ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Elisa Scarpa


Enano e Empringa    

No ano em que nasceu uma porca só com uma orelha, uma mulher cujo nome, se perdeu nos idos dos tempos teve uma filha parecida com uma ave doméstica e que veio mais tarde a casar com um homem chamado Enano. Enano era uma criatura simpática que comia quase exclusivamente vísceras e se apaixonou perdidamente por aquela rapariga que dava pelo nome de Empringa.

A mãe de Empringa detestava Enano e praguejava o dia inteiro atrás dela, ralhando e mais ralhando, arrancando o cabelo e arranhando o peito, acolitando para aqui e para ali cada praga, que as orelhas de Empringa que não queriam ouvir, deslizaram cabeça abaixo, desceram pescoço e tronco e acabaram por se instalar nos artelhos. Agora Empringa já não parecia uma ave doméstica, parecia uma ave exótica.

 

Enano se fosse possível, ainda a amava mais. Ele levava um grande cesto com ovos cozidos, tripas e chouriço e iam passear para ao pé do mar. As orelhas de Empringa faziam pequenos movimentos de satisfação e faziam-no constantemente numa ânsia de captar toda e qualquer coisa que Enano dissesse, tanto mais que a voz de Enano se assemelhava, e muito, à voz do mar. Empringa e Enano eram alma e espírito, génio e carácter.

 

A mãe dela que não conseguia esquecer a porca que nascera só com uma orelha, sinal de grande infortúnio, falava continuamente em ruína, mexericos, falsidades, bandos sediciosos, precipitações e em delapidações da honra, honra para baixo e para cima e para os lados.

A facturação negativa para o lado de Enano aumentou ainda mais quando ele montou um negócio. O negócio ia exultante. Enano era um trabalhador e um gestor extremoso. Mas a sogra de coração empedernido, megera pericrânica não deixava de dar à aldraba, Empringa, ensandecida por palavreado tão cagado, uma bela manhã desarvorou de casa e nem a porca desorelhada deu pela sua saída. Instalou-se um floreal silêncio na casa, as pragas genuflectiram e pediram perdão a Deus e ao mundo e não tornaram a sair daquela boca sem calendário e horário, que cada vez que se abria era para deitar, escorrer um chorrilho de imprecações tais que a cara que a secundava enfolava e ficava vermelha e parecia prestes a explodir.

Empringa casou-se com Enano na época da uva branca, vestiram-se de cachos e foram celebrar o casamento junto ao mar. Doravante Empringa passou a comer sobretudo vísceras e os dois trabalhavam no negócio, que sem afectação ou bizarria continuava no bom caminho.

Enano construira um balão que possibilitava medir o impacto dos gases intestinais dos animais no aquecimento global do planeta. Para além da sua construção e manutenção era também necessário estudar o melhor sítio para colocar os ditos balões, para que a medição fosse a mais correcta possível e os dados recolhidos pudessem ser de grande utilidade na recolha de conclusões cabais para o  estudo do impacto dos gases intestinais dos animais no sobreaquecimento da atmosfera. Jábã era o sítio indicado para este estudo porque 90 por cento das herdades criadoras de animais estavam ali, e os criadores não queriam que os seus rebanhos viessem num futuro não muito distante a ser sacrificados por os culparem de estarem a empestar o ar de óxido de azoto.

Empringa e Enano tinham-se mudado, por isso, para Jábã. Empringa até achava as praias mais bonitas, porque eram circundadas por estevas e os campos superabundavam de jaimiquís e jalapas. Empringa vestia de manhã uma saia-jardineira, e airosa com as suas orelhas nos artelhos saía para os campos com Enano, para irem controlar os balões, e tirar os apontamentos das leituras. À noite, sentados à frente de um copo generoso de sangria, computavam os dados e faziam uma análise comparada que lhes dava as informações necessárias para manterem completamente informados os criadores de gado de Jábã.

Os dois apreciavam especialmente a noite, quando se acarinhavam, resguardados das intempéries pela sua bela casa, construída com grandes pedras de mármore de grão grosso, algumas brancas, outras com manchas rosas e acastanhadas, belas pedras de mármore emparelhadas na perfeição, e sem qualquer argamassa ou cimento. A casa era um monumento de modernidade rústica.

Adentro das portas havia um conforto claro e limpo, grandes sofás de linho, íntegros na sua esbelteza clara. Os tapetes eram vastos e de pelo de ovelha amarelo. A ligação do branco do linho com o berrante amarelo dos tapetes fazia daqueles interiores um hino à alegria. Aqueles tapetes haviam-lhes sido oferecidos por um dos maiores criadores de gado de Jábã, e eram únicos. Porque aquele amarelo derivara de uma estranha doença do sistema linfático que afectara durante uns anos o gado em Jábã.

O gado havia sido morto, até porque a doença era transmissível aos humanos. Mas um dos criadores e um só, fascinado por aquele amarelo impropério, matara as suas ovelhas, tal e qual como os demais, mas guardara as peles. Querendo agradecer os prestimosos trabalhos de Enano, mais tarde, e querendo-lhe oferecer algo de raro e original lembrou-se das amarelas peles, e assim as ofertou. Empringa transformou-as naqueles magníficos tapetes que pareciam grandes esteiras de luz. Tapetes onde ela e Enano muitas vezes, em pelotas, brincavam.

A mãe de Empringa apareceu uma manhã, lá em casa. Ensurdecera e envelhecera. As linhas do rosto haviam-se fundido umas às outras. O rosto parecia uma bola de massapão mal amassada. Pedia para ficar. Empringa responde: não, primeiramente, e depois: sim. Construiram-lhe uns aposentos no fundo do quintal e para lá foi; desta feita silenciosa e sem qualquer resquício da doença da praguejação oral que tanto a afectara em tempos idos. Acerca da praguejação mental, não podemos informar. Carece-nos essa notícia!

Empringa e Enano têm o primeiro filho Chrysolito. Chrysolito é bem filho de Empringa, também ele tem as orelhas nos artelhos, também ele irá adorar Enano. Quanto à avó de Chrysolito, este até se esquecia que ela existia, amodorrada no fundo do quintal, distante, surda, fechada intramuros. O neto não lhe despertou qualquer vontade de estima, arrebatada pelo seu silêncio, deixava os dias passarem. De manhã – que era quando acordava – abria as janelas dos seus aposentos.  Aposentos que Enano havia melhorado com as suas próprias mãos, pensando que a mãe de Empringa deixaria de cirandar silêncio pelo quintal. Se adentro de portas tivesse todo o conforto! Pensou que ela deixaria de cirandar silêncio pelo quintal qual trompa de falópio do nada. Sim lá por ser mãe de Empringa não tinha o direito de se deslocar pelo quintal, como um bicho agoirento e indescritível – qualquer coisa entre uma trompa de falópio do nada e uma borboleta nocturna, uma falena enredadora fantasiando-se de noite. Fantasiando-se de noite até durante o dia, fantansiando-se sempre de eternidade ultra-silenciosa.

A mãe de Empringa abria as janelas todas para dar ar à casa, cunhava as portas, para que as correntes de ar não as fizessem bater. Saía até ao jardim e ficava na mesma posição o resto do tempo que demorasse esta operação de arejo, na mesma posição. Não se mexia.

Como a casa que Enano lhe construíra fazia lembrar um grande altar com janelas, ela, afastada uns metros da casa, imóvel, alheada, parecia um facistol. Um facistol inútil, porque não tinha ouvidos para escutar o coro.

Os magníficos tapetes amarelos da casa de Empringa e Enano viram nascer após Chrysolito, quatro crianças, um ano um recém-nascido. O segundo recém-nascido foi Coagulum, o terceiro foi Chrysopras, o quarto Cyankali, o quinto Cystokop.

A avó bafejou os quatro netos com a mesma comédia de silêncio com que havia bafejado o primogénito Chrysolito. Mas quem quer avó, quando tem o mar? Os sete, todos os fins de semana, os passavam no mar. Para além das pernas de Empringa erguidas a favor do vento, para que as orelhas nos artelhos ouvissem todas as palavras e susurros de Enano, havia agora mais cinco pares de pernas erguidas, para ouvirem a voz de Enano e também a de Empringa.

Enano no fim de semana, após um mês de vida de Chrysolito, no primeiro fim de semana em que levaram o filho com eles, ao mar, foi falar com a mãe de Empringa, que é como quem diz, foi debitar palavras para o silêncio. Enano perguntou-lhe se não os queria acompanhar, pensou Enano, vida nova, Chrysolito iniciando a prole, talvez conseguisse terminar com aquele amuo, talvez a mãe de Empringa fosse capaz de anti-fanatizar-se por causa de Chrysolito. Não foi por muito falar que Enano obteve qualquer deslocação do corpo, absolutamente imutável da mãe de Empringa. Enano pensou, esta trompa de falópio mal cheirosa, esta falena fanfarronenta de agoiros merecia era que a desancasse. Enano é, no entanto, um pacífico, um fâmulo da boa vontade. Foi buscar um pedaço de papel, e escreveu nele a frase: Quer vir connosco? E meteu-lho à frente dos olhos. Imutabilidade mais imutabilidade mais imutabilidadde foi a resposta singular que obteve. No entanto... a mãe de Empringa, num esforço jactante de comunicação, na segunda feira seguinte àquele primeiro fim de semana de Chrysolito no mar, imutabilizou-se na hora do arejo da casa, como sempre, mas desta feita com um papel preso à camisola. Preso com um alfinete de ama.  No papel, ou antes, no bilhete, pois tudo leva a crer, ser esta missiva dirigida a alguém, e mais concretamente a Enano, estava escrita a frase: “coisa de muita aparência e pouca utilidade”.

Foi Empringa que acabou por ler a missiva. Ao olhar para o jardim, pareceu-lhe ver algo de inabitual na camisola da mãe, um rectângulo branco, e não resistiu a ir ver do que se tratava. Ao ler aquela frase, desejou ter um moço de fretes, como Empringa era uma mulher capaz de fazer tudo, e gostava mesmo de fazer tudo, aquele desejo de ter um moço de fretes, demonstrava que os seus pensamentos em relação à mãe luxureavam de uma ira, muito pouco filosófica e muito, muitíssimo religiosa. Para Empringa a mãe estava a merecer um castigo definitivo, um moço de fretes que a desfretasse, que a mandasse desta para melhor, que a tornasse na favorita dos Deuses.

As orelhas de Empringa estavam vermelhas, a qualquer momento podiam tornar-se incandescentes e lançar fogo às pernas a partir dos artelhos. Empringa olhou novamente a missiva, depois lembrou-se que tinha que ir comprar uns tupperwares para guardar fiambre, outros para vísceras, outros para ovos e outros para chouriços, para o próximo fim de semana no mar.

Se calhar, em vez de tupperwares talvez pudesse comprar umas marmitas, daquelas de alumínio, cujas molas de fechar são vermelhas, e são muito jeitosinhas, e têm graça que se fartam, ou então um conjunto de tachos iguais, daqueles que se encaixam uns nos outros e metidos num cesto redondo e alto que Enano fizera, iriam muito bem acomodados. Também poderia levar tudo em sacos, daqueles que servem para guardar a comida no congelador, assim não levariam peso, e depois metiam-nos no lixo após as refeições. Empringa foi-se embora e nada disse à mãe.

A mãe por seu lado, não desapertou o bilhete da camisola, e com ele ficou para sempre, ou seja até à hora da sua morte.

Com ele ficou para sempre do peito suspenso.

Quando Chrysolito fez seis anos, Coagulum cinco, Chrysopras quatro, Cyankali três, e Cytoscop dois, Empringa e Enano decidiram fazer um cruzeiro até Havana. Deixaram as crianças com um dos seus amigos criadores de gado e partiram de Jábã no dia 7 de janeiro de 2064.

Nos primeiros dias do cruzeiro Empringa e Enano pareciam levitar no paraíso, as orelhas de Empringa faziam pequenos movimentos de prazer, ao ouvir os sons que se deslocavam no paquete, ao perscrutarem o tamanho, o formato, a disposição do mar, até o formalismo dos outros transportados viajantes lhes agradava. Conheceram logo nas primeiras horas, o que viria a revelar-se o companheiro ideal de viagem, Egon Salmon, um judeu alemão com cara de criança educada, olhos de abóboda celeste e uma voz intoxicante, mistura de formiato com Racine. Embora não falasse em verso, tudo o que saia da sua boca era musical, e o timbre levava Empringa e Enano quase à ausência de vida.

Egon Salmon ouvia atentamente Enano sobre as particularidades do seu invento para medir os gases tóxicos libertados pelos animais e ouvia Empringa, que falava extasiada, e com uma competência tenaz das tarefas hercúleas de manter uma casa e cinco crianças em esmero floral fosforescente.

      - A sua casa deve ser um jardim, dizia Egon Salmon, e os seus filhos orquídeas de luz.

 

Empringa quase se derretia. Para além de um grande ouvinte, Egon, era um grande conversador, pausado, sem se atravessar nas palavras dos outros, com um poder descritivo fotométrico. Não só descrevia as paisagens que havia conhecido, como descrevia a sua intensidade, e tudo isto sem cair descuidado num alçapão de adjectivos.

Quando Enano ao terceiro dia foi atacado por um ataque de fórfolas, que lhe provocou uma comichão dos diabos, para além do embaraço de andar a distribuir por todo o paquete fórfolas, sobretudo à refeição, Egon Salmon de braço dado com Enano passeou com ele e falavra, falavra, falavra para o distrair daquelas fórfolas infernais. Nem uma única vez Egon Salmon sacudiu o seu casaco à altura dos bolsos, porque como Enano era muito baixo, a sua cabeça ficava à altura dos bolsos de Egon, que era um homem bastante alto. Ele de braço dado com Enano e Empringa, no meio deles, assemelhava-se a um velho carvalho nascido entre erva rasteira.

A viagem tornou-se uma gaita, sem foles!, sem lábios!, quando Egon desapareceu. A vida é uma gaita, pensou Empringa, e a morte também, iguaizinhas, feitas uma para a outra. Egon desaparecera, as fórfolas essas continuavam a pernoitar e a diurnar na cabeça de Enano.

Ficavam os dois Enano e Empringa deitados um ao lado do outro no camarote, afastados dos olhares dos outros, rememorando as histórias fantásticas de Egon.

Uma efervescência negra sondava-lhes os interiores numa eclosão de ondas evasivas que mal nasciam se suicidavam em seguida, ondas ecléticas que congregavam em si toda a enchente de cinzentos e negros e que na aldeia espiritual da grande escuridão, não deixavam para outras cores nem um ínfimo logradouro. As suas cabeças eram aldeias de escuridão, mais, eram ilhas de escuridão. Entre dois pontos fixos havia negro e mais negro e mais negro, uma elefantíase de elipses e círculos de escuridão. Um rebanho de indigestões paralisantes, um empaturramento de negro que deixou os artelhos de Empringa escurecidos e as suas orelhas murchas, confusas, baralhadas.

Ela queria lembrar-se das perdizes nas árvores, do desacerto dos arbustos que cresciam desordenadamente em Jábã, do barulho das anáguas brancas penduradas nas cordas e que secavam contra o vento. A escuridão tinha tirado as penas às perdizes, as folhas às árvores, o crescimento aos arbustos e das anáguas brancas restava o invisível, confundiam-se com o resto.

À noite o sono não se enganchava nas suas pálpebras, alerta com a luz, alerta com a falta dela. Estavam cansados, extenuados mesmo, não se encolerizavam, mas não conseguiam dormir. Emagrecidos por aquela vigília permanente e forçada, as guedelhas desciam-lhes sobre os olhos, cortina de algodão grosso. Enano sentia comichões aflitivas no nariz, porque as fórfolas desciam pelos cabelos compridos, entravam-lhe nas narinas e lexiviavam-lhe as duas narinas com tal pujança que Enano parecia ter trepadeiras purulentas dentro das narinas. Mas espirros nem vê-los!, a comichão não tinha voz, enredava-lhe apenas os pensamentos com subterrâneos pensamentos. Enano apertava ainda com mais força  a mão de Empringa a seu lado, e, para vencerem a falta de sono, contavam, e, rememoravam vezes sem conta os dedos das mãos e dos pés de Chrysolito, de Coagulum, de Chrysopras, de Cyankali e de Cystokop.

Enano os dedos das mãos lembrava, um a um, demoradamente, e como costumava fingir comer o dedo mindinho de Coagulum, que libertava risadinhas íntegras, perfeitamente acabadas, partituras de música inolvidável, cada vez que Enano o presenteava com esta brincadeira comilona. Enano relembrava essas risadinhas. Empringa revivia os dedos dos pés dos seus cinco filhos, os de Chrysolito que pareciam de madeira rabiscados a pastel, porque a cor não era homógénea e as veias por demasiado visíveis lembravam tecidos vistos ao microscópio. Os de Coagulum eram fogosos, nunca paravam, nem quando dormiam, longos e com as articulações bem torneadas, inclinavam ao entusiasmo, à acção, ao empenho fervoroso. Os de Chrysopras eram pequenos pipos abatatados, a sensação que se tinha era que se os picassem com um alfinete, eles arrebentariam e libertariam vinho a rodos, vinho para todos os que gostam de beber, pipas de infinito néctar, pequenos abatatados, róseos, o dedo mindinho era quase vermelho. Teria ido a banhos e apanhado um escaldão?, enquanto os outros dedos haviam ficado na sombra da casa ou no aconchego da barraca de praia? Os de Cyankali eram completamente tortos, e punham nos lábios de Empringa um sorriso, tinha os dedos tão tortos que dava vontade de rir, Chrysolito metia-se com ele e dizia-lhe para não se aproximar das árvores, porque estas podiam confundir os dedos dele com as suas raízes, e não o deixarem mais sair junto delas. Cyankali turvo de fúria olhava-o com tal fixidez, que os seus olhos ficavam iguais aos seus dedos e era nessa altura que Chrysolito fugia, em busca de Enano. E os dedos dos pés de Cystokop eram autênticos bichos da seda, a sua forma era de casulo, as articulações, que as tinha, não eram visíveis a olho nu. Empringa olhava para eles fascinada, esperando que alguma coisa deles nascesse, ou florescesse, ou derivasse.

Nesta ronda pelos dedos dos pés dos seus queridos filhos, não resistia e acabava por ver todo o pé, e subir até aos artelhos e ver as orelhas neles implantadas, que ela reconhecia em cada curva delicada, das mais fechadas, às mais abertas, das mais finas às mais grossas.

Eis que quando olhava as orelhas do pé direito de Crysolito pareceu-lhe ver mais duas orelhas, tanto uma como a outra parecidas com as do seu primogénito. Intrigada interrompeu o seu contar dos dedos dos pés, das pernas, dos artelhos, das orelhas, para perguntar mais uma vez a Enano:

      - O que achas que aconteceu ao Egon Salmon?

      - Deve ter caído ao mar.

      - Como é possível?! Ele parecia nadar tão bem.

      - Por isso mesmo, respondeu Enano mais epitriste do que nunca.

Lembrou-se que quando era criança tinha desejado ser Éolo. Se o tivesse sido, se ainda o fosse, se conseguisse tê-lo permanecido, agora poderia ir procurar Egon Salmon, qual larva do cosmos, procurá-lo até o encontrar.

A orelha direita de Crysolito, no seu artelho direito voltou a ocupar Empringa. O que estariam ali a fazer aquelas outras duas orelhas? De tanto as olhar, a orelha de Crysolito desapareceu, e apareceram os artelhos pertencentes aos donos daquelas orelhas. Os donos das orelhas chamavam-se Semiánuo e Selvella, e eram filhos de Chrysolito.

Esteve para chamar Enano e contar-lhe a novidade, dizer-lhe que ele era avô, que Chrysolito tinha tido dois filhos, que também eles tinham orelhas nos artelhos, também eles eram da marca Empringa e Enano. Mas ao olhar para Enano com as melenas compridas sobre os olhos e as fórfolas a entrarem-lhe enfileiradas pelas narinas, percebeu pela inquietude da mão que segurava a sua, que Enano chapodava oliveiras imaginárias, quem sabe se acompanhado por Egon Salmon, que nem precisava de vara para chegar aos ramos mais altos e respigava com as mãos a azeitona para a manta.

A orelha de Selvella falava pausadamente, Chrysolito havia sido um pai precioso, dedicado, para além de ter sido um médico de mão cheia, daqueles que olham para a pupila dos olhos dos possíveis enfermos e percebe qual é a doença que os aflige. Juntamente com este dom extremo de diagnóstico tinha ainda uma cabeça de escuteiro, ao sentir alguém ou algo em perigo, corria desabaladamente para ajudar. Desapareceu numa noite de temporal, tempestade, trovões, marmoto ela e o irmão Semiánuo, ficaram semanas sem saber o que lhes havia sorvido o pai, diziam em relação à coisa, ora: esse, essa, isso, esses, essas.

Essa coisa medonha havia-os desvastado, esse neutro inconstante subtraira-lhes o género pai, isso, que viera de noite, e sem pézinhos de lã, e alagara os campos e destruira os balões do avô Enano, e deixara a terra esfrangalhada e desbaratada, isso parecia-lhes que transformava constantemente esses ocultos snobismos da morte, que queria ser à força única e misteriosa, e não passava dessa banalidade campanária repetida a cada instante em todas as terras do mundo, essa espada de morte que rendilhava o céu em permanência e abria leques constantes de sombra. Enchendo de esquecimento os dias mais abundantes de luz.

O tio Coagulum tomara conta deles. Fora extremoso, de tudo fizera para que eles não sentissem como demasiado penosa a falta de seu pai Chrysolito.

      - O pior foi Prussiato.

Empringa ficou desorientada, quem era Prussiato? Apertou ainda mais a mão de Enano. Sentiu como se uma espátula se lhe espetasse nas costelas e se fosse cravar nos pulmões. Levantou-se e foi à casa de banho. O urinar saía gota a gota, a micção era ardente, espremeu a barriga com as duas mãos como se para ajudar o líquido a sair.

A orelha de Selvella estava calada. Empringa para se distrair daquela incontinência entaramelada, perguntou-lhe:

      - Quem é o Prussiato?

      - Nosso primo, o filho de Coagulum.

Outro neto, tinha que ir contar a Enano. Entrar pelo quarto dentro e gritar: Eureka! Achei! Descobri! Retirar Enano do seu chapodar contínuo daquelas oliveiras imaginárias que apareciam com azeitona nova, e ramos confiados num crescimento quase gasoso e subiam pelo céu acima. Até já Egon Salmon tinha que usar uma vara para lhes chegar. Mais uma gota de urina conseguiu sair dolorosamente, Empringa dobrou-se, com as duas mãos apertou, ainda e outra vez ainda, a barriga, pressionando o baixo-ventre. O melhor era continuar a falar com a orelha de Selvella para se distrair daquele incómodo:

      - O Prussiato não é bom menino?

      - Não, é um sobejo de papa azeda para porcos. Tornou-nos a vida num inferno. Semiánuo teve que fugir, eu fiquei sem irmão por causa dele. Pústula viscosa, exasperação exultante da canalhice mais excelsa que a avó possa imaginar.

 

      - Oh filha, não estarás a ser muito dura?

 

      - Ele matou-me avó, espancou-me até à morte. E a outra, a sua mãe, assistiu a tudo e nem mexeu um dedo. A mãe da avó viu tudo e nada fez.

 

A outra, a minha mãe, mas quem é essa? Empringa estava baralhada, não se lembrava da mãe, lembrava-se de Enano, de Egon Salmon, dos dedos dos cinco filhos, dos artelhos com as suas orelhas e de uma frase pouco óbvia que por vezes lhe aparecia em sonhos: “coisa de muita aparência e de pouca utilidade”.

      - Quem é a minha mãe?

 

      - Uma velha imutável, circuncisada de movimento que fica no quintal enquanto areja a casa.

 

      - Não me lembro, filha, não me lembro.

      - Pois é avó, essa velha, viu o Semiánuo e os seus amigos apedrejarem-me com toneladas  de ameixas, e nem uma pestana moveu. Algumas das ameixas foram mandadas com tanta raiva que ao embaterem em mim perderam a carne e os caroços. Enterravam-se-me na pele, gritei, gritei tanto, avó. Quando deixei de conseguir gritar porque todo o meu pescoço e garganta eram um canteiro de ameixas à beira de se transformarem em compota, pus as mãos dentro das algibeiras, cantei o hino nacional para dentro, e as vozes jactantes do Prussiato e dos amigos passaram a ser adornos cómicos trazidos pelo vento e lavados pela chuva. Até que o silêncio se instalou numa ilusão dos sentidos.

 

      - Querida Selvella não pode ser! E o Coagulum não castigou o filho?

 

      - Não sei, o que sei é que o tio Cystocop se veio juntar a Prussiato.

      - Juntar como?

 

      - Para fundarem o ódio, nos filhos do meu irmão Semiánuo. Prussiato atiçou fogo à casa onde vivia a minha sobrinha Sembra. E o meu sobrinho Sanja, muito pequeno, e que vivia com o tio Chrysopras...

 

      - Mas porquê? O que é que aconteceu ao teu irmão?

      - Não sei. O que sei avó é que Chrysopras expulsou Sanja de casa, com seis anos e deixou-o a morrer, a pedir nas ruas.

 

Um folclore de artelhos com orelhas invadiu o olhar de Empringa, dançavam o malhão, malhão. “Oh malhão malhão”, como é que era mesmo a canção? : “Que vida é a tua? Comer e beber e matar na rua”, os artelhos orelhantes rodopiavam cada vez mais depressa. No meio daquele rodopio, Empringa viu umas orelhas, mas de cabeça, eram as orelhas de Enano.

Levantou-se e voltou para o quarto, deu a mão a Enano. Um ar fresco corria o camarote. Enano apertou muito a sua mão, com um dos pés afagou-lhe as orelhas. Empringa lembrou-se do jogo de marmitas que comprara para os piqueniques de fim de semana. Abriu uma das marmitas: tripas à moda do Porto, o prato favorito de Enano.

O trabalho de colheita e poda das oliveiras imaginárias terminara. Enano convidara Egon Salmon para o piquenique. Os filhos estavam tão elegantes com as últimas fatiotas que ela lhes costurara.

Egon pegou-lhe na mão, dobrou-se venerador, beijou-lha ao de leve e disse:

      - Folgo em vê-la, o meu coração rejubila.

      - Oh Egon, não seja néscio.

 

      - Empringa, não é de loucura que singra o meu coração, é de estima.

 

      - Eu sei, querido amigo.

 

Enano guardou no cesto redondo dos piqueniques a sua obra preferida Gnosis-Jábã, e de repente, num ápice, estavam frente ao mar.

 

NOTAS

Balão para detectar gases- cientistas neozelandeses construiram um balão destinado a sobrevovoar rebanhos de gado para medir o impacto dos gases intestinais dos animais no aquecimento global do planeta. O óxido de azoto “emitido” pelos animais tem uma capacidade de absorção das radiações infra-vermelhas, responsáveis em grande parte pelo efeito de estufa, 2000 vezes superior ao dióxido de carbono.

Chapodar- podar parte dos ramos, sobretudo oliveiras.

Diurnar (de diurno)

Epitriste (sobretriste)

Facistol-grande estante do coro das igrejas.

Fanfarronenta (de fanfarronear)

Fórfolas- caspa grossa que se cria no couro cabeludo.

Falavra (palavra + falava)

Lexiviavam-lhe (de lexívia)

Racine – Jean Racine poeta dramático francês (1639-1699). Os seus

 

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Foto de capa:

WALTER MOLINO, 'Cartoon publicado no jornal Domenica del Corriere', 16 de Dezembro de 1962.


Paginação:

Nuno Baptista


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