ANO 9 Edição 98 - Novembro 2020 INÍCIO contactos

Francisco Marcelino


Contos    

Cheirando a morte

Quando meu pai falava de seu velho e de sua velha, seus olhos se enchiam de lágrimas, e o passado se tornava um lenço molhado.

Meu pai Reinaldo herdou do meu avô Pereira a capacidade de sentir o cheiro da morte. Foi assim que os dois sentiram o dissaboroso espreitando minha avó paterna. Meu pai ainda era menino. Meus avós o chamavam de Reizinho. Mesmo criança, ele sentiu dia a dia o azedume ficando mais forte. Por intuição, ele entendeu quem espalhava aquele cheiro pela casa. Depois, o pai lhe explicou melhor. Já vó Teresa não desconfiava de nada. Continuou a levar a vida de sempre, a fazer os seus bolinhos de chuva, a assar o seu próprio pão e a preparar as geleias com as frutas que plantou no jardim. Os sabores e os cheiros da amora, da goiaba, do figo que enchiam os potes de vidro da vovó Teresa. O levedo do pão crescendo no forno a lenha. Mas os sabores e os cheiros da cozinha da vó Teresa não conseguiam esconder de meu avô e de meu pai a presença do dissaboroso, que entrou na casa sem bater à porta, sem enviar uma carta ou telefonar para anunciar a sua chegada. Foi simplesmente chegando.

Na hora do jantar, pai e filho se olhavam desconfiados enquanto vovó Teresa lhes servia a sopa da noite. Não dava sinal de doença, não se queixava de dor. Só não gostava de ver a falta de apetite tomar conta dos dois. Ela reclamava. Não podia aceitar que eles não gostassem mais da sua comida. Mas com o azedume no ar, eles não conseguiam comer nada. Vó Teresa não perdeu o apetite. Vivia dizendo que estava com vontade de comprar meio leitão para assar.

A mulher ia servindo a sopa, cuidando da casa, da cozinha, do jardim que dava de fundo para o Parque da Aclimação. À tarde, consertava uma ou outra meia furada, um calção descosturado, fazia a barra de uma calça nova. A cada dia, ela parecia estar melhor. Os dois gostariam de estar errados, que talvez aquele cheiro fosse um rato morto que o Malaio, o gato siamês da família, trouxera para dentro de casa. Chegaram a vasculhar todos os cantos da casa. O máximo que acharam foi um ou outro soldadinho de chumbo do meu pai embaixo do sofá. No fundo, vô Pereira sabia que não era isso. Se meu pai herdou de meu vô Pereira a capacidade de sentir o cheiro da morte, foi meu bisavô quem passou o dom para o meu avô. Uma coisa que veio de tempos imemoriais.
   
Depois de se aproximar, um dia, a morte entrou no corpo da minha vó Teresa. Ficou morando no corpo dela. Então, tomada por aquele cheiro, ela se tornou repugnante para nós dois. Ainda assim, a beleza não lhe abandonou, dizia o meu pai. Seus olhos negros de jabuticaba e os cabelos cacheados, longos e um tanto avermelhados nas pontas faziam os homens da vizinhança invejarem a sorte do meu avô Pereira. Meu pai dizia que ele rezava todos os dias nessa época: pela minha avó e por meu avô. Menino ainda e pensando que o pai pudesse morrer de saudade da amada. Meu pai rezava também porque não queria virar órfão.

Minha vó Teresa que eu não conheci.

Um dia, já cansado da sua própria artimanha, o tinhoso resolveu dar as caras para meu avô e meu pai. Antes que eles pudessem pronunciar qualquer palavra, ele lhes anunciou que aquela espera tinha chegado ao fim.

- Será hoje!

- Por que hoje, e não amanhã?

- Porque estou cansado desse joguinho.

- A gente não pode fazer uma troca? Talvez, eu no lugar dela.

- Quer negociar? O menino, então.

- Não. De jeito nenhum. Por que não leva o Malaio?

- Está bem! Vocês ganharam um dia. Amanhã, eu volto.

Meu avô ganhou um dia para assar o leitão que minha vó Teresa tanto queria comer. Meu pai pôde escrever uma carta para mostrar à mãe que já sabia escrever de verdade. Apesar de ter se deliciado com o leitão e com a carta do filho, vó Teresa caiu aos prantos logo depois do almoço ao ver Malaio, o bom Malaio, com a língua de fora e os olhos abertos no infinito. O gato que a acompanhava no jardim, enquanto ela colhia as frutas para suas geleias, compotas e sucos. Voltava para casa junto com ela. Sentava-se em uma cadeira da cozinha enquanto vó Teresa limpava as frutas e preparava os doces. Logo, meu avô e meu pai se deram conta que não haviam feito uma boa troca. Se morreu sem dor no dia seguinte, por dentro, já na véspera, minha vó Teresa morreu de tristeza com a morte do seu gato. É o que disse sua irmã Joana, a quem vó Teresa havia ligado na véspera para contar sobre o triste fim de Malaio.

- Nem doente minha irmã estava! Morreu de tanto amar aquele gato.

Lembrei-me dessa história, porque estou na linha sucessória. Meu pai e meu avô sentiram a morte se aproximar de minha vó. Depois, meu pai e o seu próprio pai reconheceram de novo juntos aquele cheiro entrando na casa. Já idoso, meu avô não se importou com a chegada da partida. Hoje, diante do meu pai Reinaldo, que não é novo, mas tampouco idoso, sei que ele se vai. Ele também sabe. Já quase moribundo, tive que lhe prometer não negociar com o tinhoso. Nem um dia sequer, ele repetiu.

Como há anos ele luta contra esse câncer, ninguém desconfiará desse segredo que ele e eu partilhamos, que ele e meu avô partilharam, o de sentir o cheiro da morte. Se me perguntarem com o que se parece, posso dizer que é cheiro de vômito estragado, como se vômito já não nascesse estragado.

O azedume se vai quando os aparelhos param de piscar. A mão dele se solta da minha. Fiz outra promessa ao meu pai: não ter filhos e acabar com essa maldição que o dissaboroso impôs à nossa família.

Vendo meu pai partir, meus olhos se encheram de lágrimas, e o passado se tornou minha camisa molhada.

 

 

 

 

 

 

Dívida

Zé do Fiado, batizado de José de Oliveira, já nasceu devendo. Aliás, antes mesmo de nascer, ainda no ventre da mãe, já estava devendo para toda a comunidade do Montanhão, lá em São Bernardo. Quando nascem, algumas meninas ganham brincos de ouro que passam de geração em geração. Meninos recebem, às vezes, o relógio que o avô usou a vida inteira. E alguns desses meninos e meninas já nascem poupadores, com gordas somas de dinheiro depositadas em uma conta aberta pelos pais. Depois, mais velhos, eles terão uma herança para repartir com irmãos ou outros parentes. Zé do Fiado, não. Tudo o que recebeu do pai Laurindo foram as dívidas na mercearia, no boteco do seu Paulo, no bilhar para o Joca, no carteado para quase todo mundo, não sei quantas rodadas de cerveja para um sem número de companheiros de boêmia, dezenas de botijões de gás para o senhor Damasceno e até o dízimo para o pastor Adalberto. Herdou também o apelido, pois o pai era conhecido por Laulau do Fiado. O Zé não conheceu o pai Laurindo. O homem morreu assim que Telma engravidou de Zé do Fiado. Tudo o que sabia sobre o pai foi contado pela mãe e pelos que cobravam as dívidas do pai.

Com sete anos, entrou na primeira série do primário. Caminho natural. Queria aprender a ler. Para a mãe, a escola serviria para pagar uma outra dívida do menino: a de Zé do Fiado com seu estômago. Uma dívida de carboidrato, fibras, vitaminas, proteínas, sais minerais, gorduras, cálcio, frutose, lactose e até de sacarose. Ou numa explicação mais simples: arroz, feijão, carne, salada, frutas, pão, leite e a goiabada com queijo que ele adorava. Infelizmente, a escola tampouco permitiu-lhe pagar integralmente essa dívida, porque a merenda que recebia na E.E. Célio Luiz Negrini não era suficiente para cobrir o vazio do café da manhã que nunca podia tomar ou do jantar que comia noite sim, noite não.

Na escola, aprendeu o conceito de credor. O conceito, e não a palavra. Muitos dos seus colegas de aula eram filhos de credores de seu pai. Então, de vez em quando, o Maciel, filho do seu Damasceno do gás, pedia para que ele lhe comprasse uma pipoca, já que o Laulau do Fiado estava devendo uma fortuna em botijões para o seu pai. Tendo herdado dívidas do pai, Zé do Fiado não tinha como comprar a pipoca. Com medo do Maciel, um garoto maçudo e meio bronco, Zé fazia a única coisa que poderia fazer: pendurava a pipoca com a promessa de que pagaria a dívida na semana seguinte. Acabava salvo por alguma greve de professor, um tiroteio nas proximidades da escola, uma doença, e a dívida ia se acumulando. Só se salvou dessa dívida da pipoca porque uma parada cardíaca no terminal do Ferrazópolis levou embora o pipoqueiro, um homem solitário, sem filhos, órfão.

De tanto dever, o maior sonho do Zé do Fiado era tornar-se credor. Sempre lembrando que o Zé não conhecia a palavra, apenas o conceito. Por isso, sempre que algum colega lhe pedia uma borracha, ele a emprestava. Em seguida, anotava num papel de pão o item emprestado, a quem emprestara, a data do empréstimo, a data que o devedor prometera pagar a dívida e pedia uma assinatura. Tudo documentado. Claro que ninguém se lembrava de devolver o lápis, a caneta, um compasso. Ao fim do ginásio, já tinha uma pilha de papéis. Alguns devedores eram mais frequentes. Para esses, montava pilhas especiais, como a do Jurandir, a do Pedro Medonho, a do Dentinho.

Assim, pagando as dívidas do pai e as dívidas com seu estômago, anotando o que os amigos lhe deviam e estudando um pouco, Zé do Fiado chegou ao colegial pronto para cobrar com juros tudo o que pegaram dele. A borracha que o Pedro Medonho lhe pediu no segundo ano primário se transformou numa caixa de borrachas ou 15 reais. O que o Pedro achasse melhor pagar. O problema é que o Pedro devia de tudo um pouco para o Zé do Fiado: borrachas; lápis; canetas; réguas; metades, terços e até décimos de uma coxinha, uma salsicha ou o pão da merenda. Em suma, tornara-se um credor. Agora, só precisava dar o próximo passo: cobrar as dívidas.

Foi um começo difícil. Alguns amigos achavam que ele tinha enlouquecido e davam risada ao verem as assinaturas feitas por eles seis, sete, oito anos antes, quando eram meninos e meninas de sete anos. Alguns ficaram indignados e partiram para a briga. Do Maciel, Zé tomou uma surra. O adolescente Maciel alegou que o Laulau do Fiado devia muito mais para seu pai. Logo, Zé descobriu que seria mais fácil cobrar a dívida das meninas. A pressão funcionou. Mesmo indignada com a cobrança, Maria Rita foi a primeira a pagar todos os chicletes que o Zé tinha lhe emprestado. A jovem detestava dever. Zé cobrou as devedoras uma a uma. Cobrou até mesmo a Alice, uma antiga paixão dele. Ela pagou, mas deixou claro que ele perdera qualquer chance com ela.

Depois que conseguiu fazer todas as devedoras lhe pagar, Zé do Fiado tomou um empréstimo com o Zuza, um padeiro turco que também vendia armas. O velho explicou para o Zé como funcionava a arma e ainda lhe entregou seis balas. O primeiro a ser cobrado foi o Maciel. Não pelo tamanho da dívida, mas pelo tamanho da surra que havia lhe dado. Conseguiu tudo o que queria. Para provar a sua honestidade, entregou um recibo assinado que o débito estava zerado. Em menos de uma semana, Zé juntou dinheiro para pagar a arma e as dívidas de seu Laulau do Fiado que ele e a mãe não haviam conseguido pagar até então. Sobrou um pouco de dinheiro, que ele usou convidando Alice para comer um sanduíche com ele.

De volta a casa, passando por uma banca de jornal, ele leu a manchete: Credores Internacionais Temem Calote Brasileiro. Na matéria, viu a palavra dívida. Seu Medonho, pai do Pedro Medonho, e dono da banca, explicou para Zé do Fiado o significado da palavra credor. Zé entendeu rapidamente, porque o conceito ele conhecia, e ficou pensando se alguém colocaria um revólver na cabeça do presidente para que ele pagasse o que país devia. Zé do Fiado até pensou em comprar o jornal fiado, porque já não tinha mais dinheiro. Mas desistiu, lembrando do sentimento de não dever nada a ninguém, nem ao seu estômago depois do hambúrguer, batata fritas, refrigerante e sorvete que tinha acabado de comer.

Infelizmente, na sua aprendizagem econômica, Zé tinha perdido algumas aulas. A economia não se resume a credores e devedores. As finanças conseguiram deixar as coisas mais complexas ainda. No caso, oferta e demanda. Linguiça, um adolescente que andava armado desde os 10 anos, não gostou de saber que havia outra pessoa cobrando os moradores do Montanhão. Mesmo que os dois atuassem em mercados diferentes -Linguiça, no do roubo; Zé do Fiado, no de cobrança de dívida-, o mais ilustre bandido de São Bernardo daqueles tempos não permitiria outro cara andando armado no Montanhão. Sim, oferta e demanda. Mais gente armada andando na favela... mais polícia por perto.

Zé seguiu a sina do pai. Morreu deixando uma dívida para a mãe, que pediu dinheiro a vizinhos, amigos e parentes para pagar o caixão do filho. Nasceu devendo; morreu devendo.

 

Formado em cinema em 1990, Francisco Marcelino codirigiu com Daniela Wasserstein o curta-metragem documentário Crônica no mesmo ano. Durante sete anos, lecionou história do cinema e teoria do cinema na Faap, em São Paulo, o que o levou para a crítica cinematográfica no Diário do Grande ABC. Em 1997, mudou-se para Nova York, onde trabalhou como correspondente para as revistas Set e Marketing Cultural, na Rede Globo e na televisão Bloomberg até 2002, quando retornou para São Paulo pela mesma empresa. De 2002 a 2016, em meio à atividade jornalística, continuou escrevendo contos, poesias e roteiros de ficção sem tentar publicá-los ou produzi-los. Em dezembro de 2016, mudou-se para Clermont-Ferrand, na França, para dedicar-se à literatura e cinema.

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Revista InComunidade, Edição de Novembro de 2020


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Paginação:

Nuno Baptista


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