cronista, autor de 17 livros, entre os quais se destaca a trilogia formada por Essa Terra, O cachorro e o lobo e Pelo fundo da agulha, publicada em Portugal pela Editora Teodolito. Sua obra tem conquistado inúmeros prêmios no Brasil e traduções em vários países. Membro da Academia Brasileira de Letras, onde ocupa a cadeira fundada por Machado de Assis, Antônio Torres é também sócio correspondente lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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